04 abril, 2018

Dizer o óbvio

“— Todo mundo sabe a importância do Sci-Hub ou do Library Genesis para pesquisa científica e filosófica.”
Os aspectos para nós mais importantes das coisas estão mascarados pela sua simplicidade e trivialidade. (Não podemos notá-los, — pois os temos sempre diante dos olhos.) Os verdadeiros fundamentos de sua pesquisa não chamam a atenção dos homens. A menos que eles já os tivessem notado alguma vez. — Isso quer dizer: não nos damos conta daquilo que, uma vez visto, é o mais marcante e o mais forte. — Investigações Filosóficas § 129

Aquilo que nós devemos dizer para esclarecer o significado, eu quero dizer a importância, de um conceito são com frequência fatos extremamente gerais da natureza. Tais fatos, devido a sua grande generalidade, raras vezes são mencionados. — Investigações Filosóficas § 143
Se isso é claro pra todo mundo, significa que não deve ser dito? Não devemos afirmá-lo por que é óbvio? Não devemos dizer o óbvio? Se o óbvio não deve ser dito, pois todo mundo já sabe, o que devo dizer? O que devemos dizer? Talvez devamos dizer o original. Aquilo que nunca foi dito porque só pode dizê-lo quem prestar atenção com muito cuidado, quem investir algum esforço nessa tarefa. Só será capaz de dizer o original quem supostamente prestar atenção com tamanho detalhe e com tal esmero a ponto de ser capaz de ver — e de saberisso que ninguém sabe. Isso que ninguém sabe, é claro, não é o óbvio, é o original, aquilo que foi espremido e extraído por meio do trabalho de um especialista, de uma autoridade qualquer, certificada para dizer aquilo (ou talvez mediante a aplicação das qualidades inatas ou adquiridas de um artista).

E se o óbvio não for uma questão do que a gente sabe (daquilo que todo mundo sabe), mas daquilo que a gente faz, do que se deixa expressar no que cada um faz? Se for assim, talvez o que é óbvio para cada um não seja o mesmo para todos, apesar dos nossos acordos. Isto é, talvez tenhamos muitos acordos, que permitem que nos entendamos, sem que os desacordos sobre o que é óbvio sejam evidentes. Eles só aparecem em poucas circunstâncias. Nesse casos, por exemplo, poderia ser importante dizer o óbvio.
Um homem é um realista convicto, outro um idealista convicto, e ambos ensinam seus filhos conforme suas crenças. No que diz respeito a importante questão sobre a existência ou não existencia do mundo externo eles não querem ensinar nada de falso a seus filhos. O que lhes será ensinado? Vão ensiná-los a incluir naquilo que dizem: "há objetos físicos" ou o contrário? Se alguém não acredita em fadas, não precisa ensinar seus filhos que "não existem fadas": pode abster-se de ensinar a palavra "fada". Em que ocasiões dizem: "Existe..." ou "Não existe..."? Só quando se encontram com pessoas que acreditam no contrário. Mas o idealista naturalmente ensinará a seus filhos a palavra "cadeira", pois é claro que ele quer ensiná-los a fazer isso ou aquilo, por exemplo, a pegar uma cadeira. Então onde estará a diferença entre o que dizem as crianças educadas pelo idealista e aquelas educadas pelo realista? Não será a diferença apenas a de um grito de batalha? — Zettel §413-4
E se a capacidade de dizer o óbvio depender de um modo de ver que não pode ser ensinado como uma técnica (um sentir, como diriam Pessoa e Cummings)? Não seria tão ou mais importante dizer o óbvio? Isto é, aquilo que parecemos supor (só parecemos) quando agimos (ou quando falamos, o que dá no mesmo, como ensinou Wittgenstein — e sublinhou Austin).
O fim (da cadeia de razões) não está em que certas proposições nos pareçam verdadeiras imediatamente, como se fossem uma espécie de ver de nossa parte; pelo contrário, é nosso modo de agir (atuação) que se encontra na base do jogo de linguagem. — Da Certeza, §204
Assim como é possível apresentar enfadonhamente o original, é possível encontrar formas estimulantes de dizer o óbvio. O óbvio não é o que todo mundo sabe, mas aquilo em torno do qual giram todas as práticas, sem que ninguém saiba. É preciso dizer o óbvio, sempre, urgentemente.

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