02 março, 2011

Amizades mancas

Tenho a frequente impressão de que hoje em dia as amizades perderam parte substancial do seu todo. A imperiosa necessidade de evitar os confrontos (talvez, o encontro com o Outro) tem pretextado relações que mascaram um enorme abismo sob o fino véu de uma intimidade mal disfarçada, circunstancial e restrita. Como se, no fundo, as amizades tivessem também se contaminado com os receios que marcam as relações entre pais e filhos, produzindo assim amigos mimados, ansiosos por afagos mas inteiramente avessos a críticas. Ao meu ver, muito se perde com isso. Lembro, como se fosse hoje, a primeira vez que atinei para uma bronca que eu merecidamente levei de um amigo pelo descaso comigo mesmo e com minhas potencialidades -- então enterradas na comodidade de uma condição financeira apenas razoável, mas suficiente para bancar meus caprichos juvenis. Daí em diante passei a exercer a mesma função. Não que antes eu tivesse me restringido ao papel de amigo fanfarrão, mas é certo que eu não havia notado o compromisso urgente que os amigos devem ter entre si -- compromisso que os impele a situações que, em certas circunstâncias, podem sim produzir faíscas. Mas só os amigos tem a liberdade para agir assim!

Não quero senão os amigos dispostos a me dizer todas as verdades, os que prezam o confronto, pois eu mesmo já sofri indiretamente as consequências dessa situação, da ausência desse contexto de amizade em situações que ela teria ajudado também a mim. Na maior parte das vezes não prestamos a atenção devida ao nossos próprios gestos, nem adivinhamos seus resultados. Só os bons e prestimosos amigos podem reforçar as atitudes quando preciso e, especialmente, críticá-las quando necessário. A amizade não pode ser mais um ponto de reverberação da incondicionalidade costumeiramente encontrada no ambiente familiar, do contrário nos acharemos ameaçados pelo fantasma de uma auto-imagem de feições turvas, confusas. Amigos (e inimigos, repito) nos definem (e não tão somente nos aceitam).

4 comentários :

Virggillia disse...

Xiiiii, Leo!!!!!!! Aff, saiu atirando pra todo lado mesmo! Não poupou ninguém? Tem certeza? Tem certeza mesmo, mesmo, mesmo????

Bem, estou temporariamente sem net, mas mandei um email na quinta [que vc nem respondeu :(]

Beijo, anjo, se cuida e dê sinal de vida.

Leonardo Bernardes disse...

Moni,

Fui sugado pelo turbilhão de carnaval.. vi seu email mas mal tive tempo de respondê-lo. Desculpa! Agora estou expurgando meu corpo com um pouco de Handel na voz do Andreas Scholl.. daqui a pouco eu te respondo.

Ó, o post não foi direcionado a ninguém. Sou muito chato pra admitir amigos desse tipo. Esse é um juízo que eu tenho há tempos, registrei assim subitamente porque me deu vontade. Saiu um texto sem graça, mas é que às vezes eu gosto de ter registradas certas ideias.. é incrível como eu esqueço delas. Agora, realmente se aplica a um sem número de casos.

:D

Beijos

Helê disse...

Leonardo,
longe de ser sem graça. Achii mesmo sensacional esse seu texto, preciso, corajoso. Esbarrei nele justo qdo vinha pensando coisas semelhantes, e acho que vc está coberto de razão. Se a gente não cuida, nossas amizades vão ficar igual programa de entrevista, em que todo mundo é lindo, maneiro, legal e fofo.
Aquele Abraço.

Leonardo Bernardes disse...

Que bom que você gostou, Helê.

Quando eu escrevi pensei que o texto estivesse demasiadamente breve. Mas, pelos comentários, parece que mensagem foi transmitida e gerou alguma empatia.

Abraços,