22 agosto, 2019

A margem entre o convencional e a loucura

Quando se encontram dois princípios que não podem ser reconciliados, seus partidários se declaram mutuamente loucos e hereges. — Wittgenstein, Sobre a certeza
O convencional é uma árvore sólida e de longas raízes à margem do rio da loucura. Essa imagem tem algo de ilustrativo embora não seja mais do que isso, uma imagem. A convencionalidade visa a estabilidade e pra isso criamos regras e leis, para predizer, ordenar, determinar e eliminar a sorte e o acaso — a arbitrariedade, em suma. A loucura é justo o oposto, é a irrazão, aquilo que não tem regra e que não se orienta por nenhum acordo. A loucura é o distanciamento da comunidade de acordos representada pela própria linguagem. Entre os dois pontos há uma margem de extensão fluída, a excentricidade.

Há dois anos espero o retorno de Mindhunter (Netflix), é uma das minhas séries preferidas. Holden Ford é a representação da convencionalidade, ao menos na aparência. Quando começa uma relação com Debbie (sua namorada, ou ex), Holden é quase conservador do ponto de vista do comportamento sexual. Mas ele não é apenas isso. Curiosidade e abertura de espírito fazem com que aprenda rápido e logo ele parece se transformar pela influência da namorada e pela experiência nas entrevistas com criminosos condenados por crimes violentos. Nas cenas em que fala com eles é evidente o esforço para realçar o constrangimento das pessoas que acompanham seu diálogo com esses criminosos. É como se eles fossem cúmplices um do outro (queria poder recortar e publicar essas cenas no Youtube, mas não posso, só me resta a imagem acima). A capacidade de compreensão quase chocante manifesta em sua linguagem, no modo como ele se expressa, não é mero fingimento, Holden deveria saber. O trabalho do ator não é fingir nem imitar, mas sereu já disse um par de vezes. Não se pode encenar (stage é o verbo que a namorada dele usa) e fingir cumplicidade com um assassino a menos que em alguma medida nós também sejamos como ele (o que não significa ser também um assassino). Você pode entendê-lo analiticamente, descrever com razoabilidade os fatos envolvidos, apresentar causas convincentes e sólidas, enfim, mapear toda a cadeia causal sem deixar uma ponta solta e ainda assim não ser capaz de entendê-lo senão analiticamente. Esse é o lugar de Wendy na série, ela representa a compreensão analítica (com enorme sensibilidade e paixão, é verdade, mas ainda assim sem a intuição e a abertura de Holden).

Killing Eve é outra série que dá espaço à excentricidade, a esse caráter weird que temos encontrado tão frequentemente em filmes e séries (Sharp Objects, Sinner, só pra ficarmos em dois outros exemplos de séries). No primeiro episódio, numa das cenas que eu mais gosto, Eve pergunta ao marido como ele a mataria, se pudesse. Desconcertado pela pergunta ele responde a primeira coisa que lhe passa pela cabeça. A continuación, ela apresenta rápida e serenamente sua própria resposta, um plano absurdamente meticuloso para matá-lo e livrar-se do seu corpo. A pergunta e a resposta revelam algo dela. (Infelizmente não posso subir a cena a nenhuma plataforma [por problemas com direito de exibição], mas quem estiver curioso pode clicar aqui e baixe o vídeo [2.3Mb] no Megaupload).

