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30 Dezembro, 2008

Muito além do Cidadão Kane - Documentário censurado sobre a Rede Globo



O conteúdo completo do documentário Muito além do Cidadão Kane (Beyond Citizen Kane), do diretor britânico Simon Hartog está no Youtube. Informações detalhadas sobre o filme vocês encontram no Wikipedia. No Brasil, ele nunca veio a público, por conta da censura da "justiça". Mas a internet, como sempre, corrige os equívocos da nossa proto-justiça e disponibiliza para todos o acesso ao material. Fiz questão de baixar os vídeos a fim de evitar que eles fossem censurados também no próprio Youtube, e se perdessem novamente. Baixei os quatro vídeos e converti todos eles para o formato DIVX. Extraída de gravações em VHS, a qualidade da imagem é ruim. Por vezes há uma leve defesagem entre vídeo e áudio, mas nada que impeça que se acompanhe o relato. Os obstáculos são menores se comparados à importância do conteúdo apresentado. De um feita o diretor Hartog expressou o estranhamento diante do fato de nunca se ter produzido nenhum documentário acerca do poder alcançado pela Globo. É mesmo de se estranhar!

O documentário em si tem um caráter histórico e reconstitui o contexto em que surgiu a Rede Globo. Em verdade, o vídeo não traz nada de novo para quem se preocupou em entender a história recente do nosso país. Mas é um documento forte e contundente, visto que reune imagens e depoimentos de personalidades que fizeram parte da história da Globo. Essas pessoas atestam o caráter pouco democrático da conduta e da coordenação executiva da emissora. Tudo começa com a conivência com o regime militar, passando pela tentativa de golpe nas eleições do Rio, contra Brizola (Paulo Henrique Amorim comenta o episódio num blog dedicado a armazenar seu relato), até a intervenção em favor de Collor nas eleições de 89 -- o filme, a propósito, é de 1993. A vassalagem rende à TV Globo vantagens que lhe permitem atingir o status de que hoje goza, às custas, é claro, de instituições democráticas como a liberdade, pluralidade de idéias, etc. O documentário, apesar desse caráter abrangente, precisa ser visto sobretudo por aqueles que ainda desconhecem o verdadeiro perfil da emissora (tão evidente para os baianos, que sempre estiveram à sombra das manipulações grosseiras da TV Bahia, que, evidentemente, aparece em destaque no documentário).

Abaixo os links para as quatro partes do documentário no Youtube:

Muito além do Cidadão Kane - Parte 1
Muito além do Cidadão Kane - Parte 2
Muito além do Cidadão Kane - Parte 3
Muito além do Cidadão Kane - Parte 4

Aqui o vídeo reunido para download num único arquivo RAR de 398,6 Mb. No entanto, para armazená-lo no Rapidshare precisei dividi-lo em 3 partes que não são independentes, portanto, é preciso baixar as três partes e só então descompactá-lo.

Muito além do Cidadão Kane - Parte 1 (190 Mb)
Muito além do Cidadão Kane - Parte 2 (190 Mb)
Muito além do Cidadão Kane - Parte 3 (4,7 Mb)

***
É um sentimento paranóico esse que me leva a baixar tudo que me interessa. Mas ele não é totalmente descolado da realidade. Li recentemente, e penso em escrever a respeito, um post sobre a arqueologia digital. A Era Digital embora tenha democratizado o acesso a alguns meios de produção, é refém da efemeridade tecnológica e essa contingência ameaça a memória do nosso tempo. Nesse caso, prefiro confiar no meu modo de armazenamento do que no arbítrio dos que administram servidores não-sei-onde. Assim sendo, amanhã mesmo atualizo o post sobre a entrevista do juiz Fausto De Sanctis, oferecendo os links para download da entrevista.

Entrevista com o juiz De Sanctis


O juiz Fausto De Sanctis é entrevistado por Kennedy Alencar
em seu programa É Notícia, na Rede TV


Amiga Yeda sugeriu a entrevista apontada pelo blog do Fred Vasconcelos, da Folha. O juiz Fausto De Sanctis é entrevistado por Kennedy Alencar, da Folha, jornalista de opiniões ponderadas e razoáveis. Mal terminei e já sugiro que vocês assistam também. Aliás, eu estou baixando o vídeo. Não confio em nenhum armazenamento que não seja o do meu HD. Assim que eu terminar disponibilizo para vocês também.

Cliquem aqui e assistam à entrevista na Rede TV

Atualização: Cliquem nos links abaixo para baixar a entrevista num arquivo DIVX de 218,4 Mb. O arquivo está dividido em duas partes que devem ser baixadas e só então ele deve ser descompactado.

Primeira parte (190 Mb)
Segunda parte (18,5 Mb)

29 Dezembro, 2008

Piada do dia

Paulo Lacerda será adido policial na embaixada brasileira em Portugal. Isso mesmo, o ex-diretor geral da ABIN, afastado por ocasião da denúncia de que a Instituição teria espionado clandestinamente autoridades como o ministro Gilmar Dantas Mendes, foi exonerado e será adido policial em Lisboa. Quando foi afastado o Ministro da Defesa Nelson Jobim sugeriu que a ABIN possuia aparelhos capazes de realizar interceptações telefônicas. Meses depois, o Gabinete de Segurança Institucional encerrou a sindicância que investigava o caso e concluiu que a ABIN não possui aparelhos capazes de realizar o monitoramento em tecnologias digitais semelhante aquelas usadas nas instalações em que o suposto grampo foi realizado. Além disso, o GSI não encontrou indícios de qualquer escuta realizada quer pela ABIN, quer pela Polícia Federal.

Bem, se os Ministros Gilmar Mendes e Nelson Jobim pediram o afastamento de Paulo Lacerda baseados na possibilidade das escutas, seria natural que ao fim da investigação o competente diretor geral retornasse ao seu cargo. Mas não, adotou-se o sentido contrário, Lacerda será enviado à Portugal. Lê-se aqui e ali que por escolha própria. Acredite quem quiser.

Escandaloso mesmo que é ministros saiam aos gritos na imprensa proclamando crises institucionais, exigindo medidas contra a suposta ação clandestina de agentes da polícia ou mesmo chamando o Presidente da República às falas sem que tenham sequer um indício que sustente suas alegações. O único indício, aliás, é a reportagem da Veja. Além de um crime contra prudência, é um atentado contra qualquer ordem jurídica que as sentenças antecipem a materialização das provas ou antes que um tribunal acolha as denúncias levantadas. A pergunta que fica é: nenhuma medida será tomada contra os ministros que pediram a cabeça dos agentes e das instituições acusados e condenados injustamente? O Estado de Direito é um estado de liberdade mas também de responsabilidade, de acordo com as palavras do próprio Gilmar Mendes, quando ministros se sentem livres para acusar e sentenciar impunemente, sem que suas palavras precisem encontrar o solo firme da realidade, é inevitável pensar que para eles a lei não se aplica, de que estão acima dela.

É difícil ser otimista num país que além de injusto e desigual, desobriga as figuras mais ilustres e poderosas a cumprir aquilo que os cidadãos comuns têm que respeitar.

28 Dezembro, 2008

Como nascem os filósofos

Conversa entre minha namorada e sua filhota de 6 anos:
Mille:
deixa eu te contar uma
LEONARDO:
Conta..
Mille:
no banho (no banho vêm as melhores): mãe, quem fez a bíblia foram os homens, né? mas como eles sabem que tuuuudo foi feito por deus se eles não existiam na época que deus fez?
LEONARDO:
hahah
Mille:
sento na privada: é filha que qdo os homens começaram a se perguntar sobre quem os fez, cada homem de cada canto do planeta foi imaginando de uma forma etc...
LEONARDO:
hahaha
LEONARDO:
E ela?
Mille:
horas depois:
Mille:
mãe, vou fazer uma reunião com todos os que acreditam na bíblia e dizer: olhem, esse livro foi feito por homens que não estavam no dia que tudo foi feito, acho melhor a gente fazer uma aventura pra descobrir a verdade de quem fez a gente.
Mille:
hahhahahaha
LEONARDO:
hahahahhahaha
Imagina quando ela souber quanta gente morreu por formular dificuldades que parecem óbvias mesmo para crianças de 6 anos.

27 Dezembro, 2008

O relatório pró-Dantas do PSDB

O Política Livre transcreve uma matéria da Folha onde se lê:
Técnicos do PSDB na Câmara começaram a formatar, antes do recesso, o relatório alternativo ao parecer do deputado Nelson Pelegrino (PT) na CPI dos Grampos. O eixo do documento tucano tem três pontos: 1) listar operações anteriores da Polícia Federal para mostrar que “nunca antes” houve empenho investigativo similar ao da Operação Satiagraha; 2) citar dados da auditoria do Exército para afirmar que a Abin tem pelo menos sete aparelhos capazes de produzir grampos não-autorizados; 3) cruzar dados do Conselho Nacional de Justiça com material enviado pelas operadoras para argumentar que ninguém sabe ao certo quantos são os grampos em andamento.
Devemos reconhecer e prestigiar a honestidade do PSDB, o partido assumiu a defesa dos interesses de Daniel Dantas enquanto o PT se esforça por dissimulá-la. Não sejamos parciais, Pelegrino fez o possível e o impossível para dar conteúdo ao circo da CPI dos Grampos. Quanto aos pontos que serão abordados na documento tucano, puxa, comentá-los induz inevitavelmente a peças de humor. 1) Acho que a Polícia Federal deve ser dissovilda, não cabe a uma instituição pública empenhar-se tanto no exercício de suas funções -- mirem-se no exemplo do Congresso. O ócio ali grassa em paz duradoura, para orgulho dos nossos representantes. 2) Apesar do Gabinete de Segurança Institucional ter concluído a sindicância sobre a participação da ABIN nos supostos grampos afirmando a "ausência de indícios da realização de escutas telefônicas ou outras modalidades de quebra de sigilo de comunicação, clandestinamente ou não" e mesmo depois de notícias como essa circularem pelas soleiras dos jornalões: PF deve encerrar em janeiro investigações sobre escuta no STF, que até hoje não têm provas nem suspeitos, o PSDB insiste na tese de que a ABIN e a Polícia Federal produziram grampos clandestinos. Eu gostaria de fazer uma pergunta razoável a algum desses tucanos: baseado em que vocês insistem em defender essa tese? Eu sei a resposta ou pelo menos a razão da insistência: é a velha estratégia olaviana de afirmar uma tese e distorcer o mundo até que ele se enquadre na moldura pintada por ela. Pra que o PSDB precisa de técnicos produzindo um novo relatório? Para que eles afirmem aquilo que o relatório oficial (apenas por senso de ridículo, e não por falta de vontade da situação) não deverá afirmar: a existência de grampos clandestinos ou pelo menos de instrumentos capazes de realizá-los. O objetivo vocês já sabem, minar a credibilidade das instituições e das pessoas responsáveis por Satiagraha -- qualquer um que já tenha lido meus posts anteriores sobre o caso sabe disso. 3) Depois de alardear o número de 409 mil grampos e criticar o CNJ por ter divulgado um relatório com quantidade significativamente menor, 12 mil, o presidente da CPI, Marcelo Itagiba, deve ter se alinhado ao PSDB (eu suponho) para produzir o novo relatório. Para isso deram um passo atrás, de críticos do balanço apresentado pelo CNJ os defensores de Dantas passaram a céticos, alegando que nenhum número exato foi produzido acerca da quantidade de grampos no país. Claro, depois de flagrados na mentira, querem justificá-la.

É preciso muito cinismo para defender teses semelhantes. Maior cinismo só o de quem continua a acreditar que essas figuras não têm o rabo preso. Salvo raras exceções, o único critério para avaliar um político no Brasil se reduz a saber até onde ele está disposto a manter-se filiado aos seus compromissos particulares, fisiológicos. Pelo que se vê, alguns estão com Dantas até que a morte -- ou a cadeia -- os separe.

