23 setembro, 2017

Podemos: relato de uma experiência e de um juízo



Cheguei na Espanha em 2013, pouco antes de Podemos nascer. Como alguns amigos já me haviam apresentado Pablo Iglesias, Juan Monedero, La Tuerka, Fort Apache, o nascimento do partido não foi para mim algo surpreendente. Acompanho o partido desde então, como filiado, e o que apresento aqui não é mais do que a expressão de uma perspectiva formada a partir dessa proximidade circunstancial. Se a caracterizo como perspectiva é porque quero enfatizar que ela é antes de mais nada um sentido, um certo modo de apresentar tudo que tem passado por aqui. Isto é, embora para mim todo esse relato seja verdadeiro, minha intenção não é vender sua verdade mas apresentar seu sentido. Cada um é livre para acreditar ou não nele, mas só depois de entender o sentido de algo podemos aceitar ou não sua verdade. A ideia não é reconstituir a história do partido (aqui você encontra uma boa narrativa sobre a história do partido, num aúdio em espanhol), mas indicar a partir de certos pontos o que me leva a pensar que, com todas as dificuldades, Podemos é de longe a experiência política mais interessante nas grandes democracias ocidentais, uma experiência que deveríamos olhar com cuidado, especialmente tendo em vista os problemas da esquerda no Brasil, o tema de antipolítica e as dificuldades da representação política em todo mundo.

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Nem todo mundo leva a sério uma certa crítica à representação e aos modelos de representação, mas o fato é que Podemos tem conseguido estabelecer algumas novidades nesse terreno: a filiação e as votações do partido são todas feitas em plataforma online. O partido definiu assembleias regulares (a cada três anos) onde são discutidos seus rumos e diretrizes. A última assembleia, que aconteceu em fevereiro, ficou conhecida como Vista Alegre II. Tudo foi definido por voto: o modo como eram apresentados os documentos, a separação entre documentos (projetos) e candidaturas, etc. Há muitas oportunidades em que os os filiados podem apresentar projetos e ideias relativas às mais variadas áreas e submetê-los à votação. Além disso, podem decidir também sobre as ações do partido e de seus representantes. No dia 12 de junho, por exemplo, eu votei em favor de uma moção de censura à corrupção sistemática que há meses figura no noticiário espanhol, envolvendo políticos do PP. A plataforma onde todas as votações tem lugar é bem desenvolvida, tudo acontece em ambiente criptografado, com todas as medidas de segurança típicas de processos de confirmação via web. Podemos enxergou e apostou nas vias tecnológicas como instrumentos para aprofundar e facilitar as decisões, e isso me parece algo inédito no mundo. Quando é necessário promover ações, organizar eventos, a comunicação entre os filiados se dá via Telegram (mas o Whatsapp tem ganhado espaço nos últimos meses), o que dinamiza todo o processo já que hoje em dia quase todo mundo tem e utiliza muito o smartphone, especialmente aplicativos de mensagems — o Telegram é mais polivalente que o Whatsapp e cai como uma luva. Eu acho que as novas tecnologias podem ser ferramentas importantes na transformação do processo político, numa redefinição da relação entre representantes e representados.

Embora o partido manifeste o desejo de tornar mais horizontal toda sua estrutura, as pessoas que desde o início estiveram à frente de Podemos sabem como funciona a lógica política-eleitoral. A experiência política de parte dos seus fundadores tem seu valor. Secretário Geral do Partido, Pablo Iglesias reconhece que a figura (a imagem) de uma liderança não é algo prescindível se o propósito é ocupar espaços políticos e institucionais em todo âmbito nacional. As posições diretivas do partido não podem ter um papel meramente funcional, de coadjuvantes em relação à força instituinte do povo. A ideia é ótima, claro, mas assim eles só pregariam aos convertidos — a Espanha e os espanhóis são uma classe muito heterogênea, como não poderia deixar de ser. Muitas figuras dentro do partido tem disputado papéis de maior destaque e tem ganhado visibilidade por suas propostas, ideias e discursos. Embora a disputa tenha naturalmente se concentrado em torno de Pablo Iglesias e Iñigo Érrejon, há uma pluralidade de vozes e perspectivas que não se reduzem aos acordos comuns adotados conforme decisões definidas em votação. Isso abre espaço para que imprensa, sempre interessada em promover sua própria agenda, tente influenciar as narrativas em torno das disputas internas, e às vezes consiga acirrar tensões e provocar algumas faíscas. Às vezes essas tensões conseguem ser manejadas, às vezes provocam algum dano.

