29 Março, 2009

Andreas Scholl



Poucas experiências musicais são tão poderosas e emocionantes quanto a que nos oferece Andreas Scholl. Suas interpretações de Handel renderam-lhe a notoriedade que hoje ele possui. Primeiro Scholl gravou Messiah, mas dizem que foi com a interpretação de Bertarido, na ópera Rodelinda, que ele se firmou definitivamente em seu espaço. Conheci Andreas Scholl num desses maravilhosos acasos que a internet proporciona, desde então coleciono tudo quanto encontro de suas produções. Tenho o maravilhoso Deutsche Barocklieder, English Folksongs & Lute Songs e muitas outras coisas fascinantes. Grande parte do material em formato lossless, achados no finado eMule (o eMule morreu, certo? morreu junto com o Razorback). Nada é menos do que precioso. Mas eu tenho especial afeição por Ombra mai fu -- claro, de Handel. Recortei a ária (da ópera Xérxes) que dá nome ao CD para que você possam apreciar a voz rara do senhor Scholl.Ouçam!






Bem, o link para alguns dos seus CDs estão aí. Há muita coisa em formato lossless pela internet, ou nos blogs listados na coluna lateral. Procurem! Entre as mulheres, por favor, busquem tudo que for possível da incrível Aafje Heynis. Aqui vai um bom acervo. A interpretação que ela empresta a Ave Maria é uma das coisas mais sublimes que eu já ouvi -- e olhe que essa não é a verstão que eu gosto.

PS. Andreas Scholl é contratenor, uma arte, penso eu, em extinção. Portanto sua impostação vocal é aguda, qual a de uma soprano.

A promíscua unidade nacional

Se há uma coisa comum em todo Brasil é a intimidade entre o público e o privado. Em todo país os dois setores conformam uma unidade de interesses que exclui dos seus domínios a opinião, demanda e necessidades da população, como se houvesse dois planos inteiramente independentes e como se o setor público não tivesse o dever de buscar o bem-estar coletivo. Vejamos então dois casos exemplares.

Primeiro:

Após o incêndio em Diadema o prefeito declarou que a indústria química instalada numa área residencial estava perfeitamente regulamentada. Disse ainda que o município tem Plano Diretor e que para uma cidade industrial é inevitável a convivência entre conjuntos urbanos e industriais. Pra que serve então o Plano Diretor?

Esse caso ilustra o costumeiro tratamento que recebe o interesse público no Brasil. Os Planos Diretores que deveriam fornecer diretrizes para orientação de projetos de ocupação do espaço nos municípios se transformam em meros expedientes para regularmentação (oficialização) das relações interessadas entre o setor público e privado. De um lado as prefeituras, de olho nos rendimentos que acompanham as obras das empreiteiras -- além, é claro, da simpatia dos empresários do ramo, generosos doadores em tempo de eleição. Do outro, empresas de construção civil, interessadas em lucrar, mas pouco atentas para os efeitos de seus projetos para a vida social do município.

Em Salvador não foi diferente. O episódio da aprovação do PDDU foi vergonhoso. Qualquer um que ande pela cidade pode notar suas consequências: a explosão incontida da obras cujo impacto social dificilmente foi avaliado de forma apropriada. Para se ter uma ideia dos interesses envolvidos, correu a notícia de que a secretária de Planejamento da cidade (uma das principais articuladoras do PDDU) descumpriu determinações judiciais e levou adiante obras embargadas. No currículo da secretária também consta a acusação de ter autorizado a demolição de um terreiro -- não sei como anda o processo. O interesse publico é mascateado vergonhosamente em benefício de partes que não fazem caso das demandas da população e da subsistência da cidade como um organismo que requer cuidado constante para não estancar numa dimensão insustentável. As vias urbanas de Salvador tem 4 ou 5 anos de limite. Se nenhuma medida for adotada nesse tempo, na falta de estudos e aplicação de projetos de escoamento dos carros que andam pelas ruas (e crescem em proporção assustadora), o colapso será inevitável. A melhor solução deveria começar com um Plano Diretor responsável, seguido de um estudo implementado em regime de urgência. Nada disso aconteceu. A cidade cresce ao sabor do vento e só a sorte pode nos livrar de um futuro que compremeterá não só a vida cotidiana dos moradores, mas a própria viabilidade financeira do município. Cabe lembrar do recente caso da Vila Abrandão cujo desenrolar testemunha o afã dos interessados em lucrar com uso do solo, cegos para qualquer aspecto social que obstrua seu interesse. Até o presidente Lula, que recentemente visitou a cidade, foi mobilizado para tentar interceder pelos moradores da região.

Em São Paulo a coisa caminha no mesmo ritmo, é a notícia que chega através do blog de Denis Russo Burgierman. O Plano Direitor é tratado como uma grande projeto de captação de recursos, a despeito do interesse social em regulamentar a ocupação do solo. Além do próprio post do Denis sobre o assunto, convém ler também, no mesmo lugar, os comentários das pessoas que participaram das discussões sobre o Plano na Câmara de São de Paulo. É vergonhosa a forma como elas foram simplesmente atropeladas e ignoradas.

Segundo:

Eu gostaria de ter escrito sobre o episódio assim que ele aconteceu. Antes que eu pudesse cumprir meu propósito meu xará escreveu um texto muito interessante sobre a onda de solidariedade que comoveu a parte mais abastada da população a reagir contra o "Estado Policialesco" que encarcerou indevidamente a dona da Daslu. E-mails circularam pedindo a libertação da empresária (que já foi solta). Free Eliana, eles diziam.

Moderado como sou, eu chego a considerar a possibilidade de que a prisão tenha sido efetivamente indevida, embora eu não consiga entender como o fato de um recurso ainda ser cabível deveria impedir que um juiz de primeira instância apresentasse um pedido de prisão, conforme a sentença. A pergunta que intriga é: o que torna a dona da Daslu diferente de todas as outras pessoas que eventualmente sofrem com decisões indevidas a ponto de o presidente da OAB-SP sair em sua defesa, criticando a atuação de outro magistrado? Procurem, no mesmo portal, notícias relacionadas ao presidente da OAB-SP. Nada semelhante será encontrado. Aliás, a figura do presidente só é familiar porque ele foi um dos notórios membro do "Cansei".

Se a mulher precisa de cuidados médicos, que ela receba. Mas também têm esse direito as milhares de pessoas abandonadas em condições sub-humanas nos presídios brasileiros, os portadores de AIDS, por exemplo, como bem lembra Sakamoto.

