19 abril, 2010

Religiosidade: uma ameaça possível à ordem argumentativa?

Eu estava assistindo o vídeo de um programa em que Tulio Vianna comenta a questão da pirataria quando um comentário chamou minha atenção:
Ymaei quem pirateia é bandido
Eu planejei escrever sobre esse tipo de comportamento, mas pensei que vocês não fossem gostar. Agora o tema se me impõe. É incrível, não há obstáculos que impeçam um sujeito completamente ignorante de manifestar garbosamente sua imbecilidade. Longe de mim recomendar a censura ou coisas do gênero, o que me surpreende é que não existam mecanismos internos (vergonha, culpa, insegurança, receio) capazes de deter a expressão da bestialidade. (É preciso esclarecer, essa característica não se restringe aos religiosos, eu considerei escrever sobre assunto depois de ler comentários igualmente levianos sobre o Linux, destilados na caixa de comentários de um artigo no G1 que pretendia esclarecer dúvidas sobre o sistema).

O indíviduo passa anos estudando, sedimentando ideias e escolhas, fundamentando-as em fontes confiáveis ou construindo suas próprias bases teóricas, para que sua posição seja contraposta numa sentença dogmática que simplesmente ignora toda a argumentação em contrário.

Curioso, fui olhar o perfil de criatura. Vejam os vídeos que encontrei por lá: Deus humilha o diabo no carnavalO Diabo perde a graça na Sapucaí. E, por fim:

Silas Malafaia pregando contra a pirataria

A doutrina evangélica expandiu seus domínios e agora legisla também sobre o comportamento dos seus fiéis diante de um computador. O argumento do pastor: "O que Deus vai achar disso?" Comprou o CD pirata do pastor? "Você vai pro inferno, irmão".  Deus deve estar mesmo muito ocupado examinando a procedência dos CDs comprados pelos seus fiéis.

A intolerância é odiosa. Quando ela se mistura à estupidez, eis a receita de tudo que me contraria. Constatar o fortalecimento da classe evangélica, da representatividade política, da penetração da cultura gospel nos mais variados setores da vida cultural do país, é aterrorizante.


Meu temor é que, em circunstâncias extraordinárias -- não é preciso que seja uma ameaça extraterrestre, como em O nevoeiro --, as pessoas se disponham a alienar o pouco espírito crítico e a autonomia que lhes restam a um suposto representante de Deus -- como no filme. Desse modo, fiéis se converteriam em soldados cegos, guiados por alguém cujas palavras manifestam a vontade de Deus. Qual é o limite ou ao que estaria disposta uma pessoa submissa aos desígnios de Deus? Bem, vocês devem conhecer o famoso caso bíblico, o sacríficio de Isaac por Abraão (ou pelo menos a ordem divina), que fomentou grandiosas reflexões de Kierkegaard. (Em todo caso, o filme O nevoeiro é bastante para divisar as consequências nefastas dessa confiança cega). 

Qualquer ordem argumentativa se dissolve quando confrontada com os imperativos de uma entidade doadora de sentido. Ou seja, nenhum argumento, por mais forte e convincente que seja, mantém-se em pé caso se contraponha a um ordem supostamente emanda por um Deus, isto é, por algo que provê o sentido da vida, a segurança e a esperança de milhões de pessoas. Deus é, antropologicamente, um instrumento de poder. Uma ferramenta que, desde tempos imemoriais, tem sido empregada para agenciar os medos mais primitivos dos homens em favor de certos grupos. As circunstâncias extraordinárias tendem a aprofundar a confiança nas ordens superiores -- em prejuízo da crença na capacidade humana (desastres climáticos, guerras persistentes e situações políticas e sociais adversas). À medida que se perde a confiança nas forças humanas, tem sido quase natural entre nós, as expectativas são depositadas nos ombros de algum entidade. Com uma vantagem. Nas religiões, ao contrário da maior parte dos sistemas argumentativos, contradições constantes podem ser equilibradas convocando a famosa cláusula do Deus imperscrutável. "Deus escreve certo por linhas tortas". Mais uma mostra da limitações humanas, não ser capaz de advinhar os desígnios divinos. A religiosidade é impenetrável.

