20 Outubro, 2008

Segundo turno em Salvador

No segundo turno das eleições municipais de Salvador, meu voto é de Walter Pinheiro, do PT. Comentarei brevemente alguns aspectos a serem considerados, impressões que orientaram meu voto. Falarei sobre os dois candidatos, mas, acima de tudo, sobre os motivos pelos quais não voto mais em João Henrique.



João Henrique. Votei nele na eleição anterior. Durante algum tempo não tive razões para reclamar e pensei efetivamente que se tratasse de uma mudança positiva. Até que surgiram os primeiros problemas relativos ao endividamento da cidade. Pesou contra ele a incapacidade de organizar as finanças antes de partir para a realização das obras. Mas o problema foi aparentemente sanado -- mediante uma injeção de verbas federais, é o meu palpite. Depois surgiu o Salvador Card, que substitui o antigo cartão de meia passagem (Smart Card), obrigando todos os usuários a recarregá-lo num dos postos instalados na cidade. Resultado: licitação, empresa terceirizada recebendo para realizar o serviço, usuários insatisfeitos em razão da obrigatoriedade da visita aos postos de recarga. Além desse transtorno, incomoda particularmente a contratação de uma empresa para realizar o serviço. Na Bahia, a terceirização de serviços por parte de empresas estatais produz enormes embaraços, para os funcionários, claro (além do problema gerado para os usuários). Para os empresários é uma mina de ouro. Surgiram os problemas na saúde, o decreto do estado de emergência, ponto culminante da crise. Porém, o que levou o PT, e qualquer cidadão consciente, a se afastar do atual prefeito foi o caso PDDU. Um plano diretor que não é outra coisa senão um estupro a cidade. Aprovado de maneira suspeita, para dizer o mínimo, o plano é uma mãe para qualquer setor da economia interessado em ganhar dinheiro irresponsavelmente. Fere o meio ambiente, desconsidera as vias de tráfego já obsoletas por anos falta de planejamento, além de não promover a organização e a estruturação para ocupação do solo, a fim de fazer Salvador crescer de forma ordenada, sem prejuízo ambiental e social. Aliás, um plano diretor decente tem que fazer do aspecto social e ambiente o eixo de sua orientação. Qualquer pessoa minimamente sensível, nos últimos 10 meses -- ou antes mesmo da aprovação do plano -- tem notado um crescimento assustador no número de construções em areas antes impensáveis. Prédios enormes erguidos a beira mar, construções históricas sendo compradas (sendo necessária a intervenção do estado para barrar a avidez cega das construtodoras). Repito, não é exploração imobiliária, é um estupro imobiliário -- e a vítima dessa violência é uma cidade marcada por anos de vistas grossas das autoridades públicas às barbaridades que nos custaram uma organização das vias urbanas que beira o patético. Daqui a cinco anos ninguém poderá sair de casa de carro. É óbvio que o lobby dos construtores teve um forte impacto nessas decisões, e o apoio de um setor como o da construção civil é mais o que suficiente para alimentar uma campanha.

Pior de tudo é ver, agora, o candidato tentando vender a imagem de um prefeito atuante. Há pouco menos de 4 meses explodiram pequenas obras que são de bastante valor, quando não se tem mais do que isso como critério para avaliação política: "banho de asfalto", "banho de luz", algumas começaram há mais tempos, outras se inseriram nesse prazo. Apenas coincidência, claro, que tais obras estejam sendo concluídas neste exato momento. A prefeitura realizou uma enquete no intuito de saber a preferência da população para o local do antigo Clube Português. Nenhuma das opções incluia uma praça. Até porque, bem em frente está a praça da Igreja da Nossa Senhora da Luz. A consulta pública terminou e, misteriosamente, surgiu no antigo espaço do Clube Português uma praça -- em frente a outra praça. Uma praça das mais salafrarias, 50% dela é espaço verde, gramado, sem nenhum recurso adicional. É o projeto mais rápido, eu imagino.

Além disso, João Henrique tem assumido um perfil a la Anthony Garotinho. Incrementou sua religiosidade, ou melhor, fez dela a vitrine para certa camada numerosa de eleitores interessados em votar apenas em alguém que represente seu pensamento religioso.



Walter Pinheiro. Primeiro preciso dizer que a escolha de Pinheiro, para mim, foi errada. Pelegrino era mais indicado, tem maior notoriedade -- embora, obviamente, maior rejeição. Antes que João Henrique ameaçasse, estava disposto a votar em Hilton. No final, tive que votar em Pinheiro. A escolha era apenas uma questão estratégica, Walter não tem nada que o desabone. Quer dizer, falta carisma, mas como político ele é seguramente dedicado e competente. Como deputado, lutou para implantar a Universidade do Recôncavo, importante para formação de profissionais voltados para o interior. Articulou a captação de dinheiro para obras em Salvador, para a própria UFBa, junto ao NEIM, por exemplo. Faz parte da luta em favor dos projetos de Software Livre. Além de trabalhar em favor de obras para o tráfego da cidade, em parceria com o governo do estado. O PT de Salvador abandonou a prefeito por ocasião do PDDU, o que sugere uma política diferente para área e a perspectiva de que uma reforma no plano diretor aprovado acontecerá caso Pinheiro seja eleito. A aliança com o governo estadual e federal é outro aspecto importantíssimo. Por mais que o PMDB também cumpra o papel de aliado, há diferenças.

