14 outubro, 2017

O mundo da computação

Cursei filosofia porque certas variáveis ambientais estimularam em mim o gosto pela filosofia e pelas belas letras. Mas por acaso também cresci num mundo completamente diferente, no mundo digital. Aprendi a usar computador num AT 386, com monitor de fósforo branco, ainda no DOS. Quando chegou o Windows, segui mexendo no que dava, editando bat scripts, futucando no autoexec do Windows, no config.ini, os arquivos de inicialização do sistema então, pra aprender como era o código e os comandos a que respondiam. Depois, já na internet, comecei a entender a lógica do scripting fazendo modificações nos meus scripts pra usar o mIRC (eu usava então o The 7 Deadly Sins). Meu conhecimento sobre hardware e software é pouco mais que elementar, embora nativo e talvez acima da média. Bem, o caso é que pra mim era como se esses dois mundo, o mundo digital e o mundo tradicional, não tivessem contiguidade! Quer dizer, há algum tempo eu me dei conta de que a matemática é o ponto de contiguidade entre eles: Kurt Gödel, Alan Turing e outros. No entanto, meu conhecimento de matemática e de sua história tampouco é significativo, de sorte que tenho tentado mapear os pontos de articulação entre esses dois mundos usando meios audiovisuais como referências.

Não é tão difícil compreender certos aspectos dessa articulação se a gente usa o cinema e as séries como instrumentos. Imitation game, por exemplo, é um filme que ajuda a entender o que está em jogo no desenvolvimento da computação, em termos políticos e tecnológicos. O filme conta também um pouco sobre a figura fascinante que era Alan Turing. Um personagem que foi tremendamente mal tratado pelo governo britânico, num caso de fazer a gente sentir vergonha de ser humano. Mas na verdade são as séries que me fascinam, elas deixam ver de modo transparente como certos temas atravessam esses dois mundos, articulando preocupações quase idênticas em cenários completamente distintos.

Atenção: spoiler sobre Mr Robot e Westworld.



As duas primeiras temporadas de Mr Robot estão entre as coisas mais estimulantes e provocadoras que eu assisti na vida. Na série há um drama psicológico de profundas raízes sociais e políticas, mas há também o emaranhado tecnológico por meio do qual Elliot tentará responder a estes desafios políticos. Os dois mundos a que me refiro estão representados aí. Há um enredo político que se representa na crítica à sociedade, ao consumismo, ao que há de narcótico e viciante na dinâmica das redes sociais e da internet, tudo isso estreitamente vinculado a uma proposta de transformação da sociedade baseada no próprio uso de recursos tecnológicos, mais precisamente no ato de hackear esses instrumentos, sua infraestrutura. Mr Robot apresenta o esforço de uma transformação sem política, bem ao estilo de certas performances e atitudes de alguns grupos de ciberativistas e hackers. Elliot é ao mesmo tempo redentor e vítima do sistema que ele tenta sabotar, pois seus próprios limites (psicológicos) constituem um caso a parte da série, um enredo a parte. Sobre isso eu já escrevi algumas coisas. No curso do seu desenvolvimento a série faz entender, entre outras coisas, o crescente (e pouco compreendido) papel das criptomoedas na dinâmica do mercado financeiro e das grandes economias. Os temas tratados são muitos, de qualquer sorte que a série dá uma dimensão bem intuitiva da enorme dependência tecnológica que está na base da sociedade digital e de seus efeitos.

Westworld, por sua vez, discute temas filosóficos tão caros à nossa contemporânea neurociência e à filosofia analítica quanto à antiga metafísica: liberdade, consciência, determinação. Embora seja uma ficção científica, a série não está muito distante da discussão sobre a possibilidade da inteligência artificial desenvolver imaginação. Uma discussão sobre consciência, naturalmente, isto é, sobre a suposta humanidade de máquinas capazes de emular o comportamento e emoções humanas com tal similitude que logo não nos restaria senão perguntar: por que eles não são humanos? Eles não tem consciência? Isto é, eles não parecem ter esse algo imaterial que nos caracteriza (essa res cogitans)? Se é algo quase imaterial o que nos caracteriza como homens, embora estreitamente vinculado à uma estrutura material (seja carne, seja máquina), porque eles não podem ser, como nós, ghosts in the shell? Eu acho que Ex-Machina é mais apropriado para discutir temas similares do que Blade Runner, mas não faltam opções e referências para pensar a miríade de temas ligados à inteligência artificial.

Embora suas raízes remetam à matemática e a toda sua longa tradição, a computação inaugura um novo mundo, um mundo que traz compulsoriamente para seus domínios cada vez mais pessoas, forçadas a lidar com tecnologias que muitas vezes não entendem, embora possam manuseá-la operacionalmente. Essa estrutura (infraestrutura, na verdade) da qual depende um exército de operadores que manuseiam máquinas, dispositivos, aparelhos cuja rudimentos tecnológicos eles não entendem, está cada dia mais presente na nossa vida, influi cada vez mais em relação com o mundo. Isso abre espaço para que as pessoas capturem informações sobre a interação entre homens e máquinas, para que as informações capturadas por dispositivos os mais variados (já que a internet das coisas em certa medida já é uma realidade para gente como Elliot, por exemplo) sejam cruzadas com outras bases e analisadas mediante poderosos dispositivos de processamento de dados usando os mais sofisticados algoritmos (imaginem a capacidade de processamento dos computadores das empresas de ponta, ou, sei lá, quando a computação quântica ou neuromórfica for algo corrente). Este novo mundo, embora tenha suas próprias regras e seja opácuo à maior parte das pessoas, inspira os velhos debates metafísicos, agora em novos contextos. A diferença é que a eficiência da ciência está por trás dos engenhos das máquinas de computação, de tal maneira que quando discutimos, por exemplo, os perigos à liberdade postos pelo uso de publicidade data oriented, estamos falando de um nível inédito de dano. De qualquer sorte, é um mundo estimulante e desafiador com o qual já não temos opção senão adaptar-nos.

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No final das contas, esse post não é mais que um prêambulo e uma justificativa que antecede outros posts que virão, posts mais concretamente preocupados com a computação, só que agora desde um ponto de vista filosófico. Sempre escrevi no blog sobre o Linux e sobre software livre, mas sempre desde uma perspectiva política, nunca filosófica. O contato com essas séries incríveis e com as pessoas e argumentos fantásticos por trás da produção de cada uma delas criou em mim o desejo de escrever sobre computação desde uma outra perspectiva, mais própria à minha formação e experiência pessoal.

PS. Black Mirror é uma das séries que também explora o tema da tecnologia e do seu impacto na nossa vida, mas eu assisti poucos (e assombrosos) episódios para poder comentar.

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