23 agosto, 2017

Eficiência: o poder da verdade científica

“A coisa boa sobre a ciência é que ela é verdadeira se você acredita nela ou não” Neil deGrasse Tyson
Encontrei no Twitter essa frase atribuída a Neil deGrasse Tyson. É uma frase forte, porque enuncia o poder da ciência. Não acreditar na ciência não faz dela menos verdadeira. É como se a verdade da ciência se impusesse mesmo sobre o seu descrédito. Mas de onde vem esse poder, de suas verdades? Pois muitas coisas podem ser ditas verdadeiras. Eu posso dizer que é verdade que 1) a sombra da lua passará por Idaho City no dia do eclipse solar, mas eu posso dizer também que é verdade que 2) nada pode ser mais rápido que a luz. A diferença entre as duas verdades é importante pra entender de onde vem o poder da ciência.

Crenças básicas (ou elementares) e crenças não-básicas: estrutura fundacionalista
Explicando genericamente a força de um enunciado abstrato tal como aquele em que se anuncia que nada pode ser mais rápido que a luz (parte da teoria da relatividade), um epistemólogo fundacionalista poderia dizer que a força e o poder da ciência se deve ao fato de estar apoiada em um sólido sistema de justificação baseado em crenças elementares verdadeira, isto é, crenças elementares verdadeiras apoiam crenças mais complexas que, por sua vez, apoiam outras ainda mais complexas, e assim por diante até que toda essa complexa série forme uma gigantesca estrutura que se apoia fundamentalmente sobre aquelas primeiras, elementares. Essas crenças elementares, na perspectiva fundacionalista, são tomadas como base de toda estrutura do conhecimento e parecem emprestar àquilo que se acrescenta a força e a solidez dessa estrutura. Assim, em certa medida, a verdade pronunciada por Einstein de que nada pode ser mais rápido que a luz está apoiada nesse amplo conjunto de crenças compartidas, todas verdadeiras, que se apoiam sobre outras mais fundamentais até que se ancorem finalmente em crenças elementares. Escolhi o fundacionismo como modelo epistêmico, mas poderia ter escolhido coerentismo — que se distingue do fundacionalismo porque não pressupõe uma estrutura fundamental universalmente compartida. Meu propósito na verdade era apenas ilustrar que os modelos epistemológicos acabam mascarando aquilo que é a premissa do meu texto: o fato de que o poder da ciência não deriva de suas verdades, mas sim da sua eficiência. Por limitarem-se a tratar da justificação (verdade é justificação), os modelos dão ares estritamente intelectuais, nobres, racionais, ao que em verdade é muito mais sujo, muito mais mundano do que se supõe. Analisar a ciência em termos de verdade e de seu entorno epistêmico, da força normativa que orienta suas práticas e regras, pode nos levar admitir uma concepção de poder restrita e romantizada, que não explica, por exemplo, o poder político e a fascinação que a ciência inspira.

