05 janeiro, 2018

Pensamento: expressão e edição

Os garranchos de Wittgenstein e sua obsessão pela edição e revisão.
Em certo sentido esse texto é um tributo a Wittgenstein, sinto que devo tanto a ele.

Se eu tivesse lido A arte de escrever alguns anos atrás teria sido terrível. Ali Schopenhauer apresenta o que ele julgava ser tipos de pensamento e de pensador. Não teria sido legal me ver entre os tipos mais vulgares, por assim dizer. Por pura vaidade. Mas ter lido o livro recentemente me fez capaz de relativizar o peso dos gestos críticos e judicativos de Schopenhauer. É que, naturalmente, ao longo dos anos eu desenvolvi um enorme respeito por Wittgenstein, e Wittgenstein não é um pensador sistemático que, meditando por muito tempo sobre as coisas, as expressa com clareza, coesão e ordem. O pensamento de Wittgenstein é marcado pela edição ou pelo menos pelo esforço de edição da expressão. Não que Wittgenstein não seja claro, coeso, ordenado e sistemático. É que sendo o sentido mais importante que a verdade, a expressão do seu pensamento obedecia a um propósito diferente da expressão do pensamento de Kant, por exemplo. Não era preciso demonstrações ou deduções, não eram necessárias bases firmes e constantes, nem as justificações de crenças básicas de um sistema de conhecimento. Tratava-se em grande parte das vezes de fazer entender um sentido. E um certo sentido parecia apresentar-se, quase como uma transpiração, mesmo nos contrasensos do Tractatus Logico-Philosophicus — dirão alguns, não sem controvérsia. Mas nada disso importa agora.

O caso é que Wittgenstein esboçava, sublinhava, tachava, apagava, recortava e colava tal como todos nós fazemos em nossos modernos editores de texto nos dias de hoje. Se há algum demérito em não ser capaz de apresentar um pensamento assim, de um vez por todas, definitivamente, ao menos me parece um consolo saber que tampouco Wittgenstein parecia capaz de (ou disposto a) fazê-lo*. Lembro de ter lido ou ouvido (não sei ao certo) que aquilo que os editores depois transformaram em seu livro Zettel (Fichas, na tradução portuguesa) não era mais que um amontoado de notas, fichas mesmo, guardadas numa caixa. No prefácio das suas Investigações Filosóficas ele se refere ao livro como um álbum, embora não porque o considerasse uma colcha de retalhos provisórios. Se bem é verdade que são comuns as queixas contra a falibilidade de certas expressões suas, também havia algo de estratégico e deliberado em dar àquele que lê o livro a "ideia de uma paisagem", em apresentar algo com o ar provisório e inacabado. A perspectiva panorâmica, a recusa de uma dieta unilateral, são temas que se manifestam de muitos modos em seu pensamento.

O que pra mim importa de tudo isso é a ideia de que o pensamento é algo cuja expressão deve ser cuidada, cultiva e editada. Embora o próprio Schopenhauer apresente distinções entre tipos de pensadores e o modo como estes são capazes de expressar seu pensamento, ele também reconhece (quase inconsistentemente, eu diria) a importância da edição, isto é, do registro e da ruminação constante a respeito de certos temas. Se consideramos o pensamento tendo a memória como um ponto de referência e utilizando o computador como uma analogia útil para refletir sobre a mente, dá pra entender a necessidade da seleção e edição constantes. O que eu quero dizer é: é muito difícil ter um pensamento presente (se ele tem alguma complexidade) como algo atual, isto é, ter todos os elementos que o constituem como algo presente a todo momento ou mesmo em certo momento. Se não temos presente o pensamento em sua inteira complexidade podemos, por exemplo, esquecer alguns de seus componentes ou olvidar a importância de uma relação entre alguns dos seus elementos. A compulsão wittgensteiniana em organizar suas notas, corrigi-las, é um esforço não apenas de edição, mas também de memória (no sentido computacional). É como o trabalho de desfragmentar um disco rígido fragmentado (pra lembrar os Windows anteriores ao XP), de sorte que o processamento possa fluir mais rapidamente (sobretudo os arquivos necessários para dar o boot no sistema) e possamos ter uma visão organizada e compreensível de toda sua estrutura de arquivos. Não temos controle consciente de tudo que esquecemos e lembramos, a edição é um esforço para compor um álbum no qual os elementos estejam deliberadamente organizados e presentes para nós mesmos não como algo atual, mas como coisa registrada e recuperável. Algo ao qual podemos sempre voltar para reatualizá-lo (tê-lo como algo presente) ou para rabiscar, refazer ou simplesmente abandonar. Waismann se queixava de como parecia impossível acompanhar o pensamento de Wittgenstein pois ele, sem cerimônica, construia e abandonava perspectivas sem maior compromisso, creio que, entre outras coisas, por essa relação dinâmica com o pensamento que resulta do primado do sentido e da importância da edição.

