24 agosto, 2009

Leituras tardias

Eu tenho uma longa e vergonhosa lista de livros a serem lidos. Por essa razão eu trago comigo o receio de ser surpreendido por algum argumento genial sacado de um desses livros. Recentemente eu retirei da lista Contra o método , de Feyerabend. Curioso é que já nas primeiras páginas eu encontrei a formulação de um problema que eu ensaiei (precariamente, como de costume) por aqui nas últimas semanas. Diz respeito ao colapso da racionalidade ou, de outra forma, trata do reconhecimento de componentes não racionais, não argumentativos, de importância cardinal para determinação da organização social, do método científico, enfim, das estruturas elementares forjadas pela cultura humana. Feyerabend denomina sua posição de "anarquismo metodológico" -- mas eu prefiro uma outra denominação, sugerida por ele mesmo, "dadaísmo metodológico". As consequências do seu pensamento são desconcertantes para um mundo que, cada vez mais embrulhado em informação e conteúdo, parece, contudo, cego para a falta de coerência lógica que o filósofo aponta (não como uma carência a ser corrigida, mas como uma característica a ser identificada).

Nesse contexto, o pior não é que as pessoas aceitem esse anarquismo inerente aos nossos empreendimentos, mas sim que elas não se dêem conta dele e ainda sim o mascarem sob o véu da tecnologia e de um poderoso domínio da natureza. Como se esses resultados consistissem em prova inconteste da racionalidade humana. Isso não se comprova, entretanto, nem por um breve olhar pela história da ciência, tampouco pelo exame da história da humanidade.
Ora, se há eventos, não necessariamente argumentos, que são causa de adotarmos padrões novos, inclusive novas e mais complexas formas  de argumentação, não caberá aos defensores do status quo oferecer, não apenas contra-argumentos, mas também causas contrárias? E quando velhas formas de argumentação se revelarem causa demasiado fraca, não deverão esses defensores desistir ou recorrer mais fortes e mais irracionais? (É muito difícil e talvez inteiramente impossível combater, através de argumentação, os efeitos da lavagem cerebral.) Até o mais rigoroso dos racionalistas ver-se-á forçado a deixa de arrazoar, para recorrer à propaganda e à coerção, não porque hajam deixado de ser válidas algumas das suas razões, mas porque desapareceram as condições psicológicas que se tornaram eficazes e as faziam susceptíveis de influenciar terceiros. E qual a utilidade de um argumento que não consegue influenciar pessoas?
Há tanta coisa a dizer sobre essa passagem que prefiro nem mesmo arriscar. Espero que vocês possam alcançar as consequências de um comentário aparentemente trivial. Aí se oferece uma forte razão para que a ciência, e a filosofia da ciência, estreite os laços com a política, uma vez que a fluxo produtivo não se conduz pelo mero respeito ao método científico. Ele chega mesmo a falar de condições psicológicas de eficiência argumentativa. É genial e polêmico.

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