28 março, 2017

O que a ciência e a religião nos contam sobre a experiência e a totalidade

Pilares da criação
6.52 Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, nossos problemas de vida não terão sido sequer tocados. É certo que não restará, nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é precisamente essa.
Acho que consegui formular uma ideia geral sobre aquilo que me atrai nesse aforismo de Wittgenstein que aparece inúmeras vezes aqui. É que aí fica evidente até onde podemos confiar na ciência, e pra quê. Vivemos numa sociedade que confia cegamente na ciência: nós a colocamos no lugar de Deus — pra usar uma imagem nietzscheana. E é fascinante que Wittgenstein, em Cambrigde, escrevendo um livro que iria inspirar o positivismo lógico, não tivesse pudores em exibir uma desconfiança tão aberta em relação à ciência.

É claro que à ciência interessa a totalidade, o todo, a experiência entendida como um continuum sem partes, tal como a experimentamos cotidianamente, ao abrir os olhos. Entendida como um projeto ideológico racional, a ciência aspira responder a todas as questões científicas possíveis, mas isso não significa nada mais do que estabelecer um controle absoluto sobre os fenômenos. Por exemplo, gostaríamos de poder compreender e unificar as forças e leis quânticas (subatômicas) às leis clássicas, de sorte que todo fenômeno possível do universo pudesse ser determinado por um conjunto de leis relativamente homogêneo. A chave dessa perspectiva é: controle — e se olharmos mais de perto: segurança. O desejo de subsumir todos os fenômenos a leis muito gerais, leis que atravessam todo o campo do possível, não é senão o desejo de mapear todos os fenômenos de acordo com a cartografia científica, de determinar todo o campo do possível, de sorte que toda a expressão momentânea do desconhecido se traduza, pela aplicação dos nossos conhecimentos, num fenômeno imediatamente conhecido, explicado e, consequentemente, controlado. A ciência é ambiciosa, sua produtividade e eficiência são colossais, mas por sua própria característica ela está sempre pouco à vontade ante um fator importante da experiência e da experiência compreendida como totalidade: o desconhecido. Para a ciência, o desconhecido é aquilo que deve ser eliminado.

(Claro, o desconhecido não é mais que uma metáfora, um modo de designar algo que está necessariamente do lado de fora e que não pode ser excluído pelo esgotamento das questões científicas.)

O aforismo de Wittgenstein não faz mais do que enfatizar que o conjunto dos objetos (e questões) possíveis da ciência não coincide com o conjunto de questões que nos parecem importantes. A experiência do mundo transcende e transborda para além dos limites da ciência e do conhecimento. É um todo maior do que a soma das partes. Para mim, isso significa que de saída o projeto científico — de controle e segurança — tem algo de profundamente ingênuo e, em certo sentido, ineficiente. Quer dizer, nós moldamos nossa sociedade e nossos modelos de produção e de relação social em função de algo que não pode se dar. E aqui uma frase de Kafka, da sua Carta ao pai, talvez possa ajudar de alguma maneira: “A vida não comporta cálculo”. Quer dizer, a experiência do controle, da subordinação dos fenômenos a regras e leis definidas pela ciência não esgota o espaço total da própria experiência, a vida. E é assim que estamos sempre e inevitavelmente diante da vida: como quem não tem ferramentas suficientes para enfrentá-la. Então a questão talvez seja abandonar essa perspectiva predominantemente instrumental que é o sentido da própria ciência. Por sua vez, o que a religião nos oferece é uma perspectiva diferente. Claro, a própria religião se contaminou com o propósito produtivo da ciência, com seu poder, de sorte que suas próprias questões parecem exigir uma explicação (pra ilustrar uma outra ocasião em que o aforismo de Wittgenstein aparece). Mas a religião tem um sentido irredutível a esse enfeitiçamento pelo poder explicativo da ciência, um sentido que nos coloca diante da experiência (e do desconhecido) de uma outra maneira. Wittgenstein sempre manifestou enorme simpatia e respeito pela experiência religiosa (Dewi Zephaniah Phillips, conhecido wittgensteiniano, escreveu um livro que há tempos quero ler: Religion without explanation). Em certo sentido, esse estar à vontade diante de um universo pleno, não fragmentado analiticamente e cindido pela barreira intransponível do desconhecido, parece caracterizar a perspectiva religiosa e marcar sua diferença com respeito à ciência.

Quando não enfetiçada pelo poder que inevitavelmente engendra, a religião, ou pelo menos uma certa perspectiva mística, parece refletir um ethos mais ajustado a uma experiência que não pode elidir essa totalidade na qual o desconhecido se integra como componente inseparável. É bem verdade que esse ethos não tem como única fonte a religião e a mística (bem o sabia Nietzsche), mas convém reconhecer, nesses tempos em que a polarização entre os apoiadores da ciência e seus supostos detratores ganha evidência, que a experiência religiosa não é uma forma primitiva, proto-científica, mitológica, de lidar com a experiência. Ela tem algo de uma sabedoria que a própria ciência parece ignorar e que, por consequência, tem desaparecido do quadro das ferramentas com que lidamos com o mundo.

As duas perspectivas (científica e religiosa) não são incompatíveis, mas a ciência tem um quê de totalitário, o que significa que entre outras coisas lamentavelmente suas limitações são cada vez menos percebidas, ainda que hoje, mais do que nunca, uma perspectiva crítica em relação à ciência seja necessária. Precisamos não apenas desenvolver uma presença não instrumental no mundo, mas reconhecer o próprio papel dos cientistas na determinação do seu panorama atual — e reconhecer que embora a ciência possa nos ajudar a alcançar todas as metas postas pela humanidade, seu instrumental não tem privilégios quando se trata de estabelecer as próprias metas.

Por fim, deixo um outro comentário interessante de Wittgenstein:
Quando alguém que acredita em Deus olha ao redor e pergunta: “De onde vem tudo isso que eu vejo?” “De onde vem tudo?” ele não está pedindo uma explicação (causal); e o propósito de sua pergunta é que é a expressão de um tal pedido. Assim, ele está expressando uma atitude com respeito a todas as explicações. Mas como isso se manifesta em sua vida? É uma atitude que toma certa questão com seriedade, mas então em determinado ponto já não lhe trata seriamente, e declara que outra coisa é ainda mais séria. Nesse sentido uma pessoa pode dizer que é muito sério que fulano tenha morrido antes de terminar um certo trabalho; e em outro sentido não tem nenhuma importância. Aqui nós usamos as palavras “em um sentido profundo”. 

Essa atitude com respeito a todas as explicações dá muito o que pensar.

PS. A ideia era comentar uma impressão causada pelo aforismo de Wittgenstein, e não o aforismo ele mesmo. Ainda que meu comentário tangencie aspectos vinculados ao aforismo, minha pretensão não era analisá-lo.
PPS. A ideia da psicanálise como uma ética (mais que uma ciência, como as psicologias comportamentais, por exemplo) me parece interessante porque ela não tem como objetivo uma cura, no sentido em que uma ciência busca uma resposta, mas uma certa atitude. Em alguma medida, apesar de tudo, essa atitude parece guardar alguma afinidade com certas questões religiosas e místicas.

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