27 Fevereiro, 2009

Credibilidade para criticar

Debatendo com Adhemar de Barros nos comentário do post sobre a seletividade de Gilmar Mendes, voltou a minha memória uma frase de Nassif útil tanto da discussão em torno do imprensa, quanto a qualquer matéria que envolva credibilidade. A frase extraí de uma entrevista que o jornalista concedeu ao Portal Vermelho:
Uma das características do jornalismo é que a capacidade que você tem de fazer um elogio é que te garante credibilidade e a eficiência quando você faz a crítica. Se for sistematicamente a favor ou sistematicamente contra, não se faz jornalismo.
Esse deveria ser o guia dos profissionais de jornalismo, no meu entendimento.

Voltando ao caso Gilmar Mendes: não se trata de condenar, sob o ponto de vista técnico, sua objeção. Assim como na questão quanto a execução penal provisória, o que está em causa não é estritamente a aplicação da lei, mas o contexto em que isso se dá -- ou ainda, a disparidade com que os problemas de ricos e pobres são tratados.

Não sou conhecedor de leis, não costumo ancorar minhas opiniões na letra de alguma delas, mas sei que há códigos que regulam a atuação e a manifestação de magistrados. Talvez seja o Código de Ética da Magistratura Nacional, que determina no capítulo V:
Art. 12. Cumpre ao magistrado, na sua relação com os meios de comunicação social, comportar-se de forma prudente e eqüitativa, e cuidar especialmente:

I - para que não sejam prejudicados direitos e interesses legítimos de partes e seus procuradores;

II - de abster-se de emitir opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos, sentenças ou acórdãos, de órgãos judiciais, ressalvada a crítica nos autos, doutrinária ou no exercício do magistério.

Art. 13. O magistrado deve evitar comportamentos que impliquem a busca injustificada e desmesurada por reconhecimento social, mormente a autopromoção em publicação de qualquer natureza.
Certo, não se trata de um processo, mas também não é nada que envolva o exercício de suas atribuições. É puro abuso de autoridade. Na ocasião em que foi entrevistado pelo Roda Viva, Mendes esteve em São Paulo para quase uma dezena de entrevistas. Todas, obviamente, tinham como pauta a questão que ele havia julgado recentemente e sua militância em favor das "garantias constitucionais". Se Lula e Dilma viajam inaugurando obras, no exercício de suas atividades políticas, estão em pré-campanha. Mas o ministro, a quem é vetado manifestações desse gênero, em campanha em benefício próprio, não incomodou a ninguém. Quem quiser que procure nas suas manifestações alguma em favor de classes menos abastadas -- aquelas cujas garantias são negadas diariamente. Busquem alguma que se equipare em indignação às colecionadas nos últimos meses. O blog do Leonardo Sakamoto está referto de itens passíveis de indignação: trabalho escravo, abuso de poder econômico, desrespeito aos direitos dos trabalhadores.

A crítica à seletividade de Gilmar Mendes não envolve a contestação das leis que ele mobiliza, mas ao "fato de que, no Brasil, boa parte do Poder Judiciário age com dois pesos e duas medidas". Não há nenhum descabido aí. É suprema ingenuidade julgar que a legitimidade de suas reivindicações isentam-no da acusação de seletividade. O ministro nunca se deu ao trabalho de contemplar os dois lados para que possamos negar qualquer suspeita de parcialidade. Aliás, negá-la é apenas ignorar o padrão em suas manifestação.

Invasões de terras acontecem há anos. Assim como
a morte de centenas de trabalhadores rurais, sindicalistas e missionários, com a contaminação e destruição do meio ambiente, o trabalho escravo e o infantil, a expulsão de comunidades tradicionais de suas terras, a grilagem de terras, a corrupção de políticos e de funcionários públicos.
Por que só agora isso virou um problema? Isso, quero dizer, a invasão de terras. Por que a outra parte não merece a mesma atenção? Se fossemos cínicos, colocaríamos na balança as duas ocorrências e veríamos que o número de "garantias constitucionais" violadas no lado dos mais fracos é insuperavelmente maior. Por que então o ministro escolheu externar indignação apenas pela invasão de terras e pelo financiamento público que recebe o MST? Para um encarregado de zelar pela Constituição, falta-lhe isonomia em suas declarações públicas, enfim, sobra seletividade. Claro, as empresas recebem dinheiro dos bancos públicos através de empréstimos, uma modalidade diferente de repasse de recursos, mas isso é uma carta branca? Nesses momentos falta um conhecimento detido da lei, mas eu tenho certeza de que há dispositivos de regulamentação -- ou mesmo ferramentas constitucionais -- que impedem que empréstimos públicos sejam concedidos a empresas que desrespeitam direitos trabalhista e, quando não, direitos humanos.

Repito: a legitimidade não invalida as críticas a seletividade do ministro que, atento a poucas questões, fecha os olhos às muitas barbaridades que acontecem diante de nós. Enquanto ignora a regra básica da credibilidade o ministro simultaneamente embota o caminho da justiça. Não há país justo que se construa sem igualdade e isonomia, portanto, enquanto as autoridades só estiverem atentas as demandas das classes mais favorecidas, estamos autorizados a considerar mesmo a mobilização legitima das leis um capítulo da novela de privilégios que sempre foi regra em nosso país. Credibilidade, no Judiciário, se constrói com isonomia e é assim também que se conquista a Justiça.

Atualização 1 - Kennedy Alencar colocando Gilmar Mendes como o mais destacado e ativo membro da oposição.

Atualização 2 - Uma excelente resposta aos seletivos arroubos de constitucionalidade do Ministro e dos seus asseclas.

Procura-se um Deus

Li com assombro uma passagem do artigo da Foreign Policy sobre a maioridade do caos na Somália:
Western powers should do whatever they can to bring moderate Islamists into the transitional government while the transitional government still exists. Whether people like it or not, many Somalis see Islamic law as the answer. Maybe they’re not fond of the harsh form imposed by the Shabab, who have, on at least one occasion, stoned to death a teenage girl who had been raped (an Islamic court found her guilty of adultery).
Que espécie de entidade, a que se predica bondade e amor infinitos, permite que tais coisas aconteçam? Que malabarismo ideológico salva da completa incoerência a pretensão de afirmar sua existência? É um argumento antigo, mas ainda eficiente.

