13 maio, 2017

Lula e a imprensa

Lula após o depoimento em Curitiba. Foto: Ricardo Stuckert
Seria bom que a esquerda tivesse uma alternativa que não fosse contar com a candidatura messiânica de Lula? Seria. Agora, como isso vai se dar? Tem gente de esquerda que, tendo em conta essa necessidade, tem visto com bons olhos a possível candidatura de Ciro Gomes. Tem gente que, mais à esquerda, foge de Ciro como o diabo foge da cruz. Saber o que não se deve fazer nem sempre nos ajuda a determinar como nós devemos agir. Na prática a teoria é outra.

O que parece é que tem muita gente disposta a admitir que a imprensa seja o catalisador dessa mudança necessária à esquerda e eu não consigo aceitar essa ideia. Vejamos as circunstâncias. São cinco os processos que pesam contra Lula. Certamente tem alguém melhor informado do que eu sobre os detalhes de cada processo, mas me parece que falta materialidade em todos eles. E o caso do triplex é exemplar. O monitor do debate político rastreou as notícias mais compartilhadas no dia do depoimento de Lula. Dentre elas estava uma matéria do site Spotniks que, como todos sabem, não esconde suas inclinações políticas. O título da matéria é: Se você ainda acha que não há provas contra Lula na Lava Jato, precisa ler esse texto. O texto joga com a ambiguidade da palavra prova (que tem um uso técnico no Direito e um uso cotidiano), não há nenhuma intenção de fazer uma avaliação técnica sobre o que se apresenta como “prova” e sobre como as coisas que estão ali alegadas podem verdadeiramente corresponder a provas. Li também um post de um blog da Gazeta do Povo que trazia uma confusão similar, o título do post era: Lula em Curitiba: dez pontos para você não cair na histeria (de nenhum dos dois lados), e lá dentro havia uma afirmação que também partia de uma perspectiva igualmente equivocada:
Pode muito bem acontecer de Lula ser culpado e de não haver provas suficientes para que ele seja condenado ou preso. Isso faz parte do regime democrático e querer que alguém vá preso se não houver culpa ou se não houver provas é o mesmo que defender um Estado de exceção.
Não, “não pode acontecer”. Ou você aceita os critérios da justiça, os seus ritos e processos — o que não significa que você precisa concordar com eles, já que “em nome da justiça” tem-se atropelado o processo penal — ou tudo que lhe sobra é um juízo moral sobre a culpabilidade. Ou seja, não há possibilidade de que exista um culpado se não há provas suficientes. Acho que se está formando um ambiente favorável à aplicação de um Domínio do Fato 2.0. O primeiro caso de aplicação também foi conveniente, já que parecia impensável que nenhum político fosse responsabilizado pelo escândalo do Mensalão. Mas acho que essa conveniência está se mostrando algo arbitrária.

Não se trata de defender Lula, que fique claro. As pessoas tendem a prestar atenção só no que lhes interessa. Trata-se apenas de analisar as circunstâncias num contexto mais amplo e à parte a narrativa que a imprensa tem adotado em uníssono. Por exemplo, Fernando Henrique Cardoso e o próprio Gilmar Mendes andaram defendendo a distinção entre caixa dois e corrupção. O motivo provável, livrar a barra de Aécio Neves. Logo depois do depoimento de Lula, onde até pedras puderam notar a tendenciosidade de quem deveria meramente julgar, o enfoque e a estratégia da imprensa mudou. (Lula saiu de lá fortalecido simbolicamente, a despeito dos links que circularam na internet, já que é evidente para qualquer pessoa atenta que Moro não tem presença e que não é um sujeito muito inteligente: uso sempre como parâmetro para ilustrar isso o encontro de Moro e Gilmar Mendes no Congresso; digam o que quiserem de Gilmar Mendes, mas ele é inteligente e sabe como falar e atuar, Moro diante dele parece uma criança perdida e balbuciante.) A despeito da capa deplorável da Veja e dos “coincidentes” enfoques das manchetes, a estratégia passou a ser explorar as delações dos marqueteiro do PT e de sua mulher. Eu acho que a delação premiada é um instrumento inadequado e perigoso, que tende a minar o próprio procedimento penal, mas vamos supor que há muitas verdades nessas declarações. Onde é que fica Lula na comparação com Michel Temer e seus ministros, Aécio Neves, José Serra, Geraldo “Santinho” Alckmin e outros? Como é que Lula se encaixa naquela distinção insistente e convenientemente sublinhada por Gilmar Mendes e FHC? Se a distinção serve pra alguma coisa, é difícil explicar a enorme atenção concedida a Lula pela imprensa, senão pelo propósito de desidratar sua possível candidatura em 2018.

