24 outubro, 2019

Sinais

Nem todo tema pode ser abordado em filosofia. A filosofia é coisa muito séria para se ocupar com devaneios e quimeras, é muito adulta. A literatura não sofre desses problemas, daí sua superioridade. Absolutamente tudo pode aparecer na literatura de Haruki Murakami, por exemplo. Não há tabus. Sinais é um desses temas sobre os quais eu mesmo hesito em escrever, embora não possa evitar. Tenho mais vergonha de absorver e refletir certos tipos de estreiteza.

Certa feita estávamos eu e minha esposa indo passear no Paseo de la Castellana quando me lembrei de uma história de Jane Eyre (livro de Charlotte Brönte) que havia me impactado muito. Apesar do impacto, não tenho ideia do porque eu lembrei da história nesse momento. A história é a seguinte: em certa passagem do livro, Jane está transtornada por um evento (que não convém mencionar) e decide irrefletidamente fugir da casa onde trabalha, na zona rural do norte da Inglaterra em pleno século XVIII. Ela reune alguns trocados, deixa praticamente todo o dinheiro que havia ganhado e sai de casa disposta a pagar para que alguém a leve o mais longe possível dali. Logo encontra um homem numa carruagem que aceita levá-la até certo ponto, pelos trocados que ela tinha. Nesse lugar, Jane decide buscar algum povoado em que possa procurar emprego, mas não sem antes pernoitar no bosque, pois já se fazia noite. O plano de Jane parece absurdo mesmo no século XXI, imagine então naquela época. Jane acorda na manhã seguinte bem cedo e põe em prática seu plano, encontra um povoado e saí batendo de porta em porta oferecendo seus serviços. Não encontra nenhuma oportunidade. Não apenas não encontra, como enfrenta olhares desconfiados. Cada vez mais exigente, a fome aperta e não lhe restam muitas alternativas, a decisão intempestiva lhe havia colocado numa situação incortonável. Ela vai até uma pequena capela e oferece seus serviços ao pároco, que também os recusa. A esta altura Jane está desesperada, tonta de fome e cansaço. Não lembro precisamente dos detalhes, mas essa situação dramática mexeu comigo. Num último gesto de desespero, já extenuada, Jane decide pedir comida numa casa e é recebida quase com hostilidade pela empregada. Exausta, ela cai desmaiada diante da porta fechada. Não preciso dizer que não é assim que termina a história da personagem principal, mas essa é a história de que eu lembrei enquanto íamos passear.

É certo que eu estava envolvido na trama, sensivelmente apresentada, da órfã Jane Eyre, mas há algo de universal nesse episódio. A literatura resgata e põe diante do nosso espírito aquilo que o Manual de Sobrevivência nos faz esquecer, a fome e os dramas humanos ligados à subsistência e ao desamparo. Era isso o que havia me desconcertado profundamente e me feito relembrar a história naquele instante. O drama de um ser humano a ponto de morrer de fome e fraqueza porque sua condição já não afetava nem interessava a nenhum outro ser humano. As bolhas que nos protegem tratam de nos manter a uma distância segura da realidade contundente de tantas pessoas no mundo. E quando essa realidade insiste em emergir a nossa frente tratamos de ignorá-la como convém, conforme as instruções do Manual. De outro modo, se tomamos nos ombros os fardos dos outros, inevitavelmente sucumbimos sob o peso do mundo. Alguns segundos depois de terminar de contar a história a minha esposa cruzei com um senhor idoso que me estendeu a mão pedindo dinheiro. Eu fiz o que rezava a cartilha, não o ajudei — não o ignorei por completo, fingindo que ele nem sequer existia, como talvez ordenasse o pragmatismo de algum sobrevivente —, mas ignorei seu pedido. Alguns passos depois eu me dei conta do que havia acontecido, aquilo parecia um sinal, e voltei. Um sinal de quê?

Um sinal sempre nos parece um sinal de algo, um significante cujo significado pode ser encontrado em algum lugar. Um acontecimento cujo sentido depende de uma articulação tramada por algo diferente de nós mesmos e cujo entendimento supõe o empenho de decifrar um significado oculto. É insonsável tudo que pode estar oculto sob manto da nossa ignorância, a pretensão de explicar cada aspecto da vida é uma desmesura própria ao nosso tempo. Assim, os sinais não são circunstâncias insaturadas que exigem uma explicação e que apontam a um significado transcendente que devemos tentar alcançar com toda a força. São estímulos sem fechamento, oportunidades para refletir e para construir uma atitude diante do que não tem explicação. E um sentido.

O sentido tolo e ingênuo que eu construi quando voltei pra dar um trocado ao senhor que me havia me pedido foi que não queria que Jane Eyre morresse de fome. Eu voltei com o coração mole (que expressão fabulosa é essa, não?). Quando li o livro, era como se eu fosse ela. (Me angustiou profundamente os dramas similares pelos quais passou Philip em A servidão humana, era como se nós dois fossemos um). Eu tenho horror à ideia de soar bobo ou ingênuo, mas pensando bem eu acho que tenho mais medo de me tornar o tipo de pessoa amarga e cínica que se deixa pouco a pouco envenenar pela crença, rememorada em cada circunstância em que os problemas humanos se reapresentam, de que os gestos humanos parecem ter pouco significado em relação à dimensão dos dramas da humanidade. Como se nada adiantasse. Isso nos distancia imensamente uns dos outros. Quantas Jane Eyre morrem todos os dias?

Às vezes eu penso se não ando deixando escapar muitos sinais.

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