03 setembro, 2013

O editorial d'O Globo: um jeito estranho de reconhecer erros

O Globo publicou um editorial no qual reconhece que o apoio à ditadura foi um erro. Faço aqui um breve comentário a respeito:

O editorial é covarde. Ao listar outros veículos de comunicação que também apoiaram a ditadura, para além da preocupação descritiva, O Globo rateou subrepticiamente parte da responsabilidade -- ao melhor estilo: "mas não fomos os únicos". Não bastasse isso, há também uma clara tentativa de legitimação.
Fez o mesmo parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais.
Parece muito conveniente que, querendo fazer o que lhe convém, o jornal tenha enxergado nas circunstâncias de então as justificativas de suas ações. No entanto, poderia sem contradição julgar que as manifestações espelhavam a vontade de parte, mas não da maioria da população brasileira, e assim ver frustrado seu intuito de justificar suas opções. Preferiu enxergar o que lhe convinha e, mais uma vez, uma alegação funciona como solvente de parte da responsabilidade que caberia a quem supostamente está reconhecendo um erro.


O jornal erra também ao não lamentar que a declaração tenha vindo antes. O desinteresse em geral indica autonomia, é o que atesta que a ação não seja um mero lance num cálculo que visa atingir objetivos escusos àqueles aparentes. Ora, temos razões para não crer que a declaração d'O Globo não é a mera resposta oportuna à hostilidade crescente que a marca inspira? Que recentemente culminou, para ilustrar, no estrume lançado contra o nome da Rede Globo. Se tivesse vindo antes, a declaração teria dissipado o sabor de oportunismo que agora faz minguar sua força simbólica. Nesse momento, parece uma jogada estratégica conveniente, para limpar a barra da Globo, e não a franca expressão de arrepedimento ou o reconhecimento sincero de erros e equívocos.

Sem falar que o texto está prenhe de contradições. O perigo de uma “república sindical” ou as ameaças à democracia são combatidas com... um golpe? Democracia é o que acontece no interior do espaço instaurado pelas regras e instituições democráticas. Violar tais regras em nome da democracia é sofismar. Um editorial que se pretende documento de uma confissão de erro não pode ser tão pedestre em sua mal disfarçada sanha justificatória. Tampouco a alegação de que os militares prometeram uma “intervenção passageira” serve de justificativa. O editorial abusa da inteligência do leitor ao, além de tudo isso, pintar o jornal e aqueles que ele representa como crédulos enganados pelas promessas dos militares.

Por fim, o desejo de saudar a iniciativa, depois de reflexão superficial, dá lugar ao sentimento desconfortável provocado por essa esforço grosseiro e reincidente de manipulação, essa tentativa canhestra de alegar responsabilidade sem oferecer nenhum elemento de culpa, mas, ao contrário, distribuindo sempre que possível o peso das escolhas ora nos ombros do povo que apoiava o movimento, ora nas costas de outros jornais que fizeram o mesmo e, por fim, na conta da própria democracia, em nome da qual tudo foi feito.

Patético é a palavra adequada.

Atualização 1: O Jornal Nacional também apresentou as mesmas justificativas.

Atualização 2:  JB publica carta do Gal. Clóvis Bandeira. A julgar pelo ataque do general à declaração do jornal, acho que não resta dúvidas sobre seu real posicionamento e intenções.

2 comentários :

Rafael Galvão disse...

Eu não entendi a razão do editorial. Fiquei pensando se a Comissão da Verdade não desenterrou alguma coisa muito cabeluda e a Grobo tentou se antecipar. Não sei.

Leonardo Bernardes disse...

Acho que a gente não pode descartar a possibilidade de ter sido realmente uma canhestra tentativa de "limpar" a barra da Globo diante dessas manifestações que tem certamente atingido sua imagem, sobretudo pela própria alegação contida no texto:

"Não lamentamos que essa publicação não tenha vindo antes da onda de manifestações, como teria sido possível. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário."

Junto com todo o texto, esse fragmento aí foi só mais um pedaço que mal disfarça suas reais intenções.