09 janeiro, 2019

O medo

Eu sempre fui medroso. Acho que já mudei bastante mas ainda tenho muito medo. A tendência obsessiva quando encontra o medo é como uma fissão atômica: a força excavadora da obsessão potencializa a tendência a ensombrear própria do medo de tal sorte que os pequenos detalhes de cada coisa tornam-se — para usar a expressão de Borges que me é cara — a semente de um inferno possível. É um buraco sem fundo.

A constância do medo provoca uma naturalização, o medo naturalizado se transforma no estado de alerta, algo que se deixa ver em nosso comportamento. Na constante atenção ao que se passa a nossa volta, na tendência a perceber e avaliar, a cada instante, as variáveis do ambiente. O contrário disso é a distração. O medroso é qualquer coisa, menos distraído.

Há poucas expressões mais fiéis e bem feitas do medo (e de suas consequências) que a cena inicial de Apocalypto:


Cliquem em CC para ver a legenda em português

O medo é como uma infecção, uma infecção da alma. Ele corrompe a paz e nos torna escravos daqueles que sabem manipular aquilo que nos amedronta. Não somos diferentes dos animais. Quando um chipamzé se propõe a assumir a função de macho dominante, ele precisa aterrorizar todo o grupo. Ele quebra galhos, grita, faz arruaça, age violentamente até que todo o grupo esteja literalmente aterrorizado, só então ele pode ser aceito e acolhido pelos outros como o novo líder. Como se a paz fosse uma espécie de concessão que ele permitisse aos outros. Não é imensamente parecido com o que acontece nas sociedades humanas?

O medo me faz pensar na ideia de serenidade.

31 dezembro, 2018

Esquerda: Espirais de poder e prazer

Esse é o primeiro de uma série de posts reunindo críticas à esquerda. E o primeiro tema da série não podia ser outro senão o poder — embora em realidade o poder seja o fio que costura e atravessa todos os temas.

Uma das contribuições mais fascinantes de Foucault à filosofia é o seu modo de conceber o poder. Tenho em vista especialmente a Vontade de saber, primeiro volume da sua História da Sexualidade, ao qual eu não me canso de voltar. O mais importante aspecto dessa concepção é a crítica dirigida aquela que talvez seja a única concepção de poder existente, a que todo mundo conhece e usa, o modelo binário. O modelo binário apresenta duas posições numa relação de poder: a do opressor e a do oprimido. É um paradigma altamente explicativo, como a própria dicotonomia entre bem e mal. Com ele você pode organizar o mundo muito claramente, se posicionar em relação a ele, agir e reagir. Segundo esse paradigma, toda relação de poder se apresenta como um certo disnível de forças que constitui o quadro no qual o oprimido se encontra submetido ao arbítrio do opressor.

Foucault não nega esse modo de representar o poder, sua posição é muito mais cuidadosa e sofisticada que um simples desejo de falsificar. O que ele nos diz é que a relação de poder é mais complexa que isso. O poder se constitui em todos os lugares — e mais do que isso, ele se mantém não apenas pela força e arbítrio do opressor. É aí que as coisas começam a ficar incômodas.

Foucault diz: e se pensarmos o poder como uma espiral? E se não houver apenas dois polos de força lutando entre si, como num cabo de guerra, mas uma [mesma] força que vai e vem conjuntamente e que se reforça nesse movimento contínuo? Só quando algo mais concreto se apresenta é possível entender o que significa essa imagem e o que ela pode acrescentar de novo. Foucault diz, o oprimido também tem prazer em resistir. E ainda: a resistência gera poder. Assim, o rebelde também tem interesse na manutenção da ordem contra a qual luta. Uma vez desfeita a ordem opressiva (o modelo da sexualidade repressiva é o exemplo privilegiado), o rebelde perde também seu poder (e seu status) nessa configuração de forças — o poder de resistir e tudo que isso envolve, o que não é pouca coisa.

Aí então se vê que a força vetorial do modelo binário, que lança o arbítrio e o poder do opressor contra o oprimido, não representa bem tudo que está em jogo nessa dinâmica, em especial a capilaridade da dinâmica do poder. Não é como se o oprimido fosse um sujeito alheio e indiferente ao poder e prazer instaurados pela dinâmica de resistência. Se você perde de vista esse fator, se você deixar de notá-lo, não saberá quais são as regras que governam a experiência do poder em suas múltiplas expressões. Por consequência, você não poderá ser um agente eficiente na luta pelo poder, porque está vendo menos fatores determinantes do que [existem]. Desculpem pelo vocabulário determinista e realista, mas eficiência causal implica controle e influência sobre fatores determinantes (mesmo que estes sejam intencionais). Se você não quer ter controle sobre os fatores que determinam o poder ou se você acha que há formas não-causais de controle e eficiência, bem, boa sorte, eu simpatizo com a sua posição mas é sempre difícil argumentar nesse sentido numa sociedade cientificista.

Assim, é claro que um dos mais centrais problemas da esquerda é não ser capaz de enxergar a corrupção da sua própria alma, isto é, a fascinação que o poder/prazer de resistir gera naqueles que o exercem. Por consequência, ela não pode ver tampouco como isso dá lugar aos tribunais e à intimidação que parecem a regra da ação política da esquerda, fazendo com que uma agenda tão nobre* quanto a sua seja preterida em favor de coisas tão hostis, toscas, violentas e rasteiras quanto as ideias de gente como Bolsonaro ou Trump. O afastamento das pessoas que não se sentem unidas por um laço de identidade é uma consequência natural da cegueira para o uso e o abuso do poder dentro da esquerda. (Unidade entre os iguais é certamente importante, mas é ainda muito, muito pouco.) Tenho a impressão — e talvez seja uma grande ingenuidade da minha parte — que pra que as pessoas se sintam inclinadas a escolher tudo que representa Trump e Bolsonaro é preciso que algo não esteja funcionando bem no maquinário das nossas ideias e práticas.

*  Não deixo de sentir um incômodo ao apresentar assim, tão romanticamente, a agenda da esquerda. É porque eu tenho um certo otimismo antropológico (anti-hobbeseano) de que as pessoas sempre preferirão a fraternidade (o amor) ao ódio (e ao medo), desde que a gente construa as condições adequadas para isso. Pois é muito mais fácil cultivar o medo que o amor, e muito mais fácil encontrar inimigos que amigos, mas o amor ainda assim é uma força poderosa quando bem utilizada. Mas é isso, desculpa a pieguice.

16 dezembro, 2018

O compromisso com a vida



Spoilers de First Reform (No coração da escuridão, tradução portuguesa)

Uma das cenas chave de First Reform é quando o pastor vai (orientar|aconselhar|conversar com) o ambientalista que não concorda com sua esposa, que está grávida, sobre ter um filho. Essa cena é importante não apenas porque ao final o pastor lembra-o de que o corpo que carrega a criança é de sua esposa e que a decisão cabe a ela. É importante também porque o que está em jogo na cena é uma discussão sobre o compromisso com a vida.

O ambientalista defende que não estamos zelando pelo verdadeiro compromisso com a vida e que por isso seria egoismo lançar uma nova vida nesse ambiente desastroso e hostil que temos permitido que nosso planeta se transforme. Como é um cientista, ele soterra o pastor com uma tonelada de dados que tornam praticamente irrefutável o cenário catastrófico que ele projeta. O pessimismo demonstrado e demonstrável. Para quem não substituiu a crença na providência divina pela crença cega na capacidade da técnica e da ciência é realmente difícil não ver o colapso logo adiante. Eu não tenho notícia de nenhum marco teórico (físico, matemático, econômico ou tecnológico de maneira geral) que ofereça a mera possibilidade de soluções para a rede de problemas derivados de nossa necessidade de produção desenfreada. Do amplo e heterogêneo espectro de tecnologias de ponta que poderíamos desenhar, de machine learning até o uso de hidrogênio como matriz energética, nada disso parece senão uma promessa de redenção tecnológica — mas nada nem perto de possibilidades verdadeiramente transformativas no curto e médio prazo. Mas na certa eu ando desinformado sobre as novidades teóricas do mundo tecnológico — é muita coisa pra acompanhar, vocês sabem. Elon Musk anda dizendo que vamos pra Marte, então parece que logo tudo se ajeitará. (Se é que realmente nós temos algum problema, como nos lembra não poucas vezes a rara inteligência de alguns presidentes de paises do continente americano e seus conselheiros).

Constantemente volta à minha lembrança essa tirinha genial
De todo modo, o caso é que embora eu esteja alinhado ao pessimismo do ambientalista (e às suas verdades), há muitas maneiras de considerar qual é realmente o verdadeiro compromisso com a vida. Por exemplo, há quem pense que o verdadeiro compromisso com a vida consiste em não permitir que nenhuma gestação seja interrompida. Eu sempre fui a favor do aborto e continuo sendo, mas não acho que seja possível impor às pessoas uma certa concepção do que é verdadeiro. Mesmo que essa concepção seja alguma das muitas que exemplificam a variedade das concepções científicas. Isso não significa que a ciência seja desimportante, significa apenas que a ciência nunca poderá eliminar a vontade, o arbítrio — como sempre quis (e continua tentando, mesmo por vias filosóficas). As consequências disso são tremendas. O que me lembra uma observação de Schopenhauer anotada por Wittgenstein:
Se você se encontra perplexo tentando convencer alguém de algo sem ser capaz de sair do lugar, diga a si mesmo que é a vontade e não o intelecto que você está enfrentando. 
Se a vontade fosse eliminada, a coerção linguística reinaria (tornando o uso da linguagem quase meramente sintático, como as instruções e rotinas de programação), como reina na lógica e na matemática* e assim poderíamos fazer quase que uma engenharia de visões de mundo. Seríamos como robôs. Como isso me parece um projeto (ou um sonho) que não se adequa à experiência que temos da linguagem, sempre que minha visão de mundo (altamente cientificizada) se vê desafiada pela visão de mundo das pessoas que são contra o aborto por motivos religiosos penso que minha persectiva em relação a elas não pode ser a de alguém que precisa demonstrar. Quer dizer, eu não preciso eliminar a possibilidade contrária e assim provocar um constrangimento que, sendo lógico e não empírico, é necessário. Ninguém pode ser a coagido a aceitar a conclusão de um argumento, por mais evidente que ele seja e por mais falsa que seja a posição contrária. E, no entanto, continua sendo essa a mais importante tarefa da verdade e sua maior pretensão: eliminar a possibilidade contrária (o falso). Desde Descartes, e quem sabe até antes disso. Minha tarefa deve ser menos convencer e mais persuadir.
Quando se encontram dois princípios que não podem ser reconciliados, seus partidários se declaram mutuamente loucos e hereges — Sobre a certeza, §611
Para mim, a diferença entre a minha perspectiva e das outras pessoas não é uma diferença entre modos de determinar o verdadeiro (aquilo que é fato), os modos científico e o religioso**. Antes, se trata de uma diferença de valores e de modos de ver o mundo que não se excluem. Meus valores me obrigam a estender meu compromisso com a vida mais além dos fetos, para os que nascem, às crianças, aos adultos, aos mais velhos e até às pessoas que ainda não nasceram. Em realidade, me sinto compelido a ver a vida em termos sistêmicos, de modo que o humano é apenas parte de uma imensa rede interdependente, a vida de todas as criaturas é significativa e tende a me sensibilizar. Por isso compartilho do pessimismo do ambientalista, creio que não respeitamos a vida como um substantivo singular, como algo que só arbitrariamente pode ser separado e dividido em partes. As unidades que compõe o tecido da vida, os seres vivos — e mais particularmente os seres humanos —, não são mais que uma ilusão linguística, por assim dizer (a vida é um sistema contínuo e não discreto), que provoca efeitos profundamentamente indesejados. Todos os serem vivos (unidades) dependem da vida (totalidade).

