15 fevereiro, 2017

Razões e causas: o chiste em Freud

Wittgenstein tem uma reflexão muito interessante sobre a diferença entre razões e causas. Uma das ocasiões em que se pode notar a aplicação dessa distinção é num comentário sobre Freud. Traduzi   joke por chiste imaginando se tratar de uma referência a um texto que eu li e que usava a mesma expressão.
Outra questão que Freud trata psicologicamente mas cuja investigação tem o carácter de uma investigação estética é a natureza do chiste. A questão, “Qual é a natureza do chiste”, é como a questão, “Qual é a natureza do poema lírico?” Eu gostaria de examinar de que modo a teoria freudiana é uma hipótese e de que modo não é. A parte hipotética da teoria, o subsconsciente, é a parte insatisfatória. Freud pensa que é uma parte essencial do mecanismo do chiste mascarar algo, digamos, o desejo de difamar alguém, e assim é possível que subconsciente se expresse. Ele diz que as pessoas que negam o subsconsciente realmente não podem lidar com a sugestão pós-hipnótica, ou com a ideia de despertar em um momento inusual segundo seus padrões (or with waking up at an unusual hour of one's own accord). Freud alega que usando a psicanálise nós podemos descobrir o porquê nós rimos sem saber. Eu vejo uma confusão aqui entre uma causa e uma razão. Ter clareza sobre porque você ri não é conhecer uma causa. Se fosse, então o assentimento à análise proposta como explicação sobre o porquê você ri não seria um meio de detectar a causa. O sucesso da análise deve se mostrar pelo assentimento (concordância) da pessoa. (Wittgenstein's Lectures, AWL)
Uma causa tem uma dimensão hipotética, mas não uma razão. Você pode descobrir experimentalmente uma causa, mas não uma razão. Daí que a razão porque alguém ri só possa se expressar no assentimento (na confirmação) do paciente de que a análise é verdadeira (na falta de uma melhor expressão). Causas e efeitos pertencem ao domínio empírico, da experiência. Razões e motivos pertencem ao domínio da lógica de um jogo de linguagem. Eu posso achar que sei a causa porque alguém fez alguma coisa e posso provar experimentamente a relação entre a causa e o efeito de uma ação, mas pra saber a razão porque alguém fez algo eu preciso que a pessoa a expresse — ou que confirme aquilo que eu exponho como sendo a razão.

Enquanto as causas estão relacionados com fatos que podem torná-las verdadeiras ou não, numa hipótese, razões estão relacionadas à expressão de um agente racional. A expressão manifesta a razão (como o grito manifesta a dor) ou, no caso do analista, confirma, verifica (por assim dizer) a análise proposta — não os fatos.

PS. A tradução foi feita nas coxas, apenas com o propósito de apresentar a ideia.

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