17 dezembro, 2015

Palpite pra eleição espanhola

Ontem pensei em deixar aqui registrado meu palpite pra eleição na Espanha. A votação será no domingo, dia 20. As pesquisas apontavam que o Partido Popular e o Ciudadanos juntos eram capazes de formar maioria. O PP aplicou a austeridade exemplarmente. Cortou tudo e em todos os lugares, mas não conseguiu tirar a Espanha de uma situação econômica delicada, apesar das melhoras recentes. As melhoras se devem mais à mudança do ambiente econômico europeu que aos efeitos salutares da austeridade, dizem alguns economistas. Apesar disso, o PP segue liderando as pesquisas de intenções de votos. As explicações se repetem: os conservadores são mais assíduos, dizem alguns — mas isso pode explicar resultado de um eleição, não de pesquisas. Há que considerar que o PP é um pouco como o nosso PP, herdeiro das tradições ditadoriais (franquista), e tem seus simpatizantes. E que ademais a Espanha é um país que ainda enfrenta problemas de natalidade e que tem uma população envelhecida (o que provoca, por consequência, problemas na manutenção no sistema de previdência social).

Bem, o caso é que o PP já faz parte do moldura política espanhola. O que surpreende é o Ciudadanos. Meu palpite para o domingo seria: acho que o Ciudadanos veio para renovar o ar viciado do PP, para emprestar um quê de novidade e juventude ao mesmo, ao de sempre. Isto é, Ciudadanos é um partido novo, com rostos novos, sem máculas (o PP está envolvido em inúmeros casos de corrupção), mais disposto a engajar-se em debates caros à juventude e às pessoas de mentalidade mais aberta (apesar de algumas cagadas, como essa). Assim, parte do eleitorado desencantado com o PP teria a opção de uma mudança sem muitas mudanças. O sonho de todo eleitor ordinário é promover uma mudança sem mudar absolutamente nada (o Brasil da "Carta ao povo brasileiro" que o diga, não é mesmo?). E o Ciudadanos é a mais perfeita representação desse projeto. É o PP rejuvenecido, penso eu. (Há que reconhecer que a figura do Alberto Rivera é mais simpática e mais aberta que qualquer uma das figuras do PP). A meu ver a posição do partido nas pesquisas eleitorais se deve não apenas ao desencanto e desgaste natural do PP, mas também à velha estratégia de orquestração do medo. No Brasil é assustador o número de pessoas que usam a luta contra o comunismo como argumento para apoiar discursos, partidos e figuras de caráter duvidoso. Na Espanha não é diferente. Quando é preciso inspirar medo em crianças o “bicho da cara preta” é uma figura empregada com frequência. Quando é preciso inspirar medo em adultos,  “bolivarianismo”, “comunismo” são as melhores opções. Também na Espanha a estratégia do medo foi usada à exaustão contra Podemos, especialmente porque parte da diretoria do partido trabalhou com governos latino-americanos e, principalmente, com Hugo Chavez. Medo, vontade de mudança (pero no mucho), desencanto, tudo isso parece contribuir para a ascensão do Ciudadanos e para a queda do Podemos registrada em pesquisas anteriores. As pesquisas na Espanha não são tão confiáveis. Não que as do Brasil sejam, mas me parece que as daqui flutuam demasiado. No entanto, nos últimos dias, quando se encerra o período em que é permitido fazer pesquisas, o quadro parece ter mudado. Podemos reapareceu como terceira força e o Ciudadanos caiu. Somado a este novo cenário, uma declaração recente de Alberto Rivera alterou meu palpite, o líder do Ciudadanos disse que “apoyar al PP o al PSOE tras el 20-D sería defraudar a la gente”.



Se Rivera estiver falando sério, o PP está em maus lençóis, porque sem maioria absoluta ele precisará do apoio de outros partidos se quiser continuar governando. O cenário, portanto, favorece Podemos. A coisa toda está aberta e não descarto nem mesmo, a julgar pelo enfrentamento de Podemos e Ciudadanos, que eles negociem um apoio para um eventual governo de Podemos — com ajuda do PSOE. Podemos apoiou o PSOE em muitas prefeituras da Espanha, embora não tenha participado em nenhuma delas. Do mesmo modo, PSOE ajudou a transformar Manuela Carmena em prefeita de Madrid — para desgosto de Esperanza Aguirre, do PP. Repito, a eleição continua aberta e acho que os palpites são ainda mais arriscados na política espanhola, sem o respaldo da sondagem constante das pesquisas, como acontece no Brasil, mas o cenário parece animador para Podemos e sobretudo para quem se ver livre do abominável Partido Popular. Como dizem os espanhóis: a ver!

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