Assim, o compromisso com a vida que se restringe à defesa de fetos me parece demasiadamente estreito, mero automatismo de defender aquilo que fomos treinados a defender. Se abandonamos a perspectiva sistêmica para olhar o ser vivo em sua circunstância, como dizer sim incondicionalmente a tudo que lhe pode acontecer? A vida pode ser muito dura, árida e insustentável, para que possamos preferi-la em qualquer condição. Albert Camus abre O mito de Sísifo afirmando que o único problema filosófico realmente importante é saber se a vida vale a pena. Fico feliz que existam tantas pessoas plenamente convictas sobre algo que inspirava dúvidas filosóficas em Camus, mas eu não tenho a mesma convicção. E por isso não acho que possamos nos livrar, sem embaraço, da responsabilidade de lançar uma nova vida no mundo. Em certa medida não deixamos de ser causalmente responsáveis por tudo que virá, pelas condições miseravelmente sombrias que legaremos às futuras gerações pela adesão a um pragmatismo cego e conveniente. Somos sim responsáveis. (Não sou nada nietzscheano, como podem ver). E diante da nossa enorme responsabilidade e das suas gigantescas consequências, como não desesperar?

O filme oferece uma resposta, ou melhor, o pastor, em um momento kierkegaardiano. O desespero só pode ser combatido com coragem. Mas então outras questões se colocam: onde encontrar a coragem para enfrentar esse tsunami que nós mesmo criamos? Em realidade, como fazer com que pessoas já tão imensamente sobrecarregadas com as dificuldades de suas
próprias vidas, ou iludidas pelas falsas promessas que o capitalismo vende para mantê-las presas à ilusão do consumo, prestem alguma atenção a esse problema?

* Mesmo que os acordos de matemáticos e lógicos sejam ainda fortes o bastante para sustentar (simbolicamente) esse status paradigmático que os estudos formais e as hard sciences disfrutam, a verdade é que há hoje diferenças significativas que em certo sentido já abalaram as bases desse paradigma desenhado e sonhado (de maneiras distintas) por Descartes, Kant e Frege, por exemplo.
** O modo científico não admite modelos alternativos, diga-se de passagem. Se eu coloco as duas perspectivas lado a lado é porque não tomo partido da verdade e assumo uma perspectiva antropológica.

25 novembro, 2018

Variedades do poder: desejo de influenciar

Nos cadernos de Wittgenstein há essa anotação:
Eu só posso me tornar independente do mundo — e em certo sentido dominá-lo — renunciando a qualquer influência sobre os acontecimentos. / O mundo é independente da minha vontade.
Poder e influência — duas palavras que andam juntas. No entanto, não é disso que Wittgenstein está falando. O que ele insinua em sua nota é o desejo de controle sobre os acontecimentos do mundo. E a renúncia a esse desejo, necessária para tornar-se independente do mundo. Talvez possamos deduzir do desejo e da renúncia o sentimento de impotência diante da multiplicidade de sistemas sobre os quais não temos domínio. Na vida de cada pessoa a realidade dessa abstração — a impotência diante da multiplicidade de sistemas que se cruzam — se materializa de modo diferente, concretamente diferente, como uma avalanche de eventos sob os quais não temos controle. E é este o espaço da sorte (e da tragédia). Que sentimento ou circunstância pode inspirar o desejo de se tornar independente do mundo? Alguém que se sente potente diante do fluxo do acontecer, capaz de influenciar os acontecimentos, poderia desejar ser independente do mundo?

Acho que o desejo de independência tem origem no esmagamento e na sobrecarga dos acontecimentos e, portanto, só pode surgir em quem constata a futilidade do desejo de controlá-los. É como se o (domínio|controle|poder) só se consumasse negativamente, não pela realização efetiva do controle, mas pela renúncia quase estoica ao desejo de controlar os acontecimentos. É isso: há algo de estoico no comentário de Wittgenstein, algo que parece se assemelhar à receita da apatia.

O mais interessante, no entanto, é a oportunidade de constatar a obviedade mascarada por estar diante dos nossos olhos: a relação entre poder e influência. Não sem razão influencer/influenciador são palavras em voga nos últimos tempos na internet. O desejo de influenciar é uma das variedades do poder, é parte do indeterminado conjunto das suas expressões.

Desejo de influenciar, vontade de influenciar. Vontade de controlar, desejo de controlar. Desejo de poder.

Influenciar o modo como as pessoas veem suas vidas e experiências, o que elas desejam, o que pensam e o que lhes interessa. Num mundo cujo eixo principal é a Publicidade (e não a Razão), difícil encontrar expressão mais forte de poder. E este é um poder que está ao alcance de qualquer um, pois qualquer um pode se tornar um influenciador. Quem consegue influenciar o que as pessoas pensam e querem tem poder sobre elas. O poder sobre as pessoas é um tipo de poder sobre o mundo (e sobre os acontecimentos), sobre aquilo que está fora de nós. (A renúncia ao desejo de influir sobre o mundo, no pólo contrário, manifesta o poder sobre nós mesmos.) Não é disso o que se trata esse desejo de influenciar, da vontade de poder e potência? A vontade de ser capaz de ter domínio e poder sobre algo externo a nós mesmos? A vontade visceral e corruptora de se sentir poderoso e potente para fazer coisas e pessoas dobrarem-se à sua vontade?

PS. O contrário desse desejo de talhar o mundo conforme a vontade é o amor fati. Ao menos assim me parece. Uma aceitação não resignada, um dizer sim às coisas como se elas fossem necessárias.
PPS. Toda essa conversa me lembra a vontade de dominar, a representação que os fracos fazem do poder, na leitura deleuziana de Nietzsche.

27 outubro, 2018

Medo, pobreza e violência: receita de escravidão

Oh Sunday, Monday, autumn pass by me
And people hurry on so peacefully
A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them
It's good at least to live and I agree
He seems so pleased at least
And it's so good to live in peace and
Sunday, Monday, years and I agree
A falta dessa paz que Caetano canta tem nos escravizado, tem nos mantido reféns dos restauradores da ordem. Eu sempre me surpreendo com o modo como as pessoas em Madrid, no centro ou nas periferias, vão pela rua num nível de distração que a maioria dos brasileiros não costuma ter. Às vezes, enquanto estou caminhando pela calçada, uma pessoa se aproxima e começar andar atrás de mim, no mesmo passo. Eu imediatamente dou um passo pro lado e me viro. É um reflexo. Vejo espantado — e eu reparo sempre que isso acontece — as pessoas abrindo a porta de casa sem estarem atentas a quem se aproxima. É preciso ter dentro de si uma segurança que não parece tão comum no Brasil, algo que se entranha forte em nossa alma, como se entranha o medo. Mas pode ser que eu esteja enganado. Mesmo no centro de Salvador — Campo Grande, Garcia, Largo 2 de Julho, Relógio de São Pedro, Pelourinho — onde há faixas da cidade em que vivem muitas pessoas ricas, a sensação de segurança é baixa. A gente sabe que os mais ricos geralmente são bem servidos de segurança. A Avenida Paulista, e a região do centro de São Paulo, é uma outra história. Consolação, Bela Vista, Rua Augusta e até a Frei Caneca, são lugares que você pode sentir o tipo de tranquilidade comum aqui em Madrid (e na London de Caetano, imagino)...
 
(A menos que você seja gay. Neste caso você corre o risco de encontrar alguém como Bolsonaro, alguém que acredita seriamente que batendo numa criança ela "se corrige" e deixa de ser gay. Se este for o infortunado caso a pessoa toma um corretivo pra deixar de ser gay. Não precisa ser gênio pra saber que a violência não inibe o desejo, mas apenas induz a restrição do comportamento — ainda que seja precisamente isso o que muitos querem. Se um homem que gosta de mulheres levasse um choque [qualquer coisa que fosse o equivalante automatizado da violência] toda vez que olhasse para uma mulher na rua ou em qualquer parte, ele logo poderia se sentir inibido a olhar para mulheres [manifestação comportamental do desejo] mas de forma alguma perderia o desejo. O mais provável é que esse pobre diabo entrasse em depressão e morresse, mas ele nunca viraria gay. Assim me parece: ninguém perde o desejo que tem e ninguém escolhe o desejo tem, o desejo se aceita ou se inibe suas manifestações. Quem acha que pode forçar as pessoas a desejarem segundo o que lhe parece correto só pode ser um idiota que nunca prestou atenção ao seu próprio desejo.)

... e essa tranquilidade faz falta. As pessoas desejam estar em paz, andar pelas ruas sem preocupações. E então quando elas se perguntam: "Certo, essa falta de paz e tranquilidade resulta da criminalidade e da violência, como fazemos para acabar com isso?", duas costumam ser as respostas: educação e punição. A educação é em realidade somente um atestado de boas intenções. Um discurso que todo mundo repete mas que ninguém pratica, um discurso, aliás, próprio à tão característica hipocrisia brasileira e tão falso como uma nota de 3. Muitos dos que pedem burocraticamente educação são os primeiros a chamar de vagabundos os professores que exigem melhores salários e condições de trabalho. E que apanham por isso. Na certa, são pessoas da turma dos que acham que educar é vocação e que por isso os professores não precisam receber bons salários. Conveniente! Um comprimisso com a educação que não se manifesta em nenhuma ação concreta que produza melhores condições para que as pessoas se sintam estimuladas a trabalhar na área. Professor tem que ser um mártir que aceita de saída que vai sofrer pelo resto da vida. A outra solução para a violência todo mundo já sabe, a punição. A justiça vigilante, não apenas dos policiais, mas dos cidadãos de bem armados e atentos para exterminar a criminalidade em toda ocasião em que ela surgir (segundo seu juízo).


E pra legitimar a vontade de ser justiceiro que enfeitiça os homens que se sentem guerreiros na luta do bem contra o mal é preciso um sistema político que normalize essa atitude, um sistema policialesco no qual a paz viria, vejam só, da eterna intimidação dos homens de bem. Intimidação é a palavra. Da eterna ameaça da violência por parte dos vigilantes, dos guerreiros armados. Essa paz que supostamente viria da guerra ou da constante vigilância armada é bem diferente da paz nas ruas de Madrid e das cidades europeias. Quem não sabe a diferença entre a intimidação e paz nunca conheceu esta última e suspeito que, secretamemte, quer apenas uma desculpa para intimidar. A paz na Europa é o resultado da preocupação histórica e política em diminuir a desigualdade, uma preocupação que não existe entre nós (curiosamente, nem mesmo como discurso hipócrita, como no caso da educação).

