02 outubro, 2014

O mito do dado: o ideal e o possível

O mito do dado persiste em muitas outras área, além da epistemologia. Na política sua força ainda é incrível. Quando distinguem entre o ideal e possível, muitos não se dão conta de que a distinção já é uma operação política (e ideológica). Esquecer a dimensão construtiva dessa diferença produz não apenas o engessamento das possíveis ações políticas, mas também oferece a justificativa frequentemente necessária para que certas ações se limitem a um padrão insatisfatório.

“Não é o ideal, mas é o possível” é uma típica afirmação que separa utópicos e sonhadores de gente pragmática, comprometida não com sonhos irrealizáveis, mas com a construção de condições materiais reais que tornam possível o que quer que seja.

Recordando que a própria distinção não está dada, mas que se constrói ao longo do tempo, podemos indicar o que há de conservador nas escolhas dos mais (autointitulados) progressistas — e rechaçar a apressada (e conveniente) recusa em considerar opções mais “radicais e idealistas”. O comentário de Glyn Daly sobre algumas ideias de Zizek ilustra muito claramente essa tática:
Crucial aqui é o estatuto da categoria do impossível. Para Zizek, a impossibilidade não é um tipo neutro de categoria que tendemos a encontrar em Laclau e Mouffe (como em sua tese da impossibilidade da Sociedade) onde ela costuma indicar uma fronteira básica constitutiva do antagonismo. Como os marcadores imanentes do Real, a impossibilidade é apanhada na ideologia e se configura de tal modo que estrutura a realidade e determina as coordenadas do que é efetivamente possível. Como afirma Zizek nesse livro, além da operação ideológica prima facie de traduzir a impossibilidade num obstáculo externo, há ainda um estágio mais profundo nessa operação, isto é, a “própria elevação de algo à impossibilidade, como maneira de adiar ou evitar o encontro com ele”. A ideologia é o sonho impossível, não apenas em termos de superar a impossibilidade, mas em termos de sustentá-la de uma forma aceitável. Ou seja, a ideia de superação é sustentada como um momento adiado de reconciliação, sem que seja preciso passar pela dor da superação como tal.
Aqui, a questão central é de proximidade, e manutenção de uma distância crítica, pela manutenção da Coisa em foco (como a imagem numa tela), mas sem chegar tão perto que ela comece a se distorcer e a se decompor. Um exemplo típico seria o de alguém que fantasia sobre um objeto real (um parceiro sexual, uma promoção, a aposentadoria, etc) e, quando efetivamente o encontra, confronta-se com o Real de sua fantasia: o objeto perde sua idealidade. O ardil (ideológico), portanto, está em manter o objeto a uma certa distância, a fim de sustentar a satisfação derivada da fantasia: “se eu tivesse x, poderia realizar meu sonho”. A ideologia regula essa distância fantasística, como que para evitar o Real no impossível, isto é, os aspectos traumáticos implicados em qualquer mudança real (impossível).
Arriscar o impossível, Zizek e Glyn Daly
A despeito dos objetivos precisos do comentário, o que me interessa aqui é justamente esse ardil que consiste na manipulação das fronteiras entre o possível e o impossível (e o ideal), como estratégia para congelar a possibilidade de qualquer ação que vise mudanças. É em função dessa fronteira supostamente real entre o possível e o impossível que se descarta como ilusórias, ingênuas, irreais, qualquer alternativa política que não se oriente por parâmetros definidos dentro do plano estático de uma ideologia que estrutura a realidade conforme sua própria conveniência. É essa a justificativa fundamental dos que acusam de sonhador delirante quem não aceita seus parâmetros reais.

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