30 outubro, 2016

Respeito, raiva e violência

Aprendi algumas coisas importantes quando comecei a ler Um preço muito alto, do neurocientista Carl Hart. Parte do que aprendi está relacionado à ideia de que a desigualdade, o desemprego e a falta de perspectivas (especialmente entre os jovens) contribuem expressivamente pra aumentar a violência e criminalidade. No livro, Carl Hart apresenta sua vida, a vida de um jovem negro e pobre no subúrbio de Miami. A questão das drogas é central, mas o tema está vinculado a outros pontos igualmente importantes. O vínculo entre temas os mais diversos fica claro em muitos episódios relatados. Por exemplo, em certo ponto Hart fala do uso e do gosto de usar armas. E num dos casos que ele conta parece como se o uso de armas fosse representado como um meio para fazer ver como jovens negros sistematicamente desrespeitados pelo simples fato de serem negros e pobres podiam restituir pelo medo o respeito que não lhes era concedido.

O que você faz quando vive numa sociedade que naturalizou o desrespeito, o descrédito e a suposta inferioridade atribuída a uma raça ou a um grupo social qualquer? A raiva e a revolta não parecem reações perfeitamente compreensíveis nesse cenário? Isto é, um jovem que sente que mesmo sem ter qualquer tipo de oportunidade ou assistência ainda assim é visto como uma ameaça, ou como inferior, como alguém em quem não se deve acreditar, não tem razões para revoltar-se? Muito antes de entendermos minimamente o mundo — se é que chegamos a esse ponto — nossa cabeça é bombardeada por um amplo feixe de sentimentos. O que vocês acham que sente alguém que se vê punido sem nem mesmo ser capaz de entender o que fez de errado? Quem sente a força opressiva do racismo e da segregação pela cor ou pela classe social age e reage conforme seus sentimentos, como todos nós.

A violência, mas também a raiva e a revolta, são respostas quase automáticas, que insistem em se repetir porque insistimos em ignorar o efeito de relegar jovens, geração atrás de geração, a uma condição de marginalidade. Imersas numa sociedade que fomenta um desejo que pede sempre e cada vez mais, pessoas a quem não lhes foi oferecida a oportunidade de ampliar suas perspectivas simbólicas, forçadas a trabalhar desde cedo para poder viver, submetidas a uma educação precária, mecânica e meramente burocrática, se veem incapazes de realizar e conseguir aquilo que, aparentemente, todo mundo tem ou deveria ter. Essas pessoas vivem num mundo onde viagens para países distantes, restaurantes chiques, carros luxuosos e gadgets caros e outros elementos que circulam como indicadores sociais de sucesso não estão sequer no horizonte. E a julgar pelo que nos conta não apenas a publicidade, mas a timeline de tantas pessoas em diversas redes sociais, essa são algumas das coisas que devemos almejar. Se mesmos as pessoas que tiveram todas as oportunidades de ampliar suas perspectivas simbólicas (porque tiveram tempo pra estudar, um ambiente adequado, incentivo, estímulo, etc.) não raras vezes não entendem que não é possível atingir a felicidade de shopping center, como é possível esperar que pessoas sistematicamente desrespeitadas não se sintam mortalmente atingidas pela impossibilidade de realizar algo que aparentemente todos devemos ter?

É preciso estar fechado em si mesmo, não ter nenhuma gota de empatia, para não entender a dinâmica da violência dentro de uma sociedade (consumista) que já não oferece tradições como marcos de orientação da vida. E para não ver na raiva que muitas vezes se manifesta nos subúrbios dos centros urbanos como um efeito cego de um sentimento de injustiça mais que justificado. Ou ainda para encaixar todas essas variáveis no quadro simplório de uma guerra entre bandidos e mocinhos. Quem vê a violência como guerra, ou como uma dimensão estritamente moral, está sempre entre os mocinhos. — Mas é sempre tempo de se abrir ao outro, de tentar consertar por meio de ações os efeitos de uma desigualdade mantida deliberadamente. Só a ação sistemática pode alterar normas, leis e mentalidades. É preciso enxergar o outro com respeito e lutar para não ceder à tentação de naturalizar o desrespeito. Como tantos tem insistido: a injustiça epistêmica expressa na vontade de não-ouvir, de ignorar, de menosprezar o que os outros tem a dizer pelo simples fato de eles serem diferentes, tem forte efeito epistêmico. Uma sociedade que naturaliza o desrespeito e a desigualdade será sempre violenta e nenhum guerra poderá pacificá-la.

Recortei uma cena do filme Detachment que diz mais suscitantamente a maior parte do que tentei explicar aqui:



Quando aceitamos e reproduzimos uma dinâmica social naturalizada, que nos impele a negar respeito e credibilidade às pessoas apenas por sua condição natural ou social, essas pessoas tendem a entender a vida em sociedade como uma espécie guerra e os outros como inimigos, cujo respeito deve ser conquistado ainda que pelo medo. O ciclo não pode ser quebrado senão pela restituição do respeito e da credibilidade como parâmetros essenciais do convívio em sociedade.

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