Aos que acreditam no poder sanador da violência/vigilância nunca lhes ocorre pensar que a falta de paz e segurança nas nossas cidades tem relação com a profunda desigualdade dentro da sociedade brasileira. Nunca lhes ocorre que a violência possa ter relação com aquilo que Elton Medeiros cantou numa de suas músicas:
Uns com tanto
Outros tantos com algum
Mas a maioria sem nenhum
E não é sem razão que não lhes ocorre pensar isso. Quem admite que a desigualdade tem estreita relação com a violência se vê forçado a refletir sobre essa ela e, consequentemente, atuar para mitigá-la. E para esse problema não há soluções tão fáceis como simplesmente aumentar o número de vigilantes e punidores nas ruas. A única solução possível, que é imensamente complexa, requer que se encontre meios de distribuir a riqueza e de diminuir a desigualdade. Mas a quem interessa diminuir a desigualdade no Brasil?

A verdade é que se a sociedade brasileira se transforma, certas pessoas perdem o privilégio, perdem o status que tem dentro dela. Perdem a falsa respeitabilidade de que disfrutam nesse sistema. E a expansão dessa respeitabilidade é um obstáculo à manutenção da nossa escravidão pelo medo e pela pobreza. Para conservar essa ordem existe uma receita de escravidão, uma receita que nos induz, de tempos em tempos, a recorrer às figuras de ordem, como em 64 e como agora. A receita consiste em manter altos os níveis de desigualdade e, sempre que surgir uma crise — e elas sempre surgirão —, vender como solução para os problemas derivados dessa desigualdade a figura de uma autoridade que contornará o medo reinante com soluções paternalistas não negociadas, impostas. Nenhum pai autoritário negocia com o filho, ele apenas ordena e o intimida a fazer o que é supostamente necessário. Essa receita autoritária, ao invés de nos redimir do caos, nos aprisiona nesse ciclo do qual não podemos sair, porque ela não é verdadeiramente uma solução, mas apenas um teatro feito para dissimular a perpetuação das condições iniciais. E porque as pessoas estão aprisionadas pelo medo, desencantadas com o fracasso das soluções políticas negociadas após as primeiras intervenções das forças da ordem, elas aceitam qualquer atalho, qualquer caminho rápido que pareça restituir o que elas em realidade nunca tiveram. Marcos Nobre fala sobre algo assim num dos seus últimos artigos na Piauí. E para sair desse ciclo de medo só cultivando uma das virtudes mais difíceis de se alcançar, a coragem. Para uma sociedade forjada na escravidão é muito difícil encontrar a coragem necessária para se emancipar das forças paternalistas da autoridade e da ordem. O Brasil foi construído a revelia das obras da escravidão, desconsiderando as marcas que esse sombrio legado deixou na alma das pessoas e em seu modo de ver o mundo.

Em seu livro sobre o movimento negro, Antonio Risério fala das marcas hediondas que a escravidão deixou na sociedade americana. O passing (as white) talvez seja uma das mais dolorosas de constatar, porque ela tem como símbolo maior Michael Jackson. No Brasil essas marcas não são menos profundas, embora a cultura negra não tenha sido dizimada como foi nos Estados Unidos, conforme conta Riserio. No entanto, nós internalizamos o modelo de ordem social baseado na força e no desrespeito entre as pessoas, o modelo colonial da violência e da arbitrariedade. E sempre que topamos com uma situação em que o medo e a insegurança crescem, onde a desordem parece imperar, nós não nos perguntamos seriamente pelas causas dessa desordem e buscamos soluções, mas pedimos uma intervenção autoritária, pedimos que seja restituído o mesmo modelo que nos trouxe até aqui. A receita da escravidão é o medo, cuidadosamente vigiado para que nunca deixe circular entre nós, quer seja por meio do crime, quer seja por meio da intimidação de uma ordem autoritária — pondo em marcha um circuito difícil de escapar.



Enquanto não formos capazes de fazer as pessoas entenderem de modo simples a contribuição decisiva da pobreza e da desigualdade para a violência, enquanto a luta do bem contra o mal prevalecer como única referência por meio da qual se explica a criminalidade, seremos reféns do conto de fadas salvacionista dos restauradores da ordem. Seremos escravos dessa receita de escravidão. Nada, senão o engajamento político, pode nos dirigir a soluções reais para os nossos problemas — sejam eles a criminalidade ou a corrupção — e não restam dúvidas de que há muitas pessoas interessadas em preservar esse ciclo de medo e de restauração da ordem, em nos manter cativos dessa dinâmica inescapável. Os interessados são aqueles que tem a perder com a redução da desigualdade, seja em termos financeiros, seja em termos de status. É uma luta difícil, mas necessária, e exige que a esquerda, principalmente, saia da sua bolha e volte a ser capaz de falar com as pessoas, com o povo.

22 outubro, 2018

Mate todos os Outros


O último episódio de Electric Dreams é sublime e tristemente apropriado à circunstância em que nos encontramos no Brasil. É uma boa mostra do quanto a arte pode nos ensinar. O episódio também tem lugar durante uma eleição, a eleição do presidente do MEXUSCAN, um país fictício que engloba o território dos três países do norte num só. O cenário é futurista, como em todos os episódios da série. Vera Farmiga é a candidata em torno da qual tudo acontece e o personagem principal, Philbert, é o trabalhador de uma fábrica altamente robotizada. Salvo engano, só há três funcionários na fábrica. A medida que Philbert toca sua vida, enquanto acontecem os debates e entrevistas com a candidata (essa não se esconde!), pouco a pouco ele passa a ter a impressão quase delirante de estar vendo constantemente a mensagem "mate todos os outros". Mensagem escrita, como em painéis publicitários, mas também falada, enunciada pela própria candidata. Ele pergunta aos seus amigos de fábrica e ninguém vê, ninguém sabe de nada, só ele. Até que num certo momento ele está parado no sinal e vê uma mulher sendo perseguida. Ele não entende aquilo, pessoas de todos os tipos, raças, cores perseguindo uma mulher como se quisessem linchá-la, o que poderia ter acontecido? Ele sai do carro e vai ajudá-la. E quando pergunta àquelas pessoas o motivo da perseguição, ouve como resposta "Ela é um outro!" Sem entender o absurdo dessa justificativa, ele evita que eles sigam agredindo a mulher e por isso um dos perseguidores diz: "Ele também é um deles", um outro. Daí em diante ele mesmo começa a se questionar se é ou não um Outro, seus amigos passam a suspeitar que ele seja e o episódio segue essa tônica paranóica.

O importante disso tudo é essa conversão do "outro" numa identidade, num rótulo que pode ser aplicado a qualquer pessoa, sem nenhum critério*. E é exatamente essa plasticidade o que permite que o rótulo "outro" seja aplicada a qualquer um, tornando-se assim um instrumento de intimidação usado para coagir pessoas que não agem de acordo os padrões do grupo. Quais são os padrões? Não importa, quanto mais indefinido melhor funciona. Se o rótulo for abstrato o bastante, vago o bastante, não importa as ações e comportamentos que caracterizam as pessoas que fazem parte desse grupo inimigo, pois assim sempre se pode moldá-lo de maneira a incluir novos tipos. Se a ação for vista como ameaçadora, a pessoa é imediatamente convertida em outro, isto é, ela é rotulada como parte de um grupo de pessoas com as quais não nos identificamos. O Outro passa então a ser um elemento de fortalecimento da identidade nacional na exata medida em que se identifica um inimigo comum contra o qual lutar. Um inimigo que une todas as pessoas, apesar de suas diferenças. Os Outros, esse grupo amorfo e sem características, é plasticamente manipulável e por isso politicamente útil para fins de controle e dominação. Um dos muitos momentos brilhantes de Freud é quando ele desvela o que está por trás dessas dinâmicas de identidade que permitem agregar pessoas em grupos e dar a elas um sentido de união.
Evidentemente não é fácil, para os homens, renunciar à gratificação de seu pendor à agressividade; não se sentem bem ao fazê-lo. Não é de menosprezar a vantagem que tem um grupamento cultural menor, de permitir ao instinto um escape, através da hostilização dos que não pertencem a ele. Sempre é possível ligar um grande número de pessoas pelo amor, desde que restem outras para que se exteriorize a agressividade. Certa vez discuti o fenômeno de justamente comunidades vizinhas, e também próximas em outros aspectos, andarem às turras e zombarem uma da outra, como os espanhóis e os portugueses, os alemães do norte e os do sul, os ingleses e os escoceses etc. Dei a isso o nome de “narcisismo das pequenas diferenças”, que não chega a contribuir muito para seu esclarecimento.
in O mal-estar na Civilização, Freud
Por meio da agressividade dirigida a um inimigo comum (mesmo que seja imaginário, como em 64 ou agora) se fortalecem os laços entre os indivíduos e é possível dirigi-los a uma guerra em nome da pátria ou do que quer que seja. Não é possível nem mesmo chamar esse tipo de estratégia de efeito colateral do identitarismo, ele é sua própria essência, só que aplicada num outro sentido. O identitarismo é uma estratégia de ação política.

De olho no poder, atores supostamente democráticos aceitaram circular a oportuna simplificação de que o PT é a causa de todos os males do Brasil. Apagaram as nuances para poder dar força simbólica a essa versão e afastar seus aliados da zona de perigo. Anos depois, a simplificação colou até o ponto de alimentar a maior identidade do país, o anti-petismo. O anti-petismo não uma posição anti-corrupção — a maior parte dos partidos e políticos acusados de corrupção já declararam apoio a Bolsonaro —, é apenas o elo abstrato que une essas pessoas num rebanho e que lhes dá uma esperança de mudança, mesmo que essa esperança não tenha nenhuma razão de ser. É a identidade com que as pessoas serão instrumentalizadas a lutar contra o inimigo até que, muitos anos depois, percebam que as promessas em nome das quais foram mobilizadas eram na verdade um engodo. Só que então será tarde demais. Até lá, aqueles que apostaram nessa identidade a fim de criar as condições para poder dar vazão à agressividade e à violência que trazem dentro de si já terão matado e agredido muitos Outros e imposto o medo em nome de uma paz farsesca.