Pinheiro tem muitos méritos, mas hoje ele é acima tudo, o representante de um pensamento diferente daquele que aliciou João. A ocupação do solo é uma questão central para Salvador e não podemos correr o risco de deixar nas mãos das empreiteiras a função de organizar a geografia da nossa cidade. Faço questão que vocês assistam o vídeo da aprovação do PDDU na Câmara de Salvador, assistam e tirem suas próprias conclusões.

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Em São Paulo, como não poderia deixar de ser, eu apoio Marta. Há uma campanha em favor dela centralizada no blog Blogueiros com Marta. Visitem-no! Precisamos contrabalançar as forças  gigantescas mobilizadas em favor de Kassab.

Atualização: Leiam a boa entrevista de João Henrique ao jornal A Tarde, no começo do ano. Dá pra ter uma idéia de como um Oceanário se transformou numa praça em frente a outra praça e outros problemas da sua administração.

19 Outubro, 2008

Chico e Francisco [2]

Assim que a Veja publicou a denúncia do suposto grampo envolvendo o ministro Gilmar Mendes, ele não tardou a decretar uma "crise institucional". Belíssimas demonstrações de espírito cívico pulularam de todas as partes, sem maiores preocupações em apurar a veracidade das afirmações. Pra quê? A mera possibilidade já é o suficiente para montar um circo, certo? Eu, como já confessei, mal tenho lido os jornais, no entanto, colhi algumas notícias interessantes. Vocês devem estar mais informados do que eu, em todo caso fica o registro das notícias que anotei:

Inquérito deverá inocentar ABIN e PF
[...] o relatório colocará em dúvida a própria realização do grampo, dada a divulgação apenas da transcrição da conversa, sem o áudio.
General Felix diz que sabia que Abin não podia grampear telefones
O chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Armando Felix, disse hoje (14) que não ficou surpreso com o resultado de laudo da Polícia Federal, que concluiu pela impossibilidade de os equipamentos usados pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) serem usados para grampear telefones.
Diante dessa nova configuração, não vi nenhum das vestais da ética e do bom uso da máquina pública descer de seus templos para defender a justiça claramente afrontada em seus princípios mais rudimentares. Duvido muito que Alexandre Garcia, Arnaldo Jabor, e tanto outros veementes defensores de tudo que é bom e certo, tenham se manifestado em defesa daqueles que foram injustamente apontados e sentenciados antes que se tivesse cumprido os ritos preliminares sem os quais não se pode realizar um julgamento justo. Por acaso a injustiça parece menos ameaçadora à democracia? Às Instituições Públicas cabe menos respeito do que aos membros que as constituem? A condição de servidor público é temporária, enquanto as Instituições têm, às vezes, décadas de tradição. Uma afronta dessa natureza deveria ser ainda mais constrangedora. Momento direita: mas nesse país de amadores, da personalidades, não de Instituições, um ministro bem articulado é mais importante que uma tradição inteira de serviços prestados aos interesses nacionais. De sorte que ninguém hesita em dispensar, quando buscam alvejá-las, os princípios que concedem ao mais ignóbil criminoso. Por isso há um agravante. Abster-se de opiniões e sentenças públicas (num julgamento informal) é mais do que um dever moral, ou manifestação de prudência indispensável aos agentes do Estado, é antes uma exigência da lei. Autoridades envolvidas na prática judiciária deveriam saber, melhor do que nós mesmos, que é preciso constituir prova antes que a mera possibilidade de julgamento seja considerada. Contra a ABIN e Polícia Federal, isso não se cumpriu. As atitudes e declarações assumiram como ponto pacífico as ilações que a Veja apresentou, sem qualquer evidência (perdoem a redundância de juntar, numa mesma construção, as expressões e "Veja" e "sem evidências"). Se não bastasse a exigência processual para que a precaução se mostrasse indispensável, seria mais do que suficiente levar em conta a mensageira da denúncia. Neste caso, o impulso de se manifestar, por maior que fosse a indigação, teria sido interditado pelo bom senso.

