17 novembro, 2013

O gosto ruim do remédio

Respondendo aos comentários dos amigos de um amigo sobre o comportamento de policiais que posaram ao lado de um cadáver, como se estivessem exibindo um troféu, chegamos ao ponto quase inevitável de uma discussão sobre o papel da polícia: aquele em que se apela para a empatia — ou para a suposta falta dela — diante da violência sofrida por terceiros. Isto é, sempre chegamos ao momento em que se alega que reprovar o trabalho da polícia (mesmo em aspectos particulares) é apenas não se colocar no lugar daqueles que sofrem ou sofreram com a violência. Já escrevi sobre a confusão entre vingança e justiça, sem deixar de reconhecer que certas circunstâncias não só inspiram sentimentos vingativos, como também atenuam, do ponto de vista da lei, as ações praticadas sob essa inspiração; e sem deixar de reconhecer que eu mesmo sou extremamente vingativo. No entanto, chega a ser quase cômico que, no Brasil, e particularmente na Bahia, terra onde nem mesmo o comandante-geral da Polícia Militar está a salvo do crime, alguém possa ser acusado de não ser sensível às pessoas que sofrem com a violência. Trocando em miúdos, diferente do que faz crer esse argumento pedestre, não creio que nenhuma classe em Salvador esteja imune à violência e ao crime a ponto de se dar ao luxo de não entender o significado dos seus efeitos. Direta ou indiretamente, quase todos já se viram envolvidos em histórias desse natureza.

Mas é claro que seria ingênuo esperar empatia pelos criminosos. Grande parte do que constituí a plataforma da recusa em permitir/reconhecer qualquer direito (mesmo os mais básicos e humanos) aos criminosos consiste na boba e patentemente inverídica afirmação de que eles tem mais direitos do que o “cidadão de bem”. A afirmação reflete a prevalência de uma mentalidade punitivista que, no seu afã vingativo, chega a distorcer a triste realidade da quarta maior população carcerária no mundo. Os números não deixam dúvidas de que também o Estado abraça o punitivismo (seletivo, diga-se de passagem) manifesto pela população.

A antipatia pelos criminosos — que não podemos deixar de julgar em certo sentido compreensível —, no entanto, faz outras vítimas. No intuito de proteger a atuação ilegítima, ilegal, que notoriamente tem se tornado a constante no comportamento das polícias, as pessoas tem transformado as vítimas do trabalho policial em efeitos colaterais, no gosto ruim do remédio. Ou seja, racionalizam ou simplesmente ignoram a violência sofrida e a morte de pessoas em nome da manutenção de uma abordagem claramente ineficiente no trato com a criminalidade. No final das contas, a discussão acaba reduzida ao simplificador conflito entre os que antipatizam e os que supostamente empatizam com os criminosos. Como se, entre outras coisas, exigir uma postura diferente dos policiais fosse o mesmo que colocar os criminosos em primeiro lugar, escanteando as vítimas — e como se a reversão do cenário de violência que enfrentam as grandes cidades encontrasse no incremento da violência policial um modo de se realizar. A fórmula é nossa velha conhecida: quanto mais rigorosa a punição, menos convidativa a prática do crime. Essa posição, representativa do impulso punitivista, não passa sem ser mencionada em qualquer discussão do gênero e está mesmo representada em vídeos na internet. Mas a empatia pode ser útil no contragolpe, pois nesse quadro em que crítico da violência policial é acusado de preferir o criminoso e não ser sensível às vítimas da violência, a única verdadeira interdição é aquela que impede que os defensores da polícia respondam e reajam à morte das pessoas sem qualquer envolvimento com crimes. Que reajam de uma maneira que não seja pela mera racionalização da violência como efeito colateral, pois essa resposta generalista é ofensiva, na medida que aplaina casos distintos sob uma mesma desculpa, sem distinguir o o razoável (aqueles casos em que talvez pudéssemos falar em efeito colateral) do absurdo. A partir disso poderíamos então inverter o jogo e dizer às mesmas pessoas: “Vocês só agem assim porque os filhos de vocês não foram mortos, torturados ou perseguidos pela polícia!”.

Se sobra empatia para as vítimas da violência dos bandidos, falta para as vítimas da violência das polícias, transformadas em meros dados a serem administrados no cálculo da guerra contra o crime. E toda antipatia pela polícia, produto dos sistemáticos dos abusos de autoridade, é convertida estrategicamente em simpatia pelos criminosos. Desse modo, vê-se que um dos mais nocivos efeitos da violência é o componente desagregador que ela instala entre as partes que deveria atuar conjuntamente para refletir sobre a ela. Isolados em grupos, deixamos de ser capazes de perceber o aspecto subjetivo de quem quer que não esteja no conjunto das pessoas que estimamos. Todo o resto é estatística, mas nossos entes, somente o terror da arbitrariedade policial pode afastá-los do risco de que eles também se tornem parte das estatísticas. (Criamos assim como que ilhas de empatia, dentro da quais instalamos algumas pessoas e fora da quais, quer bandidos, quer vítimas da polícia, são tratados, cada um à sua maneira, com indiferença). Por fim, talvez de fato a empatia seja uma palavra chave, como queriam aqueles que denunciavam a “insensibilidade” dos defensores dos direitos humanos. Se não a empatia pelos presos, que ainda demanda uma elaboração mais complexa do que agora pode realizar a nossa sociedade, ao menos a empatia pelas vítimas da violência policial, que, em todos as cidades do Brasil e especialmente nas periferias, atestam o fracasso do sistema de segurança pública e de qualquer tática (se ela existe) para lidar com a desigualdade no país. Precisamos nos sensibilizar pela dor do menino Joel, ou de Douglas, e entender que esse sofrimento é um convite a refletir sobre as coisas erradas, e não um pretexto para continuar apostando no que não dá certo.

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