O Brasil está prestes a experimentar um novo tipo de medo, um medo inédito. Ao medo comumente experimentado em razão da falta de segurança nas ruas — que nunca será mitigado pelo incremento da violência e da vigilância — se somará o medo atroz da arbitrariedade autorizada pela eleição de um fascista (antes ao menos tínhamos ao nosso lado a certeza de uma ruptura institucional). Esse medo afligirá, sobretudo, os Outros, isto é, as pessoas cujo comportamento pode ser visto como inadequado pelos homens de bem que se sentirão autorizados, pela figura simbólica de um presidente, a julgar e executar qualquer ação que, segundo critérios arbitrariamente estabelecidos, comprometa a integridade da nação e dos valores nacionais. Essa é a receita da paz e da união do autoritarismo, o silêncio e a intimidação. Quem serão esses Outros?
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* "Outro" deixa de ser uma palavra que designa uma diferença, a partir de uma identidade, para funcionar como o próprio critério negativo da identidade. Por exemplo, quando uso a palavra "corintiano" estou empregando uma identidade a partir do que identifico quem são os outros. Mesmo um conceito tão geral quanto "mulher", cujos contornos são imensamente disputáveis, deixa ver um conjunto de outros que não fazem parte desse grupo e que, por assim dizer, se derivam dessa identidade. Portanto, no uso normal da palavra "outro", é como se se estabelecesse primeiro o que está dentro do grupo (da identidade) e só depois os outros se revelassem enquanto tal. Nesse episódio a identidade do grupo nacionalista em questão se constitui negativamente, isto é, a afirmação da identidade não vem primeiro, pelo contrário. A identidade se constitui pela constante busca e identificação dos outros que não fazem parte do grupo e que, por isso, devem ser eliminados. Como o identidade é definida em negativo, por exclusão, as pessoas nessa sociedade vivem o constante terror de serem identificadas com o grupo inimigo. Um grupo que não tem nenhuma identidade, que é a pura arbitrariedade do ato de identificar o inimigo. E assim se instaura o reino da intimidação, do medo de ser identificado e perseguido como inimigo.

14 outubro, 2018

A música e a raça humana

<fictional_mode> Se eu fosse abduzido por extraterrestres e eles me perguntassem por aquilo que me dá orgulho em minha raça, a raça humana, eu diria sem pestanejar: a música — nunca a ciência! Não é porque me falte estima pela ciência. É que a música tem uma universalidade que a ciência nunca terá. </fictional_mode>

Eu gosto desses vídeos que registram a reação dos animais à música. Há muitíssimos na internet, mas sempre acabo encontrando um novo.





Há ainda elefantes, cavalos. O simples é tão fascinante quanto o complexo.
Enquanto isso, os humanos e suas formas de vida tem induzido experiências bem distintas. Esse experimento do Washington Post não sai da minha cabeça.

10 outubro, 2018

Fingir

Duas coisas são especialmente difíceis de aprender (de saber imitar): fingir e tocar. Isto é, saber fingir e saber tocar. Porque saber essas coisas exige prática e sensibilidade. Em certa medida a função essencial da atriz, do ator, é fingir. Fingir até que sua atuação, seu fingimento, seja real. Seja real, não pareça. Aqui, a fronteira que separa o aparente do real, ou a fantasia do real, não tem nenhuma função. Essa fronteira é como um guarda que protege um cemitério de poetas, o que ele está fazendo ali? Guardando o quê? Em nenhum momento ninguém perde de vista a distinção entre a encenação e a vida não encenada (existe mesmo essa vida?), ou melhor, a diferença entre os dois jogos — mas isso não torna menos real a atuação da atriz. Ao considerar um extraordinário trabalho de atuação dizer que “Parecia real!” é muito pouco. Esse comentário faz lembrar o Real desidratado de uma parte substancial dos cientistas que sucederam Humboldt — “Era real!” e só. Não há nenhuma diferença que se deixe reduzir a verdades que poderíamos constatar. A diferença não é uma química cerebral, uma certa combinação de hormônios, nem tampouco um besouro dentro da caixa, ela é apenas a diferença entre esses dois jogos pragmáticos: estar atuando e estar assistindo uma atuação. Quando o ator é ruim, aí sim surge mais claramente a artificialidade da fantasia, do faz de contas, e a necessidade da distinção, porque percebemos “a moldura do jogo de atuar”, por assim dizer, e isso tira do espectador a capacidade de viver o Real de uma outra experiência por meio do trabalho dramático. É isso o que Nicole Kidman faz em Birth, ela nos apresenta o Real de uma possibilidade impossível. (Desculpem o erro lógico, às vezes é preciso errar para contar certas coisas.) Afinal, ninguém aqui acredita em reencarnação, né? Somos homens e mulheres da ciência, essa não é uma possibilidade para a ciência, é um impossível. Então o que faz o belíssimo trabalho de Nicole, vejam só, é nos brindar com o Real de algo que não é possível. Ela o cria enquanto atua, como uma demiurga.

Mas nem todo fingimento é dramático. Há o fingimento cotidiano, que precisa ser forçosamente aprendido. Para alguém que, como eu, tem pouco interesse pelas regras e jogos sociais, qualquer situação em que é preciso fingir meu descontentamento é um parto. E assim nascem os chatos. Mas a "moldura" também se deixa ver nessa vida supostamente não encenada, na vida real, no cumprimento obediente mas artificial das regras do jogo, nesse eterno acreditar naquilo que deve ser real. Os jogos sociais nos quais se encenam a representação cotidiana da vida são entediantes e muitas vezes sem sentido (pois se tornam meros automatismos), mas é preciso fingir. Sorrir, concordar e calar. Sorrir, concordar e calar. Que arte, meu Deus, só mesmo sendo ator. Fingir para agradar, para reconhecer as dificuldades dos outros, para dosificar o quanto de você os outros podem suportar. Fingir é imprescindível, ainda que isso acabe tornando raras as experiências reais de abertura e espontaneidade. Aquilo que encontramos na amizade. Às vezes buscamos essas experiências nos livros, nos filmes, nos personagens que se mostram como pessoas reais porque não sabem que são observados (mesmo quando sabem!). Eles são livres para serem reais, sua realidade é uma das infinitas expressões dessa liberdade. E daí vem essa a coisa fantástica, a redenção literária de que Rorty fala, a possibilidade de entrar em contato e se familiarizar com uma grande variedade de seres humanos — e eu acrescentaria: seres humanos reais. Porque elas são reais num sentido muito importante.

Vocês veem que não sou exatamente responsável do ponto de vista ontológico, é que os guardiões e vigilantes do Real me dizem muito pouco. Às vezes passamos toda a vida sem nunca ter a ocasião de encontrar uma pessoa tão real como Aliocha ou Esther — cada pessoa tem certamente seus próprios exemplos. Somos o pouco que sobra, aquilo que ainda resta visível, depois que vestimos a armadura das regras que nos permitem coexistir em sociedade (o princípio da realidade). Não que sejamos uma essência que precede a existência, essa é apenas uma metáfora ruim (que tem sua utilidade). É difícil reconhecer, no mundo artificial das regras que instituem a normalidade, os sinais daquilo que ainda é real e autêntico, as pessoas perto das quais podemos deitar as armas e ser nós mesmos reais. A máscara adere ao rosto. Fingir é uma arte difícil, a maioria apenas acha que engana.

Um outro dia escrevo sobre o tocar.

10 setembro, 2018

Somos e não somos dados

Nem toda contradição fracassa ao tentar dizer algo com sentido. Em realidade, há sentidos que só se mostram por meio de contradições. Um exemplo pra ilustrar o que eu quero dizer.

Informações da minha própria máquina e suas configurações registradas nas estatísticas do blog
Somos dados porque nos tornamos commodities negociadas num mercado subterrâneo desconhecido pela maior parte das pessoas. De uma forma ou de outra, tudo que fazemos na internet está registrado. Ainda que existam meios de distorcer e falsificar certas informações sobre a origem ou conteúdo daquilo que fazemos (VPNs, anonymizers com o projeto Tor, criptografia, etc), os registros dos pedidos e transações entre os computadores estão armazenados em certos elos da rede por meio das quais eles circulam. O simples acesso ao servidor onde está hospedado uma página é suficiente para gerar informações sobre geolocalização (baseadas no IP do cliente), além de dados sobre sistema operativo, idioma e até resolução da tela na qual a página foi acessada (a imagem acima). Um banco de dados como o do Facebook ou da Google são uma mina de ouro. Quando ordinariamente digitamos um comentário no Facebook ou quando sem maiores preocupações fazemos uma busca no Google (logados em nossos perfis), esse comentário ou essa busca se acumulam num imenso reservatório que abriga as nossas outras ações, todas elas. O conjunto dos comentários, likes, pesquisas e outras ações dentro do Facebook ou do Google pode parecer um mero agregado unido apenas pela relação com nossa identidade, mas é justamente a relação com nossa identidade o que torna esses dados potencialmente interessantes e economicamente valiosos. As empresas de tecnologia veem nesse agregado uma fonte na qual garimpar regularidades e identificar padrões desconhecidos até mesmo para os responsáveis por tudo aquilo. Diz algo sobre nós aquilo que se repete, o que é regular. Vejam por exemplo a análise que Jose Roberto Toledo faz da nuvem de palavras nos programas dos candidatos. Ali, os termos se repetem não por mero acaso.

Os padrões identificados por algoritmos alimentam um mercado ansioso por dirigir seus produtos e serviços a pessoas com maior potencial de consumo. Por exemplo, quem vende um produto para mulheres grávidas prefere que ele seja oferecido a mulher que a homens, pois não é como se não fizesse diferença. Se pudéssemos pesquisar diretamente dentro da base de dados do Facebook (em certo sentido podemos) não seria difícil identificar potenciais clientes. Filtrando palavras como "bebê", "grávida", "gravidez" logo chegaríamos a uma lista provável de potenciais clientes.

(Hoje em dia quem quiser ganhar dinheiro tem um caminho certo e seguro: investir numa formação em Data science [Big Data, Machine learning e outras ferramentas]. Os profissionais ainda são relativamente poucos num mercado que movimenta mais de 200 bilhões de doláres anuais. Diariamente chega a minha caixa postal alguma proposta de curso de análise de dados. Este segmento do mercado de formação cresce exponencialmente em razão do aumento do uso de análise de dados como ferramenta para orientar a tomada de decisão não apenas na área de marketing, mas também no setor financeiro e tantos outros setores. Exemplos inusitados e interessantes do que se pode fazer analisando dados: 1) expert systems [um ramo das pesquisas em inteligência artificial] são usados para selecionar uma entre teorias que tem sólida base empírica e cujos pesquisadores são igualmente respeitados. 2) um engenheiro de software ensina a usar Python usando de dados públicos reunidos pelas instituições de uma cidade [Chicago, no caso], dados como números de buracos nas ruas, horários de ônibus, é fascinante.)

Acontece que os dados coletados na rede não tem apenas valor comercial, eles revelam uma dimensão que com frequência perdemos de vista: somos também máquinas. Há tempos a humanidade é contraposta a autômatos, robôs e androides, que se tornaram símbolos de sistemas cujo funcionamento é inteiramente previsível e que não dão lugar a variações drásticas (salvo em caso de mau funcionamento). Em Westworld, por exemplo, é evidente a crença de que os androides não podem agir senão conforme suas instruções, pois suas ações dependem de como eles são programados (coded). No entanto, uma parte significativa do nosso funcionamento é também mecânico e maquinal. O componente maquinal de nossa constituição não é, a meu ver, um obstáculo à ideia de liberdade (como não é em Westworld), mas ele nos torna vulneráveis a manipulações cada vez mais evidentes. O uso político de informações privilegiadas, como no caso da Cambridge Analytica, potencializa a capacidade de convencimento e persuasão de qualquer estratégia política, pois a envolve em termos familiares. A propaganda deixa de ser uma mera peça genérica e impessoal para tornar-se uma ação dirigida, composta segundo padrões aos quais sabidamente somos sensíveis. Os aplicativos que são capazes de identificar doenças pela mera análise dos padrões do uso do mouse e teclado revelam que a tecnologia ainda pode contar muito sobre nós mesmo, pois há muito o que desconhecemos. Se essas informações chegarem primeiro aos interessados em dirigir nossa ação e nossa atenção num determinado sentido seremos presas fáceis e indefesas de uma instrumentação política pouco comprometida com nossos interesses e necessidades e nada interessada no bem público.

