03 dezembro, 2017

Misoginia e pederastia

Segundo Foucault, pederastia e homossexualidade são coisas distintas. A pederastia é uma prática cujo sentido depende de um contexto muito particular, de uma sociedade na qual a mulher é cidadão de segunda classe. As queixas contra o suposto apoio de Aristóteles à escravidão vem da mesma situação, para Aristóteles certas pessoas eram cidadãs, outras não. Sendo assim, a pederastia consistia no ensino ou na introdução ao amor, ensino que tinha lugar entre dois cidadãos do mesmo nível social, por assim dizer. Portanto um homem mais velho deveria ensinar um homem mais jovem. Exatamente porque a mulher não era vista como uma igual, a importante tarefa de introduzir os homens no amor cabia aos homens mais velhos e experientes.

Essa ideia cria uma nítida divisão entre os gêneros: os homens pertencem a um grupo no qual eles se vem como iguais e superiores às mulheres, e o grupo das mulheres, rebaixadas relativamente ao grupo dos homens. É natural que, dado esse quadro de valor, os homens não queiram imiscuir-se com nada que diga respeito a um grupo socialmente inferior (escravos ou mulheres). Essa divisão própria à pederastia, curiosamente, parece refletir um modo de ver as coisas muito próximo a pessoas que não poderíamos imaginar mais distantes: certos tipos de heterossexuais.

Certo homens são misóginos declarados, a despeito de uma heterossexualidade quase militante, isto é, apesar de não só não admitirem outras orientações sexuais, mas de se sentirem ameaçados por elas. Eles dizem gostar de mulheres, não aceitam quem não goste, mas gostam apenas o necessário para certos propósitos. Seus valores e suas referências são não apenas inteira e exclusivamente masculinos, mas não se misturam a nenhum elemento que possa integrar (ou mesmo coincidir com) o plural quadro referencial do feminino. Isso provoca importantes consequências, vamos ver se um caso particular ajuda a ilustrar o que eu quero dizer.

Um dia nós estávamos num bar onde acontece uma festa brasileira, quando entraram alguns homens de perfil bem típico. Para descrevê-los de maneira intencionalmente imprecisa embora de modo suficientemente ilustrativo, vamos pensar no tipo pitboy. Numerosos e barulhentos, logo eles tomaram o centro do pequeno espaço em frente ao palco. Eu reparei então em dois deles e vou desginá-los como A e B (para evitar descrições físicas). B conhecia algumas mulheres que já estavam ali, ele falava e dançava com elas com alguma espontaneidade. A aparentemente também as conhecia, mas parecia estar à vontade somente com o seu amigo ou pelo menos valorar apenas a sua companhia. Quando me dei conta disso, eu discretamente chamei atenção de minha mulher, pra me assegurar que não era loucura da minha cabeça. A linguagem corporal de A era curiosíssima: apesar da torrente de estímulos do lugar (música, pessoas), ele insistentemente voltava seus olhos pra seu amigo. Acontecia algo, ele comentava e ria com seu amigo; quando este estava falando com alguém, ele o contemplava silenciosamente; chegava a ser embaraçoso constatar quantas vezes, naquele formigueiro de gente, podíamos encontrá-lo olhando, mesmo que inconscientemente, para seu amigo. Bem, espero que vocês não me levem a mal, não estou dizendo que ele era homossexual ou coisa do gênero, mas me parece claro (e, nesse caso, sintomático) que alguns homens só se sentem a vontade no entorno das referências e valores do universo “masculino”, a ponto de estarem completamente deslocados em outros contextos e conversas. Quando se aprecia apenas os elementos que orbitam um universo castiçamente masculino, universo que é preciso preservar contra a deturpação que ameaça embaralhar as coisas, parece natural ver a mulher como veem certos homens (como, em certa medida, viam os pederastas), como um meio em relação a um fim, como um objeto destituído de subjetividade e de valor. Longe de mim prescrever o que quer que seja, cada um deve fazer com sua heterossexualidade o que lhe parecer melhor, no entanto, homens que não se sentem à vontade ao redor do rico e múltiplo universo feminino, que sentem que podem perder o respeito de seus pares (homens) se se deixarem afetar por elementos deste universo, tendem a caminhar em direção à misoginia e a defendê-la como quem defende o time do coração.

Homens não raras vezes sem recursos emocionais, reprimidos pela escassez das ferramentas provistas pelo universo masculino, que lhes faculta pouco mais que a raiva para lidar com o complexo universo das paixões (do pathos, do que nos afeta) —  afinal, homens não choram — veriam sua experiência transformada se, ao invés de seguir o exemplo dos pederastas enxergando as mulheres como um grupo inferior, se permitissem definir seus próprios valores mediante o trânsito saudável entre os dois universos. Assim não apenas se sentiriam mais à vontade perto das mulheres (não raras vezes os homens não sabem como agir perto delas, salvo os canalhas, claro), mas poderiam aprender e enriquecer suas visões de mundo (frequentemente tortuosa e atormentada), por causa da mulher.

PS. Meu post sobre o nascimento do "normal" tem alguma relação com esse tema. São diferentes perspectivas sobre a nossa relações com as normas.

Um comentário :

Unknown disse...

Belo relato. Muito interessante essa situação.