Um partido político está sempre exposto ao risco de tornar-se uma força hegemônica que meramente administra a manutenção do poder. Podemos sabe disso. Sabe não apenas porque a Espanha presenciou a conversão do PSOE numa força política orientada ao centro e aos pactos de manutenção do status quo em nome do possível; mas também porque as experiências da esquerda na Ámerica Latina ensinaram valiosas lições que se somaram àquelas aprendidas na própria Espanha. Além disso, o pensamento de Gramsci tem uma marca muito forte dentro do partido, em Iglesias, Érrejon e Monedero. Érrejon escreveu com Chantal Mouffe um livro (Construir pueblo) que é a expressão de algumas das ideias forjadas nesse caldo das experiências sulamericanas e ibéricas. (Recentemente o El País chamou um especialista em Gramsci pra dar aquela carteirada ao melhor estilo “o pai de Gramsci” sobre os abusos na leitura de Gramsci por parte de Podemos e especialmente de Érrejon; ficou meio ridículo, mas é parte do jogo.) As referencias e ideias que orientam a prática e o direcionamento de Podemos são os mais variados e refletem a complexidade e pecularidade da própria história da Espanha. Laclau e Chantal Mouffe são referências importantes, que já se identifica num certo modo de pensar o populismo, no populismo de esquerda. Mas acho que em realidade as referências são menos importantes do que uma permeabilidade entre elas. Há uma certa abertura, um respeito e mesmo um comércio entre perspectivas as mais diversas, e isso permite que as ideias se arrejem, se contaminem e às vezes se apresentem como se estivessem no cenário de outras aparentemente incompatíveis. Por exemplo, o anarquismo é muito respeitado na Espanha. E respeito é a palavra chave. Quando não se respeita uma ideia ela é excluída do horizonte de possibilidades, deixa de ser até mesmo um inimigo a que se deve combater, um adversário com que dialogar, um aspecto que considerar. Nenhum anarquista verá Podemos e sua vocação institucional com bons olhos, o que é natural, mas Podemos tem muitas raízes (uma das mais forte é a da Izquierda Anticapitalista), de tal sorte que se vê nele adaptações de ideias de inspiração anarquista, municipalista, e de tendências de toda sorte. Tudo isso num novo marco, talvez conceitualmente incompatível com as referências originais, mas pra mim o que importa é esse ambiente de abertura, conversa, diálogo e respeito. (Conheci Carlos Taibo, anarquista e ferrenho defensor do decrescimento, numa indicação de Monedero no La Tuerka). Numa entrevista recente do novo Secretario General de Podemos em Madrid, Ramón Espinar, fica evidente algumas coisas para as quais estou apontando muito abstratamente. Ele diz:
Vamos a hacer una apuesta por un partido-movimiento. Y eso significa que hay que empezar a hacer un trabajo con los círculos, con los militantes, desde ya, de planificación en cada barrio y en cada pueblo, de qué van a hacer esos círculos, de cómo van a impactar en la vida de su barrio y de su pueblo, en función de las necesidades.
Eu já havia identificado em uma fala de Pablo Iglesias, que agora eu não me lembro onde está, a expressão dessa tendência a transformar Podemos em um “partido-movimento” — talvez ela esteja nessa boa entrevista com Chantal Mouffe ou nessa outra com o próprio Monedero. Isto é, a tendência a fortalecer a base civil de sustentação do partido, sem perder sua força institucional. Claro que essa inclinação não se encaixa com a tendência natural de certos modelos (em particular a social-democracia) de fortalecer ou de preocupar-se exclusivamente com o fortalecimento institucional. É claro também que essa preocupação em fortalecer os Círculos de Podemos (que é como são chamados os pequenos grupos espalhados pelas cidades onde as pessoas se encontram para discutir em grande parte problemas locais, mas fazendo assim uma interface com os níveis menos locais de ação política) sem perder de vista a representação institucional no Parlamento nacional e no Parlamento Europeu é algo muito próprio e peculiar. É um esforço para responder aos desafios da representatividade no século XXI, tentando superar o hiato da representatividade fortalecendo a capilaridade das relações entre associações civis (os Círculos) e os seus representantes institucionais. Natural que existam falhas e pontos criticáveis, mas acho que esse esforço expressa uma compreensão mais exequível de como pode se dar uma transição de uma sociedade inteiramente orientada a instituições a outra menos centralizada, mais local, onde as decisões políticas não estão tão distante daqueles que efetivamente vão sentir seus efeitos. Minha maior dificuldade teórica com perspectivas políticas mais radicais é a falta de um modelo de transição que não suponha tacitamente uma conscientização massiva e abrupta como catalizador das transformações necessárias à materialização das ideias. A transformação de um forma de vida não pode deixar de contar com agentes e meios institucionais, se quer triunfar sobre a publicidade e o medo que atrapalham qualquer proposta de mudança radical.

