28 julho, 2009

Racionais por definição

As formas mais primitivas de falsificacionismo sustentavam que um contra-exemplo poderia efetivamente pôr abaixo uma teoria. Eu já citei por aqui os curiosos expedientes empregados pelos cientistas e elencados por Lakatos para dissolver os contra-exemplos e anomalias que poderiam, em tese, falsificar uma teoria.
For instance, if a planet does not move exactly as it should, the Newtonian scientist checks his conjectures concerning atmospheric refraction, concerning propagation of light in magnetic storms, and hundreds of other conjectures which are all part of the programme. He may even invent a hitherto unknown planet and calculate its position, mass and velocity in order to explain the anomaly.
Os princípios gerais da ciência, como as regras e proposições de uma linguagem, são como lentes: nós enxergamos através delas. Por isso é extrema ingenuidade pensar que na ciência, como na vida cotidiana, qualquer experiência contrária será o bastante para nos fazer abandonar nossas convicções mais profundas. Imaginem que vocês estão andando pela rua e de repente vêem um boi voado, flutuando em pleno ar (perdão, mas eu queria uma imagem bem extravagante). Diante disso, quase ninguém estaria disposto a esquecer as leis da física e a incompatibilidade desse evento com o modo de organização da nossa experiência que, aliás, não é mistério nem para uma criança de 5 anos. Na certa vocês buscariam alguma explicação, suporiam truques, ilusões; um mágico, David Copperfield, pode estar por perto, nunca se sabe! Talvez, por fim, desistiriam de buscar a explicação -- mas mesmo então não estariam ainda dispostos a desacreditar as leis da física. É certo que pode haver alguém que prontamente abandone tais crenças, acreditando que o boi é manifestação da vontade de Deus. Mas pense: que tipo de experiência poderia fazer essa pessoa abandonar a sua crença nesse Deus que agora se manifesta na presença de um boi voador? Você verá que o embaraço é o mesmo em que se mete alguém que tenta pensar as circunstâncias que nos levariam a abandonar as leis da física. Nós podemos sempre transformar um evento patentemente desajustado aos padrões mais elementares da nossa organização racional numa anomalia que não os compromete enquanto princípios de organização. E assim, fazer conviver as mais absurdas incongruência e a mais sincera fé na racionalidade. (É claro que eu sei que há respostas razoavelmente satisfatórias em filosofia da ciência para essa tendência ao ad hoc. A dificuldade de se chegar a um acordo sobre que tipo de experiência poderia contrariar um teoria e como isso acontece não é o que eu quero destacar aqui. Na curso da ciência as coisas se transformam, ainda que vagarosamente. Antigas experiência agora são admitadas, outras, preteridas. Mas na vida cotidiana, isso é quase impossível. Não há um equivalente a comunidade científica definido e julgando padrões para aceitar uma teoria ou outra.) O que me deixa angustiado é pensar que talvez todo o "projeto humano" seja uma espécie de crença bem mascarada, porém inútil. Não é que eu precise ter garantias de que seja possível "triunfar" ou pelo menos dar bons passos em direção à resolução dos problemas centrais da nossa espécie, a questão é outra: será que somos capazes de identificar limites que ponham em cheque nossos modelos? Ou será que somos como cientistas hipostasiando planetas nunca vistos (ou inexistentes) para explicar desvios de órbitas? Ou como os crentes bradando o eterno mantra: "Deus escreve certo por linhas tornas" (que é, no final das contas, uma tautologia)? Ou seja, será que somos capazes de reconhecer a tempo que estamos indo em direção a um abismo ou estaremos sempre inventando novos meios de nos convencer de que estamos no caminho certo, para não arcar com o custo das mudanças? Talvez Schopenhauer estivesse certo e nós sejamos meramente uma vontade cega e incontrolada que impulsiona nosso projetos e estimula nossas máscaras. Sempre que penso nisso, sinto um enorme fastio, como quem contempla outro alguém num trabalho penoso e manifestamente vão. Talvez sejamos racionais por definição e não por direito.

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