É revoltante que interesses públicos e privados se enlacem assim sem nenhum pudor. Pior, que eles se invistam da legitimidade de cargos públicos e de autoridades para atuar abertamente segundo padrões e medidas diversos quando convém aos seus interesses. Igualdade é palavra chave para a justiça, tanto quanto a responsabilidade é cara à política. Enquanto esse termos forem simples acessórios no fazer político nacional, continuaremos a observar esse trânsito ilegitimo entre esses dois campos, em detrimento da sociedade brasileira, da população.

25 Março, 2009

Lie to me



Descobri por acaso o seriado Lie to me, da FOX. Temi prontamente que meus numerosos fantasmas se multiplicassem. Sou homem da seguinte qualidade: se me levanto da mesa para ir ao banheiro do bar ao lado, portanto, para cometer o crime incofessável de me servir de préstimos pelos quais não paguei, vai se adensando em mim, tão logo eu me ponho de pé, a sensação de que cada ser vivo naquele espaço conhece meu maligno intento. Os garçons me olham com olhos de reprovação e seguem meus passos para verificar o já sabido. Mas eu insisto, pois já faz tempo desde que aprendi a lidar com os fantasmas da paranóia e da obsessão. (Nota: essa história me faz lembrar uma tirinha de Wagner & Beethoven. Muito engraçada! O pesadelo de todo paranóico). Parece até perigoso registrar assim publicamente tais comportamentos. Nunca se sabe quando um psiquiatra, numa pesquisa pouco ortodoxa pela internet, aportará por aqui. Temo as consequências de sua avaliação. Uma intervenção não se encaixa propriamente nos meus planos para o futuro.

Bem, a série tem um cenário interessante: um cientista e sua equipe aplicam os resultados de uma teoria que identifica relações entre sentimentos, emoções, significados e microexpressões. É como se cada microexpressão estivesse ligada ou a uma manifestação anímica segundo uma tábua ou um código previamente definido. Aqui se esclarece a relação entre as minhas paranóias e o seriado: imagine o efeito, para um sujeito viciado em significações, da possibilidade de que cada gesto, por menor que seja, comporte significados redutíveis a um certo padrão.

Eu mal tenho ouvido o que as pessoas falam comigo, no desajuste inicial da tentativa de sincronizar a atenção dirigida a fala e aos sinais expressivos do rosto e das mãos. É por essas e outras que são se deve deixar as crianças muito tempo em frente à TV.

Mas há certos embaraços na série. Obstáculos que talvez a condenem a um vida breve em meu HD. Primeiro, não consigo imaginar variações significativas para o que se apresentou nos primeiros episódios, assim, talvez a série logo se torne monótona e repetitiva. No entanto, essa incapacidade imaginativa pode ser um sintoma da minha incompetência como roteirista -- o que é bem provável; espero que seja o caso, para minha felicidade de expectador. Segundo, a premissa da série me desconforta. Claro, é preciso considerar que há contextos auxiliando o estabelecimento das relações entre as expressões e os sentimentos e emoções. Ainda sim, soa estranho. É aquele velho estranhamento diante de tudo que parece determinismo.

Quer dizer, como é que se chega a relação entre uma determinada expressão e um sentimento? Ora, a ciência está sempre no lastro dos cálculos estatísticos com os quais ela pensa poder se livrar do velho problema da indução. Os cálculos estatísticos, contudo, deixam um espaço -- às vezes quase desprezível -- que se alarga substancialmente quando o terreno em que eles se instalam é contíguo ao domínio do liberdade. Se a ciência não pode mais falar das coisas de modo absoluto e universal, suas proposições estão condenadas a certa contingência bastante aceitável, que não suprime sua operacionalidade, no entanto, que é o bastante para lançar pesadas dúvidas sobre métodos que pretendam estabelecer elos entre sentimentos e manifestações expressivas. Se um determinado fenômeno no corpo, expressivos ou bioquímico, por exemplo, é associado a um certo sentimento ou emoção, como lidar então com esse espaço de contingência que na ciência não se pode afastar. Quer dizer, e se aquela teoria for afastada ou renovada, ou completamente descartada, como foram tantas outras no passado? O contexto, em muitos casos, pode tornar indubitável a aplicação de uma teoria -- ou, como acontece algumas vezes na série, levar a uma confissão --, mas em outros casos não. Em alguns deles a reformulação da teoria resulta numa mudança de diagnóstico, de resultado.

É difícil que uma ciência sempre em transformação possa fornecer dados que se pretendam, de alguma forma, universais. Se não são universais, mas cambiáveis, como ficarão os diagnósticos, enfim, o produto de sua aplicação, no intervalo de uma mudança de paradigma? Esses métodos só podem ser coadjuvantes, instrumentos secundários, circunstânciais, embora possam ser decisivos para criar o contexto em que uma confissão é quase inevitável. A série, portanto, inverte os papéis, e torna protagonista o que só pode ser coadjuvante. Curioso que nos primerios episódios aconteça uma crítica ao caráter linear das leituras dos detectores de mentiras. De algum modo é uma crítica semelhante a que alguém poderia dirigir a própria pretensão de uma teoria das microexpressões.

PS. Vocês viram, o post começou bem, trivial, e acabou descambando para a velha pauta de conversas de estudantes em mesa de bar. Vocês me perdoem.

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Lie to me também é o nome de um excelente CD de um ex-futuro possivel ícone do blues, Johnny Lang, que chegou a vir ao Brasil no longínquo ano de 1999, pro finado Free Jazz Festival (hoje Tim Festival, certo?).

Atualização 1 - Assim se resume a ópera, para que a gente não confunda dois pontos distintos: 1) Como lidar, no que se refere a atribuição de significado às expressões, com o fato de que a generalização que instaura a relação entre expressão e significado não consegue eliminar a possibilidade de uma outra relação significativa? Com a possibilidade de que uma expressão facial qualquer, ao contrário de denotar mentira, denote medo? Essa possibilidade nunca está completamente afastada nas proposições científicas -- se há então a menor espaço que seja para dúvida, como tomar essas proposições a base para ações? 2) Como ficam as relações significativas diante de uma mudança de paradigma?

Atualização 2 - Esqueci de passar o link para quem quiser assistir a série. Cliquem aqui.

22 Março, 2009

Um poder antidemocrático

Depois da "ditabranda" muito se discutiu sobre democracia e ditadura. Os formalistas mostraram-se cegos às matizes da constituição de uma democracia, apegando-se às categorias mais elementares como liberdade de expressão e pensamento, pluralidade política, etc.

Uma democracia pode por vezes esconder forças tão nefastas quanto uma ditadura, com o agravante de que, sob a bandeira da democracia, muito se faz impunemente. O comportamento de Gilmar Mendes, há meses, torna evidente esse aspecto.