26 Dezembro, 2008

Abelardo e Heloísa - Parte Final

Passeando pelo Rio de Janeiro, Wagner esqueceu de publicar a última parte do seu tratado ensaio sobre Abelardo e Heloísa. Abaixo segue a conclusão. A propósito, perdoem se as atualizações andam escassas. Férias, verão, vocês bem sabem, tudo concorre para o ócio.

A jovem que Abelardo encontrara em casa de seu tio Fulberto contava 18 anos, ele 40. De um lado ele, obstinado a alcançar o destino de sua inteligência, de outro ela, segundo o próprio Abelardo, uma jovenzinha de rara beleza, não a última, mas que superava todas as mulheres em erudição. Esta qualidade tão rara entre as mulheres a distinguia de todas do reino. Ademais, bela e inteligente, como se Deus jamais tivesse escolhido ser tão bom do que quando a criou, pois se ser erudita já seria uma condição por demais rara, ser bela e erudita parece não passar de uma invenção do demônio. Não poderia haver no mundo, portanto, maneira mais própria para promover a perdição de Abelardo.

Se a condição anterior de Abelardo dispusera sobre o coração de Heloísa o seu corpo e o futuro de sua profissão, a nova condição colocara sob os cuidados de sua oração a salvação da alma de ambos, como testemunha a prece que o monge Abelardo suplica que a abadessa do Paracleto recite diante do altar: “Eu vos conjuro, puni no presente os culpados para poupá-los no futuro. Castigai-os no tempo para não os castigar na eternidade. (...) Castigai a carne para salvar as almas.” Até o fim, Heloísa misteriosamente se manterá fiel ao seu amor em um silêncio rompido somente ou pelos movimentos de seu corpo, que deseja ardentemente a Abelardo, ou pelas suas cartas. Ironicamente, o pecado que deve expiar por toda a vida é resultante de sua obediência resignada mais ao seu amor do que a Abelardo. Afinal, se ela faz as vontades dele e não as suas é antes pelo seu amor, não meramente por ele. Em meio a esse cenário, o que E. Gilson pretende estabelecer com seu célebre Heloísa e Abelardo é que Heloísa se fizera mestra de Abelardo no amor humano sem jamais deixar de ser sua discípula no divino. E, talvez, por isso se mostre até superior a ele. Porém, mulher como Heloísa não existe. Assim, solteironas pudicas podem se embriagar em sua festa feminista contra o sexo oposto. Disso todavia concluirá o leitor que romântico este que escreve. Romântico talvez, mas por certo nem mesmo Heloísa existira. Paradoxalmente, tão real, ela não passara de uma personagem criada por ela mesma, produto de um amor vivido até os seus últimos golpes. Sendo uma mulher tão real quanto qualquer outra, diria um erudito francês, ao aceitar ser a personagem principal de uma tragédia, ela se torna tão real quanto um mito, pois sofre de um amor tão forte que a separação do amante só pode ser vista como o castigo mais cruel a que Deus poderia submeter uma alma.

Fragmentos anteriores:
Abelardo e Heloísa - Parte I
Abelardo e Heloísa - Parte II
Abelardo e Heloísa - Parte III

18 Dezembro, 2008

A tentação do Mal

Hannah Arendt dá uma formulação cortante ao fenômeno que serviu para que as práticas horrendas perpetradas pelo regime fossem contemporizadas quer pelos burocratas do Estado Nazista, quer pelos civis. Os "atos de Estado", as normas então recentemente instituídas, depuseram não só as antigas formas de organização legal, mas moldaram a própria consciência do povo alemão invertendo valores e fazendo-os considerar toleráveis mesmo o absurdo. A exceção tornou-se a regra.
No Terceiro Reich, o Mal perdera a qualidade pela qual a maior parte das pessoas o reconhecem -- a qualidade da tentação. Muitos alemães e muitos nazistas, provavelmente a esmagadora maioria deles, deve ter sido tentada a não matar, a não roubar, a não deixar seus vizinhos partirem para a destruição (pois eles sabiam que os judeus estavam sendo transportados para a destruição, é claro, embora muitos possam não ter sabido dos detalhes terríveis), e a não se tornarem cúmplices de todos esses crimes tirando proveito deles. Mas Deus sabe como eles tinham aprendido a resistir a tentação. (Hannah ARENDT, Eichmann em Jesuralém)

A ciência não avança por falsificação

Por duas razões quero abordar aqui problemas relativos ao falsificacionismo, primeiro, por conta de uma leitura bastante difundida segundo a qual a ciência avança por falsificação, isto é, observações e enunciados singulares falsificam ou corroboram hipóteses e teorias científicas. Nesse panorama a experiência cumpre o papel da última corte de apelação nas disputas teóricas. Segundo e por consequência, em razão da frequente mobilização do conceito de "fato" nos contextos em que se busca ancorar uma teoria no solo inconteste da experiência (ou da realidade). As duas posições envolvem um entendimento que se cerca de muitos problemas. Meu texto quer menos dissipar tais problemas do que apresentá-los segundo dois aspectos da interpretação exposta por Lakatos -- a respeito do desenvolvimento teórico de Popper -- em seu artigo La falsación y la metodología de los programas de investigatión científica.

Definir um critério de demarcação consiste num dos pontos essenciais da filosofia da Popper. Herança kantiana, ele envolve a tentativa de estebelecer uma fronteira nítida a partir da qual possamos distinguir os enunciados da ciência natural dos enunciados de outros campos do saber -- da metafísica ou mesmo das ciências formais, lógica e matemática. O primeiro passo dessa empresa, contudo, traz a distinta marca humeana: negar à indução o papel de agente privilegiado na constituição da ciência. O conhecimento científico é de natureza sintética -- isto é, seus resultados não eliminam a possibilidade de ocorrência contrária, não envolvem, como no caso do método dedutivo, necessidade lógica. A ciência natural deve incorporar a contingência como parte essencial da sua constituição, sob pena de confundir-se com as pretensões metafísicas. (ver Problem of induction). A experiência (as observações singulares) não pode através do método indutivo legitimar a inferência de leis universais. As observações e os fatos são sempre singulares e logicamente independentes -- enquanto as leis universais que são a própria matéria do conhecimento científico e eixo de sua operacionalidade estabelecem ligações externas entre eventos logicamente independentes. Que o sol nasça todos os dias e que os homens sejam mortais parecem verdades irrefutáveis resultantes de leis gerais. Mas como a experiência de eventos singulares -- o sol nascido no dia 14, 15 e 16, e nos dias anteriores ou a morte de José, Márcio, Antônio e todas antes dessas -- pode justificar o enunciado que abrange todas as ocorrências possíveis, mesmo as futuras? Que elo lógico torna a possibilidade de o sol não nascer, ou de Pedro não morrer, uma contradição, algo impossível? Absolutamente nenhum. A experiência, ensinou Hume, não oferece suporte para operações semelhantes. O critério de demarcação que se apoia no método indutivo não consegue livrar a ciência de embaraços forjados ainda no século XVIII. Esse é um dos pontos de partida da reflexão popperiana.

Se a experiência não pode testemunhar em favor das leis unversais que a ciência propõe, ela pode, contudo, refutá-las e refutar com necessidade. Através do método dedutivo o cientista pode submeter uma hipótese a teste e refutá-la caso as consequências previstas sejam contrariadas ou não se cumpram. A experiência, assim, volta ao palco principal na condição de agente falsificador -- através da prova indireta (modus tollens), de um método dedutivo que, portanto, comporta necessidade. De forma grosseira, eis o panorama do que Lakatos denomina de falsificacionismo dogmático. O cientista propõe uma teoria que deve ser submetida a teste, caso resista, é incorporada ao quadro de sistemas científicos até que sobrevenha um teste crucial que a falsifique (e assim a ciência progride). Científicas são aquelas teorias falseáveis, quer dizer, teorias que guardam a possibilidade de serem falsificadas, que dizem as circunstâncias que as tornariam falsas.

Segundo Lakatos, aí então começam os problemas para o falsificacionismo dogmático. Tornada agente falsificador, a experiência ainda apela para uma "psicologia da observação". Os enunciados teóricos, contrapostos aos enunciados observacionais, são objetos de refutação. É preciso que nenhuma dúvida incida sobre a observação falsificadora. Mas como uma observação pode falsificar uma teoria? Como um sistema de enunciados, uma teoria científica, pode ser contrademonstrada por uma impressão sensível? Apenas se se imaginar que a observação envolvida na refutação é uma experiência comum, irredutível, imutável, universal, pura e acima de tudo verdadeira. (Mesmo assim não se dissolve o embaraço de se introduzir uma experiência sensível numa ordem de argumentos, de enunciados -- um "enunciado de fato" não pode ser demonstrado a partir de uma experiência, só enunciados podem demonstrar enunciados. Se a experiência não pode garantir o valor de verdade do enunciado de fato, pois não pode demonstrá-lo, a refutação também não pode ser garantida e, portanto, ciência não se avança por falsificação). Vê-se que o falsificacionismo ainda se envolve em dificuldades na medida em que supõe uma experiência pura. O critério de demarcação assim definido traça uma fronteira natural entre enunciados científicos e enunciados observacionais e devolve a ciência ao terreno sombrio de outrora. Das muitas questões que Lakatos destaca essa é uma das duas que me parecem centrais. A forma primitiva do falsificacionismo está comprometida com uma espécie de naturalismo. Desse modo, ela ainda é "fortemente anti-teórica".

Nesse panorama há outras questões que se aproximam e exigem atenção: aqui quero apenas apontar os problema envolvidos num certo modo de pensar a ciência. Popper responde a dificuldade de delimitar as fronteiras entre o teórico e observacional mediante outro artifício: estabelecendo que o que é teórico e o que é observacional se define já no interior de uma teoria (de uma teoria sobre o método), conforme uma decisão.
El que un enunciado sea un "hecho" o una "teoría" en el contexto de una contrastación es algo que depende de nuestra decisión metodológica.
Assim o problema de uma psicologia observacional se resolve. Outros problemas se erguem, mas vamos tão somente apreciar o horizonte que se abre com essa idéia. Esse novo espaço foi interditado ao naturalismo, verificacionismo, justificacionismo e a ismos semelhantes. A fronteira entre o teórico e o empírico não é natural, mas artificial, portanto, todos os enunciados são teóricos. Chamar de observacional um enunciado é somente uma maneira de dizer que em determinado contexto ele é empregado de maneira não-crítica, como conhecimento de fundo não problemático (afastamos assim o problema da demonstrabilidade dos enunciados de fato). Essa definição envolve não o reconhecimento de uma experiência pura, unívoca e universal, mas uma decisão metodológica. Não há portanto nenhum enunciado observacional no sentido antes invocado, nenhuma experiência que seja anterior a um organização teórica, por consequência, nenhum fato último cuja constatação assegure a uma teoria sua ascendência sobre outras. Ao contrário, os fatos são os resultados mediatos da adoção de alguma teoria, ainda que primitiva. Assim o papel dos experimentos, das experiências, reduziu-se significativamente. Embora sejam indispensáveis, as experiências não cumprem a função de demonstrar ou contrademonstrar teorias.

Registrar que uma psicologia observacional desempenha a função de delimitar as fronteiras naturais entre o teórico e o observacional nos permite destituir a experiência de seu posto decisivo ao mesmo tempo em que abre espaço para o entendimento de que não é a experiência pura, a maneira positivista ou justificacionista, que empresta legitimidade aos enunciados científicos. O desenvolvimento da ciência, na leitura de Popper e conforme Lakatos, é um processo complexo que não pode ser entendido sem que se examine as convenções e decisões metodológicas que instauram normas para organização do espaço teórico. Nesse sentindo, a experiência -- a realidade, o mundo -- não pode ser chamada a testemunhar em favor de qualquer teoria já que ela não determina o abandono de uma teoria, mas apenas condiciona algo que só pode acontecer por decisão.

