27 janeiro, 2016

Duas maneiras de ver Birth


Recomendo que vocês o assistam antes de ler o texto, pois o filme está descrito quase integralmente na postagem.

Birth foi dirigido por Jonathan Glazer, diretor de Under the Skin e de Sexy beast, filme que muita gente tem em alta conta. O filme me encantou porque apresenta uma clara tensão filosófica. Bem, se não filosófica, ao menos algo que se deixa ver desse modo. Após assisti-lo pensei que havia dois modos gerais de compreendê-lo.

O primeiro modo é o mais convencional. Trata-se de aceitar a explicação proposta no filme. O menino, que supostamente seria a reencarnação de Sean (marido de Anna), na verdade era apenas alguém que encontrou as cartas de Clara, sua amante. A partir do conteúdo das cartas, o menino, em alguma espécie de surto psicótico, decidiu fazer-se passar pela reencarnação de Sean. Esse modo de compreender o filme, no entanto, está apoiado em premissas aparentemente frágeis. Essa perspectiva se apresenta quando Clara, amante de Sean, descobre que as cartas que ela enterrou no parque haviam sido roubadas. Clara então pressiona o garoto, que também se chama Sean e que nasceu no ano em que Sean morreu, a confessar que ele roubou as cartas. O que há de sintomático aparece nesse diálogo:
Sean — Quem é você?
Clara — Pensei que você tivesse dito que era o Sean. Sou sua amante (lover)
Sean — Anna é minha amante.
Clara — Anna é sua esposa. Eu sou sua amante.
Clara — Se você fosse Sean, e eu meio que tinha esperança que fosse, você teria vindo a mim primeiro.
Além do roubo das cartas, o que restaura a normalidade das nossas crenças (que não costumam abranger a reencarnação) é a hipótese apresentada por Clara de que se o garoto fosse mesmo Sean ele a teria procurado primeiro, pois Sean a amava, conforme demonstravam as cartas trazidas como prova de que ele a amava mais, apesar dele não poder deixar sua esposa, Anna. No diálogo, no entanto, Clara diz: “eu sou sua amante” — mesmo que supostamente não acredite no que Sean diz. Sem perceber, ela se dirige ao garoto como se ele fosse Sean, seu amante. Clara está obviamente defendendo sua narrativa. Uma narrativa na qual ela é a mais amada, apesar de Sean não haver deixado sua mulher. Sob essa perspectiva, parece razoável que ela esperasse ser procurada primeiro — que ela esperasse ser reconhecida. A gente procura primeiro quem é mais importante e a reação da suposta reencarnação de Sean não se ajustava ao seu próprio modo de ver as coisas. Mas essa é uma hipótese, como outra qualquer. O que lhe dá força é a incapacidade do garoto de conciliar o amor por Anna e a constatação de Sean tinha uma amante. Mas essa dificuldade é própria a um garoto. Secretamente, nem mesmo Clara está inteiramente convencida de sua hipótese.

Vejamos então o outro modo. O filme elabora muito bem a perplexidade de todos diante da situação. A atuação de Nicole Kidman é fantástica e a do garoto, Cameron Bright, não menos soberba. Todos os parentes de Anna se mostram quase paralisados diante da situação. A reencarnação, naturalmente, quebra os nossos padrões de ação e inevitavelmente conduz a uma reavaliação de valores e crenças, se a aceitarmos. Sob essa perspectiva, o filme narra a gradativa e não sem solavancos sedimentação da crença de que o garoto trata-se mesmo de Sean na cabeça de Anna — e também de seus parentes. O ápice dessa trama é a desistência do noivado que Anna acabara de celebrar logo no início do filme.

O garoto não apenas oferece informações que dificilmente imaginaríamos contidas nas cartas a que teve acesso, mas também demonstra uma convicção e uma postura eloquentes e persuasivas. Não se trata, obviamente, de defender uma inferência ao invés de outra. O que me fascina no filme não é que ele ofereça mais elementos para que aceitemos a reencarnação, de sorte que poderíamos facilmente deduzir ou inferi-la a partir do que nos foi dado. O que fascina é justamente que não haja um propósito de responder à incerteza que nos é apresentada. Essa tensão é aquilo que eu considero filosófica. Pois diante disso vê-se que o tema, a reencarnação, não é mais que um aspecto secundário. O filme trata da construção de narrativas e dos limites impostos por crenças gerais — o que Wittgenstein chama de sistema de crenças — às alterações possíveis de uma narrativa. O propósito do filme não é responder, senão tensionar cada vez mais a questão que apresenta. Se a solução do filme não basta para que aceitemos a explicação proposta (a restauração da normalidade), fica então mais evidente seu pendor filosófico e sua qualidade artística.

Na postagem anterior, quando apenas mencionei o filme e sugeri a vocês que o assistissem, disse que ele realizava melhor que meu artigo o propósito de provocar uma reflexão. No meu artigo ¿Hemos ido a la Luna? a temática é muito semelhante, embora, claro, eu não me contenha em provocar. A questão é saber: se as nossas crenças fundamentais forem ameaçadas, o que fazemos? Para quem ou ao que apelamos? Podemos apelar a razões quando os próprios alicerces de interrogações ou afirmações racionais se veem ameaçados?

PS. A primeira cena do filme, o diálogo (ou o monólogo) no qual se ouve apenas a voz de Sean (o marido, professor de física aparentemente avesso a toda sorte de explicações paranormais), é uma peça importante nesse quebra-cabeças.

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