Em linha gerais os políticos brasileiros, ainda que insensíveis aos desejos do povo, reconhecem limites. Ainda restam aprimoramentos aos movimentos sociais no país, diversificação e maior presença junto aos líderes políticos que os representam no Congresso. Mas mesmo que não perfeitamente organizado, o povo consegue expressar sua vontade, sobretudo quando episódios especialmente revoltantes acontecem. Nesses casos a classe política, temerária, corre para demonstrar trabalho e atenção, ainda que de modo cerimonioso e dissimulado. A luta política também cumpre papel regulamentador. Oposição e situação fiscalizam-se, mesmo que existam notórios pontos de convergência (conforme atesta o caso Dantas, por exemplo). À parte isso, Gilmar Mendes segue absoluto em seu pequeno reinado. Nada, absolutamente nada, é capaz de deter suas intervenções políticas, suas declarações públicas. Talvez esse papel coubesse ao Conselho Nacional de Justiça, não fosse o CNJ capitaneado pelo próprio Gilmar.

A esse comportamento os políticos fecham os olhos. Kennedy Alencar chegou a considerá-lo a voz mais destacada da oposição. Se a conduta de Mendes causou estranhamento já nos primeiros capítulos da novela Dantas, a medida que as coisas foram se desenvolvendo tudo ficou claro. Na entrevista que concedeu ao Roda Viva, mesmo falando para uma claque (com raras e surpreendentes exceções), mostrou-se vivamente contrafeito pelas perguntas que exigiam justificação pelas suas declarações e posicionamentos anteriores. Desde então esse tipo de hostilidade tem se repetido constantemente. Da última feita, conta Leandro Fortes, jornalista da Carta Capital, o ministro censurou um programa de Televisão do Congresso no qual se discutia as obscuras relações que ele mantém no seu estado natal. Em outro episódio cobrou, furioso, mais cuidado a um jornalista na formulação de suas perguntas. Avesso a ideias contrárias, afeito a censura e absoluto no exercício do seu poder, Gilmar Mendes é um ditador em plena democracia, a expressão de um poder antidemocrático porque absoluto e impoliciável. Eu repito uma tese recorrente aqui no blog: uma democracia mal organizada é ainda mais nefasta que uma ditadura, pois nela o poder se concentra e é exercido de forma despótica, sem, contudo, que se possa denunciar a ilegitimidade, escondida na espessura de leis e instituições complacentes.

Baixei os três vídeos do programa censurado por Mendes. Eles estão disponíveis no canal do Azenha no Youtube. A discussão que ali se desenrola é seguramente interessante. Armazenei-os no Rapidshare para quem quiser tê-los no computador. Vocês sabem, faz parte da minha política de arqueologia digital não confiar nos expedientes de armazenamento. A gente nunca sabe até onde se estende os poderes nosso ditador.

21 Março, 2009

O cúmulo do cinismo

A minha inconformidade, até raiva, com o delegado é que no fundo quem deveria estar na cadeia hoje fica rindo disso tudo. Ele terminou favorecendo a impunidade. Eu quero o Dantas na cadeia, mas dentro da lei.
As palavras do deputado Raul Jungman marcam um cinismo muito difundido entre as autoridades públicas. As irregularidades controversamente presumidas são transformadas no principal obstáculo à condenação de Daniel Dantas. Assim, mascaram-se aspectos importantes. Primeiro, consideremos: mesmo quem não aceita as relações que eu estabeleci entre os interesses de Dantas e o comportamento e declarações de políticos e magistrados, concorda que a configuração das nossas leis produz anomalias que oferecem aos ricos oportunidades interditadas aos mais pobres. A história do Brasil registra esse desnível até os dias de hoje e nada é mais evidente para quem visa as decisões das altas cortes por aqui. O cinismo vazado nas palavras de Jungman transforma um capítulo da história secular do judiciário brasileiro, numa ocorrência causada pela atuação repreensível -- até o nível da revolta, como se vê -- do delegado. Em outras palavras, o cinismo corresponde a tentativa de criar um bode expiatório para as ações e declarações das autoridades. Como se as irregularidades insinuadas pudessem nos fazer esquecer as regalias e privilégios disponíveis aos ricos e poderosos e, por consequência, a combinação de interesses públicos e privados.

A segunda coisa mascarada, e de certo modo relacionada à primeira, é a dimensão apropriada das investigações sobre Satiagraha. O impacto das investigações é amplificado a fim de que possa melhor se encaixar na tese conspiratória de que a atuação da Polícia Federal foi a causa verdadeira do novo episódio de impunidade em que Daniel Dantas está envolvido. Talvez devamos estimar como positivo esse novo contexto. Nas ocasiões anteriores em que Dantas saiu incólume nem se deram ao trabalho de forjar expedientes dessa natureza. Se agora eles se preocupam em dissimular é porque algo de novo se deu.

A natureza da investigação sobre Protógenes, já foi dito, é estritamente administrativa e mesmo se fosse de outra maneira não estaria explicada a ênfase que se tem dispensado a ela. A operação destinada a desarticular o poder de um dos mais poderosos agentes corruptores do país (imune a inúmeras investigações anteriores) é o tom -- e todo o resto, trivial. Se não tivéssemos pessoas e instituições capazes de avaliar o procedimento da Polícia e, portanto, de regular sua atuação, talvez pudéssemos entender o motivo da atenção exacerbada dirigida à operação. Como não é o caso, é de se estranhar. Então, como justificativa, foi lançada a tese de que atuação dos agentes policiais (e mesmo do magistrado envolvido na operação) ofereceu à defesa facilidades -- como se Daniel Dantas já não tivesse facilidades o bastante no STF. Ventilou-se até o risco de anulação do processo. Balela! Voltamos assim ao princípio cínico mencionado. A bizarra inversão que tem conduzido a "opinião pública" a prestar maior atenção à investigação sobre os procedimentos dos agentes da polícia do que aos desdobramentos da operação é explicada pela pressuposição da tese de que impunidade já prenunciada será causada não pelos estreitos interesses entre políticos, autoridades e Daniel Dantas (que explicam a morosidade das antigas investigações e a absolvição em tantas outras), mas pelo procedimento irregular dos envolvidos na operação. Repito, é daqueles terríveis indicadores que só o Brasil é capaz de produzir essa preocupação inédita em dissimular o que antes era escancarado. Mas a dissimulação é grosseira, fere a inteligência de qualquer pessoa capaz de enxergar o que desde sempre esteve errado em nossas leis e suas consequências. Imaginar que a impunidade tem um novo vetor é fazer pouco caso da inteligência alheia -- coisa muito frequente em se tratando de parlamentares.