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Não somos dados porque não nos limitamos aos dados que nos constituem e com os quais tentam nos definir e reduzir. A dimensão maquinal que nos compõe não é tudo que somos, pois somos maiores que a soma das nossas partes. No entanto, prevalece em nosso modo de ver o mundo a pretensão de mapear a totalidade utilizando exclusivamente o esquema binário daquilo que se conhece e do que não se conhece. Sendo assim, somos os dados que se conhecem — aqueles que se deixam filtrar na infinidade de dispositivos nos quais involuntária e inconscientemente deixamos registradas informações sobre nós mesmos — mais aqueles que ainda não se conhecem pois ainda não criamos os dispostivos apropriados para garimpá-los. Diante disso, acreditar na liberdade significa acreditar que esse esquema não esgota o que somos e que o campo extensional (daquilo que se reduz a verdades) é demasiadamente estreito para nos conter (mesmo que nele estejam inscritos também as bases naturais da intencionalidade).

A predomínio (a gente poderia dizer a hegemonia) de certas ideias produz a impressão de que nos limitamos aos dados que produzimos. Contribui para essa perspectiva a força predominante do marco científico e, particularmente, um certo modelo de consciência que enfatiza as similaridades entre a nossa mente e o modelo computacional. É como se nossa mente fosse um mero computador a processar informações e estímulos exteriores e interiores. Um computador igualmente composto de hardware (o cérebro) e software (a consciência). Daí a ideia de que a Inteligência Artificial não apenas poderia replicar a inteligência e o entendimento humano, mas também explicá-los. John Searle tem um artigo bem interessante sobre esse ponto, mas num livro posterior ele resume claramente sua objeção a essa perspectiva:
A computação é definida sintaticamente. É definida em termos de manipulação de símbolos. Contudo, a sintaxe em si mesma não pode nunca ser suficiente para o tipo de conteúdo que apropriadamente acompanha pensamentos conscientes. Em si mesmo ter apenas zeros e uns é insuficiente para garantir conteúdo mental, consciente ou inconsciente (...) Absolutamente essencial para entender a natureza das ciências naturais é a distinção entre aquelas características da realidade que são intrínsecas e aquelas que são relativas a um observador. A atração gravitacional é intrínseca. Ser uma nota de cinco doláres é relativa a um observador. Agora, a grande objeção às teorias computacionais da mente pode ser formulada com bastante clareza. A computação não nomeia uma característica intrínseca da realidade, mas uma relativa ao observador, e isso porque a computação é definida em termos de manipulação simbólica, mas a noção de 'símbolo' não é uma noção da física ou química. Algo é um símbolo somente se é usado, tratado ou considerado como um símbolo. (...) Não há nenhuma propriedade puramente física que zeros e uns ou símbolos em geral possuam e que determine que eles sejam símbolos. Algo é um símbolo somente relativo a algum observador, usuário ou agente que lhe atribua uma interpretação simbólica. Então a questão, "É a consciência um programa de computador", não tem sentido claro.
Num texto mais que recomendável, Douglas Rushkoff alerta igualmente para a ilusão da redução da experiência humana à imagem de meros processadores de informação.
Há anos os filósofos da tecnologia advertem: a visão transhumanista reduz com demasiada facilidade toda a realidade aos dados e conclui que "os seres humanos não são mais que objetos processadores de informação".
O transhumanismo é apenas uma das faces e uma das consequências da ênfase excessiva sobre o que há de maquinal em nós. Se antes éramos o fantasma na máquina, agora que vivemos na era dos computadores parece ainda mais tentador converter a alma ou espírito no software que roda num harware, sendo possível copiar este software, conservá-lo e transportá-lo para um diferente hardware. Dar um upgrade quando a antiga máquina não estiver mais funcionando apropriadamente. Quem sabe até mesmo atingir a eternidade por meios de técnicas de conservação e transposição de hardware. A obsessão humana por controle e estabilidade encontra na analogia com o hardware e software mais uma razão para apostar suas fichas numa solução tecnológica para as contingências da experiência humana.

Conhecer, computar e processar dados parece tudo quanto basta para esgotar aquilo que somos. Como se fossemos meramente um agregado de informações que podem ser extraídas e depois reunidas sob determinada ordem. Ainda que os dados e informações fossem em certo sentido suficientes para nos esgotar, não é como se esses dados determinassem sempre a mesma imagem daquilo que somos. Supomos que eles são como peças de um complexo quebra cabeças e se conseguirmos amealhar peças suficientes poderemos ter uma imagem clara de nós. É certo que conhecer essas peças nos habilita a saber como agir diante da máquina em que elas estão integradas, mas isso não significa que este domínio técnico (esse saber fazer) corresponda a um conhecer, num sentido importante. No interior de uma sociedade obcecada por domínio e controle, é difícil distinguir o conhecimento que nos habilita a manipular os fenômenos naturais com eficiência daquele que nos permite dizer com confiança que conhecemos alguém. Diante dessa distinção nossa tendência natural é responder: mas o que sobra, para além desses fenômenos naturais cujo domínio buscamos e ao quais parecemos nos resumir? O que há mais para conhecer? Há algo do lado de fora, ou melhor, pode haver algo? A metáfora do quebra cabeça talvez ajude a entender como o conhecimento pode produzir a possibilidade de controle e domínio, mas aquilo que ela tem de insatisfatório na hora de oferecer uma imagem adequada do que se diz quando dizemos conhecer alguém, por sua vez, nos ajuda a ver as limitações dessa metáfora e da própria pretensão de reduzir tudo a conjunto de dados determináveis.

As informações que nós temos das pessoas são partes de algo maior, algo indeterminável, embora estejamos inclinados a acreditar que existe um limite que funciona como uma fronteira, demarcando a totalidade do que somos e nos separando daquilo que não somos. Quando supomos que essas informações se unem a outras para formar um quebra-cabeça, nós representamos por meio de uma imagem a relação entre as partes e o todo. No entanto, as partes que compõem esse quebra cabeça (o todo) não podem ser organizadas de qualquer jeito, pois assim elas não se encaixariam e não seriam um retrato autêntico do que se representa. Cada peça tem o seu lugar. Para conhecer e manipular as pessoas tal como fazemos com as máquinas precisamos que a relação entre o todo e as partes esteja sujeita a uma ordem, funcione segundo regras e esteja emoldurada numa forma que se pretende universalmente reconhecível. A regularidade permite o controle e a criação de teorias que descrevem o comportamento da máquina. Assim, é preciso eliminar tudo aquilo que no comportamento da máquina parece inexplicável, fruto do mero acaso ou manifestação daquilo que tendemos a chamar de liberdade. É preciso eliminar o componente arbitrário (reduzindo-o a uma regularidade). Mas não conhecemos a nós mesmo nem as outras pessoas como quem reune e acumula informações. É certo que o garoto que conhece os gostos da menina por quem é apaixonado talvez tenha mais chances que o outro que não os conhece, mas justamente porque esse conhecimento pode ser uma ferramenta pra produzir um efeito (aqui, como no caso da máquina, a causalidade é o que importa). No entanto, conhecer mais não necessariamente significa conhecer melhor. A despeito da inegável possibilidade de converter o que somos num conjunto infinito de dados, há uma incontornável liberdade com que se costura o sentido daquilo que nós mesmos somos, ou do que são os outros. As informações e dados sobre os outros podem sempre ser rearranjadas numa nova ordem, de acordo com novos eixos, de modo a provocar uma transformação radical no entendimento daquilo que se conhece. Claro que uma transformação pode ser impulsionada por novos conhecimentos, mas ela pode ser um mero rearranjo do que se sabe. Dados e informações não são forças que se impõem sobre as pessoas que os observam. Como símbolos que são, eles exigem interpretação e isso significa não apenas o trabalho de quem os coloca em seu devido lugar numa ordem já pré-determinada (no quebra cabeça), mas também a possibilidade radical de construir novas ordens, novas estruturas nas quais aquelas informações funcionam segundo outros eixos e diferentes fundações.
A coisa insidiosa sobre o ponto de vista causal é que ele nos leva a dizer: "Naturalmente, — é assim que tem que acontecer". Enquanto deveríamos dizer: poderia ter acontecido assim, e também de muitos outros modos. — Wittgenstein, Cultura e valor
A força da linguagem, aquilo que ela tem de mais sublime e poderoso, consiste não na possibilidade de representar verdadeiramente o mundo (e a nós mesmos como parte dele), mas na possibilidade radical de apresentá-lo de outra maneira, reconstitui-lo a partir do mesmos elementos. A identidade do que nós somos ou do que são os outros depende significativamente do modo como arranjamos o que sabemos sobre nós e sobre o mundo. Ou como situamos, num plano mais amplo, o mistura entre o que sabemos e o que ignoramos. Mesmo que a ciência só admita um modelo de causalidade, ainda que só esse modelo seja eficiente, nós temos a liberdade de fazer o que quisermos com o que sabemos, de criar e produzir sentido. E é isso que nos impede de sermos reduzidos às informações sobre nós capturadas pelo sem número de filtro da rede computadores.

18 agosto, 2018

Westworld: identidade e fidelidade

Luciana Coelho publicou uma resenha sobre a segunda temporada de Westworld e me deu vontade de fazer o mesmo. Luciana é a única pessoa que eu leio, e em quem confio, escrevendo sobre séries (salvo a opinião dos amigos, claro).

Não preciso dizer que tenham cuidado com os spoilers.

Gostei muito da primeira temporada de Westworld, escrevi sobre algumas das ideias que me fascinaram, especialmente sobre liberdade e determinismo. O ponto alto da temporada é quando Dolores condescentemente escancara a decadência de Bill. Ela fala como a representante do futuro, daquilo que virá para substituir a prepotência e fragilibidade encarnada na sua figura e no seu império e para colocar em seu lugar algo diferente. Há outros momentos interessantes, mas esse me pareceu o mais marcante, pois é uma imagem interessantíssima da metamorfose que leva William a transformar-se (ou a reconhecer-se, em realidade) como um jogador inescrupuloso, Bill, que não consegue ver a vida senão como um jogo a ser vencido — e ele vence, em certo sentido.


A segunda temporada é oscilante, tem seus altos e baixos. Acho que algumas atuações são nada menos que lastimáveis. Às vezes a série parece perdida num turbilhão de temas e questões cuja conexão não é exatamente clara. A tentativa de fazer ver que o roteiro geral que orienta os hosts se adapta às diferentes culturas, sem perder seus eixos gerais, me parece mal feita, para dizer o mínimo. Chata, pra ser honesto. Mesmo que Maeve seja um dos personagens da série que mais inspira empatia. Apesar disso, certos temas e alguns episódios me fizeram cativo. O principal deles a tentativa de construir (ou reconstruir) a identidade dos visitantes.

