31 agosto, 2010

Profeta da esquerda desenvolvida, Arnaldo Jabor luta contra moinhos de vento

É admirável o empenho com que algumas figuras da direita combatem a realidade. A gente precisa ser honesto para reconhecer a bravuras desses homens que fantasiam um mundo inteiramente diverso, a fim de que, nesse mundo, suas idéias e opiniões se ajustem a ele com perfeição. É o que faz Arnaldo Jabor. Debochadamente, Jabor revela muito de si ao confessar que suas incursões pelo ideário da esquerda eram motivadas por razões estritamente individuais. Era uma boa tática para vencer a resistência das garotas citar ou fundamentar uma investida mobilizando as referências intelectuais em voga. É assim, desse patamar sólido e profundamente embasado que Jabor parte para aquilo que, desde sempre, era seu intento: critica a atual esquerda. Apesar de ter confessado seus interesses particulares e sua errância pelas idéias da esquerda, ele sugere que seu engajamento era, na verdade, motivado por uma espécie de sentimento que aparentemente só encontrava no pensamento da esquerda sua rota de realização:
A desgraça dos pobres nos doía como um problema existencial nosso, embora a miséria fosse deles. Em nossa "fome" pela justiça, nem pensávamos nas dificuldades de qualquer revolução, as tais "condições objetivas"; não sabíamos nada, mas o desejo bastava.
Guardem bem o desejo de Jabor e veremos mais adiante se ele conserva os mesmo critérios. Pois bem, o que ele acredita é que esse meio de realização, as ferramentas, recursos e princípios da esquerda estão ultrapassados:
Como hoje, os idiotas continuam com as mesmas palavras, se bem que aprenderam a roubar e mentir como "burgueses".
Convenientemente, ele precisa forjar uma distinção que lhe permita separar os integrantes da esquerda que permaneceram daqueles que, digamos, migraram para uma nova esquerda:
"Revolução" era uma mão na roda para justificar sua ignorância, pois essa ala da esquerda burra (a inteligente cresceu e mudou...) não precisava estudar nada profundamente, por serem "a favor" do bem e da justiça - a "boa consciência", último refúgio dos boçais.
Talvez vocês já tenham advinhado o movimento do texto e, não tenham dúvida, é isso mesmo o que ele pretende. Esse gesto claudicante pelo qual ele insinua uma nova esquerda é apenas a ocasião para a profética passagem:
Muita gente sem idade e sem memória não sabe que o caminho para o crescimento e justiça social é o progressivo aperfeiçoamento da democracia, minando aos poucos, com reformas, a tradição escrota de oligarquias patrimonialistas. Escrevo isso porque acho que a luta de hoje é entre a verdadeira esquerda que amadureceu e uma esquerda que quer continuar a bobagem, não por romantismo, mas porque o Lula abri-lhes as portas para a lucrativa pelegagem.
Jabor é o profeta e José Serra é seu messias. Findo o truque -- mediante, não se pode deixar de notar, um sofisticado e complexo expediente argumentativo --, o profeta passa à crítica aos falsos messias. Há um momento em que o êxtase parece dominá-lo, forçando sua imaginação a um trabalho incessante de engenharia e criação, o produto final é um quadro de tal modo elaborado e fantasioso que Tolkien teria corado diante dele:
Vejo, assustado, que querem substituir o patrimonialismo "burguês" pelo sindicalista, claro que numa aliança de metas e métodos com o que há de pior na política deste país. Vão partir para um controle soviético e gramsciano vulgar do Estado para ter salvo-condutos para suas roubalheiras num país sem oposição, entregue a inimigos da liberdade de opinião. Escrevo isso enojado pela mentira vencendo com 80% de Ibope, apagando como da história brasileira o melhor governo que já tivemos de 94 a 2002, com o Plano Real, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, com a telefonia moderna de hoje, com o Proer que limpou os bancos e impediu a crise nos atingir, com privatizações essenciais que mentem ao povo que "venderam nossos bens...", com a diminuição da pobreza em 35% e que abriu caminho para o progresso econômico de hoje que foi apropriado na "mão grande" por Lula e seus bolchevistas. Ladroeira pura, que o povo, anestesiado pelo Bolsa-Família e pelas rebolations do Lula na TV, não entende. Também estou enojado com os vergonhosos tucanos apanhando na cara por oito anos sem reagir. O governo Lula roubou FHC e o mais sério período do País e seus amigos nunca o defenderam nem reagiram. São pássaros ridículos em extinção.
Há de tudo aí. Mas há, acima de tudo, a velha defasagem conceitual que ele mesmo atribui a seus adversários. Não é surpreendente, para alguém que considerava tais ideias um mero trampolim para aventuras sexuais, que lhe falte um domínio rudimentar. Mas é no mínimo interessante que alguém alegadamente sensível à miséria e com fome justiça, tenha considerado o melhor governo que já tivemos justo o governo FHC. Deveríamos pedir a Jabor uma decisão metológica: ou os indicadores sociais são critérios para avaliação e princípios da ação da administração pública ou devemos adotar seus novos (novos?) critérios. Contudo, seria demais pedir rigor e consistência a um sujeito que sinceramente envia a um jornal de grande circulação uma peça dessa natureza (como dizemos sempre, com a consistência de um pudim).