Interessante notar como Lakatos sublinha a imunidade que as grandes teorias adquirem ao longo do tempo. O caráter geral dessas teorias importa em que elas raramente contradigam enunciados básicos, singulares, observacionais. Dessa maneira, é frequente que elas sejam salvas da falsificação imediata por artifícios, argumentos ad hoc, que tomam o evento singular, que em tese bastaria para falsificar a teoria, como um anomalia causada pela interferência de outros fatores na observação do fenômeno.

Repito, muitas questões continuam sem respostas, sobretudo porque eu fiz um recorte mais-do-que grosseiro a fim de destacar os pontos importantes. Contudo, espero ter despertado em vocês, caros amigos, a desconfiança para a pacífica mobilização de "fatos" e "experiências", chamados a socorrer teses como se eles pudessem assim decidir definitivamente um litígio teórico.

14 Dezembro, 2008

Abelardo e Heloísa - Parte III

Nada seria capaz de apagar o amor desperto por Abelardo no coração de Heloísa. Não lhe custa muito, portanto, dizer, contra toda a moral, que preferiria mil vezes ser a prostituta de Abelardo a ser sua esposa ou ser a esposa de Augusto e ter o seu nome doravante associado ao imperador do mundo. Contra toda a moral cristã e evocando o próprio Deus como testemunha (“Deus o sabe”). Que perdesse a sua alma, o que importava a Heloísa era evitar que Abelardo fosse privado de sua glória ou, quando menos, que ela seja a causa da privação. Já que Abelardo não era capaz de se sujeitar à castidade como os santos que, pelo menos, pudesse ser livre das amarras do casamento como os filósfos pagãos. Se em nome de sua glória, Abelardo aceitava basear a sua vida em uma mentira, mantendo secreto o seu casamento com Heloísa, ela, em nome de seu amor, recusava o casamento para salvar a pouca reputação que ainda lhe restava. Heloísa oferecia em troca a fornicação que tanto aprazia a Abelardo, mas ele esperava do casamento secreto justamente a garantia de satisfação de sua paixão. Por essa perspectiva, o projeto de casamento de Abelardo que, aparentemente, seria uma prova de seu amor passa a ser visto como contra-prova disso. Talvez, essa perspectiva se justifique pelo fato de, depois de emasculado, Abelardo declarar ter sido penalizado na causa de seu pecado, para o qual não há penitência mais justa do que perder a sua glória.

Mais do isso, mesmo a vida espiritual que almejava parecia vincular-se menos à grandeza de Deus do que à sua própria. Assim, todo o seu lamento por ter sido desclassificado espiritualmente se deve mais ao fato de ter perdido a sua glória do que por ter ferido a glória de Deus. Também Heloísa se mostra pouco dedicada em atingir a verdadeira grandeza espiritual, pois tudo o que importa é que a mentira substista ao tempo. Para que continuem a acreditar que Abelardo ainda é comparável a um Sêneca ou a um São Jerônimo, ele deve dissimular o casamento; para que ele possa voltar a sê-lo, Heloísa lhe oferece a satisfação de suas paixões fora do casamento. Sob esse aspecto, a expressão de E. Gilson beira ao gênio: “o trágico da cena está na perfeita sinceridade com a qual ambos representam a comédia da santidade” (Heloísa e Abelardo, p. 84). E Heloísa o confirma: “eles dizem que eu sou casta, porque não descobriram como sou hipócrita”.
Dona de si e serva de quem ama, Heloísa passa a referir-se a Abelardo, depois da mutilação, como pai, senhor, irmão, chegando à expressão “a Deus, como religiosa, a ti, como mulher”. Todavia, vale ressaltar que a maneira de ela referir-se a Abelardo se modifica radicalmente depois de ele ter pagado o alto preço por tê-la seduzido debaixo do teto de Fulberto por conta de seu ingresso na vida monástica. Heloísa bem o sabe que a dor da separação será proporcional à intensidade de seu amor: “Só nos resta, portanto, perder-nos um e outro e sofrer tanto quando amamos”. Abelardo, por seu lado, não parece saber menos do que ela: “A separação dos corpos tornava ainda mais estreita a união das almas”. Era assim a ausência do corpo que reascendia o amor. Não é de nos espantar o desepespero de Abelardo diante da possibilidade de perdê-la. Por isso, talvez, ela inocentemente cede à condição paradoxal que o seu enlace amoroso criou. Ele nem suportava a distância de Heloísa nem poderia asumi-la por ser então chefe das escolas de Paris. É desse paradoxo vivido a duras penas que brota a argumentação de Heloísa contra o seu projeto de tomá-la em casamento, muito embora o seu amor não admita separação alguma dele. Se for mesmo assim, por que então ela aceitou casar-se quando sabia que isto era tudo o que ela, em nome de seu amor, deveria ter evitado? É o próprio Abelardo que responde a essa questão. E a resposta é simples. Aceitou casar-se por obediência a Abelardo. Diz ele, Heloísa tinha pavor à idéia de me contrariar. É assim que ela veste o hábito sagrado de esposa de Cristo, quando o seu destino a marcara como mulher de Abelardo, e vive por quarenta anos submetida à rotina massacrante do monastérgio. Porém, jamais deixou de bradar que assim o fizera não por amor a Deus, mas por amor a Abelardo. E ele não medirá esforços para fazê-la aceitar a sua condição de esposa de Cristo, inclusive apresentando as vantagens. Se antes tivera sido esposa de um pobre homem, agora se tornara a esposa do Senhor do Mundo. No entanto, essa idéia deve repugnar a Heloísa tal como ela despreza o reino inteiro de Augusto.

Heloísa, sem se despir do hábito sagrado, veste o traje de concubina de Abelardo. Porém, ele não narra a história com as mesmas cores que ela. Aos olhos da futura abadessa do Paracleto, ela continuaria a ser a prostituta de Abelardo. Aos olhos de seu amante e agora seu pai espiritual, ela era a esposa de Cristo. Obediente a Abelardo, Heloísa não recusa a glória de tal título, mas ressalta: esposa de Cristo em espécie, como indivíduo, sua mulher. Prova disso é que em Historia Calamitatum Abelardo formula a sua relação com Heloísa de um outro modo: seria para mim mais honroso, diz Abelardo, e para ela mais agradável, que ela fosse minha amiga, antes do que minha esposa. Nos manteríamos unidos apenas pelo amor e não por qualquer vínculo nupcial. Abelardo não falta com a sinceridade ao formular as coisas assim, mesmo porque não diz em momento algum que deixará de amar Heloísa. A natureza de seu amor é que era preciso mudar. Por isso trata de corrigir os sentimentos de Heloísa. Ela se diz ainda perdidamente apaixonada por ele, ela lhe diz que reze apaixonadamente por Cristo; ela reclama seus direitos de esposa junto a ela, ele lhe roga que use os seus direitos de esposa junto a Deus. Com isso o que pretende Abelardo é a completa transfiguração de seu amor. Nesse sentido, passa a chamá-la de minha Senhora, minha dileta irmã em Cristo. Tanto Abelardo não nega o seu amor que não a renega como sua mulher, apenas diz não ver honra alguma em uma esposa de Cristo ser referida como sua mulher.

Resoluta, Heloísa não se cansa de repetir que não renunciara o mundo por Deus nem para expiar os seu crimes contra a moral, mas por Abelardo, para expiar o único pecado da qual se via maculada. A sua confisão religiosa, tal como ela própria a compreende, não passa de um modo de expiar o pecado que ela cometeu ao desposar Abelardo, fazendo ruir a sua glória. Afinal de contas, quanto mais dominados estavam os amantes pela paixão, dirá Abelardo, menos ele poderia se dedicar à filosofia e às suas aulas. Já se tornara um tormento ministrar aulas depois de noites insones, como se afigurava doloroso passar a noite à espera do prazer, desejando o estudo para o dia. Nesse ponto, novamente, tanto Abelardo e Heloísa estão de acordo quanto não faltam com a verdade. Nesse tempo em que os prazeres do belo sexo suplantaram a filosofia, tornando suas aulas uma rotina dolorosa e insipiente, tudo o que Abelardo produziu foi poesia. Não abandona as letras que, por primeiro, os aproximou, mas já não dispõe de forças para se dedicar a questões mais fundas, de tal sorte que havia se tornado um “mero repetidor de seu próprio pensamento”.

13 Dezembro, 2008

Freud e a Religião

Mesmo os que olharam com desconfiança para a psicanálise não deixaram de reconhecer na literatura de Freud a expressão de uma habilidade singular com a palavra. Seus usos conceituais são frequentemente claros -- embora o grandioso desenvolvimento deixe lacunas inegáveis -- ao mesmo tempo em que há um forte apelo retórico na articulação das suas idéias. Tudo isso faz dos textos freudianos fonte de enorme prazer. O mal-estar na Civilização é um bom exemplo. Embora não seja o cânone freudiano acerca da religião (que geralmente se identifca em O futuro de uma ilusão), ali se encontram algumas passagens entre precisas e engraçadas. Vou recortar alguns dos fragmentos que eu gosto a fim de estimular a leitura desse texto.

