01 dezembro, 2013

Fraqueza como liberdade, impotência como mérito

(...) — que as ovelhas tenham rancor às aves de rapina não surpreende: mas não é motivo para censurar às aves de rapina o fato de pegarem as ovelhinhas. E se as ovelhas dizem entre si: “essas aves de rapina são más; e quem for o menos  possível ave de rapina, e sim o seu oposto, ovelha — este não deveria ser o bom?”, não há o que objetar a esse modo de erigir um ideal, exceto talvez que as aves de rapina assistirão a isso com um ar zombeteiro, e dirão a si mesmas: “nós nada temos contra essas boas ovelhas, pelo contrário, nós as amamos: nada mais delicioso do que uma tenra ovelhinha”. — Exigir da força que não se expresse como força, que não seja um querer-dominar, um querer-vencer, um querer-subjugar, uma sede de inimigos, resistências e triunfos, é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse como força (...) o povo distingue o corisco do clarão, tomando este como ação, operação de um sujeito de nome corisco, do mesmo modo a moral do povo discrimina entre a força e as expressões da força, como se por trás do forte houvesse um substrato indiferente que fosse livre para expressar ou não a força. Mas não existe um tal substrato; não existe “ser” por trás do fazer, do atuar, do devir; “o agente” é uma ficção acrescentada à ação — a ação é tudo (...) não é de espantar que os afetos entranhados que ardem ocultos, ódio e vingança, tirem proveito dessa crença, e no fundo não sustentem com fervor maior outra crença senão a de que o forte é livre para ser fraco, e a ave de rapina livre para ser ovelha — assim adquirem o direito de imputar à ave de rapina o fato de ser o que é... Se os oprimidos, pisoteados, ultrajados exortam uns aos outros, dizendo, com a vingativa astúcia da impotência: “sejamos outra coisa que não os maus, sejamos bons!  bom é todo aquele que não ultraja, que a ninguém fere, que não ataca, que não acerta contas, que remete a Deus a vingança , que se mantém na sombra como nós, que foge de toda maldade e exige pouco da vida, com o nós, os pacientes, humildes, justos” — isto não significa, ouvido friamente e sem prevenção, nada mais que: “nós, fracos, somos realmente fracos; convém que não façamos nada para o qual não somos fortes o bastante”; mas esta seca constatação, esta prudência primaríssima, que até os insetos possuem (os quais se fazem de mortos para não agir “demais”, em caso de grande perigo), graças ao falseamento e à mentira para si mesmo, próprios da impotência, tomou a roupagem pomposa da virtude que cala, renuncia, espera, como se a fraqueza mesma dos fracos — isto é, seu ser, sua atividade, toda a sua inevitável, irremovível realidade — fosse um empreendimento voluntário, algo desejado, escolhido, um feito, um mérito. Por um instinto de autoconservação, de auto- afirmação, no qual cada mentira costuma purificar-se, essa espécie de homem necessita crer no “sujeito” indiferente e livre para escolher. O sujeito (ou, falando de modo mais popular, a alma) foi até o momento o mais sólido artigo de fé sobre a terra, talvez por haver possibilitado à grande maioria dos mortais, aos fracos e oprimidos de toda espécie, enganar a si mesmos com a sublime falácia de interpretar a fraqueza com o liberdade, e o seu ser-assim como mérito. (em negrito, meus grifos)
Eis quase todo o parágrafo 13 da primeira dissertação da Genealogia da moral, de Nietzsche. O que ele não nos deixa esquecer aí é o recurso pelo qual a ação é, não apenas separada, mas feita algo posterior ao próprio sujeito que a realiza. Como se, numa operação de caráter idealista, o próprio sujeito, como unidade sintética das ações, fosse tornado algo mais real que as ações elas mesmas. E assim poderíamos dar lugar à ilusória liberdade em vista da qual condenamos a ave de rapina por não ser... ovelha. Não por acaso Nietzsche declarou que era preciso proteger os mais fortes, dos mais fracos. O ressentimento venenoso que secretam as criaturas incapazes de qualquer atividade que manifeste força ameaça converter em virtude a fraqueza, como se ela fosse ao final não um ser-assim, não a única opção disponível a quem não é forte o bastante para agir de outro modo — mas uma escolha, uma liberdade, um mérito.

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