Curioso é que na mesma matéria da qual foi extraída a declaração de Raul Jungman, somos informados que o próprio deputado do PSDB, além do deputado Marcelo Itagiba, do PMDB, teriam recebido doações de R$ 30 milhões de um alto executivo do Opportunity. Questionado sobre a doação, Jungman declarou que ela não invalida sua participação na CPI que investiga os vazamento da operação Satiagraha (embora ela mesma seja fonte de vazamentos). Mas é claro não invalida, quem haveria de questionar a lisura do comportamento do deputado. Só a presença da possibilidade de contaminação de interesse públicos e privados alimentaria insinuações semelhantes -- e essa possibilidade, todos sabem, deve ser previamente afastada.

A política no Brasil segue no mesmo ritmo de sempre.

16 Março, 2009

Uma desculpa e uma música

Lamentável que algumas circunstâncias exijam o abandono de costumes e hábitos cotidianos. Não sou dessas criaturas incríveis que organizam e desempenham simultaneamente múltiplas atividades. Para que eu desenvolva bem um único projeto preciso de concentração quase absoluta, de sorte que as outras tarefas caem fatalmente em segundo plano. Meus estudos cobram um relativo afastamento da atividade de consumidor voraz de notícias e comentários -- o Google Reader é o primeiro alvo. Aliás, vejam o estado em que ele se encontra, diante desse panorama:



Isso produz um dilema: o consumo de notícias e comentários não é fetiche ou capricho, pelo menos não absolutamente. A internet e os blogs fazem parte de um novo modo de fazer política, de promover as discussões indispensáveis ao aprimoramento democrático, ao exercício do debate e do diálogo sem os quais nossa presença em sociedade é meramente cênica. Assim, meu distanciamento ganha contornos ainda mais dramáticos e minha ausência desse espaço de discussão e participação política atinge um estatuto ético. Bem, à parte o drama, o caso é que por conta dos meus projetos vocês poderão notar ligeiras (ou não) mudanças editoriais: posts mais amenos, maior intervalo entre eles, textos menos desenvolvidos (se é que já houve coisas diferentes disso), especialmente porque não estarei mais estreitamente ligado às pautas mais imediatas da política e das coisas afins. Perdoem e, caso não lhes custe muito, permaneçam por aqui até que sobrevenham dias menos conturbados. Tentarei, talvez, exercitar uma escrita menos carregada, mais mundana. Enfim, está aí a desculpa para qualquer coisa futura.

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Vocês sabem que a minha memória está em vias de materialização de tanto que eu a invoco neste blog. No entanto, suas oscilações não deixam de ter sua arte, porque elas emprestam sabor especial às recordações. A arbitrariedade das lembranças desenha um mosaico às vezes significativo. Lembrei assim, do nada, de uma música de Gil que há tempos não ouço: Drão. Lembrando, comentei com alguém que me disse algo que eu não sabia, a música foi feita para sua então esposa, Sandra. Sandrão. Até então eu ignorava o significado do título e estava contente assim, pelo visto. É uma música muito interessante, com uma letra bonita, vale a pena lembrar. Eu prefiro a versão do Acústico de 94, com um arranjo pra flauta logo no início que faz vir a minha mente a imagens de sátiros tocando lascivamente aquele instrumento cujo nome agora me escapa. A versão que está aqui é a do disco Um Banda Um. Espero que gostem mesmo assim.

PS. A propósito, Flavia, não esqueci dos textos não. É a falta de concentração mesmo, tenha paciência comigo!

09 Março, 2009

O Estado Denuncialesco

Respeito e participo da opinião de que é preciso distinguir bons em maus profissionais envolvidos no trabalho da grande imprensa nacional. Sei também que há extremismo embrulhado nas críticas que alguns dirigem à imprensa -- mas há muita gente honesta, com bons argumentos. Feita a ponderação, devo considerar que a já estourada nova capa da revista Veja deixa pouco espaço para os que se empenham em cobrar discernimento acerca dos profissionais do jornalismo. Nem bem se esclareceu o anterior episódio dos grampos -- a CPI já se encaminhava para o final sem nenhum indiciamento -- e surge nova denúncia. A impressão que se tem é que no Brasil política e jornalismo de massa se faz com enorme irresponsabilidade.

Por um lado as autoridades públicas, investidas de poderes invejadas por qualquer Leviatã, a condenar e sentenciar  pessoas e instituições, malgrado os processos legais indispensáveis ao Estado de Direito (e depois a gente reclama que falta domínio técnico às pessoas que comentam política). É marca de atraso esse personalismo despótico que em nome da "democracia" joga no lixo a tradição de instituições que lutam por se firmar como sólidas -- a Polícia Federal e a ABIN estão entre os mais confiáveis e regulares espaços do poder público. Do outro lado, a imprensa, alheia ao histórico das personalidades envolvidas e pouco interessada no currículo nos veículos que produzem e publicam denúncias bombásticas. É irresponsabilidade demais para um país que se quer democrático.

Lembro vagamente de ter lido ou ouvido falar a respeito da preocupação partilhada por juizes e advogados de que o processo penal não se converta em pena, de que todas as etapas e princípios próprios a um julgamento justo sejam respeitados a fim de que não se percam os fundamentos da Democracia e do Direito. Fora do âmbito judicial, nem mesmo certos juizes demonstram essa preocupação. A "opinião pública" recentemente ocupada com o Estado Policialesco denunciado pelo guardião Mendes parece pouco interessada com o Estado Denuncialesco que vigora no há décadas nestas paragens. Nesse Estado, a mera denúncia é convertida em pena e os acusadores são esquecidos mesmo que as acusações se mostrem irreais. Não é que as pessoas não devam considerar, calcular e concluir conforme seus interesses. Mesmo os ministros tem o direito de fazê-lo. Mas a regularidade com que erram e manifestam seus erros, pulando procedimentos que para advogados são questões de ofício, é certamente sintomática. Perdeu-se em nosso país -- além do senso de responsabilidade, na medida em que ninguém é responsabilizado por denúncias graves -- a noção de credibilidade. As denúncias se fixam sem que se apure quem são os denunciadores, que interesses estão em jogo e quais são os alvos. É um completo absurdo que a Veja paute a imprensa nacional após tantos furos. Até quando será permitido que pessoas e empresas irresponsáveis e descompromissadas determinem os rumos das notícias? Quanta lama é necessária para sujar a imagem dos órgãos de imprensa e impedir que suas produções sejam levadas a sério?

PS. Pensem vocês, o que levaria José Dirceu e o rol dos mais histriônicos direitistas tupiniquins a concordar sobre o absurdo dos "grampos" realizados por Protógenes? Vou uma dica, o nome começa com D.

