24 janeiro, 2017

Aprendendo a lidar com o mundo

A maior parte das coisas que nos é ensinada desde que somos bebês tem como objetivo nos ajudar a lidar com o mundo. Como todos os animais, somos adestrados a reagir aos estímulos do mundo conforme uma herança que nos é legada por nossos pais e pelas pessoas com quem convivemos. A diferença em relação aos animais fica por conta do fato de que nossa herança constitui aquilo que denominamos cultura. Os animais são adestrados segundo sua natureza (que se contrapõe à cultura tal como ordinariamente contrapomos natureza e liberdade). Mas o fato de que sejamos capazes de ajustar e modificar o patrimônio legado às gerações vindouras (a cultura) não muda uma verdade poucas vezes enunciada (ou frequentemente mascarada): o processo de aquisição da cultura é essencialmente o mesmo dos animais. Somos condicionados (o que significa que para nós a cultura se transforma em uma segunda natureza).

O behaviorismo contem uma verdade desconcertante, mas que não podemos evitar: na base da racionalidade se encontra um processo de condicionamento — ou adestramento, se quisermos enfatizar o que há de comum com o que ocorre com os animais  — que constitui a regularidade necessária mesmo aos processos mais abstratos (como procedimentos matemáticos ou lógicos). O uso da linguagem supõe uma regularidade que só pode ser constituída por meio de processos de adestramento nos quais autoridades ensinam a alunos que não tem capacidade crítica para questioná-los — e só lhes resta aceitar cega e incondicionalmente o que lhes é dito. É preciso notar, contudo, que parte da regularidade dos nossas ações se constitui sem um ensino regular, apenas com base no que vemos e ouvimos. A reflexividade e a criatividade estão presentes desde sempre  — e desde cedo — mas elas não apagam a força e o papel do condicionamento no estabelecimento dos nosso modo de lidar com o mundo. O condicionamento cria a generalidade sem a qual não pode haver sociabilidade.

Mas qual é o objetivo dessa aproximação entre homens e animais? Bem, se o condicionamento e a repetição (aspectos não reflexivos) são responsáveis pela constituição da maior parte das ferramentas com as quais lidamos com o mundo, é sempre e cada vez mais provável que nossas respostas aos estímulos do mundo não sejam adequadas. Vamos usar uma analogia para tornar as coisas mais claras. Imagine que sejamos como um computador (hardware). E o mundo é um conjunto de estímulos (inputs) que solicita nossas respostas. Agora imaginemos que alguém que nasceu em 1995 recebeu como ferramenta para lidar com o mundo o sistema operacional (software) Windows XP. Logo essa pessoa perceberá que o mundo (os estímulos) muda assim como harware que utilizamos e que não será mais possível seguir utilizando o mesmo software para lidar com um mundo em constante transformação. É preciso atualizar nossas ferramentas. Diante disso, a questão que se coloca é a seguinte: como modificar nossa maneira de lidar com o mundo se grande parte das ferramentas de que disposmos se constituem por condicionamento e adestramento? (Isto é, se a relação que mantemos com nossas ferramentas é uma relação não-reflexiva, mas condicionada, moldada a partir de treinamento e repetição.)

Precisamos emancipar-nos das ferramentas herdadas. Num mundo que se transforma em ritmo cada vez mais rápido, é preciso o quanto antes entender o carácter provisório das ferramentas que nos são transmitidas. Sob o título genérico de ferramentas, leia-se conceitos e perspectivas, pois não se enganem, o condicionamento não tem efeito meramente causal, ele pode engessar também visões de mundo. Se queremos aprender a lidar com o mundo — se suspeitamos que os antigos paradigmas já não são bastantes — devemos refletir e, se for o caso, modificar ou mesmo abandonar nossas antigas ferramentas em favor de outras mais ajustadas. Se é verdade que partilhamos com os animais mais do que gostaríamos admitir, é verdade também que a reflexividade é uma característica que nos permite criar novas respostas e aprender. E para aprender muitas vezes precisamos admitir que nossos antigos parâmetros já não bastam e nos lançar num mundo instável de experimentações. O patrimônio que herdamos desde que somos crianças corresponde a um modo eficiente de lidar com o mundo, um modo útil e funcional durante muito tempo. Novas circunstâncias, no entanto, exigem novas respostas e novas maneiras de responder a estímulos que talvez nunca tenham se dado. Insistir em responder a novas circunstâncias segundo velhos parâmetros pode não apenas mostrar-se ineficiente, mas também causar imenso desconforto e mal-estar. Se o condicionamento determina o nosso pertencimento a uma dimensão de generalidade indeterminada sem a qual não podemos nos comunicar e nos entender com os nossos pares humanos, parece uma missão cada vez mais urgente aprender a emancipar-se dessa generalidade (sem nunca abandoná-la, já que isso seria impossível) a fim de aprender a desenvolver nossas próprias respostas. Aprender a lidar com o mundo exige o exercício da nossa singularidade.

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