O primeiro diz respeito a uma análise econômica dos investimentos de energia envolvidos na religião. Freud diz no final da segunda parte do texto:
A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante - maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais. Existem, como dissemos, muitos caminhos que podem levar à felicidade passível de ser atingida pelos homens, mas nenhum que o faça com toda segurança. Mesmo a religião não consegue manter sua promessa. Se, finalmente, o crente se vê obrigado a falar dos "desígnios inescrutáveis" de Deus, está admitindo que tudo que lhe sobrou, como último consolo e fonte de prazer possíveis em seu sofrimento, foi uma submissão incondicional. E, se está preparado para isso, provavelmente poderia ter-se poupado o détour que efetuou.
Se o mundo é fonte inevitável de sofrimento e se não há "regra de ouro" na busca pela felicidade, tudo que a religião pode oferecer é uma submissão incondicional. Quem está disposto a se submeter incondicionalmente não precisa "efetuar o détour" religioso, basta que se conforme com o curso natural das coisas. Brilhante! O segundo fragmento comenta o mandamento "amarás o teu próximo como a ti mesmo":
Essa exigência, conhecida em todo o mundo, é, indubitavelmente, mais antiga que o cristianismo, que a apresenta como sua reivindicação mais gloriosa. No entanto, ela não é decerto excessivamente antiga; mesmo já em tempos históricos, ainda era estranha à humanidade. Se adotarmos uma atitude ingênua para com ela, como se a estivéssemos ouvindo pela primeira vez, não poderemos reprimir um sentimento de surpresa e perplexidade. Por que deveremos agir desse modo? Que bem isso nos trará? Acima de tudo, como conseguiremos agir desse modo? Como isso pode ser possível? Meu amor, para mim, é algo de valioso, que eu não devo jogar fora sem reflexão. A máxima me impõe deveres para cujo cumprimento devo estar preparado e disposto a efetuar sacrifícios. Se amo uma pessoa, ela tem de merecer meu amor de alguma maneira. Ela merecerá meu amor, se for de tal modo semelhante a mim, em aspectos importantes, que eu me possa amar nela; merecê-lo-á também, se for de tal modo mais perfeita do que eu, que nela eu possa amar meu ideal de meu próprio eu (self). Terei ainda de amá-la, se for o filho de meu amigo, já que o sofrimento que este sentiria se algum dano lhe ocorresse seria meu sofrimento também - eu teria de partilhá-lo. Mas, se essa pessoa for um estranho para mim e não conseguir atrair-me por um de seus próprios valores, ou por qualquer significação que já possa ter adquirido para a minha vida emocional, me será muito difícil amá-la. Na verdade, eu estaria errado agindo assim, pois meu amor é valorizado por todos os meus como um sinal de minha preferência por eles, e seria injusto para com eles, colocar um estranho no mesmo plano em que eles estão. Se, no entanto, devo amá-lo (com esse amor universal) meramente porque ele também é um habitante da Terra, assim como o são um inseto, uma minhoca ou uma serpente, receio então que só uma pequena quantidade de meu amor caberá à sua parte - e não, em hipótese alguma, tanto quanto, pelo julgamento de minha razão, tenho o direito de reter para mim. Qual é o sentido de um preceito enunciado com tanta solenidade, se seu cumprimento não pode ser recomendado como razoável? (...) Na verdade, se aquele imponente mandamento dissesse ‘Ama a teu próximo como este te ama’, eu não lhe faria objeções.
O texto é divertidíssimo. Embora os fragmentos sejam longos -- aqui eu apenas fiz recortes --, a argumentação é bem detalhado e examina até a exigência de se "amar os teus inimigos". Mas continuemos no mesmo rumo:
O mandamento ideal de amar ao próximo como a si mesmo, mandamento que é realmente justificado pelo fato de nada mais ir tão fortemente contra a natureza original do homem. A despeito de todos os esforços, esses empenhos da civilização até hoje não conseguiram muito. Espera-se impedir os excessos mais grosseiros da violência brutal por si mesma, supondo-se o direito de usar a violência contra os criminosos; no entanto, a lei não é capaz de deitar a mão sobre as manifestações mais cautelosas e refinadas da agressividade humana. Chega a hora em que cada um de nós tem de abandonar, como sendo ilusões, as esperanças que, na juventude, depositou em seus semelhantes, e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles. Ao mesmo tempo, seria injusto censurar a civilização por tentar eliminar da atividade humana a luta e a competição. Elas são indubitavelmente indispensáveis. Mas oposição não é necessariamente inimizade; simplesmente, ela é mal empregada e tornada uma ocasião para a inimizade.
Kant também compreende assim o papel da competição no desenvolvimento humano em sua Idéias sobre a história universal sob o ponto de vista cosmopolita. Aliás, a psicologia de grupo de Freud parece se articular inteiramente sobre essa tese. Ele continua mais adiante:
É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade. Em outra ocasião, examinei o fenômeno no qual são precisamente comunidades com territórios adjacentes, e mutuamente relacionadas também sob outros aspectos, que se empenham em rixas constantes, ridicularizando-se umas às outras, como os espanhóis e os portugueses por exemplo, os alemães do Norte e os alemães do Sul, os ingleses e os escoceses, e assim por diante.
Ele segue examinando aspectos estreitamente relacionados à psicologia de grupo durante as próximas passagens. Na oitava parte, sentencia:
O mandamento "Ama a teu próximo como a ti mesmo" constitui a defesa mais forte contra a agressividade humana e um excelente exemplo dos procedimentos não psicológicos do superego cultural. É impossível cumprir esse mandamento; uma inflação tão enorme de amor só pode rebaixar seu valor, sem se livrar da dificuldade. A civilização não presta atenção a tudo isso; ela meramente nos adverte que quanto mais difícil é obedecer ao preceito, mais meritório é proceder assim. Contudo, todo aquele que, na civilização atual, siga tal preceito, só se coloca em desvantagem frente à pessoa que despreza esse mesmo preceito. Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser, se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade! A ética ‘natural’, tal como é chamada, nada tem a oferecer aqui, exceto a satisfação narcísica de se poder pensar que se é melhor do que os outros.
É verdade que Freud tem uma crença quase cega na ciência, mas sua investida contra a religião não é por isso menos divertida e destruidora. Coloco a disposição de vocês, queridos amigos, o 21º volume das Obras Completas de Freud, que contém O futuro de uma ilusão e O mal-estar na civilização entre outros bons textos. É a mesma tradução que consta na edição da Imago, com os mesmos erros e passível de severas críticas de tradução. Mas aqui queremos apenas nos inteirar de algus tópicos do pensamento de Freud e pra isso podemos ignorar tais observações.

Resposta do Ombudsman da TV Cultura

O Ombudsman da TV Cultura vive em outro mundo -- foi a única explicação que encontrei. É verdade que ele deve ter recebido emails bem mal criados, considerando que o público de Nassif e Paulo Henrique Amorim foi informado da composição da banca. Parte dessa audiência, todos sabem, é composta por gente nada afeita a contradições, que se expõe com alguma truculência. Mas não seria preciso mais do que um ou dois emails para apontar o óbvio: as razões pelas quais tantos protestos vieram. Em sua resposta o jornalista preferiu uma análise bastante enfadonha do óbvio, destacando a postura dos comentários e os critérios bastante gerais para a escolha da banca. Sugeriu que deveríamos esperar o programa e observar o comportamento do entrevistado e dos entrevistadores.

Ora, contrariando os registros científicos alguém poderia aguardar a chegada de um furação do nível mais alto numa área de risco na crença de que ele não produziria os efeitos devastadores que eram esperados. Para as outras pessoas os padrões anteriormente observados são suficientes para moldar as práticas futuras na relação com esse fenômeno. Ernesto Rodrigues é ingênuo. Se ele tivesse considerado o porquê de tantos emails e não se conformado com a generalidade dos critérios elencados pelo verdadeiro responsável pelo teatro de segunda, Marcelo Bairão, teria se perguntado e constatado que a maioria dos entrevistadores se enquadra num perfil peculiar. Eles não têm motivos para formular perguntas que realmente interessem à opinião pública. Se é preciso ser democrático, tudo bem, que se mantenha todos ou parte deles, mas que outros jornalistas comprometidos com uma opinião contrária sejam chamados, Bob Fernandes, Nassif ou mesmo o próprio Paulo Henrique. Ninguém que tenha visto/lido a manifestação dos jornalistas convocados nos episódios recentes pode esperar outra coisa senão um grande espetáculo na segunda -- afirmação a que Ernesto inconsciente e ingenuamente (?) se opõe. Um canto em louvor do "Estado democrático de Direito" -- na feição anômala ilustrada pela pessoa de Gilmar Mendes. Só o Ombudsman da TV Cultura precisa ver para crer. Quando o programa acabar ele terá duas opções: lançar críticas a postura dos entrevistados ou imaginar que foi um entrevista limpa e justa. Nenhuma das duas opções interessa às pessoas que querem saber por que o presidente do STF vestiu a camisa do time de Daniel Dantas.

Algumas das perguntas que eu gostaria de lançar estão formuladas no post anterior -- Ernesto sentiu falta de sugestões de perguntas nos comentários. Elas são um bom parâmetro para avaliar a conivência dos entrevistadores. Mas sejamos maliciosos, não é que Gilmar se negue a respondê-las. Ele e os outros ministros se manifestaram em todas as ocasiões. O que interessa é que as perguntas se aprofundem de tal sorte que sob a fina verniz de princípios e de generalidades revelem-se os interesses que animaram a mobilização das leis em todo episódio. Ou seja, as perguntas mais importantes não podem ser previamente formuladas pois elas dependem das respostas dadas pelo entrevistado e só entrevistadores comprometidos com o desmanche do teatro de Gilmar Mendes seriam capazes de formulá-las.

Repito: assistiremos um grande teatro na segunda feira.

12 Dezembro, 2008

Bola levantada para Gilmar Mendes

Fico sabendo através do Animot que Gilmar Mendes será o entrevistado na segunda pela banca do Roda Viva. Entre os entrevistadores estão: Márcio Chaer, editor do site Consultor Jurídico; Reinaldo Azevedo, articulista da revista Veja e do blog Reinaldo Azevedo; Eliane Cantanhêde, colunista do jornal Folha de S. Paulo; e Carlos Marchi, repórter e analista de política do jornal O Estado de S. Paulo. Será um belo teatro! Uma empreitada em favor do Estado de Direito. Mas qual deles? O de Gilmar, claro, aquele que brada furiosamente contra a partidarização de funcionários públicos enquanto ele mesmo tem presença forte na política de Mato Grosso.

É uma bola levantada, Gilmar só precisa cortar. Qualquer pessoa sabe que o ministro não dá declarações à toa. Escolhe os melhores momentos e acima de tudo as melhores perguntas. Ele não aceitaria participar de um programa de entrevistas se não se sentisse seguro de que não seria constrangido com perguntas como:

1. Como o senhor pode exigir que os funcionários públicos não participem da vida partidária se sua figura é decisiva nas eleiçoes em Mato Grosso?
2. Que fato justificou que o STF pusesse de lado a súmula editada pela própria casa -- súmula 691 -- que impedia a supressão de instância no julgamento de habeas corpus?
3. O senhor considera que as gravações em vídeo e áudio não constituem "fatos"? Pois foi essa a base para concessão do habeas corpus de Daniel Dantas: a ausiência de fatos na fundamentação do pedido de prisão.
4. Um juiz -- como qualquer pessoa razoável -- não está obrigado a apresentar provas de suas acusações? Por que a "crise institucional" foi decretada sem que nenhum elemento material fosse trazido a público para fundamentá-la?
5. (Quase esqueci dessa pergunta) O que o senhor tem a dizer sobre as facilidades que Dantas disse encontrar no Supremo Tribunal Federal? E qual é a relação dessa afirmação com os dois habeas corpus deferidos no seu tribunal?

É lamentável que a TV Cultura tenha se alinhado às hostes de Daniel Dantas. A omissão é tão irresponsável quanto a atuação. Escreva para o Fale Conosco e deixe seu protesto contra esse teatro. Vamos cobrar que jornalistas notoriamente comprometidos com a apuração do caso sentem-se naquela bancada.

Atualização 1: Vamos esperar que o Ombudsman da TV Cultura se manifeste

Atualização 2: Roda Viva: Gilmar Mendes será entrevistado por seu assessor de imprensa, Márcio Chaer. Pode uma oisa dessas?
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Abelardo e Heloísa - Parte II

As razões por que Heloísa tenta com argumentos sutis promover a desistência de Abelardo, por certo, deixariam qualquer solteirona feminista de cabelo em pé. Diriam umas: “Traidora!” Outras: “Infame!”. Mas não é de nos espantar, nem a Abelardo, que essa jovem seja capaz de se apropriar por si mesma das letras que conduziram as mãos de seu mestre aos seus seios. Mas por que o matrimônio se afiguraria tão repugnante assim, além do fato de ser praticamente impossível reunir as condições necessárias para um bom casamento? São Paulo responderá a essa questão dizendo que casado o homem serviria a dois senhores, a Deus e à sua esposa. Pelo casamento, marido e mulher passariam a pertencer-se mutuamente, de sorte que as obrigações matrimoniais se opõem a incessante oração que deve guardar um bom cristão. O marido deixa de ter poder sobre o próprio corpo, como a mulher sobre o seu e já que sexo e oração se opõem a rotina da oração do marido seria ditada pelos desejos libidinosos da mulher, a da mulher pelos do marido. A essência do estado matrimonial acarretaria, no esencial, a perda da própria liberdade. É justamente nesse ponto que São Jerônimo mostra concordarem Sêneca e o Apóstolo. Afinal, dirá o Sêneca de São Jerônimo que se o homem deve amar algo, que ame a razão, já que assim não seria importunado pelo sofrimento, seja de amar a mulher do próximo seja de amar a sua própria. Abelardo, tendo compulsado a obra de São Jerônimo, São Paulo, Sêneca e Teofrasto, resume a argumentação em uma forma lapidar e um tanto mais radical. Não há, aos seus olhos, servidão mais pesada e estreita do que a do par conjugal. Afinal, qual servidão seria mais insuportável para um homem do que aquela por que ele deve deixar de ser senhor de seu corpo? Decerto, não há nada de mais pesado para suportar debaixo do Sol do que ser cotidianamente vítima das preocupações causadas por uma mulher e filhos. Uma vez que é impossível servir a dois senhores, o homem não deve se casar. O vínculo marital com uma mulher o impediria de se dedicar à filosofia – dirá Abelardo, retratando a argumentação de sua amada. De um lado, os livros. De outro, a mulher. De um lado, o prazer. De outro, a sua completa negação. E sob qualquer perspectiva o casamento é mais um fardo a ser suportado – um remédio aos incontinentes – do que um prazer. O matrimônio lança nas mãos do marido ou a tarefa de manter aquilo que o mundo inteiro cobiça ou o aborrecimento de conservar algo que ninguém deseja. Por conta disso, dirá Teofrasto, que o filósofo, em vez de contrair matrimônio, que tome um bom criado.

