16 dezembro, 2018

O compromisso com a vida



Spoilers de First Reform (No coração da escuridão, tradução portuguesa)

Uma das cenas chave de First Reform é quando o pastor vai (orientar|aconselhar|conversar com) o ambientalista que não concorda com sua esposa, que está grávida, sobre ter um filho. Essa cena é importante não apenas porque ao final o pastor lembra-o de que o corpo que carrega a criança é de sua esposa e que a decisão cabe a ela. É importante também porque o que está em jogo na cena é uma discussão sobre o compromisso com a vida.

O ambientalista defende que não estamos zelando pelo verdadeiro compromisso com a vida e que por isso seria egoismo lançar uma nova vida nesse ambiente desastroso e hostil que temos permitido que nosso planeta se transforme. Como é um cientista, ele soterra o pastor com uma tonelada de dados que tornam praticamente irrefutável o cenário catastrófico que ele projeta. O pessimismo demonstrado e demonstrável. Para quem não substituiu a crença na providência divina pela crença cega na capacidade da técnica e da ciência é realmente difícil não ver o colapso logo adiante. Eu não tenho notícia de nenhum marco teórico (físico, matemático, econômico ou tecnológico de maneira geral) que ofereça a mera possibilidade de soluções para a rede de problemas derivados de nossa necessidade de produção desenfreada. Do amplo e heterogêneo espectro de tecnologias de ponta que poderíamos desenhar, de machine learning até o uso de hidrogênio como matriz energética, nada disso parece senão uma promessa de redenção tecnológica — mas nada nem perto de possibilidades verdadeiramente transformativas no curto e médio prazo. Mas na certa eu ando desinformado sobre as novidades teóricas do mundo tecnológico — é muita coisa pra acompanhar, vocês sabem. Elon Musk anda dizendo que vamos pra Marte, então parece que logo tudo se ajeitará. (Se é que realmente nós temos algum problema, como nos lembra não poucas vezes a rara inteligência de alguns presidentes de paises do continente americano e seus conselheiros).

Constantemente volta à minha lembrança essa tirinha genial
De todo modo, o caso é que embora eu esteja alinhado ao pessimismo do ambientalista (e às suas verdades), há muitas maneiras de considerar qual é realmente o verdadeiro compromisso com a vida. Por exemplo, há quem pense que o verdadeiro compromisso com a vida consiste em não permitir que nenhuma gestação seja interrompida. Eu sempre fui a favor do aborto e continuo sendo, mas não acho que seja possível impor às pessoas uma certa concepção do que é verdadeiro. Mesmo que essa concepção seja alguma das muitas que exemplificam a variedade das concepções científicas. Isso não significa que a ciência seja desimportante, significa apenas que a ciência nunca poderá eliminar a vontade, o arbítrio — como sempre quis (e continua tentando, mesmo por vias filosóficas). As consequências disso são tremendas. O que me lembra uma observação de Schopenhauer anotada por Wittgenstein:
Se você se encontra perplexo tentando convencer alguém de algo sem ser capaz de sair do lugar, diga a si mesmo que é a vontade e não o intelecto que você está enfrentando. 
Se a vontade fosse eliminada, a coerção linguística reinaria (tornando o uso da linguagem quase meramente sintático, como as instruções e rotinas de programação), como reina na lógica e na matemática* e assim poderíamos fazer quase que uma engenharia de visões de mundo. Seríamos como robôs. Como isso me parece um projeto (ou um sonho) que não se adequa à experiência que temos da linguagem, sempre que minha visão de mundo (altamente cientificizada) se vê desafiada pela visão de mundo das pessoas que são contra o aborto por motivos religiosos penso que minha persectiva em relação a elas não pode ser a de alguém que precisa demonstrar. Quer dizer, eu não preciso eliminar a possibilidade contrária e assim provocar um constrangimento que, sendo lógico e não empírico, é necessário. Ninguém pode ser a coagido a aceitar a conclusão de um argumento, por mais evidente que ele seja e por mais falsa que seja a posição contrária. E, no entanto, continua sendo essa a mais importante tarefa da verdade e sua maior pretensão: eliminar a possibilidade contrária (o falso). Desde Descartes, e quem sabe até antes disso. Minha tarefa deve ser menos convencer e mais persuadir.
Quando se encontram dois princípios que não podem ser reconciliados, seus partidários se declaram mutuamente loucos e hereges — Sobre a certeza, §611
Para mim, a diferença entre a minha perspectiva e das outras pessoas não é uma diferença entre modos de determinar o verdadeiro (aquilo que é fato), os modos científico e o religioso**. Antes, se trata de uma diferença de valores e de modos de ver o mundo que não se excluem. Meus valores me obrigam a estender meu compromisso com a vida mais além dos fetos, para os que nascem, às crianças, aos adultos, aos mais velhos e até às pessoas que ainda não nasceram. Em realidade, me sinto compelido a ver a vida em termos sistêmicos, de modo que o humano é apenas parte de uma imensa rede interdependente, a vida de todas as criaturas é significativa e tende a me sensibilizar. Por isso compartilho do pessimismo do ambientalista, creio que não respeitamos a vida como um substantivo singular, como algo que só arbitrariamente pode ser separado e dividido em partes. As unidades que compõe o tecido da vida, os seres vivos — e mais particularmente os seres humanos —, não são mais que uma ilusão linguística, por assim dizer (a vida é um sistema contínuo e não discreto), que provoca efeitos profundamentamente indesejados. Todos os serem vivos (unidades) dependem da vida (totalidade).