Atualização 1 - Ao cabo de todas as investigações poderemos nos sentir tranquilos, certos de que a sociedade brasileira se livrou do bandido anônimo que responde pelo nome de Protógenes Queiroz. Mais um belo serviço que Dantas prestou à nação. Protógenes gozava de autonomia para grampear todo mundo. Quem controlava o controlador, pergunta Ricardo Noblat, ninguém, responde ele mesmo. Curioso que agora seja um problema a falta de controle das autoridades públicas. É mais um capítulo da novela da seletividade nacional, aguardem os próximos capítulos.

Atualização 2 - Abin pode acessar dados da PF, diz Menezes Direito
A Abin pode ter acesso a dados da Polícia Federal, segundo entende o ministro Menezes Direito, do STF. O ministro se manifestou sobre um pedido feito em dezembro pelo PPS, no auge da discussão sobre a participação da Abin na Operação Satiagraha, que investiga o banqueiro Daniel Dantas. (...) Para a defesa do banqueiro, trata-se de uma decisão monocrática, que não representa o entendimento do STF, e "a participação da Abin foi ilegal", pois o órgão não teria atribuição para investigar.
Definição do termo "decisão monocrática": decisão que contraria os interesses de Daniel Dantas.

Atualização 3 - Depoimento do procurador Rodrigo de Grandis sobre as informações noticiadas pela Veja:
Este procurador da República não recebeu informação do delegado Protógenes Queiroz de que a PF empregava agentes da Abin na Operação Satiagraha, seja formalmente ou informalmente. (...) Apesar de não comunicada, a participação da Abin não configura crime, nem ilegalidade. A Lei do Sistema Brasileiro de Inteligência, Sisbin, prevê a participação de agentes de inteligência e o compartilhamento de dados entre a polícia e os demais órgãos de inteligência. (...) Se a forma como essa participação foi comunicada pelo delegado Queiroz a seus superiores fere regulamentos internos da PF, isso deve ser tratado exclusivamente no âmbito administrativo, mediante investigações da própria polícia;
Leiam todo o post. Vê-se a transformação de uma investigação regular, de natureza estritamente administrativa, numa cruzada esmagadora contra a operação Satiagraha, como se as possíveis "irregularidades" da operação fossem indício do que há de mais inaceitável em nossa sociedade. Como se a corrupção que desvia dinheiro do Estado e mistura interesse públicos e privados fosse algo meramente trivial cuja solução pode ser protelada. Quando, afinal de contas, a punição aos corruptores será um problema para os setores hipócritas da imprensa?

Atualização 4 - Parecer da 5ª turma do Tribunal Regional Federal sobre a relação entre ABIN e PF:
"O compartilhamento de dados sigilosos entre a Polícia Federal e outros órgãos do Estado (CVM, Bacen, Receita Federal) ocorre ordinariamente e não causa nenhuma perplexidade", concluíram os juízes.
E ainda mais:
Além da falta de "elementos de convicção suficientes para avaliar a participação e eventual ilegalidade na participação de agentes da Abin na Operação Satiagraha", a impetração não apontou fato específico que tenha havido o envolvimento de agentes da Abin, nem comprovou ter suportado prejuízo concreto, ponderaram os magistrados.
E finalmente:
"As nulidades do inquérito não podem macular a ação penal", registra a decisão. Ou seja... Qualquer ato da investigação que não tenha validade jurídica, pois transgrediu alguma regra legal, não vai invalidar a constatação do crime julgado.
Chorem, viúvas de Dantas.

Mulheres da minha vida

Há quem acredite que não há amizade entre homens e mulheres. Eu discordo. Em algumas circunstâncias, o que há é uma tensão entre o desejo e a amizade. Não significa que eles se oponham, mas eles também não necessariamente se atraem. Não é infrequente acontecer de uma amizade terminar -- ou estremecer -- por conta de uma aventura malsucedida.

Eu tenho boas amigas e elas têm papel fundamental em minha vida. Minha fortuna para encontrar amigos é invejável -- é bem verdade que eles são pouco numerosos, mas ainda sim abnegados e extremamente atentos aos meus minguados caprichos. Embora em boas qualidades eles se equiparem, as mulheres levam vantagem em alguns quesitos. A gente sempre pode beber com amigos, se divertir, beber -- para gente saudável, beber é a melhor terapia --, mas há um limite. Os amigos, como homens, são limitados em matéria de sabedoria. As mulheres, o contrário. Só com elas um sujeito pode se sentir plenamente à vontade.

(Aproveitando o ensejo, deixem que eu cumpra a promessa de homenagear a chapeuzinho vermelho mais quente de toda a Olinda. Reza a lenda que até os Policiais Militares andavam tentados a descer dos seus postos e uivar como lobos para a lady in red)



O caso é que sempre que eu manifestava a minha crônica melancolia, seja pelas brigas com as namoradas, seja pela sensação sistemática de que Fernando Pessoa às vezes falava de mim, eram elas o bálsamo de minhas angústias. A aptidão maternal para acalentar está em toda mulher. Perdi muitas amigas para minha natureza antisocial e conflitiva -- Ivone, Daniela -- mas conservei outras que guardo no coração.

No campo amoroso a coisa é complicada, nunca tive a sorte de encontrar nas namoradas as mesmas qualidades que adorava nas amigas. Quando encontrei, joguei fora, por causa da imaturidade que se tolera aos 20 anos. Outras vezes, vejam só, tive que desistir de relacionamentos promissores com amigas por circunstâncias em que ambos estávamos metidos. Creio que os meus relacionamentos mais auspiciosos estagnaram em situações desse tipo.

Pensando bem e falando com honestidade, as mulheres são o céu e o inferno. Porque se é verdade que elas têm uma natureza balsâmica, é igualmente verdadeiro que atuam para amenizar os males causados pela sua própria classe. Ainda mais quando isso me diz respeito, pobre vítima dos malévolos planos de algumas mentes femininas. No meu tour recente pelos meus filmes preferidos encontrei um fragmento bastante ilustrativo em Alta Fidelidade. Os homens saberão reconhecer o padrão.







O humor, o caráter, o cheiro, o dormir (gosto especialmente quando ele diz que "ela não descarrega nos outros quando tem um dia ruim"). Tudo nas mulheres ganha novo significado. Pode parecer uma série desconexa de elementos, uma espécie de enciclopédia chinesa, mas é a unidade mística dessas criaturas. E assim, numa lista confusa de características apresentadas num filme pop, está muito bem representado o que é exatamente essencial e ambíguo na natureza feminina. Há uma frase que diz: o diabo está nos detalhes. Bem, não é à toa que se crê que elas são criação diabólica. Não há nada mais detalhista e minuciosa. Sejam as mães que aporrinham pelas camas desarrumadas, sejam as namoradas que não conseguem dormir com seus pequenos gestos e trejeitos. Os homens não são assim tão encantadoramente minuciosos.