Heloísa, porém, contabiliza em seu arsenal contra o projeto de Abelardo um argumento ainda mais sutil extraído de Santo Agostinho, do qual somos informados pelo próprio Abelardo. Depois de Pitágoras, conta-nos o autor de Cidade de Deus (Livro VIII), acostumou-se a chamar de filósofos aqueles que, aparentemente, ofereciam uma vida exemplar aos demais. A condição de amante da sabedoria resumiria a profissão do filósofo, de sorte que deveria devotar sua vida ao seu cultivo. Por essa razão Cícero (outro célebre exemplo para Abelardo) recusou a oferta de casar-se com a irmã de Hirtius. Não poderia ocupar-se ao mesmo tempo de uma mulher e da filosofia. Por essa exigência moral, mas interna à trama conceitual da obra, vida e obra se entremesclam. E Heloísa compreendeu que, já que pela concupiscência Abelardo havia obstruído o caminho de altar dos santos filósofos que, por via da abjuração do casamento pudesse ainda ascender ao oratório dos filósofos santos-pagãos. Não poderia então se perdoar por ter se permitido se casar com Abelardo, senão pelo seu próprio amor que nada desejava além de si mesmo – eis a natureza das intenções que ela pretende esclarecer. Quer dizer, não há fruto do verdadeiro amor que não esteja no próprio amor. Ela deve expiar o pecado de ter servido como artifício do demônio, pois a mulher é, sem exceção, a causa da perdição do homem e não haveria perdição mais grave para Abelardo do que casar-se. Portanto, o demônio arruninou pela continência o que não fora capaz de arruinar pela fornicação. Por ironia ou não, Heloísa faz ver a natureza de suas verdadeiras intenções, para mostrar o quanto estaria subordinada ao ideal de amor que aprendeu com o mestre Abelardo. No entanto, Abelardo concede provas de que ele foi quem menos viveu o que a ensinou, mesmo tendo sido demasiado discreto em relação às suas intenções. Afinal, ao deixar claro que pelo casamento pretendia garantir a fornicação, Abelardo mostra compreender Heloísa como um meio de satisfação de suas volúpias. Ou seja, queria Heloísa, não o casamento; desejava a satisfação de suas vontades, não a Heloísa. Ela sabe disso mais do que ninguém e, no entanto, sustenta o que entende ser o ponto axial de seu amor, o fato de jamais ter procurado nele algo além dele. É por isso que afirmará ser preferível ser a prostituta de Abelardo a ser a sua esposa, amante ou concubina: “o nome de esposa parece mais sagrado e mais forte, porém sempre preferi o de amante, ou, se me perdoares por dizê-lo, o de concubina e de prostituta.” Por um lado, o casamento faria com que tendo nascido para ser livre, Abelardo se aprisionaria; tendo nascido para a humanidade, passaria a pertencer a uma única mulher. Por isso Heloísa indagará, o que pensarão de mim os filósofos e a Igreja? Por outro, tudo é narrado pelos dois amantes como se o casamento consistisse em uma operação pela qual mulher e homem, a partir da negação do indivíduo, descessem às espécies de fêmea e macho.

11 Dezembro, 2008

Abelardo e Heloísa - Parte I

Muitos são contados dentre os que duvidam da autenticidade do registro epistolar de Heloísa e Abelardo, mas talvez ninguém suspeite da beleza do romance que nele se materializa. Por isso E. Gilson, o nosso melhor exemplo dessa convicção, pode tomar por princípio o que diz ter ouvido de um monge beneditino na Bibliothèque Nationale: é impossível que algo tão belo assim não seja verdadeiro. Com isso, Gilson pretende fazer ver a irrelevância da discussão em torno da autenticidade da correspondência não meramente, como querem alguns, mostrando que a questão seria, em vez disso, relativa à disputa de duas perspectivas exegéticas opostas. Uma laica, burguesa, estética e erótica; outra eclesiástica, monástica, moral e ascética. Mais do que isso, Gilson prefere sondar o pano de fundo ideológico que perfaria a relação entre Abelardo e Heloísa, a partir do qual é possível compreender o século XII. Ou melhor, a ele interessa antes de tudo a relação entre Heloísa e Abelardo.

Inteiramente narrada nas poucas páginas de Historia Calamitatum, a biografia de Abelardo seria imprescindível a essa empreitada, mesmo porque a narrativa de sua vida se confunde com a história de seu amor por Heloísa. Vida e amor se confundem, ao menos nesse caso, no sentido de que a condição existencial não pode se desapegar do enlace amoroso que parece reinventá-la a cada novo episódio. Tudo se passa como se fosse possível reconhecer em cada evento em separado o destino que deveria antes ser a soma dos eventos todos. E não é apenas por terem sido arrastados por uma violenta paixão ou por terem se entregado completamente ao amor, mas sim por Heloísa resignar-se a ser – a fazer de si – a personagem grandiosa de uma bela história, cuja beleza tem como causa muito mais ela do que o próprio Abelardo. Mais do que isso, ela se compreende dessa maneira. E se tão belo assim, é que, nesse caso a relação amorosa reúne desde os artifícios do mais frio cálculo a serviço de uma volúpia sedenta por satisfazer-se até a rendição completa de quem não hesita em se entregar. De um lado, ele, obstinado a alcançar o destino que a sua inteligência lhe conferiu. Porém, quanto mais entregue às volúpias mais distante se via em relação aos filósofos e teólogos que havia combatido com sua dialética ou tomado como ideal; se deles se aproximava pela glória conquistada, se apartava pela imundice da vida à qual a paixão o tinha arrastado. De outro, ela, que jamais hesitara em se oferecer a Abelardo, mas não que visse nisso qualquer vantagem além do próprio amor. Por isso disposta a fazer-se amante dele, mais que isso, concubina e prostituta (meretrix). Enquanto ele não mede esforços para não ser destronado de sua glória pela imoralidade que cerca a sua paixão, ela aceita descer a condição de prostituta, depois de ter sido esposa, para lhe devolver a glória, o destino dele.

Livre para amá-lo, não são por certo os crimes cometidos contra a moral que Heloísa deve expiar, mas sim o único crime do qual ela é inocente segundo a lógica de seu próprio amor. O crime de ter arruinado a vida de Abelardo com um casamento que ele próprio fizera questão que acontecesse contra a clara recusa dela. Talvez seja a consciência em relação às eventuais conseqüências de seu amor ou ao modo de deixá-lo encarnar-se em sua vida que singulariza Heloísa. E ela não poupará esforços para dissuadir Abelardo da idéia de um enlace matrimonial, chegando mesmo ao ponto de desenhar uma cena na qual ele se veria rodeado por crianças, daquelas que recorrem ao barulho para que lhes sejam concedidos os mimos do pai, enquanto pensa questões filosóficas as mais fundas. Quem que dedicado às meditações sagradas ou filosóficas poderia suportar a litania das crianças? Que relação poderia haver entre escrivaninhas e berços, o silêncio dos estudos e o barulho das criadas, a mesma que a existente entre os livros e as pedras? Não se trata apenas de recusar o casamento em nome do quanto este afundaria a glória de Abelardo. Todas essas indagações formuladas por Heloísa são alimentadas pela convicção de que Abelardo a desposaria por mera sensualidade e apresentam razões que o fariam concluir que todas as vantagens se encontravam do lado da fornicação, não do casamento. E mais, todas elas afirmam, a um só golpe, as suas intenções. Por ele, ela estaria disposta a fazer tudo de si: “se nos separarmos por um tempo, as alegrias que experimentaremos ao nos reencontrarmos serão ainda mais agradáveis quando mais raras forem.” (Historia Calamitatum, cap. VII). Mas então por que Heloísa, tendo apelado a tais argumentos, a fim de salvá-lo da infâmia de uma tal união, por fim cede? Devemos, antes de tudo, nos perguntar pela razão principal que a faz, por um lado, declinar do matrimônio e confessar-se perdida de amores por outro lado.

A paixão de Abelardo se situa nas antípodas do amor de Heloísa por não se submeter tão vigorosamente a um ideal de amor no qual ele mesmo tratou de iniciá-la. Porém, a consciência a respeito das intenções de Abelardo não nos podem ajudar a entender o porquê, afinal, ela considera o seu matrimônio secreto como a sua queda mais grave. Tanto que pouco importa o quanto a sua relação com Abelardo se traduza em completa subversão moral. Tudo então deve ser lido do ponto de vista do ideal de amor que, ao afastar qualquer incerteza sobre a natureza verdadeira de suas intenções, Heloísa arroga para si. Tal ideal de amor é aquele mesmo festejado por Abelardo em Historia Calamitatum. Aos olhos de Heloísa, a dignidade de Abelardo depende do quanto a natureza da relação dos dois se subordina ao ideal de amor que ela assumiu para si. Os dois amantes, assim, partilham, mais do que uma queda comum, um ideal de filósofo. A queda que os faz “rolar nessa lama” de volúpias e consagrar seus corpos a torpezas as mais vis tira de Abelardo a sua dignidade, pois o que constitui a maestria de um filósofo é menos a sua sabedoria do que a pureza de sua vida. E Abelardo não deixa de mobilizar o exemplo de pagãos de vida exemplar, fazendo convergir a ética de um Sêneca com os arroubos morais de São Paulo. A pudícicia com que viviam certos pagãos deveria envergonhar muitos dos cristãos. Por demais teórico, o ideal de amor elaborado por Abelardo sob a inspiração de São Jerônimo estabelece uma tensão bem resolvida somente pelo modo como Heloísa é capaz de lhe conferir carnes e sangue. A dificuldade então é a de articular o que deve ser com o que é.

E Heloísa não poupará os recursos de uma lógica inflexível que aprendeu com o próprio Abelardo para convencê-lo do quão desastroso seria um casamento inclusive para o amor dos amantes. O ponto axial de seu discurso consiste em mobilizar contra Abelardo argumentos dele próprio contra o matrimônio. Em Historia Calamitatum, Abelardo não economiza a força de sua retórica para mostrar o quanto a idéia de um casamento deveria repugnar o verdadeiro filósofo. O sábio deve se proibir toda espécie de prazeres, para se deleitar com os prazeres da filosofia; o clérigo deve abjurar os prazeres mundanos em nome de Deus. Não é possível a Abelardo dissociar a grandeza filosófica da continência dos costumes, por isso lhe é tão fácil associar Sêneca ou Teofrasto aos Pais da Igreja. Aliás, a associação não é ele quem o faz, mas São Jerônimo, embora ele não se poupe do trabalho de fazer por si próprio suas ilações. E, nesse sentido, o que lhe interessa na argumentação de São Jerônimo – claramente de base paulina – é o quanto por meio dela se pode sublinhar como a continência moral de pagãos poderia figurar exemplar para cristãos. Mas não se trata de repugnar unicamente o matrimônio como oposto à dedicação filosófica, mas sim tudo o que caia na categoria de ninharias mundanas. É assim que a busca por riquezas é posta ao lado do vinculo com uma mulher. Quer dizer, se queres filosofar, então permanece livre de tudo o que não seja filosofia, dirá o Sêneca lido por Abelardo e por São Jerônimo; se queres votar tua vida a Cristo, dirá o São Paulo lido tanto por Abelardo e por São Jerônimo quanto por qualquer um, então permanece livre de tudo que possa interromper a tua oração. Heloísa, mulher incomum, tomou para si os argumentos de São Jerônimo, o que nos faz crer na fidelidade da narrativa de Abelardo a respeito da oposição dela ao seu projeto de casamento. Porém, a razão principal dela não nos parece ser nem um tanto teórica.