Antes que algum exemplar de cínico venha aqui sublinhar a condição muçulmana dos envolvidos, registro não se tratar de uma discussão política, nem religiosa no sentido institucional (leis, normas, entidades, etc). É um discussão metafísica sobre o estatuto do conceito de Deus, mais precisamente, do Deus cristão. A resposta a essas dúvidas vêm com frequência na forma de um aviltamento da nossa capacidade intelectual ou na exortação dos planos insondáves do Altíssimo. Conveniente, não? Se não podemos compreender, por incapacidade, só nos resta confiar cegamente e rezar para não cair por acidente nos trilhos dos imperscrutáveis desígnios divinos. Argumentos semelhantes me fazem lembrar a caricatura que Popper fez da psicologia de Adler e Freud:
I may illustrate this by two very different examples of human behavior: that of a man who pushes a child into the water with the intention of drowning it; and that of a man who sacrifices his life in an attempt to save the child. Each of these two cases can be explained with equal ease in Freudian and Adlerian terms. According to Freud the first man suffered from repression (say, of some component of his Oedipus complex), while the second man had achieved sublimation. According to Adler the first man suffered from feelings of inferiority (producing perhaps the need to prove to himself that he dared to commit some crime), and so did the second man (whose need was to prove to himself that he dared to rescue the child). I could not think of any human behavior which could not be interpreted in terms of either theory. It was precisely this fact — that they always fitted, that they were always confirmed — which in the eyes of their admirers constituted the strongest argument in favor of these theories. It began to dawn on me that this apparent strength was in fact their weakness.
A religião é algo do gênero: sua força reside no seu poder explicativo, ainda que para isso ela precise mobilizar um arsenal quase infantil de conceitos. O dilema pode ser grosseiramente definido: o homem precisa de explicações, a religião é fé e de-cisão -- para explicar ela precisa ser totalitária e anticientífica, no sentido de Popper. Ela precisa ocupar todos os espaços. Por consequência, na medida em que os fundamentos são oferecidos dogmaticamente, tudo que nos resta é uma crença de segundo nível: existindo Deus precisamos crer também que ele é sumamente bom e que, embora não possamos compreender seus planos, age sempre em nosso benefício. Vida dura, hein? Nem tanto, não para quem está na frente de um Mac, bem longe da Somália ou de Darfur, na deliciosa companhia da Suma teológica.

Há poucas coisas mais inúteis do que discutir Deus e religião. O que me traz aqui é menos a vontade de debater do que o estranhamento diante do silêncio das mais exaltadas vozes cristãs diante dos bárbaros acontecimentos do mundo. Na certa estão ocupadas com coisas mais importantes. Assim na terra como no céu: se a bondade e o amor divinos não se sentem ameaçados em sua coerência pela maldade prevalecente, bem, não serão os pobres mortais que cairão pela incoerência de ser cristão e permanecer indiferente à realidade de mais da metade do mundo.

Vamos rezar para que apareça algum Deus que possamos entender.

26 Fevereiro, 2009

Mais uma amostra da seletividade de Gilmar Mendes

Se alguém ainda não acredita que o presidente do Supremo é um homem seletivo, que escolhe com cuidado as causas a que prestará seus serviços, aqui vai o excelente comentário do Leonardo Sakamoto, considerando recentes declarações do ministro sobre o MST:
“Financiamento público de movimentos que cometem ilícito é ilegal, é ilegítimo. Que o Ministério Publico tome providencias para verificar se não há financiamento ilícito a estas instituições”, disse Mendes.

Interessante a indignação do magistrado só ter surgido agora. Por que ele não veio a público dizer o mesmo nas centenas de vezes em que ocorreu o contrário, quando grandes empresas e fazendeiros, que receberam recursos públicos do BNDES, Banco da Amazônia, Banco do Nordeste, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, entre outros, estiveram envolvidos direta ou indiretamente com a morte de centenas de trabalhadores rurais, sindicalistas e missionários, com a contaminação e destruição do meio ambiente, o trabalho escravo e o infantil, a expulsão de comunidades tradicionais de suas terras, a grilagem de terras, a corrupção de políticos e de funcionários públicos? Será que é pelo fato de que, no Brasil, boa parte do Poder Judiciário age com dois pesos e duas medidas, para ricos e pobres?
Atualização - Procurador-geral critica declarações de Gilmar Mendes sobre repasses ao MST.
Só fazer repasse não é ilicitude. Os casos concretos têm que ser investigados - disse o procurador-geral, completando: - O conflito agrário é algo extremamente complexo. Não pode ser resolvido com afirmação solta numa entrevista. É um caminho de duas vias, tem violência de todos os lados. O Ministério Público já trabalha nesse assunto há muito tempo (repasses de dinheiro público a sem-terras), equilibradamente, sem estardalhaço e sem divulgação, para ao final emitir o seu juízo. Talvez possa ter havido desconhecimento.

21 Fevereiro, 2009

Slumdog Millionaire



Em tempos de Caminho das Índias, sugiro Slumdog Millionaire. A nova produção de Danny Boyle, diretor de Transpotting, foi o grande vencedor do Globo de Ouro e ao lado de The Curious Case of Benjamin Button recebeu 11 indicações ao Oscar deste ano. O filme, apesar das aparências, é um história de amor transcorrida numa Índia de perseguições religiosas e de call centers. A história é interessante e bem amarrada, ainda não sei se o bastante para justificar os prêmios recebidos e para explicar as indicações, nos próximos dias assistirei Benjamin Button e O leitor para ter uma idéia melhor.

Em todo caso, fica aí a sugestão.

20 Fevereiro, 2009

Olavão, invertendo os sentidos

Conferindo posts antigos encontro Hermenauta na leitura masoquista de um texto de Olavo de Carvalho. O Guru apontava indícios da "ilusão de que a liberdade ainda existe", nos seguintes termos:
Reservam-se, na mídia e nos partidos, dois ou três lugares para os discordes e resistentes, de modo que seu mero contraste com a maioria satisfeita lhes dê ares de excêntricos amalucados, fazendo deles, mais que a exceção a confirmar a regra, um instrumento de legitimação inversa do estado de coisas. (...) Abre-se oportunidade para um número um pouco maior de falsos conservadores, incumbidos de ocupar o espaço com argumentos em favor do livre mercado, perfeitamente inofensivos na atual fase da estratégia comunista, e com generalidades insossas sobre democracia, constitucionalismo, ordem jurídica, etc., sem tocar jamais nas questões substantivas que mencionei acima.
Li essas palavras não sem surpresa. Ele chega mesmo mencionar: "a estratégia gramsciana previa isso". Como assim a estratégia gramsciana previa isso? Eu não sou dos mais indicados para falar sobre ideólogos de direita, mas esse argumento aí é um perfeito pastiche de uma das mais destacada linha de argumentação da Escola de Frankfurt. A começar pela denúncia de uma liberdade inexistente, ou melhor, de uma não-liberdade dissimulada.

