16 outubro, 2014

Exercício de imaginação: o campo do possível num governo do PSDB

Não estou seguro de que já foi possível algum dia acreditar em pesquisas eleitorais, no entanto, esse ano elas indicam que a vitória será apertada, seja quem for o vencedor. Vamos supor que Aécio vencerá, apenas para exercitar um pouco a imaginação. Se isso acontecer, o campo do possível nos quatro anos vindouros, na minha opinião, será mapeado a partir de dois extremos que eu indico em seguida.

Num desses extremos o PSDB leva a cabo uma política com um forte verniz social-democrata. O PT ensinou que é possível conciliar benefícios aos de sempre com investimentos sociais e atenção aos menos favorecidos. Afinal de contas, o pacto conservador está na base da condições que favoreceram a vitória e a manutenção do PT na presidência. Se o PSDB fizer isso, empurra o PT para uma situação extremamente desconfortável. Uma observação corrente sugere que o PT, ao assumir a presidência, lança o PSDB numa vazio programático e ideológico ao implementar sua própria agenda social-democrata. “O PT fez do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) uma oposição sem programa e sem sentido. Parafraseando o Marx, pode-se dizer que é triste o partido que, na oposição, vê o seu programa ser implementado pelo adversário”, escreve Felipe Demier. Se o PSDB reassumir (por assim dizer) seu posto, para onde vai o PT? Não pode voltar pra esquerda de onde veio, pois gastou farta munição tachando de ingênuos os partidos de esquerda que lhe cobraram a manutenção de certas bandeiras históricas mascateadas em nome da famosa governabilidade. (Realpolitik versus DCE). Se voltar, será constrangedor, para dizer o mínimo. Mas se insistir em disputar o posto com o PSDB, corre o risco de enfrentar o seguinte problema: será a cópia comparada ao original. Por maior que tenha sido o benefício que o PT concedeu a certos grupos e agentes econômicos em nome do pacto conservador, ele nunca será senão tolerado na condição de gestor dos assuntos que importam às gentes que determinam aquilo que deve importar. Para usar uma imagem elaborada nesse mesmo texto de Felipe Demier (texto em que ele comenta as prisões de Dirceu):
O burguês ordinário porta-se, assim, com José Dirceu tal qual um nobre o faz com um arrivista plebeu que cativou o coração de sua bela filha: não havendo opção, o galante pode até ser aceito na casa, mas não é da família e, na primeira crise conjugal, há que ser posto pra fora de onde nunca deveria ter entrado. Por mais que tenha prestado enormes serviços à burguesia brasileira, Dirceu não é um lídimo filho dela e, do mesmo modo que uma empregada doméstica pode até jantar na mesa da sala, mas não deve dar pitacos nas temáticas encetadas na refeição, Dirceu não deveria ter ousado mostrar aos políticos da classe dominante como realmente se defende os interesses desta. Esperto, capaz e jactancioso, Dirceu talvez tenha ido longe demais nos serviços prestados à nossa oligárquica burguesia.
O PT será sempre o plebeu consentido na casa do nobre e sua timidez em implementar e aprofundar políticas de esquerda — justificada em nome da governabilidade e dos acordos que lhe são necessários — aproximaram perigosamente sua própria imagem à do PSDB. Não é raro escutar um petista alegando que a infantilidade do PT em outros tempos foi um erro, numa espécie de autocrítica pra lá de conveniente. Um das ocasiões em que essa infantilidade poderia ser exemplificada é o caso da CPMF (ou IPMF). O PT se opôs frontalmente ao imposto para, anos depois, brigar pela manutenção da contribuição. A aproximação que está apenas insinuada nesse episódio, e que poderia ser indicada em muitos outros, fere a própria identidade do partido. E não se trata, obviamente, de sustentar uma tese sobre ela (da qual eu abro mão no momento em que me acusam de sustentá-la, para não embarcar na tergiversação). Quero somente sugerir que é bastante provável que, para além do circo montado ao redor da polarização tucanos versus petralhas, as ações de ambos os partidos sejam enxergadas como inegavelmente semelhantes. Por fim, com um pouquinho de inteligência o PSDB pode inverter o jogo que foi obrigado a jogar nos últimos 12 anos.

No outro extremo o PSDB age como se espera e rifa até o horizonte de uma social-democracia. Não parece uma opção improvável, já que há pouco indício de inteligência à frente do partido e considerando que a opção já foi aventada. Nesse caso o PT pode nadar de braçadas. Esperará quatro amargos anos para lembrar os brasileiros que o PSDB é aquilo que o partido sempre sugeriu: o grupo de representantes de oligarquias que estão pouco se lixando para as outras classes que compõem o país. Lula poderá aparecer em 2018 para completar o quadro salvacionista e restaurar os tempos em que as classes menos favorecidas eram minimamente contempladas e consideradas (enquanto os ricos se banqueteavam entre queixumes e reclamações sobre a quantidade de pobres no aeroporto).

O painel pode parecer simplificador, e é. A ideia é apenas delinear duas linhas que me parecem determinantes na orientação da política nacional no caso de vitória de Aécio. E, adicionalmente, para sugerir que qualquer alternativa mais elaborada e promissora para pensar o Brasil passa longe da opção de tensionar ainda mais a pouco frutífera polarização PT/PSDB (isso melhorou a democracia americana?). Fica como pressuposto do texto a ideia de que — por uma série de fatores que estão sugeridas, ao longo do texto, para os olhos bem treinado — uma continuidade do PT no governo não representa nenhum ganho significativo, embora eu me isente do enfado de determinar qual é o menos pior dos dois partido (o que seria muito apropriado e conveniente para um período em que todos estão caçando pareceres para justificar as escolhas que professam). Voto é representação e esse tipo de cálculo convém somente a alguém que ainda admite ser representado por algum dos dois partido, o que não é o meu caso.

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