Em certo momento ficamos sabendo que Westworld é na verdade um grande experimento e que os atrativos que aquele mundo oferece não são mais do que ensejos para que se produza aquilo em que o parque está verdadeiramente interessado. O parque em realidade se propõe a tentar copiar a identidade dos seus visitantes, a desenvolver essa capacidade tecnológica, e para isso é preciso que eles se mostrem como verdadeiramente são, isto é, que eles se livrem de suas máscaras. Isso por si só já é uma tremenda questão. Se aquilo que nós somos só se revela em nossas ações, em ações livres de constrangimentos sociais (normativos), é como se a série optasse pela posição de Nietzsche no dilema que eu discuti num post chamado: nossas paixões ou nossas ações nos definem. Não é como se a identidade fosse uma essência, escondida no interior de nossa alma. Ela se revela inteiramente na variedade de nossas ações, de tal maneira que é possível reconstitui-la, copiá-la, mediante o emprego de certas técnicas. Se prestarmos atenção, no entanto, veremos que esse modo de entender a identidade tem algo de híbrido. É verdade que a série trata a identidade como algo estreitamente vinculado à ação e ao comportamento, portanto, parece se afastar de perspectivas mentalistas, subjetivas e essencialistas sobre a identidade. Mas ao mesmo tempo a proposta de reduzi-la a uma espécie de algoritmo parece semelhante à ideia de essência, guardadas certas diferenças. Um algoritmo é um código que resolve um conjunto indeterminado de problemas, nesse caso concreto, o algoritmo que copia a identidade de uma pessoa X resolve o seguinte problema: como essa pessoa X reagiria às situações S1, S2, S3...? e assim por diante. Parece como se o algoritmo fosse algo semelhante a uma essência, algo que se conservaria a despeito das mudanças e variações futuras.

O algoritmo que tenta reconstruir a identidade de um visitante precisa ser capaz de fazer a cópia reagir em determinada situação tal como reagiria o original copiado, por isso é constante na série a menção à ideia de fidelidade. A fidelidade é a um outro modo de tratar a identidade. Em computação a ação de verificar a identidade entre dois arquivos (ou a fidelidade entre eles) é um recurso de segurança, e isso se faz geralmente aplicando um algoritmo que gera uma hash única para determinado arquivo. Se o arquivo tiver sido copiado sem modificação (sem adição intrusiva de um código malicioso, por exemplo), a aplicação do algoritmo à copia do arquivo produzirá como resultado a mesma hash (md5sum é um conhecido verificador). No caso da identidade/fidelidade da cópia de um visitante, a verificação se dá pelo confronto direto, esse é o caso da relação entre William (Bill) e James Delos, um dos primeiros a ser a copiado. (Bem, pelo menos até que a gente descubra que Bernard é uma cópia de Arnold cuja identidade foi verificada pela própria Dolores, que virada!) William aparece reiteradamente para Delos, que está enclausurado num espaço repetindo indefinidas vezes uma mesma rotina, talvez a fim de tentar aperfeiçoar sua identidade. William aparece para conversa com Delos em diferentes épocas ao largo da temporada. Delos sempre o recebe com uma indisfarcável ansiedade para se ver livre da situação e questiona o propósito daquela conversa que retarda sua liberdade, a resposta de William é sempre a mesma: fidelidade. Quando William parece fugir do script e confrontá-lo, revelando a razão da conversa, a cópia de Delos tem uma espécie de sobrecarga e revela suas deficiências. Ele não é sequer capaz de articular um discurso. Embora seu gestual pareça reproduzir fielmente o comportamento explosivo e dominador de Delos, sua expressão verbal não acompanha suas emoções e fica evidente que o experimento falhou.

A série lida com temas muito interessantes e suscita questões de todo tipo, questões que às vezes estão colocadas para profissionais que lidam com tecnologias semelhante às apresentadas na série ou pelos teóricos que refletem sobre esses usos tecnológicos ou outros aspectos de fundo. Para mim, uma dessas questões é: a possibilidade de reduzir a identidade de uma pessoa a um algoritmo não supõe em certa medida a impossibilidade de mudança? Isto é, não supõe que a identidade é algo fixo e imutável e que nossas ações não podem escapar às determinações dessa essência? Talvez esse seja o sentido da negação da liberdade que a série sugere em algum ponto da sua parte final, mas ainda assim essa parece ser uma questão espinhosa. Outra questão seria: a redução da identidade a um algoritmo que garante a fidelidade do padrão de comportamento de um pessoa tem algum valor se não for possível copiar também as suas memória originais? Na segunda temporada a série passa à margem, ou pelo menos não se aprofunda, no tema da relação entre memória e identidade, tema que foi fantasticamente abordado na primeira temporada. (O papel da memória na gênese da consciência dos hosts e a função do labirinto nesse quadro de imagens sugere que os roteiristas, ou seus assessores, tem uma relação familiar com temas da filosofia da consciência; eu bem gostaria de escrever sobre esses temas, embora saiba muito pouco sobre eles). As cópias parecem ter pelo menos algum tipo de backup cuidadosamente selecionado da memória dos originais. Bernard, por exemplo, tem como a sua cornerstone a morte do filho e esse é um dos elementos mnémicos herdados de Arnold. Mas a série não aborda como isso se dá, já que essa cópia não pode ser feita por meio de algoritmos (ou seja, não é tecnicamente possível, embora livros, desenhos [e filmes] como Ghost in the shell sugiram essa ideia e nos apresentem como espíritos que pode ser transplantados para diferentes shells). Esse é um dos pontos mais espinhosos de certas discussões sobre modelos de consciência. Nossa tendência quase natural é pensar a memória como dados inscritos no nosso hardware (cérebro), mas essa metáfora, embora útil em muitos sentidos, tem uma dificuldade insuperável que é a necessidade de supor uma linguagem ou "código" em que a memória se inscreve na fisiologia. (Em breve quero escrever sobre essa tendência, natural em nosso contexto tecnológico, de enxergar o humano como um mero agregado de dados ou uma máquina de processamento de dados.)
Se Deus pudesse ver dentro de nossas mentes (Seelen), ele não poderia saber de quem nós estamos falando. — Wittgenstein, Investigações Filosóficas, 284
Nenhum questionamento ou dificuldade lhe desabona, é um imenso mérito da série trazer temas abstratos, afastados da nossa vida, e apresentá-los em situações concretas (ainda que fictícias) para que avaliemos seus efeitos éticos e políticos. Esse é, aliás, o mérito do cinema, bem como das séries de maneira geral, eles tornam palpável e concreto aquilo que mesmo quem está familiarizado com discussões abstratas ou técnicas nem sempre consegue exemplificar (e explicar). A abstração é um obstáculo ao entendimento que foi legitimado pela compreensão de que exemplos e imagens são dispensáveis — muletas, para lembrar de Kant — que devem ser preteridas por quem não tem dificuldade em julgar. As artes visuais tem muito que nos ensinar e deveriam ser instrumentos essenciais em qualquer processo de ensino e aprendizagem. Westworld não apenas nos ensina, nos estimula a aprender e a refletir.

06 agosto, 2018

Razão e Fé

Desde que comecei a ler filosofia, na adolescência, minha vida tem oscilado entre a razão e a fé, com claro pendor racional, devo dizer. Na descoberta de que algo tão natural (e naturalizado) quanto a fé pode ser questionado há qualquer coisa de profundamente transformador. Pouco a pouco foi se desenvolvendo em mim um respeito pelas armas e instrumentos racionais, ao passo que sentia a fé como mero consolo, quando não um embuste feito exclusivamente para manipular. Por consequência, diminuia a estima e o respeito pelas visões religiosas. Não é coincidência que meu interesse pela filosofia tenha começa com Sartre e Nietzsche.

Hoje em dia eu penso que a principal diferença entre a fé a razão diz respeito à visão da totalidade. O conhecimento é o instrumento com que a razão lida com o real, de tal sorte que a totalidade está dividida entre o que se conhece e o que não se reconhece (não há nada excluído desse espaço lógico). Mesmo aquilo que não se conhece não está fora do radar científico (considerando que a ciência é a mais forte expressão da razão). Por exemplo, não sabemos de que forma os disparos neuronais em baixo nível são capazes de criar um efeito de alto nível como a consciência, mas isso não nos impede de considerar a consciência um tema científico e um fenômeno inteiramente biológico (para repetir o mantra de John Searle). Tampouco sabemos como é possível que galáxias e outros sistemas astronômicos se mantenham unidos se a gravidade entre corpos que os compõem não é suficiente para explicar essa união, mas é exatamente a falta desse conhecimento o que deu lugar à hipótese da matéria escura. O que se conhece e o que não se conhece estão ali no mesmo mapa, sob o mesmo olhar ansioso por transformar em conhecimento todo o desconhecido. Portanto, a ciência é um progressivo conquistar novos territórios, convertendo em conhecimento o que antes era desconhecido. O mais marcante da ciência é justo a pretensão de virar o jogo e transformar a totalidade em espaço conquistado pelo conhecimento.

A medida que o tempo passou, a antiga visão conflitiva da relação entre razão e fé foi arrefecendo e eu passei então a resgatar o respeito pelas visões religiosas e a me reconciliar com minha própria história, porque, como a maioria dos brasileiros, a religião faz parte da minha história e das minhas circunstâncias. Curiosamente, a filosofia foi também o catalisador dessa mudança. É claro que a insistência de Antonio Simas em sublinhar a força e o enraizamento das nossas heranças culturais também determinou uma mudança de atitude, mas foi sobretudo com Wittgenstein que pude, entendendo mais detidamente a razão, entender também a fé. Wittgenstein me fez entender que a razão é, sobretudo, a crença no poder das explicações e talvez tenha sido a formulação mais cortante do Tractatus Logico-Philosophicus, um livro que se propõe a realizar a tarefa de estabelecer as condições de todo discurso com sentido, que tenha me despertado do meu sono dogmático.
6.52 Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, nossos problemas de vida não terão sido sequer tocados. É certo que não restará, nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é precisamente essa.
Esse comentário explodiu como uma bomba em minha cabeça, pois ele é parte do livro que foi uma referência para filósofos preocupados em exconjurar tudo que não fosse redutível à verificação, à confirmação racional e científica. O próprio livro trata como esforço vão a tentativa de articular um discurco significativo sobre ética, estética e, naturalmente, sobre questões religiosas — embora Wittgenstein reconheça o que há de louvável nesse esforço. Nesse contexto, vê-se porque parece estarrecedor que se insinue num livro tão pouco favorável a perspectivas religiosas que o próprio sentido é irredutível à pretensão de emoldurá-lo no quadro de problemas e soluções com o qual a ciência aborda o quer quer que seja. Os problemas da vida estão fora do alcance da ciência. É claro que o pensamento de Wittgenstein mudará radicalmente, mas persistirá a percepção de que ciência não é mais que um instrumento (e um instrumento a serviço da verdade) e de que o sentido está sempre num nível acima, inalcancável ao propósito totalizante (totalitário?) da ciência (embora sempre expresso no trabalho da arte e da poesia). As percepções de Wittgenstein sobre ciência, verdade e, sobretudo, sentido, me levaram a pensar que a religião é uma perspectiva diferente diante da totalidade. Enquanto a ciência é a expectativa de que a totalidade possa converter-se num espaço inteiramente familiar e o desejo de alcançar aquilo que Hilary Putnam chama de God's point of view, a religião parece uma atitude assumidamente resignada em relação à distância entre o que se conhece e o que não se conhece. Mais do que isso, ela é uma atitude propositalmente dirigida a esse abismo, é uma aceitação. Tendo isso em vista, naturalmente começou a medrar em mim um olhar mais tolerante e interessado pela experiência religiosa, porque me pareceu que em alguma medida precisamos de uma atitude semelhante e que, portanto, a religião poderia nos ensina algo.