Segundo minha memória traiçoeira, num dos primeiros trabalhos na Institut für Sozialforschung, Marcuse estava ocupado com o "caráter afirmativo da cultura", nome de um dos seus artigos. O artigo, que foi bem recebido, além de ter disparado uma série de outros, fomentou o diálogo fecundo com Adorno. Tudo isso chutado de memória, diga-se de passagem. Ali se tratava, entre outras questões, do caráter totalizante da cultura. Nada restava como elemento exterior a ela, sendo todas as possíveis contradições alojada dentro dos seus próprios quadros como cerimônia e simulação. A cultura conflitante era instalada no interior da própria ordem vigente de sorte a não permitir uma oposição efetiva. Assim se exercia um maior controle sobre as forças de oposição e a liberdade era mascarada sobre o véu de uma pluralidade inofensiva e domesticada. Em Eros e Civilização essa temática aparece sob outra forma:
O povo, eficientemente manipulado e organizado, é livre; a ignorância e a impotência, a heteronomia introjetada, é o preço de sua liberdade. Não faz sentido falar sobre libertação a homens livres — e somos livres se não pertencemos à minoria oprimida.
Daí porque Marcuse e outros pensadores da Escola de Frankfurt enxergaram nas sociedades e nos países não-desenvolvidos a chave para escapar ao caráter totalizante da cultura, para redefinir a humanidade em função de um movimento autêntico, autônomo.
O conceito marxista estipulou que somente aqueles que estavam livres dos benefícios do capitalismo seriam possivelmente capazes de transformá-lo numa sociedade livre.
Bem, não quero debater teoria. Longe de mim a tarefa insana de discutir teorias de inspiração marxista com seguidores de Olavão -- sou vacinado contra insanidades semelhantes. Mas o caso é que a denuncia contra uma liberdade ilusória, nos moldes apresentados pelo ilustre "filósofo" tupiniquim, é uma bela inversão de sentido de parte da Teoria Crítica. E não há Tocqueville, La Boétie e Hegel que diga o contrário.

No lugar do povo enganado pela falsa sensação de liberdade, corrompido pelas benesses que o capitalismo traz para poucos, há um povo iludido pelo discurso comunista, discurso que, na cabeça de Olavão, é majoritário. Para dissimular a realidade que só gente inteligente com ele vê, falsos conservadores são chamados à baila a fim de preencher um papel meramente cênico. As possibilidades reais de enfrentamento e contradição são simples cerimônia e simulacro num sistema contaminado pela lógica comunista. As mudanças, a revolução conservadora, é assim abortada pela falsa dialética que impede que os conservadores autênticos produzam o enfrentamento necessário às transformações. É a Indústria Cultural de polaridade invertida.

Bem, como se vê, Olavão ainda tem um pezinho lá no sindicato. E que Deus me proteja da ira dos trolls.

16 Fevereiro, 2009

Daniel Dantas: o catalisador da justiça no Brasil


Ilustração do Angeli

Após a prisão de Daniel Dantas surgiram discussões e propostas quase inéditas envolvendo garantias constitucionais, direitos individuais e outros perigosamente violados pela ação da Polícia Federal e dos envolvidos na operação Satiagraha. Algumas questões que vieram à tona:

1. O uso de algemas
2. A legitimidade das inteceptações telefônicas
3. Decisão do Supremo de impedir a execução penal provisória
4. Súmula que garante aos advogados acesso a informação sigilosa

Sem falar numa discussão que pairou brevemente sobre a pretensa inviolabilidade dos escritórios de advocacia.

Por onde andaram, nos últimos 20 anos, os que hoje lutam com unhas e dentes em favor de supostas garantias? Bem longe, eu imagino. Cairam de paraquedas no país logo depois da prisão do ensaboado Daniel Dantas. Ao contrário do que se imagina, o exame das questões acima não envolve domínio técnico. As prescrições constitucionais, relativas a alguns desses tópicos, são claras. A Constituição não oferece razões para descumprir aquilo que ela exige que se cumpra, salvo no caso em que as exceções estejam discriminadas. A crítica portanto não deve partir do terreno estritamente jurídico.

Mas temos o direito de ignorar a contiguidade entre a prisão de Daniel Dantas -- não só como um evento jurídico, mas como fenômeno político -- e a pronta atenção que questões estreitamente ligadas ao seu processo receberam? Devem ser esquecidas as "facilidades" que o acusado disse encontrar na mesma Corte que o libertou por duas vezes, através da ação de um personagem que rasgou códigos de ética a fim de vir a público defender suas decisões, além de ter dado cobertura a uma história que além de falsa, ofereceu suporte a acusações que não se espera de um profissional do Direito, isto é, de alguém que sabe -- ou deveria saber -- que é preciso fundamento para acusar?

Podemos fingir que os episódios que se seguiram à captura de Dantas foram simples acasos, nada além de coincidências? É óbvio, as ações não são diretas, mas o desgaste a que se submete o Supremo sempre que precisa analisar casos como o de Pimenta Neves é evidente. As propostas vêm no sentido de evitar uma intervenção direta do Supremo em circunstâncias semelhantes; todas elas, digam ou não respeito a Dantas, tocam os aspectos mais controversos da Satiagraha. Os criminosos ricos, como sempre, estão protegidos pelo mar de protelações a que seus advogados recorrem para salvá-los, as autoridades, na outra parte, querem proteger-se do desgaste constante de ter que livrar bandidos ricos.

A legitimidade das questões acima não é absoluta. Ou será que temos poucas razões para suspeitar de manobras políticas em favor de Dantas? Apesar da positividade das leis, não se pode ignorar a ação dos agentes e operadores envolvidos na sua execução. Por consequência, não se deve ignorar a "intenção" do horizonte de uma análise ética e política da atuação do Judiciário, especialmente quando contamos com tantos elementos para, no mínimo, suspeitar. Com pouco menos Gilmar Mendes decretou uma "crise institucional" e insinuou que instituições públicas e magistrados o estavam perseguindo.

A legitimidade não é resposta às nossas suspeitas e dúvidas. Não, pelo menos, até que alguém explique as estranhas "coincidências".