Mas o problema maior ainda não está exposto. Quando Deus é o fator determinante para configuração de  códigos éticos e da moralidade de um tempo, os crédulos ficam sujeitos à vontade dos seus intérpretes. Situações adversas podem ser explicadas apelando para a suposta insatisfação divina, e redundar assim numa brusca alteração de códigos e normas de comportamento. Por hipótese, se, no futuro, a constância de uma série terrível de catástrofes naturais for explicada por algum pastor como resultado da insatisfação divina frente à iniquidade dos homens, quem deixará de agir conforme as palavras e recomendações desse pastor, caso reconheça nele a autoridade de um dos intérpretes de Deus? Quanto poder pode acumular uma pessoa quando o que ela manipula é o capital simbólico do medo e da esperança? Eu não consigo imaginar poder mais terrível.

A Igreja Católica durante longos séculos sustentou a pretensão de dar bases racionais à sua fé, por isso dissimulou parte da sua arbitrariedade. Hoje, enfraquecida pela sombra dos seus erros antigos e atuais, ela não apresenta ameaça significativa. As Igrejas neopentecostais, os evangélicos, por sua vez, são um perigo flagrante. Não é nem mesmo preciso que dissimulem, a democracia comporta a existência de suas ideias. Esse é um perigo, aliás, que subjaz à toda forma de religiosidade.

Se em circunstâncias normais as pessoas estão dispostas a aceitar os mais rasos argumentos do pastor Silas Malafaia, a agir ou não agir conforme seus conselhos, apenas porque ele é pretensamente reconhecido como um intérprete de Deus, o que aconteceria em situações extremadas? Se no contexto de reuniões diárias não há espaço para contrariar suas recomendações, imaginem vocês o que aconteceria caso o poder que ele detem fosse exponenciado por uma circunstância que colocasse a escolha divina como a única opção, como a única fonte de esperança, caso tudo que restasse aos homens fossem esperar por uma intervenção divina. As palavras dele teriam a força de lei. Nasceria assim um novo Leviatã.

A imagem do Leviatã é boa em muitos sentidos. A dissolução de um ordem argumentativa coincide também com a anulação quase que completa dos vínculos entre os sujeitos que a compunham. Há uma centralização na figura do Leviatã. Isto é, algo como um pacto entre eles deixa de existir, eles deixam de ter uns sobre os outros a capacidade de influenciar, demonstrar, persuadir, convencer, enquanto existir o Império do medo de da esperança. Toda a diferença é anulada enquanto o que restar for a promessa de uma salvação da Providência.

O poder da religião é ainda a mais velha, forte e complexa estrutura de manipulação e agenciamento da História e, repito, quando ela se mistura à política institucional, é de arrepiar. Faz a gente pensar que o poder cego e delirante pode se erguer mesmo sem o auxílio de circunstâncias extraordinárias. Eu quero ter morrido antes disso. Oxalá! 

Um comentário :

Jamille disse...

Outro dia Clarinha me fez alguma pergunta - não lembro exatamente a qual - querendo saber se o Brasil é católico (algo assim).Eu respondi prontamente que o Brasil é um Estado, que os Estados não são religiosos,as pessoas são. "O Estado,filha, é laico". Na verdade, eu bem sabia que falava isso mais por incentivo do que por acreditar na minha afirmação. Pensei em reproduzir essa segurança jurídica que a Constituição nos garante. Mas não passou disso. A verdade é que a Igreja Católica passou as chaves do Brasil para os protestantes, e só. Fico indignada ao ver que Igrejas têm canais televisivos, mesmo que o serviço de radiodifusão seja exercido através de concessões. Se é um serviço que o Estado concede ao setor privado e se o Estado brasileiro é laico, como isso é possível? Na política a coisa é grave! O exercício dos mandatos dos parlamentares mete medo. Outro dia estive analisando uns projetos de lei e um deles me deixou profundamente triste. O projeto de lei visava substituir os nomes de ruas (batizadas com nomes de orixás),tendo em vista a insatisfação de moradores evangélicos da região. Não existe respeito cultural, respeito à História, às crenças quando as religiões estão à frente de decisões.