O convencional nos confina a um espaço limitado e asfixiante em nome da ordem, da previsão e do controle. E quem se distancia do convencional corre sempre o risco de caminhar em direção ao rio da loucura. Antes, no entanto, é quase inevitável passar pelo campo da excentricidade. A excentricidade é o espaço reservado, às vezes secretamente, para o que não é convencional, para o que é singular (mesmo que se repita, em alguma medida, em outras pessoas). Pensar meticulosamente como matar uma pessoa pode ser um indicativo do florescimento do excentricidade. É fácil imaginar como essa permissão concedida à excentricidade pode degenerar em algo indesejável. Ainda assim, não poucas vezes é imprescindível lhe conceder algum espaço se precisamos descobrir quem nós somos, pois somos isso que sobra uma vez removido aquilo que se fixa por repetição/imitação, o convencional. Somos os desejos e as ações que se seguem a esse abandono, se ainda nos restar coragem para desejar. Se estamos à vontade para nos afastar do convencional sem nos sentirmos estranhos, criaturas entrevistas pelos outros como bizarras, não sem algum desprezo, podemos ser quem nós somos. Deitar as máscaras da civilização e forjar uma nova máscara — Clarice tinha razão sobre a necessidade de forjar uma máscara. Se conseguimos superar a difícil barreira do olhar judicativo e convencional dos normais recebemos como compensação um indiscritível gosto de liberdade. É como encontrar uma clareira depois de estar por dias dentro de uma floresta fechada.
Passo por uma rua e estou vendo na face dos transeuntes, não a expressão que eles realmente têm, mas a expressão que teriam para comigo se soubessem da minha vida, e como eu sou, se eu trouxesse transparente nos meus gestos e no meu rosto a ridícula e tímida anormalidade da minha alma. Em olhos que não me olham, suspeito troças que acho naturais, dirigidas contra a excepção deselegante que sou entre um mundo de gente que age e goza — Livro do Desassossego
Sem uma dose de excentricidade é difícil escapar à cegueira normativa. Não se pode pensar o ilógico e a lógica preenche o mundo, de um ponto de vista lógico não pode haver alternativas ao nosso modo de ver o mundo, o campo normativo não tem um lado de fora (a lógica aqui não é mais que um nome vago com o qual designamos as leis mais gerais do sentido sem precisar dar maiores explicações). Portanto ou admitimos que há quadros normativos orientados por eixos distintos e incomensuráveis em relação aos nossos próprios quadros ou acabamos servos da nossa tendência à confirmação (que não é uma tendência lógica mas psicológica, estrutural e temporal, que visa estabelecer um grau mínimo de estabilidade necessário à sanidade mental e aos acordos linguísticos).

A disposição a escapar às normas que estruturam uma visão de mundo é essencial para ampliar nossa capacidade de entendimento embora provoque, como efeito colateral, a instabilidade. A instabilidade é quase sempre indesejada, seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista psicológico. Assim, nos encontramos ante um dilema. Diante de uma sociedade globalizada parece imprescindível ampliar o entendimento e sedimentar uma mentalidade capaz de compreender mesmo o que não se orienta por nossas regras mais fundamentais. No entanto, vivemos numa era patologicamente obcecada pela determinação e pela estabilidade. Numa sociedade orientada à determinação o diferente é potencialmente representado como o incorreto, o falso, o ignorante, ou qualquer outro signo negativo do bivalente espectro normativo. Ao mesmo tempo que parece necessário flexibilizar padrões normativos para compreender a erupção (às vezes sorrateira) de desejos e interesses fora do campo convencional, a adesão a um quadro de normas dominante estimula a convicção e o fechamento, de todo contrários a essa abertura.

Superar a tendência à adesão incondicional às nossas normas exige um modelo de educação distinta, uma educação orientada à mudança (e não à estabilidade). Implica também estimular a reflexão a tal ponto de permitir que ela eroda as suas próprias bases — não é uma tarefa trivial. As instituições são dispositivos orientados à estabilidade, portanto não podem ser vetores de transformações radicais (infelizmente tampouco as instituições educativas). No entanto, a julgar pela frequência com que as artes visuais tem feito desfilar personagens excêntricos e pouco convencionais, sensíveis ao que antes não ousaríamos nem sequer mencionar, talvez uma mudança subterrânea esteja em curso. Uma mudança posta em marcha não pelo ímpeto determinante da nossa sociedade, mas por variáveis que nos escapam. É sem dúvida um sinal interessante.

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José Medina, que é um craque, faz uma distinção ilustrativa entre dois tipos do que ele chama de fricções epistêmicas, encontros em que perspectivas de mundo se enfrentam porque se veem como incompatíveis. O subtítulo do artigo, que infelizmente não está na internet, é igualmente ilustrativo: a necessidade de ir a iterações epistêmicas específicas. É uma discussão que interessa não apenas ao debate sobre normalidade e convívio entre diferentes quadros normativos, mas também ao momento político que vivemos hoje no mundo:
Fricções epistêmicas benéficas ocorrem quando perspectivas epistêmicas e pontos de vista se desafiam e resistem um ao outro em nome do mútuo enriquecimento (em nome do aprendizado, do entendimento, da identificação e correção de limitações epistêmicas, etc). Fricções epistêmicas prejudiciais ocorrem quando uma perspectiva epistêmica monopoliza ou enviesa as dinâmicas epistêmicas a fim de esmagar o dissenso, neutralizar alternativas, silenciar vozes dissonantes ou bloquear a resistência.
PS. Este post se enquadra num conjunto de textos sobre a normalidade e os efeitos lógicos e pragmáticos das normas. Embora aqui as séries sejam o elemento ilustrativo, os filmes, e em especial os filmes de terror, tem explorado a excentricidade de modo brilhante. Tenho vontade de escrever sobre como esse gênero (surpreendentemente) se transformou num dos principais gêneros do cinema nos últimos anos.

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