15 Fevereiro, 2009

O coração continua

Amigos, perdoem se o blog está às moscas. O carnaval paralisa tudo, espreme, dos dois lados, as bordas do calendário e imprime em tudo antes a urgência. Fiquei sem tempo. E durante, vocês sabem, ninguém faz nada e não posso quebrar a liturgia carnavalesca.

Mas estava aqui numa noite reflexiva, após conversas com amigos, e então lembrei um poema de Drummond. Decidido a publicá-lo, descobri que já havia feito. A vida se repete. Incrível a capacidade que os poetas têm de roteirizar a vida do sujeito. A complexidade da existência reduzida a uma ou duas fórmulas que na simplicidade cifram tudo quanto é essencial. Talvez por uma razão já antecipada numa crônica de Vinicius de Moraes em que ele descreve um casal de jovens atracados, aos carinhos, em pleno parque:
São, na extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.
Eu tenho quase certeza de que já fiz referência aqui à crônica de Vinicius. Amor por entre o verde, parte de Para viver um grande amor, livro que sempre tive na cabeceira, desde moleque. A vida se repete -- então vocês vão me perdoar se eu repetir um poema que sempre fez muito sentido para mim, hoje especialmente.
Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

12 Fevereiro, 2009

Linux como política de uso e desenvolvimento de tecnologia

Semanas atrás desocupamos uma sala do Mestrado para reformas. Lá havia 4 ou 5 computadores velhos e eu prontamente sugeri que instalássemos neles o Ubuntu. Logo os brincalhões me acusaram de estar evangelizando em favor do Linux. A disputa Windows versus Linux não é um Fla-Flu, escolher o Linux é adotar uma política de uso e desenvolvimento de tecnologia. No entanto, ao contrário do Windows, o Linux não tem receita para bancar dispendiosas campanhas publicitárias. Aliás, o termo "Linux" não revela a diversidade das distribuições e desenvolvedores de sistemas linux based -- um dos grandes trunfos da plataforma. Deixemos isso de lado -- o que dizer é que a guerra que se manifesta em centenas de tirinhas de humor internet afora, além da divulgação que fazemos pontualmente, é uma estratégia de baixo custo para promover o Linux, na medida em que ele se apresenta como resposta a certas inconveniências do Windows.


Clique na imagem para ampliar. Tirinha do Nóis na Tira

Todos sabem, por exemplo, que a reinstalação do Windows é uma exigência sistêmica. O acúmulo de informações no registro, a fragmentação do disco, além dos arquivos órfãos deixados por outros programas entulham o sistema até deixá-lo insuportavelmente lento. Claro, esse tipo de comportamento varia a depender do conhecimento do usuário e da configuração da máquina, mas em grande parte dos casos e nas máquinas de gente comum, essa é uma verdade inegável.

Agora pensem outro aspecto: quem já trabalhou no setor público -- e olha que o problema nem sempre se restringe ao setor público -- conhece a costumeira morosidade com que os pedidos de suporte são atendidos. A demora se deve a muitos fatores, mas a incidência de problemas é grande. Considerando a reinstalação sistêmica e as centenas de casos relativos a vírus, worms e trojans, o custo em tempo para contornar tais obstáculos é incomensurável. Quem já trabalhou no setor público sabe também que nada pode ser pirateado, portanto, cada nova instalação exige a presença da equipe do suporte que controla a licença do Sistema Operacional, do suite de escritório (MS Office), do antivírus e eventualmente de algum programa específico usado pelo setor. Custo dobrado, tempo e dinheiro gasto em licenças que raramente são o bastante para evitar os problemas mais comuns. Trabalhei na SAEB (Secretaria da Administração do Estado da Bahia) e na Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A) e todos os computadores aos quais tive acesso não traziam nenhuma política de níveis de usuário (para permissões de acesso), isto quer dizer que eu estava livre para instalar o que bem entendesse (o Windows, por definição, permite que o usuário tenha pleno acesso ao sistema). Isso me permitia dar suporte aos computadores ligados ao meu setor -- e às vezes até em setores não ligados ao meu -- pois todos conheciam a já afamada morosidade do CPD (coitados dos funcionários do CPD, vítimas da obsolência e da lentidão estatal, completamente incompatíveis com a profissão que exercem). Mas ao mesmo tempo era um risco: um simples keylogger é o quanto basta para fazer de um computador mal configurado uma arma terrível. Até senhas de bancos podem ser capturadas.

O ilustre reitor da UFBA, Naomar de Almeida Filho, escreveu um excelente artigo para a Folha em que destaca o engessamento da Universidade Pública no Brasil. O aparato normativo impede que respostas adaptativas mais precisas sejam criadas e congela o comportamento das Universidades em torno de práticas frequentemente dispendiosas que poderiam ser evitadas. A política de uso de software é uma amarra voluntária, exemplo dessa espécie de travamento que obstrui novas soluções. O uso de software livre talvez não se aplique a todos os casos -- aqui me falta uma visão mais detalhada, de profissional da área, para avaliar o cenário de forma mais detida -- mas é certo que na maioria dos computadores para acesso direto dos estudantes o emprego de software livre resolveria problemas comuns de segurança e manutenção. Nada de gastos com licenças de Sistema Operacional, suites de escritório, antivírus, nada de problemas de segurança, ameaça de keyloggers, trojans, e, especialmente, uma diminuição significativa no número de ocorrências de manutenção. Um computador ligado a internet, com o pacote OpenOffice (ou BrOffice) já preinstalado, programa de tratamento de Imagens (o excelente Gimp) incluso e muitas outras ferramentas integradas sem qualquer custo, é mais do que suficiente para o estudante realizar as tarefas que lhe cabem. Tudo isso rodando num usuário sem privilégio (no Linux isso é trivial, já que só tem poderes para alterar os arquivos do sistema o usuário root ou algum usuário que por ventura receba dele permissões). Imagine o quanto poderia ser economizado em tempo e dinheiro se cada computador voltado para navegação e uso de escritório pudesse rodar um sistema linux? Escolas no interior do país, que por vezes não contam com equipes de suporte e que não estão menos vulneráveis a vírus, worms e programas maliciosos de toda natureza; programas que, em questão de minutos, impossibilitam ou tornam o uso de um computador inviável. Na ausência de profissionais ou de gente competente para realizar a manutenção, um simples vírus pode ser a diferença entre ter ou não um computador dentro de uma escola, para uso dos alunos ou mesmo para fins administrativos. Vale lembrar: ter um antivírus não significa não ter vírus: no Windows não ter vírus depende, em primeiro lugar, de certos cuidados na navegação. Depois, manter um antivírus exige uma conexão direta ou uma atenção para as atualizações que saem diariamente. Pensemos esses problemas em escala nacional e então teremos a dimensão da encrenca.