A tendência a trazer a política de volta a la calle é em realidade um reflexo de certas características da sociedade espanhola. A força e articulação de certos movimentos e associações civis formaram uma das plataformas que tornou possível Podemos, pois num espaço relativamente pequeno, os fundadores do partido puderam viajar o país para conversar sobre a ideia que eles tinham em mente com diversos grupos, dos mais variadores tipos (sindicatos, associações de moradores, coletivos, etc). — Por isso é difícil imaginar que algo semelhante aconteça no Brasil, ainda que tivéssemos associações civis igualmente fortes e articuladas (o Vamos tem tentado articular algo parecido no Brasil e eu saúdo esse esforço). Posso oferecer um exemplo concreto de como essas coisas tem se tornado algo real. No bairro em que eu moro há a Asamblea Popular de Malasaña e o Grupo 15M, coletivos que organizam atividades e eventos culturais, promovem ajuda mútua entre os moradores, promovem um espaço de cultivo comum e mercado agroecológico, coletam e distribuem alimentos para pessoas sem recursos, ajudam imigrantes sem documentos a conseguir assistência médica, entre outras coisas. A ideia é discutir e resolver problemas entre os moradores, estimulando o encontro e o debate entre as pessoas. Da última vez que estive no mercado agroecológico na Calle Antonio Grillo, por exemplo, eles estavam coletando assinaturas (seria preciso 150 mil assinaturas) para apresentar um projeto popular que legislaria sobre o prazo de ocupação de residências não habitadas. No último dia 2 de maio (data festiva em Madrid por razões históricas) a Asamblea organizou uma festa auto-gestionada no bairro com uma ampla programação e enorme sucesso. Enfim, nada disso tem necessariamente a ver com Podemos, é apenas um modo de ilustrar o sentido a que se direciona essa tentativa de aproximar a política institucional às questões e necessidades das pessoas nas ruas. A ideia visa descentralizar os núcleos de decisão e deliberação política ao tempo que estimula e integra as pessoas (ordinariamente distantes) à política e à sua dinâmica. Esse propósito tem uma enorme importância tendo em vista a forte tendência antipolítica que tem se manifestado em muitos países, especialmente em virtude da incapacidade do centrismo e da terceira via em responder aos anseios paradoxais de grande parte da população em todo mundo: as pessoas querem mudanças sem que nada mude; ou então querem mudanças desde que quem mude seja o Outro, esse Outro que nós (covardemente) responsabilizamos simbolicamente por tudo que não vai conforme nosso desejo e cuja dinâmica de culpabilização termina por converter demagogos como Donald Trump em presidentes.