Aviso aos navegantes

Dei carta branca a meu amigo Wagner Teles para escrever por aqui tanto quanto permitirem seus proverbiais acessos de enrolação e procrastinação. A condição de pesquisador ligado a Wittgenstein -- e a Igreja Triangular do Sétimo Aforismo, da qual é sacerdote -- dissimula seu verdadeiro dom e ofício: transmitir pelo mundo a prosa do padre Antônio Vieira.

Pelos cantos do blog já se escutou seus resmungos por conta da lentidão com que revisei seu texto sobre Abelardo e Heloísa. Pesquisador produtivo, quase do naipe de Olavo de Carvalho, o sujeito espirra por capítulos, daí que uma análise do livro transformou-se numa investigação elaborada e, sobretudo, longa. Por isso mesmo, conta a lenda, ela será divididade em partes (cinco partes, pelo que consta).

Fiquem então atentos, meus amigos, pois agora os textos podem ser de dois autores. Se fizer sentido, sou eu o autor -- caso contrário, é Wagner.

Bem vindo caro coração mole!

10 Dezembro, 2008

Ponto final

Queridos amigos, peço desculpas, esse será o último comentário sobre o "caso Olavo". Desde que escrevi o texto sobre Por que Olavo de Carvalho é uma porcaria! tenho recebido inúmeros comentários dos seus discípulos. Publicáveis apenas os que exercitam a poderosíssima arma olaviana: a correção ortográfica (um texto sem erros, para eles, é um texto inacessível). Outros, porém, vão mais longe e veiculam um conteúdo que eu quero dividir com vocês. Parte da diversão que inspira debater com alguém que não aceita a possibilidade de estar errado -- sem, contudo, oferecer um bom argumento para isso -- vai por água abaixo quando a coisa avança certos limites. É entristecedor pensar que um ser humano escreve coisas semelhantes com sinceridade, que tanto ódio pode ser mobilizado num terreno em que bastariam argumentos. Reuni os três comentários de um sujeito que se denomina "Como leio essa besteira".
Primeiro post
Meu caro, eu vivo num mundo acadêmico e conheço bastantes figuras como você. Não sou homem das letras, mas sei identificar um idiota quanto vejo um. Não é pq você leu alguns livros que isto lhe faz a pessoa mais esperta e sábia do mundo.. acorda meu camarada. todos que se orgulharam de seguir a ciencia deram com os burros n'agua. os maiores cientistas nao foram compreendidos em seu tempo. a maioria foi reconhecida apenas anos depois de morrerem.. eu conheco varios academicos com muitos livros e artigos publicados e que acham que possuem o rei na barriga.. sao uns idiotas invejosos como vc.. olavo enxerga um mundo que você nao v ainda.. vc olha apenas para seu umbigo. bobo sou eu de perder meu tempo lendo suas palavras imbecis.. falsa sabedoria.. entender o passado é facil.. dificil eh se posicionar no presente.. nao condene pessoas que q nao concordam com vc... se elas estiverem certas.. vc vera como eh uma formiguinha q acha q conhece todo o mundo...

Segundo post, dois comentários reunidos
meu caro, estou errado de pensar assim e sei disso. mas eu desejava que sua mae tivesse te abortado, msm na ilegalidade, assim nao precisariamos ter acesso a esses textos idiotas.. voce estudou um pouco e se acha o "intelectual"... as universidades estao lotadas de pessoas assim... so fala besteira... qual sua revolta? seus pais lhe fizeram algo q nao gostou? foi decepcao com mulher? voce tem jeito de ser gay tb.. se nao for, vira.. ae vc vai ser um cara completo.. ideias de esquerda, gay, falso intelectual.. nao duvidaria de usar drogas tb pra fundir esses neuronios de merda... tb nao assustaria se vc dissesse que eh espirita ou budista ou ateu... tudo isso eh revolta contra Deus... Ele nao tem culpa das suas escolhas erradas... acorda pra vida e para de bla-bla-bla... enqnto vc fica nessas palavras vazias.. mta coisa seria esta acontecendo. eu nao sou senhor da verdade.. mas uma coisa tenho conviccao... um dia vc vera a verdade e se arrependera de dizer tantas bobagens.. ate la.. continue com sua punheta mental.. dizer asneiras faz vc se achar superior de alguma forma... nao consegui passar do segundo paragrafo.. nao vou perder mais meu tempo com vc.. nao compensa.. continue masturbando seu cerebro.. seu gozo eh temporario... prometo nao voltar mais aqui.. eh mto lixo pra kbca de qlq um.. ridiculo.. cai na real.. leia mais jornais. tente interpretar as coisas no presente.. nao apenas no passado.. isso se tiver capacidade pra tanto! usar o texto de outros ou analisar o passado eh mto facil! qlq idiota faz isso!
É preciso muito ódio para imaginar um seguidor de Olavo cogitando o aborto. Entre outras frases como "eu não sou senhor da verdade" e a terrível ameaça "prometo nao voltar mais aqui", há coisas realmente assustadoras. Trata-se do preconceito mobilizado como arma. Aí está representado o pensamento que toma o diferente como o errado, e o errado como algo a ser erradicado. É um discurso pleno de preconceito, repito. O que assusta não é que as pessoas tenham preconceitos, mas que elas pensem poder colocá-los na ordem dos argumentos e assim sustentar qualquer posição, como se estivessem assim oferecendo uma base legítima para o pensamento. Desta forma o Estado Nazista foi forjado.

Eis o público de Olavo. Não são profissionais de filosofia e nem mesmo pessoas empenhadas no estudo regular de filosofia e política -- ainda que não profissionalmente --, são indivíduos que adotam o discurso do "filósofo" apenas pelo fato de que ele expressa uma opinião política (e frequentemente religiosa) semelhante a sua -- e condenam todo o resto ao mero devaneio. Que ele seja "filósofo" é apenas questão estratégica para a afirmação de um discurso político que se pretende erguer sobre estrutura e com a autoridade da filosofia. É curioso pensar que mesmo sem o domínio de certos conceitos rudimentares indispensáveis mesmo aos estudantes de graduação alguém possa discernir, compreender e decidir acerca da validade de argumentos filosóficos. É o que está em causa, por exemplo, na defesa lançada pelos devotos de Olavo, analisada no post anterior. Desconsiderando problemas com os quais qualquer pessoa minimamente familiarizada com filosofia se sentiria compelida a lidar -- problemas postos desde o século XVIII, por Hume -- eles promovem uma visão fortemente anti-teórica, apelando para o senso comum como se assim tudo se resolvesse. E acima de tudo pretendem a condição de juízes numa discussão ambientada em solo conceitual estritamente filosófico. Querem, mesmo de fora, apontar quem está "certo" ou "errado".


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Mas voltemos àquele discurso preconceituoso, cheio de ranço e mágoa -- ele não é exclusividade de discípulos condoídos, o próprio Olavo se serve dessa arma. Visitando meus leitor de feed encontrei um post hilário do Ao Mirante Nelson, intitulado Olavo de Carvalho afirma que os Engenheiros não nasceram no Hawaii. Encontrei ali, como uma das referências, um post do Imprensa Marrom chamado Olavo de Carvalho e a "discussão de alto nível". Nosso mestre mostra grande afinidade com seu discípulo, "Como leio essa besteira". Num gesto de sensibilidade (?) que quase engana minha esperança ingênua, o texto original foi apagado do site Mídia sem máscaras. Para nosso deleite o Google Cache salvou o conteúdo integralmente -- que pode ser lido aqui. Recorto algumas passagens da resposta de Olavo a um jornalista que o acusou duramente de racismo e cobrou o diploma com base no qual ele estaria autorizado a lecionar filosofia.
A semelhança universalmente reconhecida entre o jornalista Sebastião Nery e uma nádega humana não provém, como poderiam insinuar os maliciosos, da avançada calvície. A verdadeira razão do fenômeno é muito mais profunda: é que, escrevendo ou falando, ele é o único ser vivente que se expressa por via anal. (...) Há pensamentos que, por sua obscuridade animal, ficam aquém da lógica humana e não podem ser objeto de refutação, só de análise neuropsicológica, ou mais propriamente, como diria o dr. Jacinto Leite Aquino Rego, psicoproctológica.
Não acreditam? Acessem o endereço e vejam vocês mesmo -- há mais coisas. Tudo isso depois de um conveniente: "Explicar cada um desses itens seria demasiado trabalhoso". Claro, Olavo, claro. Nós o dispensamos de qualquer explicação. Afinal, em que país sério do mundo alguém aceitaria o absurdo de se exigir diploma para lecionar em Universidades? Só no Brasil, essa terra de ninguém.

Por fim, repito o que já havia dito em Estratégias de Sedução, sobre a tática de que se valem os seguidores de Olavo e ele próprio:
Prefiro explicá-las em referência ao que há de comum com as de Mainardi, como industrioso trabalho para solapar a moldura do pensamento nacional cujo único critério público para descrédito é o fato que não lhes prestigiar o "talento" (...) Fazer do desapreço e da falta de talento resultante da aplicação dos valores que eles combatem o indicador do erro e da precariedade é valer-se de um expediente semelhante ao dos cristãos que, perseguidos, preferiram hipostasiar um além mundo que justificasse o sem sentido do seu sofrimento a combater as suas causas materiais. É uma estratégia que se mostra tão frágil quanto conveniente. No entanto, não se pode negar, é bastante sedutora.
Essa é a inversão que fundamenta, para os olavianos, a admissão do pensamento de seu mestre -- contra toda a crítica. É a idéia de que seu isolamento é sintoma inconteste de sua genialidade. Por isso em todo texto que dirige críticas a ele lê-se comentários tais como os seguintes:
Oavo de Carvalho é criticado porque é um homem que fala o que muitos não gostam de ouvir. A grande massa de jornalistas brasileiros segue uma cartilha, e acha que qualquer afastamento dessa cartilha é trash. VIVA OLAVO DE CARVALHO!!

Outra versão, mais sofisticada, embora não menos espúria -- (...) Ok, vamos ser mais direto. O brasileiro não aceita crítica, absolutamente. Os consagrados intelectuais e as frases de efeito - jargões - do politicamente correto fazem da revolução de 68 um marco eterno na alma da intelectualidade tupiniquim. (...) Apenas ouvimos, com um sorriso idiota, pseudo intelectuais falando a uma multidão de paspalhos. Mas a lágrima é verdadeira (bem disse Renato Russo) rsrsrsrs!
Convenhamos, num país em que Marilena Chauí é filósofa, Paulo Coelho é escritor e Maria Bethânia é cantora, o que podemos esperar? Ah sim... não precisamos dessa bobagem da cultura que o Espírito Humano desenvolveu durante 4.000 (basicamente) anos de história - lembram-se de Hegel?
Pobre Hegel -- sempre chamado a endossar carteiradas. A propósito: ouvimos? Quem, cara pálida?

Perdoem a chateação recente, meus caros.

Atualização: Mais um exemplar da elegância de Olavão, a transcrição de seu programa. Debate em alto nível!

