28 outubro, 2013

Black blocs e a violência política

Polícia Militar sempre foi isso aqui!

Não adianta não ler os grandes jornais, se eles continuam orientando seus pontos de vista. Dizendo o que é prioritário, o que não é, e o que deve ser posto em segundo plano. Não adianta, se você não tem autonomia em relação à perspectiva que eles moldam. Em junho encenou-se a tática de transformar um único policial ferido numa espécie de mártir. Não colou! Agora um novo eleito foi alçado a essa condição e recebeu manifestações de solidariedade dos mesmos atores políticos que se calaram frente à brutalidade da violência empregada para reprimir manifestações.

PT e PSDB, amor pra sempre.

Nesse contexto, alguns insistem em discutir a legitimidade ou eficiência da tática Black bloc, como se tudo que representa o que a polícia militar tem feito com aval das autoridades públicas desde junho fosse secundário frente à ameaça à democracia representada pelos Black blocs (fascistas, dizem eles). O nome disso é tergiversação. Não conheço ninguém que tenha tomado como ponto pacífico a agressão dirigida a pessoas. O que se faz, isso sim, é apontar a descomunal desproporção entre as ações, mesmo que aceitemos tachar como erradas e injustificadas certas ações do Black bloc. Por que deveríamos tratar a agressão ao coronel como fato primordial e não mera casualidade do conflito? O que se faz, isso sim, é entre dois debates possíveis, priorizar aquele que diz respeito a atuação ilegítima e criminosa de agentes públicos que deveriam ser responsáveis pela manutenção da lei que eles violam abertamente e sem reservas mesmo em frente às câmeras -- sem medo de punição que, eles bem sabem, não virá enquanto estiverem defendendo as posições políticas dos seus comandantes.

Jornalistas que ficaram cegos pela ação a PM, eles inspiraram solidariedade, reflexão sobre as ações da PM ou pelo menos punições aos envolvidos?

Por que esse fato quantitativamente irrisório e qualitativamente brando (se comparado à morte, cegueira, tortura e outras violências patrocinadas pela PM desde junho) deve ser o catalisador de uma discussão que não aconteceu e não acontece quando os agentes públicos que tem como dever profissional zelar pela lei violam mesmo os direitos mais elementares, partilhados por qualquer democracia, a despeito de seus diferentes ordenamentos jurídicos?

O PM que forjou apreensão da foguetes tratando delicadamente professores no Rio.

Até mesmo a estapafúrdia alegação de que já sabemos o que esperar dos PMs foi usada como excusa para reorientar o debate em função da agressão ao coronel. Como se, naturalizada a violência da PM, tivéssemos que concentrar esforços nos componentes da sociedade ainda passíveis de correção.

Sob o meu ponto de vista, se as ações dirigidas contra os que tem detém o monopólio pretensamente legítimo da violência devem ser noticiadas, as ações dirigidas contra os outros grupos igualmente. Tanto mais quanto elas forem maiores em número, frequência e gravidade. Qualquer outra atitude é injustiça manifesta. Reproduzir o discurso estabelecido pela imprensa de maneira geral é calar frente ao silêncio que ela tem imposto sobre a violência que, sempre presente nas periferias, eclode a olhos vistos em frentes as câmeras, nos centros das cidades. Diante desse desnível incontestável, facilmente verificado pela simples pergunta: “quantas pessoas foram agredidas por Black blocs?”, querer chamar a estratégia tergiversativa, o engodo que é transformar o episódio do coronel no estopim de algum debate que deveria acontecer, chamar tudo isso de tratamento equânime e de justiça é algo semelhante à falsa equivalência por meio da qual os defensores da ditadura sugerem, no cenário improvável da derrocata de lei de anistia, a necessidade de julgar também aqueles que a combateram. Faltante esse senso de proporção e justiça, dificilmente é possível entender a complexidade do debate de hoje.

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