25 Outubro, 2009

O moralista Tarantino



Spoilers: não leia a menos que já tenha assistido Bastardos Inglórios.

O novo filme de Tarantino é seguramente interessante, embora, talvez, supervalorizado. Queiram ou não, Brad Pitt mais uma vez é uma das figuras centrais e, mais uma vez, atuando com bastante competência. Quando ele diz buongiorno ao coronel Landa, naquele indisfarçável sotaque caipira, eu quase tive uma sincope. Mas Christoph Waltz rouba a cena, é sem dúvida o melhor ator do filme, encarnando o personagem mais elaborado. O que me faz pensar que Bastardos Inglórios balança em sua pretensão é exatamente o modo como ele trata seu melhor personagem.

Uma comparação talvez esclareça as coisas, uma comparação, aliás, nada inocente. É a minha velha mania de confrontar as soluções cinematográficas às soluções literárias. Diante do cinismo do Coronel Landa, de seu jeito aparantemente cortês, ou melhor, da mão de verniz que mal dissimula -- pois não o pretende -- suas intenções e seu poder, lembrei imediatamente do investigador Porfiri, de Crime e Castigo. A cena inicial lembra terrivelmente os encontros de Raskólnikov, o sentimento crescente que ia se apoderando de Rodia a medida que aprofundavam a conversa. "Ele sabe!" pensava. O terror de pensar que alguém sabe o ilícito cometido só se compara à angústia de não ter certeza, e é desse cenário que os personagens, tanto no filme quanto no livro, retiram sua força. Eles articulam de um jeito quase doentio a incerteza que vai crescendo no coração de seus interlocutores, fazem disso um jogo no qual a confissão pode vir a cada nova palavra, num gesto trivial, traídos por alguma negligência. Os algozes, esses nunca erram. Seus discursos soam como se estivessem há muito prontos e se revestem de uma artificialidade quase grosseira, como se no final das contas não quisessem mesmo disfarçar. Em Crime e Castigo, Porfiri é certamente o personagem mais inteligente. Raskólnikov é o veículo da trama, decerto inteligente, mas se sua inteligência não estivesse à deriva, em busca de um porto, não teria inspirado as ideias centrais da narrativa. Ródia é inteligente, mas sua insipiência é flagrante -- e tinha que ser. Porfiri, ao contrário. Difícil simpatizar com uma espécie de burocrata, ou imaginar que a inteligência se instale em alguém de carreira semelhante. Mas a verdade é que eles são altamente especializados, executam seus trabalhos com maestria e o comentário inicial do Coronel Landa acerca de seus próprios expedientes talvez servisse também para ilustrar o lugar de Porfiri.

Porfiri é o Judas da via crucis de Raskólnikov. Um personagem central cuja presença é indispensável. Dostóievski, como gênio que era, manteve-o íntegro. Tarantino, ao inverso, sacrificou seu melhor personagem num desfecho algo moralista. É claro que eu não queria que o nazismo vencesse, mas Landa deveria ter caído pela mão dos outros, e não ter se exposto pelas suas próprias ações. Se o cinismo era odiável, a perspicácia com que fazia todos os personagens curvarem-se à sua vontade era fascinante. A aversão a Landa já triunfava quando eu constatei com algum pesar, logo após ele ter matado a atriz Bridget von Hammersmark, que um final ao estilo "receba o que você merece" já não poderia ser o caso. Mas foi isso o que Tarantino fez. Por essa e outras coisas o arremate me pareceu uma enorme injustiça e uma imperdoável descontinuidade. Tarantino construiu um personagem a maneira de Dostóievski, mas acabou por inseri-lo num contexto sutilmente moralizante (ao modo de Saramago). É como se os personagens não tivessem independência e tudo pudesse ser subordinado ao propósito central de consumar a vingança judaica. Mesmo ao preço da ruptura e incoerência. A vingança de Shosanna talvez tivesse bastado. Claro, a cena final é totalmente cabida e mesmo redentora. Mas Aldo é um personagem grosseiro e pouco inteligente, um final semelhante poderia ter se realizado sem que pra isso fosse preciso envolver Landa numa negociata apressada, irrefletida e de consequências mais que previsíveis. A surpresa do coronel diante da morte de seu soldado pelas mãos do Apache é um atentado contra a inteligência minuciosamente construída ao longo do filme. Pareceu mera ocasião para o final "o bem derrota o mal", mesmo que mascarado pelo quê de humor em que a situação se embrulha.



