09 janeiro, 2019

O medo

Eu sempre fui medroso. Acho que já mudei bastante mas ainda tenho muito medo. A tendência obsessiva quando encontra o medo é como uma fissão atômica: a força excavadora da obsessão potencializa a tendência a ensombrear própria do medo de tal sorte que os pequenos detalhes de cada coisa tornam-se — para usar a expressão de Borges que me é cara — a semente de um inferno possível. É um buraco sem fundo.

A constância do medo provoca uma naturalização, o medo naturalizado se transforma no estado de alerta, algo que se deixa ver em nosso comportamento. Na constante atenção ao que se passa a nossa volta, na tendência a perceber e avaliar, a cada instante, as variáveis do ambiente. O contrário disso é a distração. O medroso é qualquer coisa, menos distraído.

Há poucas expressões mais fiéis e bem feitas do medo (e de suas consequências) que a cena inicial de Apocalypto:


Cliquem em CC para ver a legenda em português

O medo é como uma infecção, uma infecção da alma. Ele corrompe a paz e nos torna escravos daqueles que sabem manipular aquilo que nos amedronta. Não somos diferentes dos animais. Quando um chipamzé se propõe a assumir a função de macho dominante, ele precisa aterrorizar todo o grupo. Ele quebra galhos, grita, faz arruaça, age violentamente até que todo o grupo esteja literalmente aterrorizado, só então ele pode ser aceito e acolhido pelos outros como o novo líder. Como se a paz fosse uma espécie de concessão que ele permitisse aos outros. Não é imensamente parecido com o que acontece nas sociedades humanas?

O medo me faz pensar na ideia de serenidade.

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