Bem, perdoem essas linhas mal elaboradas e confusas -- como de hábito. Essa é apenas a minha canhestra maneira da homenagear e agradecer às mulheres de minha vida que merecem agradecimentos. E as que não merecem também, vá lá, afinal a vida não é composta exclusivamente de bons caminhos, a minha muito menos. Amo todas vocês. E não se sintam enciumadas pela foto de Sarinha -- ciúmes, vocês sabem, é cousa bem feminina.

Atualização - Querem saber da mágica que só as mulheres oferecem: um único sorriso, em resposta a um gesto de cortesia, capaz de dissipar as sombras de um dia carregado.

08 Março, 2009

Tentando esclarecer a seletividade do Supremo e do Ministro

Nas últimas semanas muita gente entendida em Direito passou por aqui. O nível da discussão subiu e muitas questões vieram à baila. Porém, restou um desentendimento acerca do núcleo de problemas que eu abordei com os comentários sobre Gilmar Mendes.

A discussão que propus não envolve terreno estritamente jurídico. Não exige portanto nenhum domínio técnico. Em linhas gerais o que eu estabeleci foi uma relação causal entre decisões do Supremo, manifestações de ministros e políticos e o caso Daniel Dantas. Destaquei que questões adormecidas ganharam novo fôlego depois que passaram a interessar ao caso de um dos maiores agentes corruptores do história do país. Todos sabem que há figuras de variadas orientações políticas envolvidas, com o rabo preso com Dantas. Portanto deixem que eu esclareça: negar minhas conclusões significa identificar uma outra causa para o comportamento das autoridades. Não basta meramente destacar o cumprimento das regras, o processo, a própria norma e seu papel fundante -- como é o caso da presunção da inocência. Não estou avaliando a tramitação do processo, nem desconsiderando a legitimidade das decisões. Mas para entender minha posição é preciso considerar que mesmo a mobilização legítima e as decisões bem fundamentadas podem ser alvos de críticas. Quando se confunde pretexto e causa, perde-se de vistas as intenções e interesses subjacentes. Se a origem do ritmo acelerado com que as altas cortes tem se manifestado contra supostas violações constitucionais pudesse ser identificado em outro ponto -- e não no lastro do caso Daniel Dantas -- talvez o próprio desenvolvimento institucional pudesse explicar os movimentos do Supremo. Vejam bem, não estou dizendo que não existiram decisões anteriores nesse sentido -- claro que existiram. Mas é cinismo comparar com o ritmo desencadeado após a prisão de Dantas. Em todo caso, aqui fica o desafio: vamos botar na balança as manifestações posteriores ao caso e as decisões anteriores em favor do cumprimento de normas constitucionais, em prol de garantias individuais, e avaliar se temos razões para desacreditar todas as suspeitas que levantamos, enfim, para abandonar a relação causal que inferimos.

(Até porque, corrijam se eu estiver errado, a presunção da inocência vigora em nossa constituição desde 88: é muito tempo para se perceber a necessidade de se efetivar um princípio. Curioso que essa percepção tenha despontado justamente depois que a imagem do Supremo machou-se com as decisões de Gilmar, não é mesmo?)

É verdade que há formulações imprecisas, críticas indevidas e até certo apelo punitivista por parte de alguns, como bem anota Moysés, todavia, é ainda mais perigosa a crítica que no interesse de esclarecer o debate pensa que ele deveria se dar apenas no espaço técnico. Perde-se com isso a distinção entre o campo da legalidade e o da moralidade (ou eticidade). As normas jurídicas orientam a realização da justiça, é verdade. Por definição (as normas resultam de acordos), sem seus princípios não podemos alcançá-la. Mas nem por isso os campos se confundem: o que é legítimo pode bem ser mobilizado por interesses impróprios, sem ferir sua legitimidade. Só quando os dois campos são sobrepostos a discussão se encerra no domínio técnico, isto é, só quando se perde de vista que a legitimidade instaurada pode bem ter sido mobilizada no interesse particular, com o respaldo, claro, do interesse público, que é seu verdadeiro alvo. O resultado é somente um: o fechamento do debate no âmbito ético.

Por fim, não se trata de ímpeto punitivo nem inquisitorial, nem mesmo quando diz respeito ao que chamamos de execução penal provisória: é o simples e puro estranhamento diante do lapso de 20 anos das autoridades. É preciso entender que o princípio "ético" da presunção da inocência não é condenável, nem deve ser descartado, mas quando depois de longo sono ele desperta no justo tempo em que as figuras centrais do nosso mapa da corrupção estão na mira, não devemos simplesmente fechar os olhos e saudá-lo inadvertidamente. Não vamos converter dúvidas razoáveis em expressão de falta de cultura jurídica -- não vamos confundir as coisas. Não devemos fechar os olhos, não nesse contexto. Embora eu tenha me detido na questão da execução penal provisória e no presunção da inocência, há muitos outros tópicos que, legítimos ou não, ganharam enorme repercussão desde do caso Dantas. Há o caso das algemas e o da inviolabilidade dos escritórios de advocacia, por exemplo. Desculpem a má palavra, mas quem é cínico a ponto de negar que problemas como o uso indevido de algemas existem no Brasil desde Cabral -- até Maluf "sofreu" com ele -- e quem é capaz de negar que esse foi um dos pontos questionados por todos os envolvidos na operação Satiagraha? Ou quem não sabe que a inviolabilidade que tentaram nos empurrar goela abaixo foi uma resposta à promíscua relação que alguns escritórios mantém com a nata da corrupção (ou mesmo da violência e do tráfico de drogas)? Tudo isso parece fichinha quando ouvimos o ministro que inventou um grampo inexistente e decretou uma crise institucional fantasma, o guardião da democracia, combatedor incansável do Estado Policialesco, pedir investigação -- que há muito já se encontrava ativa -- acerca da das invasões do MST. Quando o fizeram saber da atuação do Ministério Público, atuação que ele ignorava, pediu celeridade. A mesma celeridade que não tiveram as vítimas do massacre de  Eldorado dos Carajás. A mesma celeridade pela qual esperam mais de 50% da população carcerária brasileira. Depois estranham que as pessoas considerem que as ações de Mendes são interessadas.