Pode ser que Kant tenha sido como um computador com 12 Gigabytes de memória RAM, de tal sorte que sua obsessão por sistemas era o reflexo não apenas de uma enorme capacidade de processamento, mas também de uma memória extraordinária, da capacidade para ter presente (de modo atual) um número incrível de elementos. Suspeito, no entanto, que a maioria dos mortais precisa da edição como instrumento primordial de composição do pensamento (e, claro, também o próprio Kant não pode deixar de utilizá-la). Talvez Schopenhauer tivesse em mente tipos como Kant ou Aristóteles ao classificar os diferentes tipos de pensadores, mas o caso é que nem todo mundo pode ser assim. Por tudo isso o trabalho de edição do pensamento pode ter até mesmo um sentido terapêutico. Ao escrever, repetir e organizar algo cuja ordem nunca é atual, mas sempre objeto de uma composição e recuperação (pela releitura), passamos a ser os artífices do fluxo do nosso próprio pensamento (e dos seus padrões), selecionando que temas devem se fixar, que temas devem ser descartados. É claro que isso tem enorme interesse filosófico, como atestam os escritos do homem singular que foi Ludwig Wittgenstein, mas há também um interesse ético, por assim dizer, posto que selecionar deliberamente o que nós pensamos pode ser decisivo para viver uma vida menos atormentada, como defendeu David Foster Wallace, por exemplo. E essa dimensão terapêutica do pensamento, ou melhor, da sua edição, parece também exalar da própria reflexão de Wittgenstein.

* Como não poderia deixar de ser, esse também pode ser um tópico espinhoso entre os leitores de Wittgenstein. Pra mim mesmo que Wittgenstein simplesmente não fosse capaz, ou fosse não mais que um frustrado por não conseguir criar um sistema a la Kant, isso não invalidaria a lição que sua obra nos deixa no que diz respeito à importância e compreensão da edição.

PS. Usei a expressão atual sem cerimônia, mas a verdade é que eu deveria tê-la explicado um pouco mais. Um dia quero escrever sobre o infinito atual, na verdade sobre o pouco que sei da crítica de Wittgenstein à leitura de Cantor sobre o infinito (e a sua própria, a antiga).

PPS. Um exemplo pra ilustrar tudo isso: minha tese tem quase 700 notas de rodapé (referências ou comentários). Imaginemos que 5% de tudo isso são referências a passagens centrais para minha perspectiva, vamos supor que são 32 fragmentos de livros diversos. Com algum esforço eu poderia tentar recuperar de cabeça essas referências, mas a verdade é que não as tenho na cabeça como algo atual, tê-las simultaneamente em minha mente é um esforço. Tenho arquivos onde armazeno as referências principais. E, às vezes, escrevendo um capítulo, mais centrado em um bloco de pensamentos e comentários, eu perco de vista outros comentários importantes pelo simples fato de não conseguir manter tudo ao mesmo tempo na memória, para poder julgar o que é mais apropriado para composição do meu próprio álbum.

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