Preocupado com a democracia, Jabor não faz nada além de rejeitá-la. A "mentira" vence e a postura dos aliados diante do legado FHC é motivo de nojo. Talvez o velho princípio de Occam tivesse conduzido Jabor à conclusão óbvia: a prevalência da popularidade do presidente e a recusa em comprar a herença do seu benquisto governo FHC por parte de seus próprios aliados são sintomas inegáveis da invalidade de seus próprios valores. Mas não. Ele prefere multiplicar as entidades. Jabor prefere lutar quixotescamente para construir um mundo no qual a popularidade do presidente importa em estratégias escusas realizadas nos últimos 8 anos para aparelhar o estado e, de algum modo ainda incerto, conduzir a população a uma boa avaliação. A rejeição a FHC, no mundo encantado do Amor é prosa, sexo é poesia, se explica pelo acovardamento dos seus aliados, que apanharam na cara, pobrezinhos, por oito anos -- sem reagir. No final das contas a pretensão de Jabor é apenas uma reedição do único recurso com que contam os seus compalheiros delirantes: eles pretendem substituir os valores vigentes pelos seus próprios valores.

Sempre me surpreendeu que Robert Musil tivesse figurado por tanto tempo no umbral do templo da ignorância que é o blog do Reinaldo de Azevedo. Isso porque falta ao Reinaldo, como ao Jabor, além da clara competência para pensar, um sentido para retórica que sempre marcou grandes pensadores: Rousseau, Freud, mais recentemente, Lebrun. É notável que, tendo pretensões homéricas de substituir todo quadro valorativo do Brasil, inclusive aquele que determina quem são as figuras intelectuais importantes, tais pretensões não tenham nunca sido vendidas numa embalagem mais agradável. Eu digo frequentemente: pode-se sempre duvidar e questionar Freud, mas ninguém pode deixar de amar e reconhecer sua incrível sensibilidade retórica, seu apelo, seus gestos discursivos fortes e sedutores, atrativos. Os "pensadores" da nossa direita raivosa querem nos vender uma nova realidade em jornal de embrulhar peixe -- e depois se admiram que sejam tão pouco eficientes e irrelevantes, e depois explicam sua irrelevância acusando o povo de ser ignorante. A matemática é simples: se concordam comigo, são sábios, se discordam, ignorantes. Estão todos velhos demais para que eu possa nutrir a esperança da auto-crítica, mas a falta de senso sobre suas próprias limitações e dificuldades faz a gente pensar que a ignorância é mais profunda do que a que se faz transparecer nas linhas que diariamente chegam até nós. Imbuídos do mesmo espírito altruísta que eles dirigiram outrora aos pobres desse país, vamos torcer para que, um dia, alguma entidade bondosa os carregue para esse mundo encantando em que eles viveram em outros tempos e que lá eles sejam felizes sob a tutela zelosa do seu ex-presidente, FHC.

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