Assim, o compromisso com a vida que se restringe à defesa de fetos me parece demasiadamente estreito, mero automatismo de defender aquilo que fomos treinados a defender. Se abandonamos a perspectiva sistêmica para olhar o ser vivo em sua circunstância, como dizer sim incondicionalmente a tudo que lhe pode acontecer? A vida pode ser muito dura, árida e insustentável, para que possamos preferi-la em qualquer condição. Albert Camus abre O mito de Sísifo afirmando que o único problema filosófico realmente importante é saber se a vida vale a pena. Fico feliz que existam tantas pessoas plenamente convictas sobre algo que inspirava dúvidas filosóficas em Camus, mas eu não tenho a mesma convicção. E por isso não acho que possamos nos livrar, sem embaraço, da responsabilidade de lançar uma nova vida no mundo. Em certa medida não deixamos de ser causalmente responsáveis por tudo que virá, pelas condições miseravelmente sombrias que legaremos às futuras gerações pela adesão a um pragmatismo cego e conveniente. Somos sim responsáveis. (Não sou nada nietzscheano, como podem ver). E diante da nossa enorme responsabilidade e das suas gigantescas consequências, como não desesperar?

O filme oferece uma resposta, ou melhor, o pastor, em um momento kierkegaardiano. O desespero só pode ser combatido com coragem. Mas então outras questões se colocam: onde encontrar a coragem para enfrentar esse tsunami que nós mesmo criamos? Em realidade, como fazer com que pessoas já tão imensamente sobrecarregadas com as dificuldades de suas
próprias vidas, ou iludidas pelas falsas promessas que o capitalismo vende para mantê-las presas à ilusão do consumo, prestem alguma atenção a esse problema?

* Mesmo que os acordos de matemáticos e lógicos sejam ainda fortes o bastante para sustentar (simbolicamente) esse status paradigmático que os estudos formais e as hard sciences disfrutam, a verdade é que há hoje diferenças significativas que em certo sentido já abalaram as bases desse paradigma desenhado e sonhado (de maneiras distintas) por Descartes, Kant e Frege, por exemplo.
** O modo científico não admite modelos alternativos, diga-se de passagem. Se eu coloco as duas perspectivas lado a lado é porque não tomo partido da verdade e assumo uma perspectiva antropológica.

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