15 janeiro, 2016

O louco fala sozinho

Li espantado o que Maria Rita Kehl chama de reconhecimento da lei. O reconhecimento de que há um limite para o gozo. Segundo ela, em todas as sociedades humanas essa renúncia toma a forma da interdição do incesto. Não sei como é possível aferir essa constatação, no mínimo, curiosa. Nem de onde vem a legitimidade dessa lei não codificada — dos próprios costumes? mas tantos costumes cairam pelo caminho. Mas eu acho existe outra lei semelhante, outra interdição: não falar alto sozinho ou simplesmente não falar sozinho.

Talvez por isso a gente escreva, ensine. Para falar aos outros o que não podemos falar sozinhos. Dizer sozinhos. Talvez seja a essa a função do diálogo. Talvez por isso os loucos, em sua liberdade radical, falem sozinhos. Definitivamente por isso eu gosto do monólogo inicial de Whatever works:


PS. Claro que eu não que eu gosto do cientificismo e do nihilismo de Boris, mas o personagem do Larry David e o roteiro do Woody Allen são engraçadíssimo. É um narcisista ferido pela sua incapacidade de ver sentido nos complexos de informações que ele coleciona. Imperdível!

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