Não esqueçamos também que o software proprietário vem amarrado a uma estratégia de venda de hardware. Os computadores velhos do Mestrado não podem receber o Windows Vista -- a versão mais nova do sistema operacional da Microsoft -- pois não cumprem os requisitos mínimos exigidos pelo sistema. O Windows XP é mais acessível, mas não se sabe ao certo até quando as atualizações de segurança acontecerão, nem se ele ainda é vendido. O ritmo de desenvolvimento do Windows exige constante upgrade de hardware, para nosso Estado burocrático e "pobre", é custoso acompanhar esse pique. Ponto para as dezenas de distribuições linux que rodam mesmo nas máquinas mais obsoletas.

Na Bahia já foi assinado um protocolo de intenções entre o Governo do Estado e a Red Hat (lembremos que as desenvolvedoras podem cobrar pelo suporte corporativo, ou para desenvolvimento de softwares específicos, salvo engano, o que dá ao governo, no caso de necessidade, um suporte logístico). No Rio Grande do Sul o linux já é uma realidade há tempos. Mas a política do medo ainda impera quando se fala em Linux. Ou melhor, a política do FUD. Puro terrorismo: a base de operação é semelhante a do Windows, vejam o menu do Ubuntu, numa tela que capturei do meu próprio computador:



Um menu, como o do Windows, e submenus que categorizam os aplicativos de acordo com suas áreas -- o que é muito mais do que o Windows faz. Na seção Internet, navegadores, programas mensageiros, skype, etc. Players de áudio e vídeo em Sound and Video. Em Office, programas do pacote OpenOffice/BrOffice. E assim por diante. Que mistério há nisso? Que mistério há nisso quando você é apenas um usuário -- um estudante -- querendo usar um computador para acessar internet ou para digitar um trabalho? Por que pagar tanto, gastar tanto, quando precisamos de tão pouco?

(O sistema operacional do Google, o gOS, não é uma aposta de que a computação de agora em diante será basicamente interligada a serviços e aplicativos online? Aliás, o gOS é linux based. E a computação em nuvens? Não é uma expressão desse movimento, vejam os dizeres na página do gOS, anunciando o Cloud: "With Cloud, you can turn on your computer to just a web browser". Vejo em tudo isso uma boa oportunidade para abertura e desenvolvimento do software livre).

A migração, quando envolve rede e um sistema inteiro de computadores, é coisa gradativa. Requer muitas etapas. Mesmo que seja a migração de apenas um computador, do Windows pro Linux, convém ler um excelente relato da transição de uma rede inteira, na Câmara de Timóteo. É uma leitura indispensável para quem pretende migrar para o linux, sobretudo porque desfaz os medos, os mitos, mas também porque é realista e exige o realismo. Não coloca o linux como a panacéia dos problemas de segurança, suporte, mas como uma política bem fundamentada de uso de tecnologia, que tem seus prós e contras e que exige uma aposta e um esforço numa certa prática que vai contra o "hábito Windows" por um objetivo válido.

Perdoem o post longo e algo disperso, mas há tempos eu devia um texto dessa natureza. O objetivo é menos esgotar o tema do que registrar que o "caso Linux" é mais do que mero jogo, é questão que envolve políticas públicas de uso de tecnologia, uma solução possível para muitos problemas comuns e incômodos.

09 Fevereiro, 2009

O maravilhoso mundo das ideias

Eu me sinto um completo idiota quando leio advogados defendendo a indefensável decisão do STF com os seguintes argumentos:
Blog - Qual a sua avaliação sobre a decisão do STF? Quais serão os efeitos imediatos?

Antônio Cláudio Mariz de Oliveira - A decisão vem ao encontro da presunção de inocência, constante da Constituição. Não vejo nenhum efeito imediato, a não ser para impedir a expedição de mandados de prisão antes do julgamento final. A decisão do Supremo, na verdade já vinha sendo adotada por vários Tribunais e Juízes, embora outros não a seguisse. Agora o Supremo pos fim à polêmica.
Ou então esses:
Blog - Qual a sua avaliação sobre a decisão do STF? Quais serão os efeitos imediatos?

Flávia Rahal - A decisão está corretíssima porque faz valer o princípio da presunção da inocência, estabelecendo que nos casos em que o acusado responde ao processo em liberdade, ainda que condenado, ele só será preso quando a condenação tiver transitado em julgado e for, assim, definitiva;

Blog - A decisão vai estimular a impunidade ou garantir maior direito de defesa?

Flávia Rahal - A decisão, não há dúvida, garante maior direito de defesa na medida em que reconhece que ninguém pode ser considerado culpado antes do trânsito em julgado de decisão condenatória, nos termos expressamente previstos em nossa Constituição da República.
Eu nunca entendi porque as pessoas teimam em empregar termos como "ciência jurídica" e afins. Argumentos da espécie acima reforçam meu embaraço. Faz anos que a ciência conta com um mandamento simples que reza o seguinte:
Não multiplicar as entidades além do necessário.
É a navalha de Ockham (ou Occam, como queiram), um princípio econômico claro que já fez prodígios pela ciência. No Brasil, parte do judiciário parece pensar o contrário, pois quando um advogado defende que a decisão de tribunais de instâncias inferiores às cortes que podem sentenciar definitivamente fere a presunção de inocência, eu só posso concluir que nós temos uma penca de instâncias ociosas obstruindo as tramitações judiciárias, comprometendo a celeridade da máquina jurídica, enfim, em evidente contradição ao princípio econômico que resguarda o processo da complexidade excedente. Eu poderia imaginar que alguém fosse capaz de responder satisfatoriamente a minha objeção -- sem me fazer perder tempo --, se existissem critérios claros para concessão de recursos -- contudo, não há realidade mais óbvia em nosso país do que o mangue, a farra, a zona dos recursos protelatórios. Eles são as peças mais importantes do judiciário brasileiro, sobretudo para os endinheirados que podem empurrar seus processos ad infinitum, numa festa de chicanas. Pimenta Neves que o diga.

Sobre o tema o ministro Joaquim Barbosa -- o único em quem confio naquele Tribunal -- declarou:
No processo penal, o réu dispõe de recursos de impugnação que não existem no processo civil”, observou ainda Joaquim Barbosa. Segundo ele, em nenhum país há a “generosidade de HCs” existente no Brasil.

