02 outubro, 2012

O voto nulo

O voto nulo tem uma ambiguidade característica que talvez explique tanto seu poder atrativo quanto a repulsa que causa.

Talvez a informação acima ajude algum eleitor indeciso.

Por um lado há um aspecto simbólico forte (embora não necessariamente eficiente) ligado ao desinteresse pela classe política, à reprovação das atitudes e ações de parte dos representantes políticos eleitos até hoje. Nesse sentido, é algo interessante, na medida que pode refletir o sentimento indiscutivelmente amplo e comum. (Tenho dúvidas se mesmo um alto percentual de votos nulos pode surtir algum efeito que não seja a previsível constatação de que os brasileiros não morrem de amores pelos seus representantes). Transparecer o asco inspirado pela política (atual?) é sem duvida uma forte tentação!

E isso nos leva ao outro lado da moeda: é claro que não se espera que os comportamentos expressivos tenham sempre um objetivo prático concreto --  o voto nulo é um tipo de expressão de descrença e desesperança na classe política --, todavia, no ambito político (também) a ausência de tais objetivos pode denotar algo mais de nossa própria maneira de lidar com as questões políticas e sociais. Bem, para esclarecer meu ponto vou me servir de uma analogia entre o voto nulo e a esmola, a partir de um seguinte fragmento de Sabato:

(...) Un ejemplo de todos los días: la gente que da limosna; en general, se considera más generosa y mejor que la gente que no las da. Me permité trata con el mayor desden está teoría simplista. Cualquiera sabe que no se resuelve el problema de un mendigo (de un mendigo auténtico) con um peso o un pedazo de pan: solamente se resuelve el problema psicológico del señor que compra así, por casi nada, su tranquilidad espiritual y su título de muy generoso.
Ernesto Sabato, El tunel. (grifos meus)
Além de ser uma ideia interessante sobre a esmola, o fragmento permite estabelecer uma analogia com o voto nulo. Será que não se pretende com ele apenas alcançar a tranquilidade espiritual de não se saber parte dessa corja, do esgoto atribuído à classe política? (E o salvo conduto para depois descer a ripa a torto e a direito?) Portanto, será que ele não reflete também algo de egoísta, num sentido inteiramente apolítico?

Acho que por maior que seja o desencantamento com a classe política, -- e eu lhes asseguro, poucas coisas podem ser tão desencantadoras quanto saber que o PT tem se aninhado às mesmas forças responsáveis pelos 30 ou 40 anos de atrasado no ordenamento e planejamento da cidade, forças antes aliadas exclusivas do carlismo -- por mais forte que seja o caráter simbólico do voto nulo, ele é, como toda a recusa, uma inação. Um direito, sem dúvida!, mas ainda assim uma opção carregada de uma desesperança paralisante e talvez deletéria, na medida que acaba por contaminar nossa conduta política com o mesmo tipo de paralisia refletida em nossa escolha (ou na falta dela). Se as coisas não vão mudar em função das opções que nos são dadas, tampouco mudarão com uma atitude de completa indiferença aos rumos políticos da cidade, do estado, do país. Eleições me parecem sempre oportunidades para escolher entre o ruim e o pior, e infelizmente este cenário não mudará (e suas consequências também não) pelo simples fato de nos abstermos de escolher.

2 comentários :

Wagner disse...

O voto nulo não significa necessariamente indiferença, de modo que deva significar tão simplesmente "os brasileiros não morrem de amores pelos seus representantes". Nesse mesmo sentido, sabemos o quanto a moral importa em política. Ser eleito com um voto é muito diferente de ser eleito com 1000 votos, embora legalmente se considere que ambos estariam eleitos com 1 ou com 1000. Ademais, conforto espiritual ou não, isso é irrelevante na medida em que se trata somente de um efeito da prática, assim como quem dá uma esmola não pretende resolver o problema do mendigo, mas o problema imediato do mendigo (a sua fome, etc.), pode-se votar nulo simplesmente significando que nenhum dos candidatos dispostos exerceria bem a função que pretende exercer. Aliás, essa perspectiva sobre a esmola, interessante, é verdade, lembra aquelas ideologias que pretendem resolver o problema do mundo de uma vez só e de uma vez por todas, apelando para soluções chave, como por exemplo a educação.

Leonardo Bernardes disse...

Moral importa em política? Pra quem? Que política? A nossa, certamente não. Acho que pode haver sim questões de legitimidade e outras implicações quando o número de votos nulos atinge uma quantidade significativa, mas não questões morais.

Bem, o significado dos votos nulos eu conheço ("que nenhum dos candidatos dispostos exerceria bem a função que pretende exercer"), o que lhe falta é um propósito, uma utilidade, salvo a função expressiva que carrega (dizer-lhes que são incompetentes). Já que, na prática, nada vai se alterar (ou seja, um dos incompetentes vai assumir, ainda que não estejamos de acordo quanto a sua capacidade, apenas deixamos de optar pelo menos incompetente).

Trocando em miúdos, se não nos resta outra opção senão incompetentes, por que não nos responsabilizar pela escolha do "menos pior" dentre eles?