Agora, os desafios eleitorais de Podemos, aqueles que dizem respeito à parte mais concreta e pragmática da política institucional, tem a ver com o modo como partido se encaixa (ou é encaixado) nas categorias pré-fabricadas com que a imprensa e a “opinião pública” apresentam o universo político. Um aspecto que permite fazer ver as dificuldades que o partido enfrenta é a sua relação com a social democracia. A relação de Podemos com a social democracia reflete, por um lado, seus compromissos políticos e, por outro, o modelo econômico que lastreará as ações políticas do partido. As declarações públicas de Iglesias sempre deixaram claro que a social democracia não era a meta do partido, mas que não lhe parecia possível promover uma transformação social sem resgatar aspectos da social democracia perdidos na avalanche neoliberal que atingiu a Espanha. Mas a percepção do posicionamento de Podemos se reduziu a duas perspectiva antagônicas esgrimidas pela imprensa, de acordo com a conveniência: ou o acusam de promover ideias e políticas radicais que levariam a Espanha para longe do marco social democrático da Europa (em direção à posição venezuelana, para utilizar a sempre poderosa arma política do medo, usada diariamente na imprensa espanhola) ou então banalizam suas propostas dizendo tratar-se apenas de uma social democracia com tons distintos, sem caracterizar nada de novo. É claro que a urgência em encaixar Podemos numa categoria responde à necessidade de definir melhores estratégias discursivas de enfrentamento. Ao invés de rotulá-lo apressadamente, é preferível entendê-lo a partir de suas práticas, ações, ideias e então, quando e se for conveniente, adotar um termo geral. É certo que Podemos se orienta a partir de algumas avaliações centrais. Por exemplo, a extrema direita na Europa se fortalece e se expande usando um populismo cujo efeito só se tornou preocupante porque a terceira via é o projeto fracassado mais bem sucedido no mundo. Temer encontrou recentemente com Rajoy para aprender como implantar no Brasil o modelo espanhol responsável por ligeiros incrementos estatísticos (suficientes para fins eleitorais) mas de enorme custo social (o desemprego melhorou, mas os salários diminuiram significativamente e a dívida pública é a maior da história, apesar dos cortes). A extrema direita vê que o povo está ansioso por mudanças que o acanhamento das políticas conciliatórias da Europa não pode entregar. Um caminho à esquerda parece impensável não apenas porque verdadeiramente falta um projeto, mas também porque a população está (pelo menos na Espanha) anestiasada pelo medo de tornar-se alguns dos paradigmáticos casos de fracassos de políticas de esquerda que todo o dia reaparecem nos noticiários. A alternativa então parece ser: continuar apostando nos mesmos, a despeito do fato de eles não poderem promover as transformações sociais ansiadas, ou votar em opções fora do eixo, anti-sistema. Não foi diante dessa escolha que Trump conseguiu se eleger? Esse novo eixo dá lugar também ao “populismo de esquerda” ao qual se refere algumas vezes certas figuras de Podemos e que inspira o medo cuidadosamente planejado de muitos. O que se representa nessa ideia é a crença, plasmada no projeto econômico do partido, elaborado por Vicenç Navarro y Juan Torres López, de que é possível fazer frente à crise sem comprometer o estado de bem estar social. Não são poucas as discussões que acontecem aqui em Madrid nas quais as ideias de Podemos se entrecruzam com as Yanis Varoufakis. Alguns desses encontros acontecem sob a legenda de um movimento chamado Plan B Europa. Eu acho que Varoufakis representa bem esse movimento ao qual Podemos em certa medida está aderido, e a proposta do movimento é convencer os europeus de que é há uma alternativa ao receituário da austeridade, de que há uma alternativa à submissão aos tecnocratas da Comissão Europeia que tem custado a soberia de muitos países europeus. Enfim, não é uma tarefa fácil nem simples, mas nesses termos dá pra entender que a complexidade da perspectiva de Podemos não se reduz às caricaturas utilizadas para representá-lo. (E não custa lembrar que esse projeto econômico alternativo tem apoio de figuras como Joseph Stiglitz e Paul Krugman.)

Bem, escrevi menos que necessário e mais do que devia, mas acho que está razoavelmente representado tudo o que me parece interessante em Podemos, segundo minha experiência e minha relação com o partidos nesses 3 anos. Dizer que algo pode ser críticado não é uma crítica, é um lugar comum que se aplica a qualquer coisa. Podemos tem falhas e questões que precisa resolver, além de talvez não encaixar no ideario de muitos que se dizem de esquerda, mas o fato é que o modo como o partido tem tornado concretas suas ideias e a maneira como tem inspirado ideias a partir de suas práticas correspondem a uma experiência muito particular no mundo inteiro. Uma experiência que convém prestar atenção antes mesmo de descartá-la, para entender em que medida, se for conveniente, ela pode ser adaptada aos mais variados contextos. É realmente difícil enxergar algo semelhante acontecendo no Brasil, por muitas razões, mas convém ao menos ter presente alguns desses aspectos, considerando a terra arrasada em que nós encontramos hoje. Especialmente porque ainda não conseguimos nos emancipar da tendência a enxergar a política anglosaxônica como o único modelo e referência para nossas reflexões. Em meu blog eu me permito ser dogmático a ponto de afirmar que atualmente esses modelos tem muito pouca coisa a ensinar ao Brasil e ao mundo — ainda que Mangabeira Unger pense diferente.

PS. Esqueci de falar de um aspecto sumamente importante: Podemos se financia com ajuda de seus filiados. Micro-crédito, crownfunding, venda de produtos, doações regulares, são os meios de ajudar o partido a se manter financeiramente. Tem até um Portal de Transparencia onde dá conta de como foi aplicado o dinheiro do partido.

PPS. Iñigo Errejón escreveu recentemente um artigo bem interessante em que analisa a tática comum de usar o populismo como estratégia para deter avanços democráticos, mascarando responsabilidades (ou irresponsabilidades) liberais:
(...) Este marco de convivencia, en el libro de (José María) Lassalle, habría volado por los aires fruto de una “crisis” sin nombres ni apellidos, sin decisiones concretas con ganadores y perdedores de las mismas. Un fenómeno al margen de la política, sobre el que no cabe hacerse preguntas políticas ni, por tanto, pensar alternativas, igual que sucede, por ejemplo, ante un huracán.

PPPS. Não discuto a questão independentista, importantíssima na política espanhola, porque minha preocupação é destacar aspectos mais "universais" da experiência de Podemos, em prejuízo de suas aspectos mais locais, ligados à particularidade da história da Espanha.

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