28 maio, 2018

Escrever pra quê? Escrever pra quem?

Não sei quem sou, que alma tenho
Exposição "Toda arte es una forma de literatura", no museu Reina Sofia
Quem fala sozinho arrisca parecer louco, o mesmo não se aplica à escrita. A escrita não precisa de uma audiência para justificar a sua expressão. Não podemos falar sozinhos, mas podemos escrever sozinhos. A escrita não está condenada ao diálogo, portanto o monólogo lhe é permitido. Que efeito tem essa despercebida permissão sobre nossa subjetividade?

Esse é o contexto da pergunta: escrever pra quem? Se é permitido escrever sozinho, isto é, escrever sem uma audiência, talvez devamos escrever para nós mesmos. E o pronome "nós" é o mais apropriado. Devemos escrever para os diferentes eus que nos habitam. O eu profundo e os outros eus. Escrever para eles e por eles, por assim dizer. Para lhes dar a via de expressão interditada pela nossa crença na unidade da nossa subjetividade e pelo princípio de realidade que mutila parte de que nós somos (ou podemos ser) em nome do normal e da normalidade. A imagem da mutilação pode produzir malentendidos: não é como se o que somos já existisse como um corpus mutilado pelas interdições impostas, é que nossa própria visão de nós mesmos se constrange pela lente da unidade do eu. A escrita ajuda a reabilitar a multiplicidade de perspectivas.

Se é verdade que as máscaras da civilização nos limitam e que só a presença dos amigos e das pessoas com quem nos sentimos à vontade nos liberta e potencializa as autênticas expressões da nossa subjetividade, a escrita talvez seja um recurso artificial para evitar uma fragmentação debilitante. Lembrando mais uma vez o velho Pessoa:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Isso nos leva então à pergunta: escrever pra quê? Escrever para manter-se inteiro, mas também para não olvidar as partes preteridas pela necessidade de ajustar-se ao mundo, para manter presente o que deve ser esquecido, para trazer à tona o pensamento abismal que não queremos encarar:
Ah, pensamento abismal que é meu pensamento! Quando acharei a força para ouvir-te cavar e não mais tremer? Até à garganta me vêm as batidas do coração, quando te ouço cavar! Mesmo teu silêncio me quer sufocar, ó abismal silencioso! Jamais ousei chamar-te para cima: era bastante que comigo — te carregasse! Ainda não era forte o bastante para a derradeira exuberância e petulância de leão. Já bastante terrível sempre me foi teu peso: mas um dia acharei ainda a força e a voz de leão que te chamem para cima! Quando eu me houver superado nisso, então me superarei também em algo maior. — Nietzsche, Assim falou Zaratustra
A escrita tem também uma dimensão terapêutica, na falta de melhor expressão. A profusão de vozes e o fluxo constante não poucas vezes embaralham a trama dos pensamentos e enevoam o discernimento. É preciso deslindar os fios e escandir a trama de sorte a ter sempre presente uma visão perspícua de sua estrutura.

A medida que escrevia minha tese me dei conta, especialmente no final, que a complexidade de sua estrutura fazia com que frequentemente eu me esquecesse de alguma ideia importante das seções anteriores. Foi então que me ocorreu o imperativo de repetir, insistir e recuperar elementos para mantê-los presentes. Aspectos importantes da nossa subjetividade costumam rodar em background, represados e reprimidos, e é preciso um esforço deliberado não apenas para descobri-los, mas para mantê-los a tona. A escrita é parte de uma prática (um exercício, mas também uma ética) que acompanha a edição e a ruminação do já escrito, a revisão das ideias é como uma espécie de constante monólogo através do qual nos descobrimos e redescobrimos. Bem, (re)descobrir supõe uma essência já dada e talvez a escrita, como um ato, ao invés disso nos constitua. É como o esforço de construir — ou de talhar — uma memória atual, uma memória cujos elementos tenham sido deliberadamente escolhidos e constantemente mantidos presentes (atuais), como eixos e alicerces intencionalmente dispostos sobre uma estrutura.

Mesmo que não exija uma audiência, a escrita pública pode estar exposta ao mesmo tipo de constrangimento interno que a fala. A publicidade daquilo que não se ajusta é tão intimidante quanto um comentário sem sentido pronunciado em voz alta.

Se a escrita tem uma força constitutiva, tem também um poder desconstrutivo — e por isso seu caráter terapêutico. A capacidade terapêutica da escrita, me parece, está ligada à possibilidade de realinhar e redefinir os eixos dos sentido, de mudar pela atenção constante e deliberadamente dirigida a certos alvos as bases da nossa visão de mundo (do nosso sistema de crenças e convicções) e nossa atitude. Esses dois elementos estão intimamente ligados (atitudes e visões de mundo), por isso David Foster Walllace sugere o necessário exercício de fugir da nossa configuração padrão tentando notar algumas coisas e imaginar outras. Aliás, outra vantagem da escrita: ela também estimula nossa imaginação. Quanta coisa na vida não depende de imaginação.

A escrita é pura atividade, mas uma atividade livre: livre do imperativo do sentido imposto pela presença do outro (audiência), livre do imperativo produtivo exigido pelo propósito (ou expectativa) de produzir efeitos. A constância desse exercício e dessa liberdade tem efeitos imprevisíveis mas, creio, transformadores.

Inscrição na frente de uma livraria na Escadinhas de São Cristovão, em Lisboa.
PS. Esse texto talvez seja um meio de justificar aquilo que eu mesmo disse dispensar justificação. Por isso ele é um exercício e um exemplo de tudo que eu falei. Isto é, uma maneira de contornar uma restrição e um constrangimento interno sublinhando através da escrita uma verdade que escapava à minha atenção: a escrita não precisa de justificação, não supõe um diálogo embora possa desenhar um interlocutor. Posso escrever como um louco!

PPS. Às vezes eu tenho impressão de que estou insistindo demais numa ideia ou num texto. Insistindo não, repetindo. Até que eu me disponha a checar se é verdade, essa ideia é só uma impressão. A impressão da vez é que estou repetindo demais a referência ao A liberdade de ver os outros, de David Foster Wallace. Não vou checar essa impressão, mas se ela for verdadeira, tanto melhor.

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