03 março, 2017

A doença de um tempo

A forma de vida capitalista
Pra variar, não tenho conseguido cumprir a promessa de escrever mais por aqui. Pelo menos tenho conseguido escrever a tese. E, bem, na falta de algum assunto mais desenvolvido, achei mais um fragmento de Wittgenstein que convém comentar.

Há tempos me parece que o capitalismo não é mais um modelo econômico, mas uma forma de vida. O capitalismo apropriou-se de todos os extratos da vida, estendendo universalmente o domínio da concorrência, impondo a lógica do empreendedorismo como modelo subjetivo e intersubjetivo, enfim, colonizando todos os espaços possíveis e afirmando-se como eixo central e único modelo da experiência humana. Assim sendo, qualquer esforço de mudança requer armas apropriadas, não meramente a alteração do modelo econômico e produtivo, mas a transformação total de nossa forma de vida. E alguma medida é isso que está insinuado nesse comentário de Wittgenstein que, além do mais, sugere um exemplo fictício apropriado e profético.
A enfermidade de um tempo é curada pela alteração no modo de vida dos seres humanos, foi possível obter a cura para a enfermidade dos problemas filosóficos apenas por meio de um modo transformado de pensamento e de vida, não mediante o remédio inventado por um indivíduo.
Pense no uso do carro a motor produzindo e estimulando certas doenças, e a humanidade sendo assolada por tal doença até que, por uma causa ou outra, como resultado de algum desenvolvimento ou outro, abandone o hábito de dirigir.
— Observações sobre os fundamentos da matemática, i, § 23
Vamos torcer para que essa causa não seja o colapso.

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