Coerência num filme, como num livro, é tudo. Ao meu ver, a grandiosidade de um autor se mede em sua capacidade de arcar com as consequências de seus próprios engenhos. Um nazista livre de punição talvez não fosse conveniente ao painel de nossos valores e desejos, mas algo muito próximo era o que se deveria esperar de uma trama relativamente coerente. É excessivo aproximar Tarantino e Dostóieski, vocês devem ter pensado desde o início, a lembrança de Porfiri talvez tenha me traído. É que o russo me acostumou mal ao sentido de integridade capaz de fazer o próprio Cristo penar nas mãos de seus pretensos representantes, e depois ser piedosamente liberado qual um indigente a quem se dirige migalhas de compaixão (vide Irmãos Karamazov, em O grande inquisitor). O mau costume da literatura frequentemente sabota minha experiência com o cinema. Não é nenhum defeito próprio do cinema, é que o público, a audiência, parece uma variável excessivamente considerada na elaboração dos roteiros cinematográficos.

PS. O Apache não é judeu, e se é, não é puro. Portanto não dá pra considerar que Tarantino inverteu os papéis, mostrando judeus tratantes e nazistas civilizados. Até porque seria apressado levar a imagem de personagens em particular até uma regra geral. E igualmente difícil fazer a pecha de civilizado aderir à imagem de gente que pratica assassinatos.

Atualização - Vejam o erro que eu flagro no texto, depois de tê-lo lido quinhentas vezes: "é sempre dúvida o melhor ator do filme". Espero que as consequências desse sei-lá-o-quê que me causa lapsos desse gênero sejam toleráveis.

06 Outubro, 2009

Da importância do preconceito

Antes que me apedrejem, eu confesso que o título é estrategicamente polêmico. Não se trata de um elogio à discriminação racial, étnica, ou a coisa semelhante. Antes, é a tentativa de mostrar que nem todo preconceito é desprezível e dispensável, e que eles cumprem um papel fundamental na economia da nossa organização psicológica. Bem, vamos às explicações antes que a demora se torna uma inimiga.

Quem anda por aqui já me viu citando a conhecida frase de Lébrun: "não é possível pensar sem preconceito (prejuízo)". Eu mesmo não sei o contexto da frase, mas adotei-a com se fosse minha. Talvez devêssemos começar pensando: e se não houvessem pre-conceitos? Contudo, vamos com calma. Primeiro pensemos o aprendizado. O que é aprender ou ensinar? Grosseiramente, poderíamos responder assim: é tornar alguém capaz de responder de forma relativamente padronizada a determinados estímulos. Ensinar a ler (aprender a ler) é fazer alguém capaz de transformar sinais gráficos em uma linguagem cujo sentido ele entende. Aprender a jogar xadrez é saber o que fazer diante das peças de um tabuleiro. Mas o aprendizado só pode se realizar se as condições, os estímulos, como contextos de execução, permanecerem imutáveis. Mas e se as coisas cambiassem arbitrariamente, se os sinais gráficos mudassem a todo instante, sem regra aparente? Talvez pudéssemos ainda falar em aprendizado, mas decerto em sentido bem diferente do que hoje nós empregamos. O significado da aprendizagem exige o espaço da estabilidade como condição de exercício de seu método. Se as pessoas fossem incapazes de reconhecer aquilo que é comum às coisas com as quais elas foram ensinadas a lidar, não saberiam como reagir a elas.

Mas qual é a relação disso tudo com o preconceito? Bem, o preconceito é um instrumento, uma espécie de fórmula geral (como todo instrumento, admite práticas boas e más). Através dele as pessoas se programam para reagir a determinadas circunstâncias. Nós nunca estamos completamente despreparados para novo. Diante do desconhecido, é comum hesitarmos. Mas por quê? Por que não exultar, ao invés disso. Alegrar talvez. A hesitação é uma forma de preconceito útil, na maioria dos casos. Quando uma mulher diz: "os homens não prestam" (eu já citei casos semelhantes por aqui), após uma tortuosa sequência de maus relacionamentos, ela expressa um preconceito "útil", embora talvez danoso caso se mantenha por muito tempo. Ela aprende a reagir, ainda que traumaticamente, às sucessivas desilusões afastando-se daquilo que ela julga ter causado a dor que ela sente.