08 Dezembro, 2008

Os devotos de Olavo

Pedro não é o único a ter devotos. Olavo faz escola! Seus seguidores reproduzem com fidelidade a cartilha do mestre. Vasculharam todos os textos envolvidos na querela -- e mesmo fora dela -- até encontrar erros de escrita em que pudesse sem agarrar. Qualquer pessoa que já tenha lido Olavo discutir sabe que, junto com os insultos e o ad hominem, essa é uma das suas táticas prediletas. Quando eles então partem para o enfrentamento do texto (ou algo pelo menos parecido com isso), fica claro por que abraçam com tanto apego a ortografia. Sem ter muito o que falar, eles transformam uma discussão conceitual dirigida a um público bem particular -- não àqueles que nunca leram determinadas obras -- num debate ortográfico no qual o domínio conceitual antes exigido para compreensão passa a ser trivial. Tudo isso fica patente no modo como eles lêem o texto, um deles pergunta: "Alguém por acaso leu Voegelin, Hegel, ou qualquer um dos autores que Olavo cita?" E logo em seguida cita uma passagem do meu texto Considerações sobre o aborto. Ele diz, "o cara mal aprendeu a pontuar, e quer chamar Olavo de 'porcaria'", é verdade, conclusão brilhante. Como pode alguém que não sabe pontuar reconhecer uma porcaria, é logicamente interditado. Em seguida ele diz, "Mais uma vítima da academia atual, que lê Foucault demais e latim de menos". Agora eu me pergunto, o que Foucault está fazendo aí? Alguém capaz de invocar Foucault ou o aprendizado de latim em meio a uma descrição gramatical do conceito de vida pode enganar outros sobre o fato de nunca ter lido Foucault? Eu pergunto, quem nunca leu Foucault pode, por acaso, ter lido Hegel? Melhor, ter compreendido Hegel? É um belo teatro armado na caixa de comentários de Pedro, mas nem ali a farsa passa despercebida. Lá mesmo Dino comenta:
Trata-se do conceito de vida e de quando e de que maneira ela pode ser apercebida como tal. Diga-se de passagem qualquer um pode ser contrario as colocações do Leonardo, só não pode desviar o debate para outro nível e assunto, ou seja até pode lutar, mas não é empreitada para alguém com uma bacia velha e um pinico na cabeça…
Fico contente de ser entendido, não quero outra coisa. Se houver discordância, tanto melhor. Mas não posso dizer que os seguidores de Olavão me entenderam. Pois se o próprio Olavo nunca manteve em pé seus estudos clássicos, suas leituras da filosofia moderna então são completas nulidades -- razão pela qual ele passa a amaldiçoá-la (quem não sabe rezar, xinga Deus). Mas o show de horrores não pára, outro decreta: "E a culpa, para variar, é do Subjetivismo Epistemológico". Santo Deus, de onde o rapaz tirou isso? Ele viu mesmo uma epistemologia no meu texto sobre o aborto? Onde? E mais, uma "Epistemologia Subjetiva", o que isso quer dizer exatamente? Vai saber o que se passa na cabeça dessa gente.

Sentindo-se animado, um deles resolveu escrever em seu blog, comentando meu texto sobre o aborto (a essa altura, as razões que apresentei no texto contra Olavo já foram esquecidas, quer por eles, quer pelo próprio Olavo). Depois de fazer juízo sobre minha capacidade pra escrever, ele recorta meu texto destacando passagens, como se eu as tivesse escondido. Confessa então: "Entenderam? Nem eu". Mas insiste, contra a natureza avara que lhe deu tão poucos recursos, ele insiste em tentar entender até que por fim anuncia:
Agora entenderam? Nosso amigo é um relativista de marca maior.
Eu não pude conter o riso. Meu texto além de envolver uma epistemologia ainda é relativista. Quem diria! Mas sabe de quem é a culpa disso? De Olavo. É ele quem interdita a seus seguidores o acesso aos textos de filósofos como o professor Giannotti, que num tapa dissolveria o mal entendido:
Note-se como a noção clássica de fundamento, por conseguinte de racionalidade, é subvertida. Os comentadores costumam ressaltar que, segundo Wittgenstein, a pergunta pelo fundamento (Grund) na sua regressão encontra um obstáculo intransponível, a dura rocha onde a pá, escavando, entorta. E daí se embriagam numa festa relativista e culturalista, celebrando a multiplicidade e incomensurabilidade das formas de vida.” (Arthur GIANNOTTI, Apresentação do Mundo)
Mas eu não espero que eles entendam. Há conceitos aí que demandam uma compreensão nada rasteira de filosofia (bem diversa daquela que só seleciona palavras pra soltá-las em caixa de comentários). Basta, no entanto, notar como já havia restrições à leitura que enxerga na multiplicidade das formas de vida um equivalente relativista. Se os fundamentos podem ser alterados no curso das nossas práticas linguísticas, isso não significa que as necessidades internas à linguagem sejam flexibilizadas ou relativizadas, apenas que não há nenhum fundamento unívoco e absoluto a emprestar sentido aos usos conceituais. Wittgenstein torna isso bem claro quando toma as operações matemáticas, tentando dissolver a necessidade de se postular entidades (Achei na Analytica um texto intitulado: Notas críticas sobre o realismo matemático, à moda de Wittgenstein, deve ser de alguma ajuda). Mas essa é uma outra questão, que envolve muita leitura. Nós não queremos fundir os miolos dos rapazes nem tampouco arranjar um trampolim para que eles partam em saltos ainda maiores em direção a um abismo de bobagens. Vamos nos deter no comentário do meu texto.
Para ele, a "vida" é apenas uma "palavra", um conceito meramente cultural e relativo, que varia com a significação que queiramos lhe dar. Assim, aparentemente, um feto pode ser algo "vivo" ou não de acordo com a ideologia ou cultura de cada um, ou seja, de acordo com o conceito de "vida" que cada um de nós prefira. Para alguns, a vida iniciará após a fecundação; para outros, após o parto; para outros ainda, quando o garoto entrar na faculdade...

Ora, caros leitores. Ora, ora! Qualquer cadela de rua grávida, mesmo que não tenha estudado filosofia, sabe perfeitamente bem que seu feto é um ser vivo. Não há nenhuma questão religiosa, cultural ou semântica ali. Eu poderia distinguir entre "vida intra-uterina" e "vida extra-uterina", ou mesmo discutir os aspectos teológicos e filosóficos da questão, mas do ponto de vista biológico não há dúvida alguma que um feto está "vivo" (caso contrário, estaria "morto".)
Há muitos equívocos aí, mas eu não quero me alongar, até porque sei que não serei entendido por falta de vontade e, sobretudo, de capacidade. Ele nos diz que do ponto de vista biológico não há dúvida de que o feto está vivo. O "ponto de vista biológico" é um ponto de vista teórico, portanto, relativo ao contexto e ao sistema teórico vigente em determinado período da história. O modo como os gregos tratavam a biologia, seu próprio corpo, suas práticas médicas, as purgações e a dietética que Foucault -- vejam só quem apareceu aqui -- analisa tão bem em Uso dos prazeres é orientado por um "ponto de vista biológico" inteiramente diverso. Sem nunca ter lido um livro sequer de um neopositivista, o seguidor de Olavo defende inconscientemente um positivismo ingenuo. Ele pensa que a experiência é pura, destituída de qualquer arcabouço conceitual, e que portanto pode servir de parâmetro irrefutável para dirimir nossas dúvidas ou orientar nossas certezas. Na verdade, não é que ele pense ele assim, não é que ele organize, à maneira positivista, as coisas de sorte que elas se dirijam à experiência, prova disso é que ele mobiliza o conceito de "biológico" na mesma sentença em que faz referência à experiência, a experiência da vida do feto. O que está envolvido aí é apenas uma confusão, a falta de clareza no uso e na distinção de enunciados teóricos e enunciados observacionais -- o que nos leva de volta a questão da demarcação de Popper, que mencionei no meu texto contra Olavo.

Daí em diante é uma festa de asneiras. Consequências são extraídas na leitura relativista que ele imputa ao meu texto, de sorte que ele pensa que a decisão acerca do conceito de vida é algo meramente individual. Que a vida é um conceito relativo numa sentido estritamente relativista. O rapaz não entende que o conceito de vida é uma norma de organização da experiência que pode ser orientada por contextos teóricos ou mesmo teológicos -- caso a visão religiosa prevaleça. Que cada uma dessas visões produz modos de organização diferentes -- mas não errados na relação de um com o outro. Cada uma delas adota um princípio diferente de organização. Nenhum experiência, como quer o pobre coitado, é anterior à adoção de princípios de organização. É o princípio, a norma, que garante a objetividade dos usos conceituais, quer na ciência, quer na religião, e assim enforma o mundo. Na ciência esses princípios variam conforme o desenvolvimento científico, por isso o "ponto de vista biológico" dos gregos é tão diversos do nosso. Na religião, eles são relativamente absolutos, pois se fundam em dogmas.

Num outro texto sobre as células tronco eu fabrico uma imagem ilustrativa:
Imagine um sujeito egresso da periferia de Chorrochó do Barro Dentro, analfabeto e obtuso, agora imagine-o diagnosticando uma doença pulmonar qualquer através de uma chapa de raio X, imagine-o descrevendo as aspectos que o levaram ao diagnóstico. Impossível! Quem nunca teve acesso às normas teóricas não sabe o que procurar numa chapa de raio X, mal vê, como eu e todos os que não dominam o saber médico, a forma humana externa com a qual estamos familiarizados. Quem crê que um geneticista pode nos mostrar o que é a vida, crê que um sujeito obtuso e iletrado pode ler um chapa de raio X sem dominar as técnicas médicas, crê que a experiência nos dá as formas elementares do conhecimento, sem intermediários.
É essa suposição que está implicada na leitura do seguidor de Olavo. É uma perspectiva fortemente anti-teórica, porque empírica, baseada no que ele vê e pensa poder dizer e não no modo como a ciência se articula e torna possíveis os enunciados científicos. Basta!, chega de pérolas aos porcos. Escrevi esse texto porque acho fascinante a problemática que envolve uma "psicologia da observação" e as fronteiras traçadas pelo pensamento de que os enunciados observacionais são puros e que, portanto, podem refutar ou confirmar hipóteses científicas. Por isso mesmo eu planejava escrever um texto intitulado: "Por que a ciência não avança por falsificação", abordando as saídas que Popper, num leitura de Lakatos, propõe para o problema da psicologia da observação. Escreverei logo que eu me desfaça de algumas obrigações.

Ao final do seu comentário o rapaz ainda apela mais uma vez para a arma olaviana, sentencia que não sou estudante de Letras e de Biologia porque acentuei erradamente a palavra "pupila/púpila" (quero crer que ele não fez objeção ao uso do termo "constrição", do contrário, nem mesmo entendeu o fragmento que recortou). Constatação brilhante, a altura da interpretação que ele promove ao longo do texto. Afinal, todos sabem estudantes de Letras e de Biologia não se equivocam na grafia das palavras. Eu mereço!

PS. Vou rezar para que esse texto não contenha erros, embora isso seja improvável, do contrário todo meu esforço de argumentação irá por terra.

07 Dezembro, 2008

Do seguidor devoto para o mestre Olavo

O "filósofo" Olavo de Carvalho concedeu um pouco de seu tempo a este humilde espaço. Em Dória Vigaristinha e seu devoto seguidor fui posto na condição de seguidor de Pedro Doria. A admiração confessa que tenho pelo trabalho de Pedro Doria e pelas suas opiniões não deixaria espaço senão para a lisonja, caso fossem verdadeiras as razões trazidas para sustentar essa posição. Infelizmente não coube a Pedro o gesto inaugural que animou o movimento para desmascarar a "lógica primária" que contamina os textos do mestre Olavo.

