29 março, 2010

Capitalismo e conhecimento livre podem coexistir

Um dos álbuns mais incensados dos últimos tempos foi o In rainbows, do Radiohead. A banda permitiu que o álbum fosse baixado gratuitamente, deixando aberta aos fãs a possibilidade de pagar por ele o quanto achassem conveniente. As vendas de cds, contudo, continuaram paralelamente e os ganhos foram significativos.

Análises indicam que 75% dos desenvolvedores do kernel Linux são remunerados. Poucas são as distribuições que contam somente com contribuição voluntária (Debian e Slack, salvo engano). Ainda sim o sistema é aberto.  A Canonical, empresa que patrocina o Ubuntu, oferece suporte pago e capta recursos de diversos canais.

A incompatibilidade entre capitalismo e conhecimento livre é fictícia. Software livre pode conviver com software proprietário (há demanda para ambos os setores). A ascenção da cultura de conhecimento livre não precisa coincidir com a derrocata do sistema econômico capitalista. Não podemos alienar os ganhos que teríamos militando a favor de uma convivência pacífica, apostando na queda de um sistema enraizado no nosso modo de vida. A luta contra os direitos autorais, a expansão do domínio público, são frentes importantes e devem ser apoiadas. Mas aqui o caso é ligeiramente diferente. A internet inaugura um novo modo de lidar com o conhecimento e com a "propriedade intelectual".  Os impasses institucionais e as batalhas para demarcar os limites jurídicos para o comportamento do usuário da rede tem sua importância, mas são de pouco efeito prático. O que a internet nos diz eloquentemente, e diz a todas as pessoas de iniciativa e de visão, é: ajustem-se à minha dinâmica. A internet representa esse movimento impulsivo e sem direção, mas livre. Sua liberdade gerou e gera ainda hoje muitas riquezas. Mas também ajudou a disseminar informação, cultura, diversão -- sem juízos sobre o conteúdo. Por isso ela abarca tanto a possibilidade de uso proprietário, quanto a difusão do conhecimento livre. As amarras que parecem obstruí-la não são resultado de incompatibilidades naturais insolúveis, mas consequência da inércia das pessoas de espírito estreito, incapazes de antever o movimento que há muito já é presente e real. A internet pede que se renove o modelo de produção e lucro, que se elabore alternativas, novidades. Mas essas mudanças parecem inaceitáveis a muitos que insistem em nadar contra maré, agarrados a uma velha forma de comércio e pensamento, cegos para uma revolução que está apenas nos seus estágios iniciais e que talvez seja, na verdade, um ciclo de revoluções.

Nós não precisamos de xiitas militando em prol da extinção do software proprietário, nem de extremistas armados para impedir que a internet seja o meio onde circula livre e gratuitamente toda sorte de conteúdo, livre ou não. Nós precisamos de gente que entenda que esse movimento é irreversível -- irreversivelmente bom -- e que se disponha, como se dispôs o Radiohead, a dar a cara a tapa, a experimentar, inovar. O retorno vem inevitavelmente. O inimigo é, como sempre, o comodismo, a estagnação e conveniência de quem quer manter as coisas como estão em seu próprio benefício.

2 comentários :

João Villaverde disse...

Ótimo texto, como sempre, aliás, Leonardo.

Concordo integralmente que o debate sobre o software livre não deve ficar no Fla-Flu entre os que ganham com o software fechado e os que idealizam o conhecimento democraticamente construído pelo software livre. A discussão, e o futuro da tecnologia, permite nuances, não é?

E boa sacada abrir o debate por meio do Radiohead ;-)

Um abraço

Leonardo Bernardes disse...

João,

Obrigado e mil desculpas pela demora.

Eu escolhi o Radiohead não sem motivos. Eu acho que ele e o Metallica são antípodas nessa questão. O Metallica escolheu o papel de vilão ao capitanear a briga contra os apps de P2P, enquanto o Radiohead, imbuído de um espírito visionário, aceitou o jogo e soube lidar com ele. Por isso eu acho que a aceitação do Radiohead, o empreendedorismo que eles mostraram, são características necessárias às pessoas que comandam todos os setores "afetados" pela internet. O que falta às pessoas que ainda lutam contra tudo que a internet representa é juventude e vontade de inovar, recriar.

~ Abraços