Vejamos o que nos conta o outro exemplo de verdade, ligado à previsão científica sobre o trajeto da sombra da lua. O mesmo Neil deGrasse Tyson comentou esses dias no Twitter:
“O dividido Estados Unidos irá se unir hoje, acompanhando junto um evento cósmico previsto pelos métodos e ferramentas científicas”
Claro que a palavra chave aí é “previsto” (predicted), um evento cósmico previsto pela ciência. A previsão cientifica dizia: olha, a sombra (eclipse total) vai passar por Dallas, por Ontario, por Idaho City, etc. No dia do eclipse a sombra estava lá, sobre todas essas cidades. Isso é poder num sentido concreto, o enunciado da frase de deGrasse diz isso mascarando essa concretude atrás da palavra verdade: não importa se você acredita ou não no que a ciência diz, a sombra estará lá. E quando ela passar sobre as cabeças daqueles que não acreditaram nas previsões da ciência, esses terão que se justificar de alguma maneira, porque o evento de fato aconteceu (ninguém vai negar essa banalidade). Você pode acreditar em muita coisa, inclusive que o mundo vai acabar por esses dias, mas se as suas profecias não se cumprem, não se mostram eficientes, você não terá poder sobre ninguém. Moral da história: não deixe que o quase misticismo envolvido no uso da palavra verdade te impeça de lembrar que é a eficiência científica que lhe confere poder, não suas verdades — eu posso fabricar um exemplo fictício de algo imensamente eficiente, embora irredutível a um sistema de verdades, a qualquer pretensão de justificação. Imagine isso: se todo meu pedido a Deus (não importa se ele existe) fosse atendido, não importa qual fosse, você logo veria a ascensão de um poder igualmente eficiente, embora imensamente mais potente que o científicio, porque misterioso (isto é, porque não poderia ser explicado cientificamente). Poderiam testemunhá-lo não só aqueles que conhecem o complexo caminho da justificação epistemológica de um enunciado matemático apresentado no contexto da Física (poucos o conhecem e eu não estou entre eles), não apenas os iniciados em ciência, mas todo mundo, qualquer pessoa. Ou seja, da mesma forma com que qualquer um pode acompanhar a trajetória da sombra da lua num eclipse solar, mesmo que não acredite nos enunciados científicos que o predisseram. A diferença é que aqui não há explicação, cálculos e ferramentas, apenas o mistério. A base da minha perspectiva (pra quem quiser atacá-la) é a de que a força do mistério é imensamente mais abrangente e poderosa do que a do esclarecimento científico (por mais imensamente poderoso que este também seja).

(Essa é um dos pilares de uma série muito legal que eu vi nas últimas semanas: The Young Pope)

Se o caso fictício provocou incômodo, porque afinal de contas não é verdadeiro, eu pergunto: por que deveria ser? Não importa que o exemplo não seja possível. Não estou vendendo uma verdade (não sou cientista), mas sim um sentido, uma perspectiva. Estou mais próximo de um poeta que um cientista. As ficções de “Crime e castigo” me indicaram perspectivas e sentidos determinantes para minha vida (como a tanta gente, pelo que me consta). Aliás, sempre me refiro a um excelente texto de Rorty chamado The decline of redemptive truth and the rise of a literary culture que em certo sentido (e pelo que me lembro) tem algo que ver com tudo isso. Mas voltando ao tema: você poderia achar que esses eventos misteriosos não dariam lugar a um poder maior que o da ciência, é seu direito, como eu te disse, não estou vendendo uma verdade — portanto não estou acionando o mecanismo de coerção que constitui o segredo do racionalismo. Sobre isso, só posso falar (e convencer) quem já pensa como eu. Mas o sentido do meu caso fictício é mostrar (àqueles que em certo sentido pensam como eu) como seria possível construir um poder não baseado na verdade que, no entanto, fosse capaz de impor-se igualmente independente de nossas crenças. E, por isso, que o poder da ciência está baseada em sua eficiência causal e não em suas verdades.

PS. Que eu possa imaginar um caso fictício não significa que ele possa acontecer, é verdade, mas isso não importa. Às vezes a imaginação (a ficção) pode nos ajudar a entender a realidade melhor que a verdade. Um dos textos que eu mais gosto sobre Wittgenstein foi escrito por seu biográfo, Ray Monk. Nesse texto, Monk lembra uma das mais cortantes frases de Wittgenstein (que está em Cultura e valor):
As pessoas pensam, nos dias de hoje, que os cientistas existem para instrui-las, poetas, músicos, etc., para lhes dar prazer. A ideia de que estes tenham alguma coisa que ensiná-los, isso não lhes passa pela cabeça.
PPS. As verdades científicas e sua eficiência causal constituem uma mesma coisa. Suas verdades determinam sua eficiência causal. Pode ser, mas sem a eficiência causal, as verdades pouco importariam e é nesse sentido que meu exemplo bizarro (mais um), ao oferecer uma distinção fictícia entre eficiência causal e verdade, sublinha aquilo que já sabíamos: que é a capacidade instrumental da ciência que lhe investe de poder. As pessoas querem construir, destruir... controlar, não importa por que meios, não por apego ou respeito à verdade, mas por apego ao poder, pela vontade de poder. Não convém perder isso de vista quando falamos em verdades.

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