Primeiro, os misteres que convêm a um diálogo com Olavo, isto é, os argumentos ad hominem. É de se estranhar que um sujeito notoriamente conhecido pela sua charlatanice, desprestigiado nos meios acadêmicos da área a qual se diz pertencer, precise primeiro reconhecer a autoridade do seu interlocutor para depois respondê-lo. Se Pedro pode ser reduzido a caricatura esboçada no texto, ora, o que dizer do próprio Olavo? O que deveríamos apontar como sua "maior realização"? Pergunta capciosa, não? Se fosse verdade o que ele diz de Pedro, esse imbróglio refletiria fielmente a expressão "um torto falando do aleijado". Mas o apelo à caricatura só interessa a Olavo, para quem falta competência argumentativa. (A investigação preliminar que ele faz do seu interlocutor é ameaçadora, aguardamos revelações bombásticas)

Curioso é que, a bem dizer, meu ânimo para escrever o texto ao qual ele se refere começou por um desacordo. Embora o fato de ele nunca ter ensinado numa Universidade de renome seja um bom indicador, eu disse, ele não toca o essencial: Olavo é um filósofo ruim. Em outras palavras, não era o fato de ele nunca ter ensinado numa Universidade de renome que testemunhava contra ele, é a inconsistência que o denuncia, a precariedade das suas idéias -- contaminadas por um apelo quase infantil ao insulto, ao ad hominem. Ler Olavo de Carvalho se explica pela mesma razão pela qual alguém assiste o vídeo de um acidente de trânsito, é o desejo de sangue, a mórbida vontade de saber quem será a próxima vítima. Neste episódio, eu e "Dória" cumprimos tal função. Eu, mortal, em cujo currículo não consta nenhuma realização comparável a descoberta de Bruna Surfistinha, posso, por isso mesmo, chafurdar na lama e responder à altura as sujeiras de Olavo. Coisa que dificilmente ocorrerá com qualquer pessoa ocupada. Só mesmo um irresponsável como eu para responder a Olavo de Carvalho -- e o pior de tudo, eu me divirto, para alegria e contentamento dos meus amigos irresponsáveis que riem até estourar das brigas que compro por pura farra. Pesquei um peixão, vocês não acham?

Permitam que esse humilde vassalo faça o trabalho sujo de investigar a caca do nosso senil filósofo. Vamos até as suas palavras, ele nos diz:
Bernardes extasiado, acha que isso é uma demonstração científica irrefutável, porque não consegue distinguir entre método científico e fofoca de puteiro -- Olavo continua mais adiante -- Confiante no rigor exemplar das demonstrações dorianas, seu devoto exegeta proclama a minha total ignorância do método científico. Para maior ilustração da platéia, ele expõe em seguida um dos elementos essenciais do referido método tal como ele o concebe
E então cita a passagem em que faço um comentário, por alto, sobre como a noção de comunidade científica apresenta o conceito de "convenção" como necessário à objetividade do discurso científico. Este senhor se embanana todo, dá gosto de ver. Nem a pista inicial de Wittgenstein foi suficiente para ajudá-lo. Ele confunde minha apreciação com uma análise científica, apesar do meu esforço quase maçante em enfatizar que não há erro nas observações de Olavo. Apesar mesmo de eu ter ressaltado que seus textos beiram o esquizofrênico. Embora eu tenha registrado no próprio texto o perigo de recorrer à analogia do falsificacionismo dogmático:
Tá bem, não vou trilhar o perigoso caminho do falsificacionismo dogmático, quero apenas destacar um aspecto ...
Olavo insistiu em interpretá-lo assim. Paciência!, não posso tomar nos meus ombros as deficiências alheias, vocês não concordam? A analogia veio servir ao propósito de sublinhar que cada sistema discursivo, mergulhado no interior de práticas humanas as mais diversas, dispõe uma estrutura complexa de refutação e verificação -- algo inteiramente diverso dos axiomas e das premissas elemantares da ciência, mas que partilha com ela um solo convencional comum. E é por que tudo começa numa convenção, num acordo -- não do tipo ilustrado pela simplificação olaviana (a simplificação é sempre uma das suas armas favoritas):
A comunidade científica, portanto, é algo assim como um coletivo do MST, que, em assembléia, decide quais os enunciados científicos convenientes e inconvenientes aos seu projeto de “transformação do mundo”, aprovando os primeiros e rejeitando os segundos como barbaramente anticientíficos.
--, mas naquele implícito numa forma de julgar mais ou menos comum, em crenças gerais partilhadas, em certezas que orientam e possibilitam nossas práticas mais complexas, que é possível traçar uma analogia entre os sistemas discursivos como um sistema geral e a ciência como um caso particular. E é também por isso que é possível dizer que entre diversos sistemas não há erro, mas apenas modos diferentes de lidar com o mundo. Vejam, caros leitores, que sou quase uma mãe para Olavo e com que despeito ele me trata. Fui lá no mais profundo da filosofia da ciência, mobilizei argumentos empoeirados a fim de demovê-lo da condição de mero tagarela e ainda sim ele insiste em deturpar minhas palavras. E continua:
Bernardes não cita um único exemplo de descoberta científica efetuada por esse método.
Observem, além de escorregar em frente à placa de sinalização, ele ainda erra o caminho. A filosofia da ciência não está preocupada com o método em si (que cabe a ciência formular), mas com a teoria sobre o método, com a metodologia, assim Popper abre o segundo capítulo do livro que marcou o modo como tratamos a ciência (A lógica da pesquisa científica).
De acordo com proposta por mim feita anteriormente, a Epistemologia ou lógica da pesquisa científica deve ser identificada com a teoria do método científico.
Eu não estou preocupado em propor métodos, tampouco Popper ou qualquer outro filósofo da ciência estava, mas apenas em investigar se é possível estabelecer um "critério de demarcação" através do qual possamos distinguir enunciados científicos dos não-científicos. Aliás, pedir que se enuncie "um único exemplo de descoberta científica" é já atestar em cartório a absoluta ignorância acerca dos problemas que animaram os passos iniciais da filosofia da ciência -- sobretudo a crítica a chamada Hume's Fork. Propôr que um exemplo venha emprestar legitimidade a um método é demonstrar que não se entendeu nada do que disse Hume, e ignorar completamente tudo que escreveu Popper, Lakatos ou mesmo Kuhn (ou seja, o problema relativo a impossibilidade de que a experiência, e por consequência, a observação, funde o conhecimento). Vejam, meus amigos, eu não estou tratando do texto que escrevi -- que fique claro -- apenas desfazendo os equívocos que Olavo torna manifestos em seu texto, não apenas sobre a interpretação do meu próprio, mas de suas leituras equívocas sobre a ciência.

Para quem reconhece somente a autoridade -- claro, eu não sou autoridade, apenas um devoto seguidor sem grandes realizações -- e não tem a menor capacidade de argumentar considerando exclusivamente as relações internas ao texto, eu recomendo, a título de introdução, o texto de Lakatos publicado no site da London School o Economics, Science and Pseudoscience. Lá você vai encontrar um tratamento bem mais adequado dos problemas que eu nem mesmo abordei, mas apenas insinuei contando com uma inteligência que não foi tão generosa quanto a minha oferta. Mas ainda sim, um tratamento panôramico, como convém aqueles que ainda não sabe por onde andam.

Permitam que eu ressalte, uma vez mais, que meu propósito não era analisar cientificamente os pensamentos e palavras de Olavo, mas mostrar tão somente que suas idéias se descolam por completo do modo como habitualmente acolhemos e verificamos afirmações. Que tudo que era o bastante para sanar nossas dúvidas, o "filósofo" brasileiro enxergava como mero expediente mobilizado para esconder a verdade. Vejam se não se assemelha a um fragmento de Lakatos:
Is, then, Popper's falsifiability criterion the solution to the problem of demarcating science from pseudoscience? No. For Popper's criterion ignores the remarkable tenacity of scientific theories. Scientists have thick skins. They do not abandon a theory [merely] because facts contradict it. They normally either invent some rescue hypothesis to explain what they then call a mere anomaly and if they cannot explain the anomaly, they ignore it, and direct their attention to other problems. Note that scientists talk about anomalies, [recalcitrant instances,] and not refutations. History of science, of course, is full of accounts of how crucial experiments allegedly killed theories. (...) Had Popper ever asked a Newtonian scientist under what experimental conditions he would abandon Newtonian theory, some Newtonian scientists would have been exactly as nonplussed as are some Marxists.
Qualquer semelhança é mera coincidência. Se vocês querem saber como é contornado o problema da impossibilidade da falsificabilidade se constituir como critério de demarcação, leiam Popper, ou Lakatos, no texto sugerido. Enfim, tomei a analogia para mostrar como os usuários no interior de sistemas discursivos se comportam de maneira semelhante ao entendimento do falsificacionismo dogmático, eles precisam dizer under what experimental conditions they would abandon your theory. É o bastante! Mesmo para um desocupado irresponsável e de poucas ou nenhuma realização como eu há um limite para se ocupar com figuras como Olavo.

Para terminar, um registro: ao final, depois de se sentir humilhado pela minha presença e nacionalidade, ele sai em defesa do seu amigo morto. Diz que o defundo "era reconhecido como um dos maiores poetas do mundo por Jean Starobinsky, W. H. Auden, Geoffrey Hill, Giuseppe Ungaretti e Elizabeth Bishop". Vacinado que fui contra a loucura, não tomarei parte de uma questão tão subjetiva, e nem mesmo é preciso. O que quer que tenham achados os ilustres mencionados acerca de Bruno Tolentino isso não muda o fato de ele não tem nem um décimo do prestígio, nessas terras, que gozam os objetos de suas risíveis acusações. E eu nem entrarei na briga de cumadre de indicar o reconhecimento que contam tais figuras na comunidade internacional, mesmo sem morar no estrangeiro. Mas afinal, qual é a difamação que pratiquei? O Bruno está lá, na Veja, para quem quiser e souber ler, achincalhando todas as pessoas de quem falei -- assim como o próprio Olavo o faz. Intenvei alguma mentira? Apenas expliquei seu comportamento sugerindo o ressentimento que ele compartilhava contigo, Olavo, por não ser reconhecido em sua própria terra. Ao menos ele poderia se cabar de ser reconhecido lá fora. Coisa que o pobre Olavo não pode fazer, pois vive dos adjetivos que cumpadres lançam sobre ele, quase como esmolas, desafiando todo o bom senso. (Em juízo ele nem mesmo poderia invocar seus amigos, de tão envolvidos que eles estão com a tarefa de pintar sobre a fachada da incompetência e do fracasso as cores do sucesso e da genialidade irreconhecida). Olavão parece incomodado com minha realizações: paciência mestre Olavo, paciência, a vida -- oxalá -- ainda me reserva muitos anos de produção certa e acurada. A juventude está a meu favor. Triste é vê-lo combater moinhos, berrando ensandecido contra qualquer um que lhe ofereça atenção, numa idade em que já não há muito a fazer se não se cultivou adequadamente as faculdade mentais. Na sua idade, eu garanto, terei mais o que dizer, não me limitarei ao conceito salafrário de "coletivo" que você articula como se estivesse empunhando o "cogito" cartesiano. Só mesmo a minha juventude explica que eu perca tempo respondendo suas palavras. Na sua idade, ao identificar um sujeito menor -- assim como eu -- sem grandes realizações, destinarei a ele o mesmo tratamento que dispensam a você todos os homens de grandes realizações nesse país: um silêncio abissal e uma profunda indiferença.

Peço desculpas a você Olavo pelo tom amargo e duro do texto, tentei temperá-lo com algum humor. É que já não vem de hoje esse desgosto com o modo como alguns argumentam e tratam personalidades tão importantes da nossa terra. Se você continuar comigo, logo logo farei uma leitura detida de um texto do Mainardi que é tão ruim quanto as coisas que você escreve. E não é só ruim, é sem sentido. Assim você não se sentirá tão só. Espere e verá!