19 maio, 2011

Normas, normatividade e práticas

O recente episódio envolvendo livro aprovado pelo MEC ilustra um caso curioso. Zelosos defensores das normas manifestam claro desconhecimento sobre a relação entre normas e práticas. O que me lembrou um comentário de Wittgenstein:
It seems, whatever the circumstances I always know whether to apply the word or not. It seems, at first it was a move in a special game but then it becomes independent of this game.
(This reminds one of the way the idea of lenght seems to become emancipated from any particular method of measuring it.)
Fragmento de Notes for Lectures on 'Private Experience' and 'Sense data'. A normatividade das normas é o reflexo da função que elas desempenham numa rede de práticas. Se certas práticas se convertem em normas, isso não significa que elas deixem de estar internamente ligada a elas, como se fossem emancipadas do jogo ao qual pertencem e no qual recebem seu papel normativo. Num comentário de Glock uma interessante consequência vem à luz:
If everybody violated the rule and nobody accepted corrections of such violations, then the rule would no longer be in force. Certain contingent regularities are part of the framework for our linguistic activities.
É uma relação lógica entre práticas que constitui a fonte da normatividade de certas regras. A alteração das práticas tem como produto lógico a alteração das regras e normas. É possível que alguém apresente boas razões para manter inalterado um quadro de regras. Mas militar cegamente em favor da manutenção é pensar a linguagem como um mero cálculo ditado por regras e pensar as práticas linguísticas como simples usos inferenciais derivados de tais regras. Perde-se muito com isso, mas, especialmente, o nexo entre normas e práticas que explica a experiência viva da linguagem, sua mudança, sua história.

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