06 janeiro, 2010

A falta de talento para argumentar

Das pessoas que produzem textos a serem associados à imagem de grandes grupos de comunicação parece que não é mais exigido nenhum talento especial para argumentar. Essa é uma impressão antiga que se precipitou hoje aqui em razão da pavorosa defesa que Barbara Gancia lançou em favor de Boris Casoy por conta do episódio em que ele se envolveu.
Se uma amiga me pergunta se seu vestido novo é bonito, há um forte constrangimento que me impele a ser político, a despeito da minha opinião sincera. Bem, eu não preciso explicar isso a ninguém, mas, certos contextos exigem discursos determinados, modos de ação determinados e até certa dissimulação. É certo que muita coisa errada se esconde por esses meios, mas só através deles nós podemos aparar as arestas do convívio social e torná-lo mais agradável. Tente dizer sempre a verdade e você logo perceberá uma catástrofe social em curso. É claro que, no meio político, as máscaras se confundem com a própria atividade. Entretanto, em qualquer caso, se houver um deslocamento, se um discurso, uma fala, uma frase sequer, dirigida a um determinado contexto, cai por acidente em qualquer outro, o dano logo se vê. Esse é o caso, por exemplo, do incidente envolvendo a declaração de Ricupero que foi trazida como analogia. Porém, o acidente não imuniza a declaração -- atenua, talvez.
Mas isso nada tem a ver com o caso. O que se critica aqui é: em nenhum contexto a declaração deixa de ser preconceituosa. Ela não seria menos preconceituosa se não tivesse vazado, não se trata meramente de um deslocamento de discurso. Mesmo que, como ela supõe, Boris estivesse contestando as escolhas da produção, isso não amenizaria o tom preconceituoso da contestação. Mas Barbara abusa da inteligência do leitor e transforma um comentário preconceituo, desses que saem da boca das pessoas quando elas se sentem à vontade entre interlocutores coniventes, num gesto profissional:
Isso é da natureza do nosso trabalho e não tem nada a ver com preconceito.
Como se pudéssemos confundir o tom jocoso de um gracejo com uma observação estritamente profissional, uma contestação. Além desse malabarismo, sobram apelos e testemunhos pessoais e profissionais sobre o caráter de Boris. "Um tipo que se incomoda com leviandades". As dos outros, na certa. E por fim, como não poderia deixar de ser, ela formula em duas linhas uma teoria para explicar a indignação geral:
Boris Casoy teve uma rusga pública com o governo Lula. Boris Casoy é identificado pela esquerda histérica como sendo um homem de direita. E, portanto, Boris Casoy deve ser atacado a cada oportunidade que se apresente.
Menas, idiotas latino-americanos, menas.
Por fim, a indignação se explica na sanha da esquerda histérica, dos barbudinhos, como ela mesmo diz, ansiosa em atacar o que ela identifica como um homem de direita. Nada melhor, para desabonar as razões de outro, do que pintá-lo como alguém com segundas intenções, certo?
O texto parece um tratado prático de falácias, equívocos e má retórica. É uma bela declaração de afeto, mas um atestado de incompetência para argumentar que, sem necessidade, transforma comoção legítima, em esperteza políticas de gente de esquerda. Como se a questão suscitasse comentários políticos -- e não éticos.
Talvez o primeiro indício de talento seja a capacidade para identificar temas defensáveis.
Isso é uma vergonha! (sic)

Um comentário :

Zaire disse...

"O texto parece um tratado prático de falácias"

deprimente, concordo com você, haja afeto para por a cara a tapa à defender o que ele disse.