07 setembro, 2019

Produção e divulgação: o caso de Oliver Sacks

Há séculos a distinção entre conceber ideias e divulgá-las se arrasta entre nós como um dogma. Não resta dúvida de que se trata de uma distinção extremamente útil. No entanto, o desenho de nossas instituições formativas/educativas tende a aumentar o abismo entre esses dois polos, a concepção e a apresentação de ideias. Há poucos dias li um artigo sobre o que se denominou Research debt, o déficit de trabalhos de pesquisa dedicados a explicar e esclarecer investigações acadêmicas, seus conceitos e ideias. O aprofundamento técnico que se segue ao inevitável avanço da especialização torna os cientistas figuras cada vez mais encasteladas em suas áreas de especialidade. Na Estrutura das revoluções científicas (dos anos 60), Thomas Kuhn já havia observado que, dentro da própria Física, os cientistas não raras vezes ignoravam quase completamente os marcos teóricos de outros subdomínios que não fossem os seus. Somado ao encastelamento da especialização há uma justificativa — por assim dizer, ideológica — para o desinteresse por outras áreas. O avanço das tecnologias de processamento tem alimentado o sonho da determinação, sonho cujas raízes estão fincadas no solo de uma compreensão inconscientemente mitológica da matemática e da formalidade. A força dessa leitura, impulsionada pela pujança e centralidade de tecnologias como a Inteligência Articial, tem feito aumentar exponencialmente as críticas à liberdade (a partir dos mais variados flancos) e legitimado a atitude dos que supõem desnecessário buscar e conhecer senão as leis mais gerais da experiência (pois disso se segue a possibilidade de construir modelos muito gerais).

Na contramão dessas tendências estão (ou estavam) pessoas como Oliver Sacks. Os livros de Oliver Sacks poderiam ser classificados como livros de divulgação e exposição, porque neles a preocupação central não é apresentar, com toda a riqueza técnica necessária, as premissas, justificações e conclusões de um trabalho científico. É como se ali Sacks estivesse apenas divulgando e tornando palatável a um público mais amplo os resultados das investigações científicas e de sua própria experiência clínica. Contudo, essa não é exatamente uma descrição justa e fiel do que ele está fazendo. Ao apresentar as experiências clínicas à luz de suas diversificadas referências teóricas, Sacks faz mais que meramente expôr e explicar o emanaranhado das investigações neurológicas.

Por exemplo, já não lembro ao certo onde, mas em algum ponto de O rio da consciência, Sacks discute o dado da percepção — que a percepção seja supostamente algo dado e não construído. Discutir o caráter artificial ou construtivo da percepção é contraintuitivo, além de nos lançar numa interminável discussão filosófica. O que se oferece nessas ocasiões é uma oportunidade para saltar de uma discussão objetiva para uma discussão conceitual — uma distinção que a maioria dos cientistas não compreende bem, pela força prevalente de uma espécie de realismo e pelo ímpeto convergente e redutor da ideia de verdade na mentalidade científica contemporânea. Vê-se, portanto, que não se trata de meramente divulgar a ciência.

Suas observações sobre o papel da música, como no caso clássico de O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, ilustram uma inclinação a transformar os casos clínicos em oportunidades para refletir sobre certos conceitos reguladores. Oliver Sacks é um notório animista, dualista e mentalista. Os muitos relatos nos quais a música tem alguma relevância invariavelmente oferecem ocasiões para Sacks advogar em favor da irredutibilidade da experiência ao complexo material que constitui o cérebro. Não apenas a história de Dr P. (o paciente aludido no título do livro), mas também os casos de pacientes com síndrome de Tourette ou de outros que sofrem de convulsões musicais (musical seizures) compõem um amplo quadro de ferramentas (exemplos) de que ele se vale para construir uma perspectiva em prol de sua ideia de espírito. Tudo isso porque estão muito presentes nas ideias de Sacks figuras como Bergson, Freud, Wittgenstein (particularmente o Da Certeza), William James. Oliver Sacks não transforma sua visão em algo que se esgota quando acaba o exame analítico, ao contrário. Quando conta o caso de Rebecca (nesse mesmo livro), Sacks dá duas impressões bem diferentes sobre seus encontros com a garota. No primeiro encontro ele a descreve como desajeitada, grosseira (clumsy, uncouth, all-of-a-fumble), uma criatura cujas deficiências neurológicas ele poderia dissecar e decompor com precisão (dois verbos seus). Na segunda vez, ele conta, a impressão foi totalmente diferente. Ela estava fora da clínica onde havia sido analisada, sentada numa cerca contemplando serenamente a folhagem de abril. (Não quero tentar reproduzir a beleza da prosa de Sacks, que é um grande escritor — nem tenho competência pra isso —, mas tampouco quero deixar de registrar quão fortes são suas palavras e seu espírito.) Rebecca é descrita como um personagem de Chekhov, como alguma de suas jovens mulheres. Ao final da sua segunda impressão ele faz questão de realçar:
Essa foi minha visão humana, oposta à minha visão neurológica.
A visão de Sacks é rica não apenas porque está estreitamente emaranhada a uma perspectiva filosófica, ela é rica porque é orgânica e não simplesmente mecânica e analítica. Porque ela tem vitalidade — essa é a chave. As técnicas e tecnologias para ele não eram mais que instrumentos, ele as dominava e não o contrário. A abstração necessária ao seu trabalho e mesmo a especialização não o conduziram a um domínio estritamente técnico. Ele conservara uma vida espiritual e, nesse sentido, era como muitos dos grandes cientistas: Pascal, Leibniz, Newton, Humboldt. A tecnicidade sem a organicidade causa na ciência os mesmos males que a falta de vitalidade causa na política (conforme nos conta Ortega y Gasset). Ela torna os cientistas dóceis e servis aos seus próprios instrumentos, desconectam a prática científica do seu entorno cultural, político e social (como lembra Feyerabend) e apagam a visão humana de que Sacks fala ou, no melhor dos casos, a transformam numa nova disciplina, mais uma entre outras (a bioética).

Tenho a impressão que, mais do que nunca, precisamos resgatar essa visão holística de Sacks. Só uma visão assim pode tornar os cientistas mais do que meros justificadores de diagnósticos, técnicas e normas, mas os agentes políticos que necessitamos. Necessitamos não apenas de autoridades que denunciem o obscurantismo dos que proliferam teorias conspiratórias e dos que se valem do post-truth como arma política. Necessitamos de cientistas que façam da verdade e do conhecimento um apelo irresistível e inescapável.

Atualização:  Por coincidência ontem divulgaram no Twitter essa entrevista com a neurocientista Patrícia Bado, ela diz coisas muito legais e afinadas com o que escrevi aqui:
Hoje ela já não tem mais essa convicção [de que o comportamento alimentar estava no cérebro]. Depois de passar centenas de horas olhando para neuroimagens e concluir mestrado, doutorado e pós-doutorado em neurociência, cogita começar do zero um curso de psicologia, em busca de respostas mais complexas do que uma máquina de ressonância magnética pode registrar. “Somos muito mais do que o nosso cérebro”, diz. Sua mudança foi motivada tanto pelas lacunas que foi percebendo em suas próprias pesquisas quanto pela descoberta profunda da complexidade humana, que veio com a maternidade.
É muito boa essa série de entrevistas do Nexo sobre cientistas brasileiros.

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