Ele disse, a propósito, que há réus confessos que nunca permanecem presos. E citou um exemplo: “Sou relator de um rumoroso processo de São Paulo”, relatou. “Só de um dos réus foram julgados 62 recursos no STF, dezenas de minha relatoria, outros da relatoria do ministro Eros Grau e do ministro Carlos Britto”.

O leque de opções de defesa que o ordenamento jurídico brasileiro oferece ao réu é imenso, inigualável”, afirmou. “Não existe em nenhum país no mundo que ofereça tamanha proteção. Portanto, se resolvermos politicamente – porque esta é uma decisão política que cabe à Corte Suprema decidir – que o réu só deve cumprir a pena esgotados todos os recursos, ou seja, até o Recurso Extraordinário julgado por esta Corte, nós temos que assumir politicamente o ônus por essa decisão”.
No Brasil há uma legião de habitantes do maravilhoso mundo das ideias. Pessoas comprometidas com "garantias constitucionais" que há tempos já foram pro esgoto. O que elas não entendem é que a igualdade é essencial à realização da justiça. Quando as vestais do "Estado de Direito" berram em indignação comovente quando gente como Daniel Dantas é presa, embora não façam caso das violações cotidianas a que a população pobre está submetida, o que eu diviso não são aguerridos defensores da democracia, mas ganaciosos oportunistas dispostos a encher seus bolsos sob o manto de bandeiras democráticas. Gente que pratica a tão afamada indignação seletiva. Não devemos negar direitos e recursos a Daniel Dantas por que a maioria da população não pode dispôr deles, mas não temos o direito de falar de "garantias constituicionais", Justiça e coisas semelhantes antes de podermos promover um aperfeiçoamento do aparelho judiciário, e antes de termos atingido níveis satisfatórios de distribuição de justiça. Em qualquer outro caso será sempre e mais uma vez a velha indignação seletiva mobilizada em prol dos interesses dos mais bem assistidos. Indignação praticada por sujeitos instalados no mundo das ideias, que articulam princípios abstratos -- etéreos -- o bastante para fazer esquecer a realidade a qual tais princípios se opõe flagrantemente, em contradição. Princípios que, mesmo sendo legítimos, não o são incondicionalmente pois têm sua legitimidade condicionada a uma cláusula simples: a de que estejam ao alcance de todos e não apenas de uma minoria privilegiada.

Eu quase esqueci: os papagaios se apressam em protestar quando o Brasil assume uma posição que destoa do resto do mundo. Nesse caso, conforme muito relatos, o Supremo contraria tendências mundiais e assume posição inversa. Vamos ver se haverá hombridade para manter a coerência crítica ou se os papagaios de modelos internacionais adotarão a habitual política do "dois pesos, duas medidas".

Atualização - Opinião do juiz federal Sergio Fernando Moro:
Blog - Qual a sua avaliação sobre a decisão do STF? Quais serão os efeitos imediatos?

Sergio Fernando Moro - A minoria vencida no julgado apresentou bons argumentos jurídicos contra a tese vencedora. O efeito imediato da decisão é beneficiar apenas acusados que podem sustentar demandas até o STF, inclusive estimulando recursos meramente protelatórios. Sem execução provisória, é improvável que ações penais já julgadas, mesmo em duas instâncias, às vezes com acusados confessos, em relação a crimes de colarinho branco, incluindo as relativas aos grandes escândalos de corrupção e econômicos vivenciados pelo Brasil nos últimos tempos, cheguem a outro final que não o reconhecimento da prescrição. Entre eles, o Caso Banestado. Ou seja, teremos mais morosidade, mais impunidade e mais desigualdade, com proteção máxima a acusados por crimes de colarinho branco, para os quais o sistema não é minimamente eficaz.

06 Fevereiro, 2009

O caso Cesare Battisti

Li bons textos a respeito do caso, dentre eles o de Maria Inês Nassif, Dalmo Dallari e o de Laerte Braga. Estava convencido de que a decisão fora acertada até que a resposta de Walter Maierovitch esboroou minha convicção (Maierovitch não é alguém que se pode perfilar entre os reacionário de direita, diga-se passagem). Um aspecto em especial põe em apuros o argumento contrário: os que defendem o asilo pressupõem a má fé -- para dizer o mínimo -- do sistema jurídico italiano. Alegações semelhantes são mais fáceis de enunciar do que de provar. Maierovitch alega que a defesa foi constituída por advogados escolhidos pelo próprio Battisti. O julgamento a revelia só se deu por conta da fuga de Battisti. Ele também observa que Salvatore Cacciola foi julgado a revelia e nem por isso seu processo foi considerado inválido ou injusto. A Corte Européia de Direitos Humanos de Estrasburgo -- acrescenta -- julgou improcedente a alegação de que Battisti não foi assistido no julgamento que o condenou. Assim as coisas se complicam ainda mais, pois não basta alegar que o sistema jurídico italiano estava viciado, é preciso também supor que a Corte Européia de Direito Humanos compactuou com as decisões de uma instância corrompida.

De tudo isso concluo que nenhuma opinião pode estar seguramente fundamentada sem que os papéis relativos ao processo sejam consultados e avaliados minuciosamente. Em todo caso, a decisão é difícil para os apoiam a decisão brasileira. Repito: alegar desrespeito aos princípios fundamentais que dirigem um julgamento justo é mais fácil do que prová-lo.

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No entanto, a decisão brasileira é soberana. Ponto. A atuação da Itália só comprova o velho princípio de que a "Força faz o Direito" em paragens internacionais. Durante anos a França concedeu asilo a Cesare sem que se ouvisse o estardalhaço que agora se faz presente. Mino faz um belo détour para explicar o atual comportamento da Itália e suprime a desimportante informação de que, desde de que Mitterrand se foi, com a ascensão de Chirac, já se passaram quase 15 anos (sem contar o período Mitterrand). 15 anos para espernear à vontade e só agora as coisas ganham essa dimensão? Conveniente, não é?

Estou inclinado a pensar que a reivindicação é justa, mas isso já é abusar da inteligência alheia. A Itália chora copiosamente e esgrime suas armas porque pensa, e erra ao fazê-lo, que o Brasil é um país vulnerável, submetido a lei que vigora em domínio internacional -- a lei do mais forte. Há argumentos mais discretos e persuasivos.

