11 novembro, 2019

Autodestruição

Faz um par de anos uma amiga me disse, enquanto bebíamos cerveja num bar, que sua relação com a bebida era a expressão de um desejo de autodestruição. Ela me disse isso com muita naturalidade e, embora a ideia fizesse sentido, aquilo ficou na minha cabeça como algo forte e incomum. Quando certas coisas são ditas, por mais que ao considerá-las nos pareçam óbvias, algo indeterminado desperta em nós. Essa ideia adormeceu por muito tempo em minha cabeça até que a convergência de certos temas a trouxe de volta à superfície. Os temas eram: transformação, drogas e aniquilação.

Acho que na maior parte dos casos a autodestruição é a expressão do auto-ódio e do sadismo dirigido contra si mesmo, mas em certas circunstâncias não pode ser o caso de que ela seja também um instrumento de transformação? Como se certas mudanças necessárias ao corpo e à alma exigissem não um lento processo de maturação a que estamos acostumados, mas uma abrupta ruptura que já não conservasse mais nada do que foi destruído e não deixasse resíduo. Como se fosse necessário não apenas um novo eu, mas um eu que não admitisse a coexistência com nenhuma parte do antigo eu.

Se há algo de verdadeiro no materialismo e no fisicalismo científicos — e há, inegavelmente — é a suposição de um vínculo entre a psicologia e a fisiologia. Não um paralelismo, pois a psicologia não se reduz à fisiologia, como a intensionalidade não se reduz à extensionalidade, mas sim um vínculo estreito. Isso significa que o eu (simbólico e subjetivo) é também formado pelo corporal (material e objetivo), de tal sorte que a destruição do corpo contribui também para a destruição do eu (constructo simbólico). Pode uma radical transformação subjetiva ter lugar sem uma correspondente significativa mudança fisiológica? Pelo menos do ponto de vista simbólico, o cérebro é o locus do nosso espírito.  Supomos então que é aí onde deveria ter lugar uma mudança fisiológica. E sempre se escuta falar sobre a reestruturação das redes neuronais — em inglês o verbo to rewire permite aludir de forma simples e acessível a essa reestruturação, pois to wire costuma ser usado para falar de redes de computador (as redes wireless ou wired). Portanto, em certo sentido, uma mudança psicológica radical supõe o processo de reenredar ou reentramar as redes cerebrais, redefinindo o modo, a ordem dos disparos neuronais. Há uma teoria corrente em neurociência que diz: "Neurons that fire together, wire together". Talvez seja essa a transformação subjacente às mudanças subjetivas.

Assim, a degradação do corpo talvez também possa ser entendida como uma etapa de uma transformação subjetiva. Mas não poucas vezes a autodestruição não é uma etapa ou um instrumento de transformação, mas o efeito colateral de respostas a circunstâncias intoleráveis. Isso se deixa ver de modo muito evidente na ficção (essa black mirror da vida real). Por exemplo, no lugar simbólico do alcoolismo em Mad Men. Já na primeira temporada, eu lembro de um episódio em que Peggy se refugia no escritório de Don Draper para chorar de cansaço da sobrecarga mental do trabalho. Depois de descobri-la ali chorando, ouvir suas queixas e silenciosamente simpatizar com ela, Draper enche um copo de uísque e o oferece a Peggy, quase como uma ordem para que ela bebesse. Uma resposta não apenas ajustada ao seu padrão comportamental e ao seu modo de responder a dificuldades semelhantes, mas ilustrativa da naturalização do álcool como uma droga que azeita as insensíveis engrenagens de uma sociedade cujo mal estar que provoca mal se pode tolerar sóbrio.

Mas a ficção que serve de interface entre todas essas perspectivas é o filme Aniquilação (da Netflix). Recortei um pedaço do filme e, felizmente, parece que o Youtube decidiu não bloqueá-lo, assistam:


A diferença entre o suicídio e a autodestruição. E a autodestruição programada em nossas células.

Aniquilação apresenta circunstâncias intoleráveis de modo ainda mais radical que as críticas supostas no mal estar das cenas de Mad Men, e também fala de uma transformação que parece dar lugar a um novo eu. O filme acrescenta a tudo isso o fascínio pela homeostase da vida orgânica (que lembra o sentimento oceânico de que Freud falava). O anseio de pertencimento ao todo, de um retorno a algo ancestral que livra o sistema orgânico da sobrecarga do mundo exterior e seus estímulos. Esse retorno se dá pela simples dissolução da barreira que separa o mundo que nos sobrecarrega do eu sobrecarregado, fazendo-o retornar ao mundo como parte da vida orgânica. Voltar a ser parte do mundo, pelo via mais assustadora, pela morte voluntária e desejada do eu e da consciência. O suicídio. A pulsão de morte de que também nos falava Freud. Não por acaso foi a personagem da doutora em Física, Josie, quem escolheu como seu o caminho do retorno a vida orgânica.

Josie olhando fascinada para as pessoas transformadas em plantas

Há outra forma de voltar a fazer parte do mundo sem abrir mão da consciência e da vida. Nos ensinam o cinema e a própria realidade. A realidade é a de Passarinho e de sua vitalidade alegre. Os pensamentos e a poesia de Marion nos ensinam no cinema, em Asas do desejo, de Wim Wenders. Essa outra forma de ver o mundo talvez possa nos resgatar de um fascínio pela morte que parece quase natural, dada a sobrecarga e a complexidade imposta pela tecnosfera. E é também essa uma via de transformação.



PS. Comecei a escrever esse texto e no dia seguinte uma pessoa se jogou na linha do trem do metrô que me leva ao trabalho, interrompendo o serviço.

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