Quando não está inteiramente encaixada nos estereótipos e tipos pelos quais é acusada por todos os males do mundo, a religião representa e cultiva uma atitude inteiramente diferente em relação à totalidade. A busca pelo conhecimento que se desdobra da ânsia pelo controle e domínio tem consequências políticas e pessoais que não podem ser remediadas com mais conhecimento. (Ainda somos platônicos, e não aristotélicos, no que diz respeito a relação entre ética e conhecimento). Não é como se ao atingirmos um certo domínio de conhecimento nos convertêssemos automaticamente em sábios, em pessoas cuja relação com o que se ignora é não apenas saudável, mas capaz de dar lugar a visões, perspectivas e ações transformadoras (do ponto de vista ético e político). Em suas melhores expressões a religião é o esforço para encontrar um atitude diante do abismo intransponível do que não explica, uma atitude que não seja a urgência neurótica pela totalidade do conhecimento, pela busca do God's point of view. É preciso que fique claro que não há nessa atitude nada de incompatível com a busca pelo conhecimento. O que a atitude religiosa tenta cultivar é uma relação com a totalidade não mediada pelo saber — sem desvalorizar o saber. A relação do saber com a totalidade é instrumental. O saber quer mapear todo o campo do possível, quer determinar tudo que pode acontecer e como, de modo a poder controlar esse acontecer. Controle é a palavra chave. Não é coincidência que o determinismo seja uma tese forte entre filósofos e cientistas. (Desculpa, não é uma tese, mas um fato; o ônus da "prova" está com os que afirmam a liberdade, nesse modo de compreender o dilema.) Embora a religião institucionalizada aponte caminhos, fórmulas, mitos, ritos, isso não significa que a religião não possa ser experimentada fora das igrejas e instituições religiosas. O desafio dessa religião, ou melhor, das pessoas que sentem e vivem esse sentimento religioso é o de construir sua própria relação com a totalidade. Uma relação que lhes permita saber, conhecer, e ao mesmo tempo viver com o que sabem sem que sejam assombradas por aquilo que não se sabe; que lhes traga a paz que nunca pode vir do desejo de controle absoluto, algo que lhes permita aceitar que a mente humana, mesmo a mais privilegiada, verá sempre em algum campo da experiência uma zona de sombra que não pode ser iluminada por nenhuma luz — algo que lhes permita aceitar tudo isso sem cair em desespero.

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Parecia impossível terminar esse texto. No fim, ele se dirigia a discussões laterais que me levavam a temas interessantes, mas não organicamente articuladas ao que nele era medular. Por coincidência (ou não) assisti First Reformed e consegui rematá-lo. Queria muito poder recortar um pedaço do filme e colocá-lo aqui, mas é uma pena que as políticas do Youtube sejam tão restritivas com armazenamento de conteúdo copyright. Fiquem então com o trailer e a recomendação.


Por mais paradoxal que pareça, eu não pude deixar de pensar, mais uma vez, quando escrevi o final do texto no Amor Fati de Nietzsche.

Claro que o resgate da minha estima pelas questões religiosas tem um quê de essencialmente fideista e místico.

28 maio, 2018

Escrever pra quê? Escrever pra quem?

Não sei quem sou, que alma tenho
Exposição "Toda arte es una forma de literatura", no museu Reina Sofia
Quem fala sozinho arrisca parecer louco, o mesmo não se aplica à escrita. A escrita não precisa de uma audiência para justificar a sua expressão. Não podemos falar sozinhos, mas podemos escrever sozinhos. A escrita não está condenada ao diálogo, portanto o monólogo lhe é permitido. Que efeito tem essa despercebida permissão sobre nossa subjetividade?

Esse é o contexto da pergunta: escrever pra quem? Se é permitido escrever sozinho, isto é, escrever sem uma audiência, talvez devamos escrever para nós mesmos. E o pronome "nós" é o mais apropriado. Devemos escrever para os diferentes eus que nos habitam. O eu profundo e os outros eus. Escrever para eles e por eles, por assim dizer. Para lhes dar a via de expressão interditada pela nossa crença na unidade da nossa subjetividade e pelo princípio de realidade que mutila parte de que nós somos (ou podemos ser) em nome do normal e da normalidade. A imagem da mutilação pode produzir malentendidos: não é como se o que somos já existisse como um corpus mutilado pelas interdições impostas, é que nossa própria visão de nós mesmos se constrange pela lente da unidade do eu. A escrita ajuda a reabilitar a multiplicidade de perspectivas.

Se é verdade que as máscaras da civilização nos limitam e que só a presença dos amigos e das pessoas com quem nos sentimos à vontade nos liberta e potencializa as autênticas expressões da nossa subjetividade, a escrita talvez seja um recurso artificial para evitar uma fragmentação debilitante. Lembrando mais uma vez o velho Pessoa:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Isso nos leva então à pergunta: escrever pra quê? Escrever para manter-se inteiro, mas também para não olvidar as partes preteridas pela necessidade de ajustar-se ao mundo, para manter presente o que deve ser esquecido, para trazer à tona o pensamento abismal que não queremos encarar:
Ah, pensamento abismal que é meu pensamento! Quando acharei a força para ouvir-te cavar e não mais tremer? Até à garganta me vêm as batidas do coração, quando te ouço cavar! Mesmo teu silêncio me quer sufocar, ó abismal silencioso! Jamais ousei chamar-te para cima: era bastante que comigo — te carregasse! Ainda não era forte o bastante para a derradeira exuberância e petulância de leão. Já bastante terrível sempre me foi teu peso: mas um dia acharei ainda a força e a voz de leão que te chamem para cima! Quando eu me houver superado nisso, então me superarei também em algo maior. — Nietzsche, Assim falou Zaratustra
A escrita tem também uma dimensão terapêutica, na falta de melhor expressão. A profusão de vozes e o fluxo constante não poucas vezes embaralham a trama dos pensamentos e enevoam o discernimento. É preciso deslindar os fios e escandir a trama de sorte a ter sempre presente uma visão perspícua de sua estrutura.

A medida que escrevia minha tese me dei conta, especialmente no final, que a complexidade de sua estrutura fazia com que frequentemente eu me esquecesse de alguma ideia importante das seções anteriores. Foi então que me ocorreu o imperativo de repetir, insistir e recuperar elementos para mantê-los presentes. Aspectos importantes da nossa subjetividade costumam rodar em background, represados e reprimidos, e é preciso um esforço deliberado não apenas para descobri-los, mas para mantê-los a tona. A escrita é parte de uma prática (um exercício, mas também uma ética) que acompanha a edição e a ruminação do já escrito, a revisão das ideias é como uma espécie de constante monólogo através do qual nos descobrimos e redescobrimos. Bem, (re)descobrir supõe uma essência já dada e talvez a escrita, como um ato, ao invés disso nos constitua. É como o esforço de construir — ou de talhar — uma memória atual, uma memória cujos elementos tenham sido deliberadamente escolhidos e constantemente mantidos presentes (atuais), como eixos e alicerces intencionalmente dispostos sobre uma estrutura.

Mesmo que não exija uma audiência, a escrita pública pode estar exposta ao mesmo tipo de constrangimento interno que a fala. A publicidade daquilo que não se ajusta é tão intimidante quanto um comentário sem sentido pronunciado em voz alta.

Se a escrita tem uma força constitutiva, tem também um poder desconstrutivo — e por isso seu caráter terapêutico. A capacidade terapêutica da escrita, me parece, está ligada à possibilidade de realinhar e redefinir os eixos dos sentido, de mudar pela atenção constante e deliberadamente dirigida a certos alvos as bases da nossa visão de mundo (do nosso sistema de crenças e convicções) e nossa atitude. Esses dois elementos estão intimamente ligados (atitudes e visões de mundo), por isso David Foster Walllace sugere o necessário exercício de fugir da nossa configuração padrão tentando notar algumas coisas e imaginar outras. Aliás, outra vantagem da escrita: ela também estimula nossa imaginação. Quanta coisa na vida não depende de imaginação.

A escrita é pura atividade, mas uma atividade livre: livre do imperativo do sentido imposto pela presença do outro (audiência), livre do imperativo produtivo exigido pelo propósito (ou expectativa) de produzir efeitos. A constância desse exercício e dessa liberdade tem efeitos imprevisíveis mas, creio, transformadores.

Inscrição na frente de uma livraria na Escadinhas de São Cristovão, em Lisboa.
PS. Esse texto talvez seja um meio de justificar aquilo que eu mesmo disse dispensar justificação. Por isso ele é um exercício e um exemplo de tudo que eu falei. Isto é, uma maneira de contornar uma restrição e um constrangimento interno sublinhando através da escrita uma verdade que escapava à minha atenção: a escrita não precisa de justificação, não supõe um diálogo embora possa desenhar um interlocutor. Posso escrever como um louco!

PPS. Às vezes eu tenho impressão de que estou insistindo demais numa ideia ou num texto. Insistindo não, repetindo. Até que eu me disponha a checar se é verdade, essa ideia é só uma impressão. A impressão da vez é que estou repetindo demais a referência ao A liberdade de ver os outros, de David Foster Wallace. Não vou checar essa impressão, mas se ela for verdadeira, tanto melhor.

21 maio, 2018

O adiamento da felicidade, a dilatação do desejo

Talvez você não queira ler esse texto sem antes ter lido o conto de Clarice Lispector, A felicidade clandestina. Muitas coisas podem ser ditas sobre a moral do texto — se é que em realidade ele possui alguma — e uma dessas coisas é: o conto trata da necessária distância entre o que se quer e o que se tem. O que quer a menina? O livro. É tortuoso o caminho entre o seu desejo e a realização desse desejo e conto inteiro se passa nesse interim, entre o instante em que o desejo se apresenta e os poucos momentos em que ela disfruta, e adia, aquilo que poderíamos chamar de sua consumação. A menina quer o livro, mas sua amiga não lhe empresta. Ela sofre por não tê-lo, se submete aos caprichos da amiga cruel até o dia em que, finalmente e não sem dificuldades, ela o consegue. E quando ela consegue, o que ela faz? Ela aproveita, disfruta, saboreia, mas, sobretudo, adia. Adia o prazer de ler o livro, de terminá-lo, mas adia, acima de tudo, a felicidade que sempre esteve essencialmente ligada ao espaço e à duração entre a enunciação do desejo e sua realização. É como se a menina, ao adiar, sabiamente deixasse ver que sabia, desde sempre, que o livro não era tão importante quanto o próprio desejo tê-lo.