Para enterrar de vez a máscara italiana há ainda os rumores sobre o lobby francês em favor do asilo a Battisti.
A principal razão da guinada de Sarkozy teria sido o empenho de sua mulher, Carla Bruni – e da irmã dela, a atriz Valeria Bruni Tedeschi. Italianas de nascimento, elas teriam influenciado uma decisão semelhante de Sarkozy: o veto à extradição para a Itália de Marina Petralli, uma ex-terrorista das Brigadas Vermelhas, o mais conhecido grupo italiano de esquerda armada. Condenada à prisão perpétua em seu país por assassinato, Marina ficou um período presa na França. (...) Três meses depois, o presidente da França alegou razões humanitárias e vetou a extradição de Marina para a Itália.
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Vejo em tudo isso um quê ideológico, apesar da constante negativa. Extraditar um militante de esquerda italiano por crimes declarados políticos, apesar da controvérsia, é municiar setores que desejam caracterizar como terroristas militantes que atuaram durante a ditadura. As coisas, no meu entendimento, estão ligadas.

Atualização 1 - Nos comentários, Vera sugeriu um texto bem interessante. Vale a pena conferir. Mas eu repito: ainda acho que falta uma discussão aprofundada acerca da caracterização política dos crimes.

Atualização 2 - Itália concede asilo a militar uruguaio torturador que matou centenas de pessoas na “Operação Condor”. Esse tipo de informação tira a credibilidade da reivindicação italiana.

Atualização 3 - O filósofo Antonio Negri repete uma pedra cantada aqui: "A Itália adota uma postura 'insultante' com o Brasil no conflito em torno do ex-ativista Cesare Battisti, porque não se trata de um país desenvolvido".

02 Fevereiro, 2009

Criando um álibi

Meu pai ingenuamente me enviou o editorial do Estadão, Obrigado Presidente. O jornal agradece ao presidente pela mudança de postura diante da imprensa. Enfatiza seu papel no aperfeiçoamento da democracia e chega a convocar Thomas Jefferson para testemunhar em seu favor. A certa altura, lê-se:
O presidente demorou, mas parece que entendeu, em sua já longa experiência de um mandato e meio de governo, que ao noticiar ou opinar sobre assuntos que não sejam favoráveis aos governos a imprensa não está expressando meras antipatias ou idiossincrasias, em relação a quem quer que seja, mas sim atendendo ao exercício de um direito de cidadania, ou seja, o direito que tem a sociedade de ser informada, muito mais importante do que o direito que tem a imprensa de informar - conforme a lúcida interpretação que a Suprema Corte norte-americana deu, na década de 1970, à Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, berço institucional da liberdade de expressão das democracias do mundo contemporâneo.
Um pouco antes está escrito:
A imprensa foi responsabilizada não só pelo presidente, mas por seus ministros, auxiliares, correligionários e aliados por quase todas as crises, todos os desentrosamentos, equívocos, inoperâncias e o que mais houvesse de negativo no governo e em sua principal força política, o Partido dos Trabalhadores, pelo simples fato de registrar e comentar tudo isso.
Eu costumo dizer: esconde-se melhor a mentira quando apoiada sobre alguma verdade. Se a crítica sistemática à imprensa é equivocada, como quer o Estadão, seu oposto é igualmente equívoco. Se pelo simples registro não se pode acusar alguém de má fé, não se deve, tampouco, imaginar que o mero exercício de uma função indispensável à democracia é o bastante para isentar quem quer que seja de críticas pontuais. A mudança de postura presidencial forneceu a matéria prima necessária para que um álibi fosse construído para respaldar as posturas pouco republicanas que frequentemente se vêem representadas nas páginas de jornais e revistas nacionais.

Demonização, maniqueísmo e simplificação são ardis retóricos, instrumentos políticos, mas raramente meios legítimos de argumentação. Se não se deve condenar apressadamente a imprensa, sem distinguir aqueles que lutam e exercem suas profissões com dignidade e respeito, mesmo discordando das escolhas do governo; não se pode, por outro lado, absolvê-la indiscriminadamente sob alegação de um suposto direito democrático inalienável. Democracia e Direito se fazem com responsabilidade e não raro produzem choques e conflitos que devem ser dissipados no domínio legítimo de suas demarcações. É preciso construir uma visão crítica, pontual, de cada leitura e interpretação registrada. Tão importante quando uma imprensa livre e atuante é um povo emancipado e capaz de interpretar criticamente as notas jornalísticas.

Contudo, não podemos perder de vista a história. O equilíbrio nos conduz à suspensão de juízo e à avaliação particular de cada caso, mas a credibilidade da imprensa está manchada. A mesma imprensa que ecoa o destempero de Gilmar Mendes contra o "Estado Policialesco" -- e a favor de Daniel Dantas -- deu voz ao espetáculo de prisões, dossiês e fotos na véspera da eleição de 2006. O que incomoda não é a oposição ao governo, mas as diferentes medidas empregadas para considerar fatos semelhantes. Alguém é capaz de afirmar que o caso Alstom permaneceria no ostracismo do qual nunca saiu se fosse capitaneado por grandes figuras do PT? Dizer que a queixa contra a imprensa foi motivada pelo simples registro de fatos é substituir um radicalismo por outro. É o mesmo que trocar o pensamento torto dos que consideram mal intencionada qualquer interpretação que manifeste ideias contrárias pelo extremismo dos que acham que a atividade jornalística é absoluta e ilimitada. A imprensa e o jornalismo não estão acima da lei. Investigar fatos, levantar dados é algo diferente de denunciar e acusar. Quando acusa, a imprensa deve estar preparada para fornecer provas à justiça, ou para pagar pela atitude leviana, caso faltem as provas.

O enviesamento de setores da imprensa é inegável, mas ele não justifica uma perseguição sistemática e indiscriminada. Devemos, ao contrário, adotar uma política de reforço e não de segregação indiscriminada. Reconhecer, identificar e prestigiar os bons jornalistas -- pois eles são numerosos -- ao tempo em que militamos contra os se valem de meios ilegítimos para alcançar seus objetivos. Contra aqueles de quem apenas discordamos, devemos fomentar o diálogo, discutir, com honestidade. E às vezes apenas aceitar que um acordo é inviável, visto que cada um parte de premissas incompatíveis.