Perdoem, ignorar esse aspectos não é manifestar prudência ou comedimento inerente aos bons conhecedores da lei -- em oposição aos leigos --, mas confiar cegamente na lisura de gente sem credibilidade e esquecer a falta de dispositivos democráticos, nosso atraso institucional e político, para fiscalizar a conduta de tais figuras. Em alguns casos, é expressar conivência com comportamentos que, sob o espesso véu da legalidade, escondem as mesmas maracutaias e a falta de espírito democrático que grassa em nossas terras há séculos. É, acima de tudo, não ter entendido o argumento central das minhas críticas.

Atualização 1 - Banalização do garantismo penal, de um Promotor de Justiça em Minas Gerais.

Atualização 2 - Mais uma vítima salva pela redescoberta da presunção de inocência: Presunção de inocência: novo HC de Cacciola.
“Reúne todas as condições pessoais para responder em liberdade ao
processo, além de ter ocupação lícita e endereço fixo”, diz o HC, que
não tem pedido liminar, apenas de mérito. Segundo os advogados, se
estiver solto ele não comprometerá a ordem pública e econômica, a
instrução criminal e a aplicação da lei penal.
Reune, de fato.

07 Março, 2009

Projeto Espicha Verão - Praia 24 horas

Começou hoje às 13h o Projeto Espicha Verão (Praia 24h) 2009. Eu falei sobre ele num post em novembro. É um projeto fantástico que envolve atrações musicais, atividades culturais, tudo isso instalado no Barra, nas imediações do Porto da Barra. Pouca gente que chega aqui é Salvador, mas vale a pena registrar um projeto que estranhamente tem pouca divulgação. A grade de programação eu afanei de um dos blog de Eli Sandra Barbosa. Num deles, aliás, pode-se ler uma boa descrição sobre o projeto.

7 de março de 2009

HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER E AOS 100 ANOS DE CARMEM MIRANDA

ATRAÇÕES MUSICAIS

13h-16h Palco acústico: novos talentos da cena musical baiana: Stela Maris, Andréa Daltro, Noeme Bastos, Clécia Queiroz
16h10-19h Apresentação de grupos de cultura popular
19h10-21h Atrações da cena musical baiana: Claudia Cunha, Juliana Ribeiro, Manuela Rodrigues, Mariela Santiago, Samba das Moças
21h30-23h Convidada especial: Gal Costa
23h10 EME XXI (Márcia Short, Karla Visi, Kátia Guima)

ATIVIDADES CULTURAIS E ESPORTIVAS

16h-19h Mostra de cultura popular: apresentação dos grupos Caretas do Acupe (Santo Amaro), Reisado e Paparutas de Ilha do Pati (ambos de São Francisco do Conde) e Chegança Feminina Barca Nova (Saubara).
Teatro de rua com o Grupo Filó
17h Instalação da Praça das Artes, com criação coletiva de artistas plásticos tematizada no universo feminino, em frente ao forte Santa Maria
Instalação de feira de artesanato e de espaço de convivência, com estandes e atividades “Coisa de mulher”, “Feira do sagrado”, penteados afro; em estudo charuteira e oleira
Instalação do espaço gastronômico, em frente ao Instituto Mauá
Cinema livre Petrobras: exibições tematizadas na mulher
Passeios de barco em torno do palco
21h-21h30 Teatro de rua – grupo Filó (2ª parte)
Dia Internacional da Mulher – 8 de março
06h Café da manhã regional
06h30 Atividades esportivas, ginástica na praia, suingue baiano, peteca etc.
07h Atividades esportivas aquáticas
07h Maratona feminina Ondina-Barra – troféu Marilia dos Santos

14 de março de 2009

CANTO DE AMOR À BAHIA – HOMENAGEM A VINICIUS DE MORAES

ATRAÇÕES MUSICAIS

13h-16h Palco acústico: novos talentos da cena musical baiana: Cinho da Matta, Aloísio Menezes, Banda de Boca, Carlinhos Cor das Águas
16h10-19h Apresentação de grupos de cultura popular e Paruano Sai Milhó
19h10-21h Atrações da cena musical baiana: Elpídio Bastos, Mateus Aleluia, Palmiro e Levita
21h30-23h Atração principal: Maria Creuza
23h10 Alexandre Leão

ATIVIDADES CULTURAIS E ESPORTIVAS

16h-19h Mostra de cultura popular com o Grupo Arguidá (Valença), Terno de Reis Eterna Juventude (Salvador), Congos, Chegança e Reinado (Cairu)
Teatro de rua com o Grupo Filó em performances tematizadas no personagem Vinicius de Moraes
17h Na Praça das Artes (em frente ao forte Santa Maria), criação coletiva de artistas plásticos tematizada no personagem Vinicius
Feira de artesanato Espaço de convivência, com “Feira do sagrado”, penteados afro e outras atividades
Espaço gastronômico, em frente ao Instituto Mauá
Cinema livre Petrobras: exibições de Barravento e curtas-metragens tematizados no personagem Vinicius de Moraes
Passeios de barco em torno do palco
21h-21h30 Teatro de rua – grupo Filó (2ª parte)

21 de março de 2009

HOMENAGEM AOS 70 ANOS DE GLAUBER ROCHA

ATRAÇÕES MUSICAIS

13h-16h Palco acústico: novos talentos da cena musical baiana: Gal do Beco, Beto Nachi, Neto Bala, Tiago Rocha
16h10-19h Apresentação da Banda do Habeas Copus e grupos de cultura popular
19h10-21h30 Atrações da cena musical baiana: Sandra Simões, Nelson Rufino, Edil Pacheco, Paulinho Boca, Lazzo Matumbi
22h-23h Convidada especial da noite: Ava Rocha e Luiz Melodia
23h10 Baile Azul Turquesa, com Walter Queiroz e convidados

ATIVIDADES CULTURAIS E ESPORTIVAS

16h-19h Mostra de cultura popular com os grupos Carnaval de Máscaras de Maragogipe, Bumba-meu-Boi Obá-Obá ou Lindroamor Axé (São Francisco do Conde), Samba de Roda de Maracangalha, Zambiapunga (Taperoá ou Nilo Peçanha)
Teatro de rua com o Grupo Filó em performances tematizadas no universo glauberiano
17h Na Praça das Artes (em frente ao forte Santa Maria), criação coletiva de artistas plásticos tematizada no universo glauberiano
Feira de artesanato
Espaço de convivência, com “Feira do sagrado”, penteados afro e outras atividades
Espaço gastronômico, em frente ao Instituto Mauá
Cinema livre Petrobras: exibições de curtas-metragens tematizados no universo fílmico glauberiano
Passeios de barco em torno do palco
21h30-22h Teatro de rua – grupo Filó (2ª parte)

Esse ano o projeto se estendeu até o interior, conforme o padrão descentralizador que tem sido a marca do governo do Estado. Lamentável que apesar disso, a chiadeira ainda se faça incômoda em alguns setores.

