27 fevereiro, 2009

Procura-se um Deus

Li com assombro uma passagem do artigo da Foreign Policy sobre a maioridade do caos na Somália:
Western powers should do whatever they can to bring moderate Islamists into the transitional government while the transitional government still exists. Whether people like it or not, many Somalis see Islamic law as the answer. Maybe they’re not fond of the harsh form imposed by the Shabab, who have, on at least one occasion, stoned to death a teenage girl who had been raped (an Islamic court found her guilty of adultery).
Que espécie de entidade, a que se predica bondade e amor infinitos, permite que tais coisas aconteçam? Que malabarismo ideológico salva da completa incoerência a pretensão de afirmar sua existência? É um argumento antigo, mas ainda eficiente.

Antes que algum exemplar de cínico venha aqui sublinhar a condição muçulmana dos envolvidos, registro não se tratar de uma discussão política, nem religiosa no sentido institucional (leis, normas, entidades, etc). É um discussão metafísica sobre o estatuto do conceito de Deus, mais precisamente, do Deus cristão. A resposta a essas dúvidas vêm com frequência na forma de um aviltamento da nossa capacidade intelectual ou na exortação dos planos insondáves do Altíssimo. Conveniente, não? Se não podemos compreender, por incapacidade, só nos resta confiar cegamente e rezar para não cair por acidente nos trilhos dos imperscrutáveis desígnios divinos. Argumentos semelhantes me fazem lembrar a caricatura que Popper fez da psicologia de Adler e Freud:
I may illustrate this by two very different examples of human behavior: that of a man who pushes a child into the water with the intention of drowning it; and that of a man who sacrifices his life in an attempt to save the child. Each of these two cases can be explained with equal ease in Freudian and Adlerian terms. According to Freud the first man suffered from repression (say, of some component of his Oedipus complex), while the second man had achieved sublimation. According to Adler the first man suffered from feelings of inferiority (producing perhaps the need to prove to himself that he dared to commit some crime), and so did the second man (whose need was to prove to himself that he dared to rescue the child). I could not think of any human behavior which could not be interpreted in terms of either theory. It was precisely this fact — that they always fitted, that they were always confirmed — which in the eyes of their admirers constituted the strongest argument in favor of these theories. It began to dawn on me that this apparent strength was in fact their weakness.
A religião é algo do gênero: sua força reside no seu poder explicativo, ainda que para isso ela precise mobilizar um arsenal quase infantil de conceitos. O dilema pode ser grosseiramente definido: o homem precisa de explicações, a religião é fé e de-cisão -- para explicar ela precisa ser totalitária e anticientífica, no sentido de Popper. Ela precisa ocupar todos os espaços. Por consequência, na medida em que os fundamentos são oferecidos dogmaticamente, tudo que nos resta é uma crença de segundo nível: existindo Deus precisamos crer também que ele é sumamente bom e que, embora não possamos compreender seus planos, age sempre em nosso benefício. Vida dura, hein? Nem tanto, não para quem está na frente de um Mac, bem longe da Somália ou de Darfur, na deliciosa companhia da Suma teológica.

Há poucas coisas mais inúteis do que discutir Deus e religião. O que me traz aqui é menos a vontade de debater do que o estranhamento diante do silêncio das mais exaltadas vozes cristãs diante dos bárbaros acontecimentos do mundo. Na certa estão ocupadas com coisas mais importantes. Assim na terra como no céu: se a bondade e o amor divinos não se sentem ameaçados em sua coerência pela maldade prevalecente, bem, não serão os pobres mortais que cairão pela incoerência de ser cristão e permanecer indiferente à realidade de mais da metade do mundo.

Vamos rezar para que apareça algum Deus que possamos entender.

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