Especialmente contra a ideia tendenciosa que se deixa insinuar em editorais dessa natureza: é preciso combater o argumento grosseiro que faz do papel indispensável da imprensa o álibi para o exercício irresponsável do jornalismo. É preciso policiá-la criticamente para que esteja sempre claro que a legitimidade do seu trabalho não é um termo abstrato, mas deriva concretamente do seu papel fiscalizador, do desempenho satisfatório desse serviço. À sociedade cabe também fiscalizá-la quanto a sua função, pois o equilíbrio entre os poderes numa democracia -- e à imprensa cabe o quarto poder -- depende de uma relativa igualdade e liberdade entre as instâncias. Criticá-la portanto é tão legítimo e necessário à democracia quanto o papel fiscalizador que ela exerce sobre as autoridades públicas -- embora não necessariamente devamos acolher as críticas dirigidas a ela, assim com não devemos abrigar necessariamente todas as investidas contra as autoridades, é preciso um filtro rigoroso para depurar as informações. A crítica, de ambos os lados, é sempre legítima, mas não significa que ela seja sempre verdadeira. Não nos deixemos enganar pelos discursos abstratos que a título de defesa de princípios democráticos pretendem construir a passarela por onde desejam trilhar. Quem lê o texto do Estadão pode facilmente pensar que toda crítica é antidemocrática e ilegítima. Sob esse pano de fundo, não fica difícil prever o chumbo grosso que virá pela frente. Aceitar a declaração pública sem ressalvas, é outorgar uma carta branca para que se censure qualquer crítica de agora em diante. A medida que 2010 se aproxima, as coisas esquentam e os ânimos se acirram. Muito esgoto ainda correrá nas valas abertas que nós bem conhecemos. Escrevam o que eu digo!

01 Fevereiro, 2009

Novidade e segurança

Por acaso assisti ontem à noite a metade de "Um sonho de liberdade". Brooks, antigo bibliotecário e Red, amigo de Andy Dufresne, enfrentam ao final o que eles denominam institucionalização. Após décadas confinados no presídio, a perspectiva da liberdade os assusta. Eu sempre tive comigo uma frase de Dostoiévski lançada a certa altura de Crime e castigo: "O homem é um canalha, acostuma-se a tudo". Mesmo a liberdade pode ser aterrorizante para homens desacostumados à novidade, marcados pela rotina inflexível e esmagadora. A adaptabilidade é a chave da sobrevivência, mas ela tem um quê de sinistro. Por exemplo: viver, depois que pessoas queridas se vão, parece uma afronta ao sentimento, à estima que sempre que lhes dispensamos. No entanto é essa afronta a razão de continuarmos vivos. A segurança conquistada mesmo nas mais adversas circunstâncias, a estabilidade, é a base para qualquer ação, por isso a novidade e a perda de um ambiente familiar parecem tão intimidadoras -- lembremos Arquimedes: "Dêem-me um ponto fixo e eu moverei o mundo". (Há três pontos aqui, para que não haja confusão: o ponto fixo como metáfora para segurança imprescindível à qualquer ação, a adaptabilidade como esforço para criar o ponto fixo, esse ambiente familiar indispensável ao desenvolvimento, e finalmente a novidade como perda da segurança, do ponto fixo, como possibilidade aberta e não necessariamente previsível -- e, portanto, assustadora).

A segurança é o solo sobre o qual o homem constrói sua morada. Todavia, a novidade, o desconhecido não inspiram somente repulsa. Ao contrário. Eles seduzem, aliciam e nos convidam a um ambiente novo. Sob a novidade se proteja então a expectativa: a esperança de felicidade e alegria em padrões inéditos, mas também o medo, a derrota, a perda do que se tem. O velho dilema é reeditado de tempos em tempos: a escolha entre a segurança conquistada, mas previsível, plenamente dominada, e as promessas do porvir, as possibilidades que ele reserva.

A frase "mais vale uma pássaro na mão do que dois voando" é uma verdade afetiva. O homem é um paquiderme emocional (nas palavras de Jurandir Freire), os lances afetivos portanto são onerosos e implicam mudanças frequentemente desagradáveis. O resultado é uma espécie de sedentarismo afetivo, a tendência a manter as relações congeladas e minimizar os movimentos a fim de diminuir o ônus. Essa imobilização cria um nível natural de rejeição à "liberdade". Freud sem dúvida haveria de concordar: ela é um agente civilizador por excelência, na medida em que agrega ao invés de dissipar, mas ao mesmo tempo contrapõe o homem ao fluxo do tempo, à contigência das coisas. Inteiramente orientado segundo a expectativa de continuidade, o homem se vê desarmado para lidar com rupturas e fragmentações tão comuns ao curso da vida. Parece imprescindível aceitar, ou melhor, integrar à parte da nossa constituição emocional o exercício da abertura ao novo, estimular rupturas sistemáticas, para que as perdas e descontinuidades possam ser melhor recebidas. Digo isso como um melancólico diplomado, sujeito para quem toda perda é fragmentação do ser. Os melancólicos supradimensionam a resistência natural à mudança, agarram-se ao passado, ao familiar, relutam em aceitar novas condições na crença de que nunca recuperarão o que foi perdido. Nada será como antes.

Estou novamente diante de uma dessas condições. Tristeza e ansiedade se alternam em meu espírito. Ora as novas possibilidades parecem fantásticas, ora lamento a perda das velhas condições. Logicamente, lamentar é um despautério. Não há parâmetros, a novidade é sempre uma abertura, nunca uma substância ou um fato que se permita comparar. Só a substancialização do desconhecido, como pessimismo, justifica o medo. Portanto o melancólico é quase sempre um pessimista. De uma circunstância da qual nada pode ser dito, ele extrai o pior em nome de uma flagelação estrutural. Já escrevi sobre isso aqui no blog, mas não lembro o título do post. A acusação do melancólico contra si mesmo é a tentativa de restaurar internamente uma ordem externa que já está perdida. A novidade não pode ser dominada, na medida em que é uma abertura e uma possibilidade. Não há o que sentir e o que fazer, senão esperar que as coisas se acomodem e que se desenvolvam até o próximo estágio. A acusação melancólica restitui a segurança, ainda que pela dor. Os melancólicos, de todo avessos e resistentes à mudança, preferem a segurança do sentimento familiar da tristeza à deriva diante do desconhecido. Assim, eles reconstroem o ponto arquimediano e podem, instalados na tristeza familiar, lidar mais adequadamente com a situação. Mas o luto um dia precisa acabar.

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Escrevendo, lembrei de um conto do Somerset Maugham que com algum esforço oferece uma boa imagem. Trata-se de O zelador da Igreja (The Verger, na versão em inglês, em PDF). Por adversas que pareçam, as novas circunstâncias podem trazer boas novidades e redefinir nossos padrões de felicidade e contentamento -- malgrado o hábito, o irmão mais velho da segurança e inimigo mortal da novidade.