De resto, vistam-se adequadamente e vamos tomar banho e ouvir música no Porto.

06 Março, 2009

Um encontro inesperado e Before Sunset

É um triunfo para quem vive às turras com a memória recordar do que se passou há tempos. Lembrei um caso acontecido há muitos anos enquanto assistia um filme de que eu gosto muito, Before Sunset.

O acontecido não inspira propriamente orgulho; no contexto das coisas que lhe dizem respeito, o que eu preciso dizer é que para alguns eu sofro de uma lerdeza setorizada: sou dos últimos a perceber que uma mulher me dá mole e custo a notar oportunidades. Sim, os anos mitigaram tais características, mas devo vergonhosamente admitir que alguns resquícios perseveram. Bem, vocês entenderão. O fato aconteceu há 10 anos ou mais, era Carnaval ou, salvo engano, Farol Folia. Eu e um grupo de amigos não exatamente filiados à facção dos carnavalescos e admiradores da música baiana estávamos ali corrompidos pela possibilidade de beber irresponsavelmente e, sobretudo, por alguns rabos de saia. E daí vocês sabem: a presença do carnaval dispara em todo folião o registro de um contador que anota as vezes em que se conseguiu vencer a resistência de alguma criatura incauta e lhe roubar um beijo. Pois bem, a madrugada já ia alta e nós estavamos prostrados pelo resultado medíocre da empreitada: de um grupo de quatro ou cinco, apenas eu e um outro amigo havíamos conseguido pontuar e estávamos há algum tempo estagnados num vergonhoso 1 a 1. Resolvemos então descansar num trecho menos movimentado do circuito, ao final do mundialmente conhecido "Beco do Caesar Towers" (que nem é mais do Caesar Towers, a propósito).



Exibir mapa ampliado. Agora vocês sabem onde eu estava.

Nunca fui ali durante o dia, mas com frequência costumávamos ir descansar naquela região enquanto durava o carnaval. Assim, chegamos lá e, com a naturalidade dos bêbados, nos espojamos pela calçada sem cerimônia. Enquanto meus amigos conversavam, eu notei uma garota sentada à esquerda de onde eu estava. Ao lado dela, um candidato à extrema unção despejava na rua o caldo malcheiroso que lhe saia das vísceras. Entre a solicitude e a má intenção espontânea, eu encetei uma conversa sobre os efeitos benéficos da glicose para um sujeito naquelas condições. Ela disse que ele já havia comido chocolates e me contou que trabalhava com enfermagem ou coisa do gênero. Eu não tenho pudor em criar imagens antecipadas sobre as pessoas -- não acredito que seja possível viver sem prejuízos (sic) -- mas as descarto sem embaraço diante de qualquer indício contrário. Por alguma razão minha imagem inicial dessa garota era pouco favorável, não sei se pelo seu modo falar ou pela circunstância em que nos conhecemos. Não lembro. O caso é que desse pretexto, começamos uma conversa. Para minha surpresa a coisa foi caminhando favoravelmente. Em pouco tempo nos sentíamos à vontade para comentar assuntos relativos a diferenças com os nossos pais, futuro, estudos, planos, crenças. Enfim, num espaço de algumas horas, sentados na calçada, em pleno carnaval, a imagem inicial se desfez e foi substituída por uma estranha familiaridade que nos credenciava a fazer confissões e a conversar sobre questões antes restritas aos mais íntimos. A essa altura estávamos bem próximos, um ao lado do outro, com os pés voltados para a pista e sentados na calçada. Segunda a cartilha masculina aquela era uma oportunidade única. A proximidade física e "espiritual" oferecia uma ocasião singular. Talvez seja essa a razão do meu desconforto em falar sobre o caso. Mas é provável que as mulheres condenem meus pensamentos, "como é possível pensar as coisas assim tão mecanicamente", diriam elas. O fato é que eu estava ali numa espécie de torpor. Se meus predicados pouco ajudavam, a circunstância inesperada acabou por afastar momentaneamente qualquer pensamento que não fosse relativo à conversa que desenvolvíamos de forma tão surpreendente. Foi quando ela disse que precisava ir embora. Aí sim eu lamentei minha letargia. De caráter forte e personalidade intempestiva, em pouco tempo ela acordou o defunto ao seu lado e disse que estava hospedada na casa de parentes ali perto. Em seguida nos despedimos laconicamente e ela foi embora sem ouvir protesto algum. Lastimo até hoje não ter pedido ao menos seu telefone. Meus amigos, é claro, seguindo o manual -- e não sem alguma razão -- fizeram zombarias da minha inoperância. Eu só me ressenti de ter perdido a oportunidade de conhecer melhor alguém que em tão pouco tempo me pareceu tão familiar. Talvez, eu penso hoje, aquele temperamento intempestivo do final não fosse outra coisa além da impaciência pelo meu animus arrastandi. Mas talvez não fosse isso.

Essa foi a lembrança que voltou durante o filme. O que há de comum entre as duas coisas é aquilo que marca o caráter terapêutico do cinema e da literatura e que provoca algum atrativo. É o traço riscado sob um acontecimento singular. A ênfase, o recorte preciso que destaca dos escombros do cotidiano o inesperado. Curioso que as pessoas esperem ansiosamente pelo inesperado. Não me levem a mal, mas é engraçado que o caráter burocrático e repetitivo da vida tenha sobrecarregado o espaço amoroso de expectativas de redenção. Em outros áreas também se anseia pelo inesperado, mas o amor é seu terreno privilegiado. Talvez pela sensação comum de que por ali não reina nenhuma regra. A anarquia geral do amor faz os amantes (e românticos) consagrarem ao acaso a felicidade que buscam. Daí o encanto que filmes como Before Sunset produzem. Filmes que celebram o encontro inteiramente casual entre pessoas que se enlaçam por elos invisíveis, que narram o sucesso numa empresa incontrolada por completo. De algum modo esse inesperado nos nivela na condição de meros expectadores, como se em algum lugar tudo o que restasse aos homens fosse rezar para um dia, quem sabe, sentar ao lado de alguém com quem pudessem conversar sem reservas durantes horas, dias a fio. Andava descrente até ter novamente assistido o filme.

Notável que tenhamos atingido a condição ambígua de ter quase reduzido o que há de mais próprio à vida ao espaço das relações amorosas. Mais interessante ainda é que tenhamos produzido, já dentro do quadro controlado e organizado das coisas humanas, os meios pelos quais restituímos o lugar do selvagem, do inesperado, do inapreensível. Mas a essa altura eu já não espero estar sendo compreendido.