06 dezembro, 2016

A falta de alguma certeza pode levar à loucura?

ALERTA: o texto contém spoilers do capítulo 8 da primeira temporada de Mr Robot.


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“Se você realmente sabe que esta é uma mão, nós te garantiremos todo o resto”. O que significa essa enigmática frase, a primeira do livro Sobre a certeza, de Wittgenstein? Significa que as certezas são como as cartas na base de um castelo de cartas. E o exemplo utilizado para ilustrar uma certeza é a proposição “Esta é minha mão”. Se essa carta não estiver lá embaixo, se alguém retirá-la dali, todo o resto cai. No entanto, uma certeza não é um conhecimento! Ela é algo óbvio, que justo pelo fato de ser óbvio nós quase nunca notamos ou expressamos. Imagine que eu estivesse diante de você e dissesse: “Está é minha mão”. Você certamente perguntaria o que eu quero dizer com isso. É possível fantasiar e imaginar um contexto no qual essa frase tenha algum sentido, mas na maioria dos casos ela não tem. As certezas (o que é óbvio) não precisam ser mencionadas, porque elas estão sempre manifestas nas nossas ações e expressões, como condições (indeterminadas) de todos os usos significativos da linguagem.

Talvez essas distinções fiquem mais claras se aplicadas a um caso concreto. E aqui entra o fragmento de Mr Robot que eu coloquei acima. (A cena em que Elliot beija sua irmã.) Até quase a metade da cena Elliot reage normalmente. É importante realçar esse aspecto pragmático: ações, reações, atitudes — as certezas que nós temos ou não temos se manifestam fundamentalmente em nossas ações. Ele é capaz de responder a um chamado, interagir, elaborar frases complexas, manifestar desejo, reconhecê-los, toda uma série de ações e reações que identificamos em pessoas  “normais” em contextos em que a linguagem está sendo utilizada. Quando tudo isso muda? Quando ele perde sua capacidade de reação? E o que provoca isso? Tudo muda quando ele dá o beijo. Como o beijo pode ser o catalisador de uma mudança tão grande na sua perspeção de si mesmo e na percepção que as outras pessoas tem dele? Como um beijo pode fazer com que ele e os outros pensem que ele pode estar louco? O beijo mostra que ele não tinha uma certeza: a certeza de que ele estava diante de sua própria irmã. Na maioria das situações o verbo saber atrapalha mais do que ajuda, porque nós tendemos a dizer que ele não sabia que ela não era sua irmã. Mas não. Não é que lhe faltasse um conhecimento, o que lhe faltava era um certeza. A falta de certos conhecimentos nos leva a produzir afirmações falsas e agir de acordo com elas, mas a falta de algumas certezas nos leva a agir como loucos. O conhecimento (e a ciência) está associado ao binômio verdadeiro e falso — a certeza, por sua vez, está relacionada ao binômio sentido e o nonsense, e por isso também não raras vezes se associa ao par razoável e louco. A certeza é o fundamento de toda a linguagem e de todo o conhecimento, ela é tão fundamental que a própria dúvida pressupõe a certeza (só pode duvidar quem tem alguma certeza, quem não tem certezas não tem “objetos” aos quais aplicar a dúvida). Sem algumas certezas, nós não somos ignorantes, não estamos errados, mas corremos o risco de ser taxados de loucos.

Esse trecho de Mr Robot é muito interessante porque ilustra as consequências práticas da falta de uma certeza fundamental. Ele nos permite compreender de maneira muito clara que nossas ações se determinam segundo as coisas que nos parecem óbvias — e que algumas coisas tem que ser óbvias. Para todo mundo que estava assistindo o episódio o beijo de Elliot pareceu então perfeitamente significativo, normal — pois não supunha nada demais. Pensamos: “Ele se encantou por Darlene e, num determinado contexto, assumiu uma atitude mais ousada”. Mas até aquele instante o espectador, como o próprio Elliot, não sabia que Darlene era sua irmã. O espectador, no entanto, tinha razões para não ter um certo conhecimento (“não nos foi apresentado nada que nos fizesse supor um vínculo de irmãos entre eles”, seria uma razão sólida). Que razões alguém pode oferecer para, em circunstâncias normais  (sem estar drogado ou coisa que o valha), não ter a certeza de estar diante da própria irmã mesmo depois de ter falado com elas por dias a fio? As cenas que se seguem mostram Elliot pensando quase convulsivamente. Que prova mais incontestável de que estamos ficando loucos do que passar dias falando com uma pessoa sem reconhecê-la como alguém tão próximo como sua própria irmã? É uma mísera certeza, mas sua perda produz efeitos trementos.

PS. É claro que pensar certezas nessa chave ajuda a entender a loucura desde um ponto de vista lógico (sistêmico). Seria possível até arriscar uma representação tográfica de um sistema de certezas, mas bem, não vou chegar a tanto. O caso é que certas excentricidades estão sempre no limite da loucura, porque elas nos fazem questionar e refletir sobre a própria ideia de realidade.

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