23 junho, 2010

Amor ao extremo


Terminei de ler o livro Carta a D. de André Gorz. A mulher de Gorz é a figura central do livro. Toda a sua história intelectual é reinterpretada à luz da influência decisiva de Dorine em sua vida e em sua formação.

O livro confirma uma impressão recorrente: sempre que eu leio a história de vida de intelectuais franceses, tenho a impressão de que nos falta um tipo de mobilização social e civis determinante para certas conquistas políticas. Há uma confluência de vontades que se materializa em ações políticas organizadas, circulação de ideias, criação de veículos de expressão de pensamento. Parece que as pessoas estão em sintonia, seus valores e pensamentos compartilhados ressoam e são capazes de formar e alimentar a opinião de outras pessoas aptas a interpretar, acolher ou rejeitar essas ideias com argumentos. Aqui, parece mais difícil formar esse grupos. As iniciativas são costumeiramente tímidas e entravadas por um sem número de obstáculos. E quando os encontramos, o conjunto soa como uma panelinha e não a reunião espontânea de pessoas que partilham os mesmos princípios. Se a unidade é mantida por outra coisa que não a contingente confluência de ideias, o caráter democrático desses movimentos não resiste à primeira prova, e o corporativismo denuncia, na primeira oportunidade, um arranjo apenas aparentemente democrático -- mas que em princípio não aceita a possibilidade de estar errado, de ser contestado.

A influência de Sartre se faz notar no livro, muitas são as menções a ele. Mas eu tive a impressão de que havia muito de Marcuse nas ideias de Gorz. O Wikipedia confirma a influência da Escola de Frankfurt e a amizade com Marcuse, mencionada superficialmente num encontro relatado no livro. As preocupações com a ecologia antecipam em anos o movimento em prol do desenvolvimento sustentável que tem sido um dos tópicos mais importantes da agenda política dos candidatos à presidência dos grandes paises industrializados. Écologie et politique foi editado em 1975 e Écologie et liberté em 1977. O papel que lhe é imputado nos eventos de maio de 1968, além da temática com a qual se ocupou, reforçam a proximidade com Marcuse. A certa altura li um comentário que poderia ter sido perfeitamente atribuído a ele:
A expansão das indústrias transforma a sociedade numa gigantesca máquina que, em vez de libertar os humanos, restringe seu espaço de espaço de autonomia e determina como e quais objetivos ele deve perseguir. Nós nos tornamos os serviçais dessa megamáquina. A produção não está mais ao nosso serviço, nós é que estamos a serviço da produção, e em razão da profissionalização simultânea dos serviços de todos os tipos, tornamo-nos incapazes de cuidar de nós mesmos, de autodeterminar nossas necessidades e de satisfazê-las por nossa conta: dependemos, para tudo, de "profissões incapacitantes".
A crítica de Marcuse ao papel determinante que a indústria assume na elaboração das necessidade humanas não poderia ter melhor expressão.

Mas o livro é antes de mais nada um ato de amor, uma homenagem. Gorz parece ter descoberto ao final da vida um sentimento de vergonha que o impedia de reconhecer a importância decisiva de sua esposa. Marxista ferrenho, inconscientemente ele enxergava no seu amor a expressão de um sentimento burguês que a ele cabia condenar. Operava por isso inversões, tornando ela, Dorine, a verdadeira beneficiária da relação -- quando na verdade era ele quem mais notoriamente precisava dela, era ele quem mais fruia e frutificava a partir do amor. Essa denegação me lembrou um texto de Rorty, Trotsky e as Orquídeas Selvagens. Rorty comenta ali a exigência, envolvidas em certas ideologias, de que a esfera pessoal reflita as escolhas de esfera pública, de maneira que as escolhas mais triviais, os gostos mais particulares, não escapariam do crivo ideológico. Ele tem em mente, claro, o pensamento de esquerda, já que, de acordo com seu relato, ele criou-se numa família trotskista em plena sociedade americana. Gorz sucumbia ao peso da má consciência e os efeitos disso eram sentidos na relação e na impressão que ele tinha da relação de amor com sua esposa. O livro, portanto, é um acerto de contas, uma tentativa de ajustar as incorreções que a ideologia levou-o a comenter.

Nada, porém, tem mais impacto do que uma informação pouco destacada, quase marginal. A esposa de Gorz sofreu durante longos anos com uma terrível doença e quando finalmente a perspectiva morte se avizinhou, eles resolveram cometer suicídio juntos. André Gorz não conseguia enxergar o mundo sem Dorine, não conseguiria viver nele. É um livro imperdível.

3 comentários :

Jamille disse...

É um livro apaixonante, daqueles que uma releitura se torna inevitável.

João Villaverde disse...

Um belíssimo livro, e uma bela resenha, Léo.

Leonardo Bernardes disse...

Que bom que gostou, João.
Eu roubei da moça aí de cima despretensiosamente e acabei pescando um achado.

Assim que puder vou até procurar os textos sobre ecologia do Gorz que, confesso, nunca li.