Mas deixemos os casos mais complexos de lado, voltemos à novidade. Nós estamos sempre, de algum modo, preparado para ela. Isso quer dizer que o desconhecido é sempre trazido ao terreno das nossas referências. Se não sabemos como lidar com ele, aplicamos alguns dos nossos conceitos. Agimos como se fosse uma ameaça, um perigo, ou podemos ter outra reação, mais positiva, a depender da personalidade de cada um. O fundamental é que: antes de termos razões para agir desse ou daquele modo, nós não ficamos sem reação, sem referências. Nós aplicamos os conceitos que já temos! -- nada escapa às nossas conceitualizações. Diante do desconhecido, o homem não meramente paralisa até obter informação suficiente para julgamento apropriado. Essa é a imagem ingênua que habita o espírito dos que não entendem o sentido da importância do preconceito. Imaginem nossa mente como um grande arquivo. Considerem que o desconhecido aqui assume apenas a forma de pessoas, pessoas que não conhecemos. Vamos pensar então como aquelas pessoas que imaginam que os preconceitos são sempre dispensáveis. O que acontece quando conhecemos alguém novo? Criamos um novo arquivo onde as novas informações sobre aquela pessoas são condicionadas. Mas antes de termos informações sobre ela, simplesmente suspendemos os juízos? Se suspendemos, isso quer dizer que agimos de forma equânime com todas as pessoas que nos são desconhecidas? Quando nos deparamos com um sujeito mal encarado que, com a mão no bolso, vem em nossa direção, deixemos que se as coisas se materializem até que possamos legitimamente formar um juízo? Bem, eu não quero apenas mostrar que pensar assim é ir de encontro ao que é mais trivial no senso comum: ao fato de que na maioria das situações cotidianas o preconceito é uma ferramenta útil e indispensável. Eu quero mostrar que as coisas são assim porque se fossem de outro modo, nós não agiríamos com agimos. Voltemos a imagem da mente como um arquivo: se cada pessoa nova, desconhecida, fosse uma ficha, um arquivo, se não houvesse uma categoria maior das quais elas pudessem ser unidades, como num conjunto. Se não pudesse haver um conjunto maior do qual o conjunto atual fosse um subconjunto e assim por diante, então, cada ficha e arquivo seriam únicos e incomunicáveis. Não poderíamos aprender a lidar com as pessoas, a reagir a elas, pela razão que apresentei no início. Não teríamos a estabilidade necessária ao aprendizado. Se as pessoas fossem únicas e irredutíveis, no sentido de que todo o preconceito fosse detestável, não poderíamos esperar delas reações com as quais aprendermos a lidar. No entanto, muitos fatores fazem com que as pessoas ajam de modo homogêneo, e isso dá respaldo ao nosso aprendizado. Talvez haja uma dimensão própria da nossa natureza como justificativa para certas ações. Talvez haja uma dimensão própria de cada cultura. Não sei. O caso é que as regularidades que podemos observar auxiliam nossa lida com as coisas, com os outros, embora essa identificação não esteja imune ao erro.

O preconceito, na sua versão pavorosa e detestável, é a face contrária da crença ingênua na desimportância do preconceito. É a expressão do atraso de pensar que se pode ler nas coisas os sinais das categorias gerais usadas para lidar com as pessoas. Como se o preconceito fosse, não um recurso psicológico geralmente útil, mas um conhecimento irrefutável.

Não ser preconceituoso, no sentido pejorativo, não é não ter preconceitos, é ser capaz de flexibilizá-los, de romper com eles, de jogá-los no lixo. Ou, em outros casos, de reconhecer de sua utilidade. Nesse sentido eu sou um sujeito livre dessa versão negativa do preconceito, pois tenho capacidade para me desprender dos meus juízos; mas por isso mesmo sou um preconceituoso, no sentido positivo do termo, não imponho rédeas aos meus juízos (claro, eles jamais transpõem os limites da minha inteligência, pois, por exemplo, o preconceito racial é antes de mais nada uma forma de burrice. Felizmente meus juízos não ancoram no espaço que não pode receber a chancela racional). Deixem que eu conte um dos meus preconceitos, dias atrás eu diverti uma conhecida com ele: eu tenho preconceito de fãs dos Los Hermanos. Sem contexto, se você me diz que é fã dos Los Hermanos eu dou passo pra trás. Nada de errado com a banda, ela é bastante boa se consideramos o deserto cultural que assola certos setores da música brasileira há alguns anos -- mas seus fãs são quase sempre insuportáveis. O discurso que eles constroem para enaltecê-la é em geral bobo e atesta frequentemente uma gritante escassez de referências (que é, na maioria dos casos, a razão real porque eles emprestam tanto valor a banda). Já tive gratas surpresas. Pessoas que ultrapassaram em muito as fronteiras desse meu juízo. Mas outras vezes, na maior parte dos casos (razão pela qual meu preconceito existe), eu me divirto afirmando orgulhoso meu preconceito diante desses fãs e, se o dia estiver inspirado, arrisco até descontruir a mitologia da banda, mesmo que com uma ou outra mentira. É divertido pirraçar essa gente preconceituosa, convenhamos.