É um conto simples que diz algo fundamental e fundamentalmente sabido (ou intuído) por tantas pessoas que, ao lê-lo, tem a estranha sensação de entender algo que já sabiam. E de prestar atenção nisso. E é o trabalho de uma grande escritora chamar a atenção para as coisas que, ainda que saíbamos, não prestamos atenção. Mas para o que concretamente ele chama a nossa ação? Que lição sobre a felicidade ele nos conta? O que esse adiamento diz sobre a felicidade?

03 maio, 2018

A potência da amizade

Sinto falta de alguns bons amigos que tive, amigos dos quais me afastei por circunstâncias da vida. Talvez alguma dessas circunstâncias seja culpa minha, ou melhor, daquilo que há em mim de intratável, de excessivamente exigente, quase intolerante — mas isso não importa agora. A amizade tem um efeito incrível sobre mim (e suponho que sobre a maioria das pessoas), é como se perto das pessoas com que me sinto à vontade pudesse me sentir inteiro, como se pudesse sentir a liberdade de ser quem eu sou, sem máscaras. Precisamos usar tantas máscaras todos os dias, tolher parte do que somos para nos ajustar ao que os outros gostam, esperam e, sobretudo, para aquilo que elas entendem e aceitam. E esse espaço é sempre tão estreito, quase asfixiante, de tal sorte que quando encontramos os amigos e podemos deitar as máscaras, é como se pudéssemos voltar a sentir o ar fresco após um longo tempo enclausurado respirando através de um escafandro. Essa potencialização que a amizade enseja — pra ser mais preciso, a verdadeira causa disso é a autenticidade com que se pode agir perto dos amigos — Goethe a apresentou como suele hacer, com maestria. Sempre volta à minha cabeça o fragmento de O sofrimento do jovem Werther em que o próprio Werther descreve como se sentia ao lado de uma amiga querida:
Poderia dizer a mim mesmo: "És um insensato em busca daquilo que não se encontra neste mundo". Mas eu a encontrei, senti junto de mim um coração, uma alma eleita, junto da qual eu cria superar-me, tornando-me tudo aquilo que serei capaz de ser. ó grande Deus, haverá, então, uma só das faculdades da minha alma que não possa ser aproveitada? Perante ela, não podia eu desdobrar inteiramente esta maravilhosa sensibilidade graças à qual meu coração envolve toda a natureza? Não ofereciam nossas conversações uma constante mistura dos mais delicados sentimentos e do mais agudo espírito, assinalando-se em todas as suas modalidades, e até na impertinencia, pelo sinal do genio? 
PS. Lamento, só tenho aqui a versão digital do livro, que (pelo pouco que lembro) não é a tradução da Martins Fontes.

19 abril, 2018

A felicidade e o culto ao prazer

Apesar da diversidade das expressões e efeitos do capitalismo, creio que se pode dizer sem controvérsia que o hedonismo é uma marca das sociedades capitalistas. E ainda assim parece como se essa característica passasse desapercebida, como se não a notássemos. Talvez não possamos notar aquilo que está diante dos nossos olhos, mas o caso é que as consequências dessa característica são marcantes e definidoras. Parece difícil encontrar quem distingua prazer e felicidade, de tal sorte que as pessoas parecem cada dia mais convencidas de que a felicidade é a busca constante pela repetição de momentos de prazer. Uma busca que visa aumentar a duração e a frequências desses momentos.

Devem existir muitos efeitos do prazer, no entanto, dois em especial me parecem notáveis, o efeito econômico e o efeito psicológico. O efeito econômico deixar ver o papel privilegiado do prazer na lógica produtiva capitalista. Vivemos numa cultura do conforto, da comodidade, da segurança, e tudo feito em nome desses valores parece dispensar justificação. Adestrados a desejar de acordo com esse marco cultural, é quase inevitável ver a cultura do Netflix and chill como algo profundamente desejável, contra a qual não sabemos (nem queremos) ensaiar qualquer crítica. O capitalismo depende da dinâmica incessante do desejo, da reposição constante da relação entre o desejo e aquilo que se quer (comprar OR obter OR consumir). Depende, portanto, da experiência daquilo que pode ser repetido e reproduzido em escala comercial. Nesse sentido, o prazer é uma experiência perfeitamente comercial, pois é reprodutível. Desde o prazer sexual, passando pelo prazer sensorial da alimentação até o quase sublimado prazer estético da contemplação artística em suas diferentes manifestações, o capitalismo provê as mais diferentes fontes de prazer e satisfação sensorial como parte essencial da sua engrenagem produtiva. Quanto maior o desejo de repetir o prazer, mais impulso à dinâmica de consumo e produção necessária à manutenção do capitalismo e de economias orientadas ao crescimento econômico.

O efeito psicológico do prazer tem longas raízes e se pode destacá-lo a partir da reflexão de Aristóteles sobre a felicidade (tradução possível da expressão Eudaimonia). Todas as emoções e paixões tem, em relação a felicidade, uma característica peculiar: são acumuláveis. Quem busca dinheiro, honra, glória, e também prazer, pode sempre obtê-las numa maior medida, num grau adicional. Isso significa que é sempre possível ter mais dinheiro, honra, glória e prazer. Entretanto, diz Aristóteles, a felicidade não pode receber nenhum acréscimo. Ela é uma justa medida, uma suficiência e uma saciedade.

Sendo assim, podemos distinguir prazer e felicidade a partir de duas chaves: frequência e quantidade. O prazer é reprodutível, portanto podemos obtê-lo quando e quantas vezes nos parecer conveniente e necessário. Podemos também ter sempre cada vez mais prazer, em maior quantidade. A felicidade, ao contrário, não pode ser reproduzida. Bem, aqui minhas considerações se distanciam um pouco das de Aristóteles. Creio, como o próprio Aristóteles, que nossas ações podem ser instrumentos de uma educação que nos torne mais aptos a ser felizes. Nesse sentido, a felicidade seria também reprodutível, embora não no sentido econômico: comercializável. No entanto, creio que num sentido muito importante a felicidade não é reprodutível, pois ela não se reduz a nenhuma regra. Freud já dizia (em Mal estar na civilização) que não há regra de ouro para obter a felicidade. Embora possa ser compreendida como um evento que tem uma duração, a felicidade pode e deve ser entendida como uma conversão ou como uma passagem. Isso significa que apesar de sua duração e de seus efeitos — dentro dos quais está o prazer — a felicidade é antes de mais nada uma mudança permanente que nos transforma e que faz com que todos os eventos que lhe seguem sejam sempre vistos segundo uma nova luz. Um homem miseravelmente abandonado pela sorte será sempre menos miserável que um outro que nunca tenha sido feliz. Transformada numa parte de nós, como um braço ou um dedo, a felicidade será sempre um bálsamo que embora não possa adoçar o fel de tudo que pode nos ocorrer no futuro, muda nossa experiência do infortúnio e de tudo o mais. A felicidade é a experiência do singular e do irrepetível, daquilo que, tendo acontecido e durado, nos transforma e modifica tudo aquilo que nos acontece (pois estamos nós mesmos modificados). Não é que a felicidade seja perene, perene são seus efeitos na nossa constituição, por isso me parece melhor caracterizá-la como uma passagem ou uma conversão.

Assim caracterizada, fica mais fácil compreender a diferença entre prazer e felicidade. O prazer, agenciado pela publicidade e pela máquina produtiva do capitalismo, é repetível e reprodutível. Se o confundimos com a felicidade é porque o prazer costumeiramente a acompanha. A felicidade, no entanto, mesmo que estejamos de acordo com Aristóteles acerca da possibilidade de educação que nos afaste da húbris das reações extremadas, não é repetível, reprodutível, nem controlável (ou gestionável), é uma experiência singular para qual a sorte e o acaso concorrem decisivamente. Experiências singulares não são comercializáveis, pois não sendo reprodutíveis não podem embalar o desejo de consumidores. Mas a confusão entre felicidade e prazer é extremamente rentável, é uma ilusão que impulsiona a dinâmica de determinação dos padrões de felicidade, mantida, para citar um exemplo conhecido, pelos chamados influenciadores digitais no Instagram, que se esmeram diariamente para estabelecer novos padrões de desejo e, supostamente, felicidade. Não é surpreendente que tantos cursos e notícias sobre como ser feliz tenham surgido nos últimos tempos, tentando traduzir em regras e instruções aquilo que Freud julgou impossível. Diante da profusão de casos de (aparente) felicidade — em viagens, restaurantes, e em todas as ocasiões em que indubitavelmente o prazer abunda —, não podemos deixar de nos sentir como filhotes de tartarugas fatalmente iludidos pelo brilho artificial de nossas cidades, buscando inutivelmente a água enquanto corremos em direção ao asfalto.

Talvez ainda não esteja claro o sentido de minha distinção e o alcance daquilo que me parece ser a felicidade. Essa questão precisa ser abordada uma e outra vez. Se a busca pela felicidade dá ocasião a um agenciamento e uma instrumentalização, pois a confundimos com o prazer, então deveríamos discutir, entre outras coisas, a autonomia da formação do nosso desejo — e o papel do marketing e da publicidade nessa dinâmica formativa. Por ora, deixo aqui o fragmento de um texto de Zizek chamado Felicidade? Não, obrigado!, em que ele apresenta uma história curiosa sobre o que pensa terem sido as condições para certos momentos felicidade na Tchecoslováquia:
Três condições fundamentais da felicidade foram cumpridas lá. Em primeiro lugar, suas necessidades materiais estavam basicamente satisfeitas – não demasiadamente satisfeitas, pois o excesso de consumo pode por si só gerar infelicidade. É bom experimentar uma breve escassez de alguns bens no mercado de tempos em tempos (sem café por um ou dois dias, depois sem carne, depois sem aparelhos de televisão): esses breves períodos de escassez funcionavam como exceções que faziam com que as pessoas nunca esquecessem de sempre estarem gratas de terem acesso a esses bens – se tudo está disponível a toda hora, as pessoas assumem que essa disponibilidade é um fato evidente da vida e deixam de valorizar como são sortudas. A vida pôde portanto prosseguir de maneira regular e previsível, sem grandes esforços ou choques. Uma segunda característica, extremamente importante: existia o Outro (o Partido) para se culpado por tudo que dava errado, de forma que as pessoas não tinham que se sentir efetivamente responsáveis – se houvesse uma escassez temporária de determinados produtos, ainda que os danos tivessem efetivamente sido provocados por alguma força da natureza, era a culpa “deles”. Por fim, havia um Outro lugar (o ocidente consumista) sobre o qual era permitido sonhar e até mesmo visitar às vezes – esse lugar estava exatamente à distância certa, nem longe demais, nem perto demais. Esse equilíbrio frágil foi perturbado. Pelo quê? Pelo desejo, justamente. O desejo foi a força que impeliu as pessoas a irem além – e caírem em um sistema em que a grande maioria está definitivamente menos feliz...