Lula e a imprensa nem sempre estiveram em lados opostos. Todo mundo sabe que os interesses dos governos do PT e os da imprensa coincidiram não poucas vezes. E os petistas souberam se valer dessa força e desse apoio. A crítica à imparcialidade e à seletividade da imprensa, preocupada não em relatar fatos mas em mascarar opiniões com uma camada fina de verniz que mal disfarçava suas intenções, se reduziu à mera caricatura produzida pela pequena parte da imprensa adestrada e financiada pelos governos petistas. Se reduziu a caricatura sintetizada na palavra PIG (Partido da Imprensa Golpista). Mas isso não significa que a questão tenha deixado de existir. O caso é que quase impossível levantar um debate sobre o papel da imprensa na constituição do clima e das ideias que tem circulado no país sem se contaminar com as cores dessas caricaturizações, sem que alguém te tome como um crítico entusiasta do PIG. Assim o debate foi inteiramente escanteado.

E assim também nós chegamos a este cenário no qual a esquerda parece constrangida a renovar-se e a imprensa — em alguma medida, pro bem ou pro mal — parece ter um papel nessa renovação, já que pode frustrar os planos dos que (erroneamente, sob a perspectiva que eu estou apresentando) creem no plano salvacionista de Lula 2018. A gente fecha os olhos pro papel da imprensa na confecção das narrativas que tem circulado no país e assim em breve teremos um cenário no qual Lula não está, porque a pressão popular vai tornar impossível um outro veredito — talvez pensem (secretamente) alguns. Não se trata tampouco, diga-se de passagem, de constrager quem quer que seja a posicionar-se numa luta binária entre uma certa esquerda e a imprensa. Trata-se apenas de pensar se a necessidade de uma transformação e mudança no campo da esquerda deve contar com essa ajudinha. Se há algo de incompatível entre transformar as ideias e práticas de esquerda e exigir um jornalismo de qualidade, denunciar os abusos políticos e ideológicos de quem vive apontando ideologias em todo lugar. Não é segredo o apoio explícito do governo Dilma à atuação das polícias nas manifestações que tem lugar no país desde 2013, apoio que produziu entre muitas coisas a prisão de Rafael Braga. Esse é um dos pontos em que os governos petistas e a imprensa coincidiram alegremente. O caso é saber se esse lamentável acordo de interesses deve nos levar a pensar a relação da imprensa com o PT, agora, como uma espécie de justiça moral bem representada na expressão: bem feito! Isso parece traduzir mais ressentimento do que uma sólida proposta de transformação.

Não estou certo de que a imprensa tenha a força que supomos, ou de que algum dia tenha tido. Hoje em dia o Whatsapp e o Facebook parecem mais decisivos do que qualquer outra fonte de informação, e a eleição americana em alguma medida mostrou isso. Mas é certo que a imprensa continua investindo pesado para que sua agenda seja bem vista e há muitos números para aferir isso: a reforma da previdência é um bom índice. E ainda que a imprensa não seja tão poderosa quanto pensa que é, o Jornal Nacional ainda tem um forte alcance. Sua visilidade ainda causa estragos. E aquilo que o jornal elege como objeto privilegiado de crítica tem impacto nacional.

Lula tem que ser julgado com imparcialidade e ser condenado ou absolvido de acordo com as provas apresentadas, independente do imenso clamor alimentado por uma imprensa que mal esconde seu entusiasmo por projetos e agendas que não passam pela legitimidade da vontade popular (a única fonte de poder legítimo em uma democracia). Do mesmo modo, a transformação da esquerda tem que ser espontânea, do contrário não terá força para conseguir absolutamente nada. Essa transformação tem que ser conquistada, não dá pra escolher contra quem jogar. Se ela depender de que a (irônica) justiça cósmica puna Lula e o PT por terem se aproximado de tão execráveis aliados, ela já nasce abortada.

PS. Encontrei no Facebook um texto bem interessante no qual o sujeito, numa contradição performática engenhosamente planejada, crítica Lula ao tempo em que reconhece a perversidade da perseguição da imprensa.

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