O mais curioso disso tudo -- para atalhar a ladainha que fiz menção a despejar -- é a reação do nosso ministro, motivo original desse meu comentário (por incrível que pareça). Gilmar Mendes abraçou ao peito a denúncia da Veja, sem cerimônia. Não considerou sequer a possibilidade de que a Veja não tivesse como provar suas alegações ou estivesse apenas ventilando informações cujos efeitos de algum modo lhe favoreciam. Não, isso a Veja não faria. Descartou a chance da revista ter agido, no exercício de sua tão cara liberdade, irresponsavelmente. No entanto, assim que a Carta Capital publicou uma matéria considerando o "conflito ético" manifesto no fato de o ministro ser sócio de um instituto que mantém contratos com o Governo Federal, ele prontamente disparou as seguintes declarações:
Trata-se de um fenômeno de pistolagem jornalística. Desde que houve o afastamento do diretor da Abin [Agência Brasileira de Inteligência], a Carta Capital vem fazendo sistemáticas críticas a mim, já fez duas capas comigo. Tudo indica que ela perdeu capital com isso [...] Os senhores sabem: o Estado de Direito é na verdade um estado de liberdade, mas é um estado de responsabilidade também.
Ou seja, em duas ou três linhas, Gilmar Mendes sugeriu que a Carta Capital praticou aquilo que Nassif, em seu embate contra a Veja, chama de assassinato de reputação. Se ele chegou a esse raciocínio, bem, podemos considerá-lo apto a extrair a mesma conclusão no caso das relações entre Veja e Daniel Dantas, não? Mas o que importa é que todo caso gira em torno de dois padrões de julgamento bem diferenciados. Aqui, pau que dá em Chico, não dá em Francisco. Aos olhos do ministro, a responsabilidade no uso dos direitos estabelecidos só deve ser exigida daqueles que afrontam seus interesses. O que me faz lembrar duas frases:
Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a Lei.
(Frase controversa, cuja autoria já foi atribuída a Getúlio, Benedito Valares e Pinheiro Machado)
Além dessa, de que me sirvo constantemente:
Todos defendemos o Estado de Direito desde que não nos bata à porta.
(Antônio Cluny)
Uma certa margem de relatividade é aceitável, mas não quando tratamos de princípios constitucionais. De precauções e medidas que garantem a produção de sentenças e pareceres justos. No Brasil parece vigorar um problema que poucos se arriscaram a enunciam. Uma inaceitável relativização dos padrões de julgamentos. Em outras palavras, a prática costumeira que se expressa na frase "dois pesos, duas medidas". Isso está bastante claro, por exemplo, no levantamento que Idelber fez sobre o tratamento que a imprensa paulista dispensou às recentes declarações veiculadas na campanha de Marta Suplicy. Tudo bem, a luta contra a ingerência dos interesses particulares de grupos representados pela imprensa nós já assimilamos em nosso quadro de combates, mas parece um profundo retrocesso permitir que o mesmo se realize no interior das nossas instituições. Precisamos estar atentos a estes abusos e considerar, acima de tudo, que nenhuma análise política -- ou de qualquer outra natureza -- pode ser plenamente legítima se desconsiderar os contextos nos quais ela se situa. Nesse caso em particular, as aplicações diferentes, em contextos semelhantes, nos levam a suspeitar do comportamento de um agente público. E se fôssemos tão descuidados quanto ele foi nos dois episódios, poderíamos afirmar que tudo indica que ele perdeu "algo" com "isso" -- e aqui deixo a cargo de vocês, substituir a palavras destacadas.

Por fim, para tranquilizá-los -- pois sei que vocês estão ansiosos -- eu lhes asseguro que não há nenhuma crise institucional. Apenas aquela, financeira, que se dissolverá espontaneamente de acordo com a alardeada capacidade de autoregulação do mercado, como é de conhecimento de todos.

PS. Favor informar qualquer erro gramatical ou de grafia. O vinho, ao final do texto, tornou impossível o trabalho da minha já incompetente revisão.

Atualização: Notícia sobre nosso querido ministro. Vocês já devem estar cientes dela, mas ao lado das outras notícias, ela se torna peça chave para esclarecer o papel do ministro. Leiam: Dantas pediu para Mendes julgar processo em 2005.

11 Outubro, 2008

Gênio domado



Técnico, pra mim, era Telê (e alguns antes dele). O resto é um corja de retranqueiros. Alguns bons, outros maus, mas todos retranqueiros. Incluído aí o Paulo César de Oliveira, do futsal.

Vou colocar as coisas de forma bem direta e vocês, se discordarem, por favor apresentem os argumentos. Se um técnico não consegue encaixar Falcão em um time, fazê-lo jogar no grupo, integrá-lo -- que se troque o técnico! Simplesmente. E assim até que encontremos algum infeliz que possa realizar essa façanha. O que me parece inaceitável é pensar que é possível justificar a ausência de Falcão da quadra por um minuto sequer -- salvo cansaço, claro. Em qualquer outra circunstância o Brasil é prejudicado. Falcão é um gênio, é o jogador mais habilidoso que eu vi jogar (e não há Ronaldinho Gaúcho, nem Robinho que chegue nem ao calcanhar dele). Pena que tenha investido na possibilidade de uma carreira no futebol através das mãos de Leão -- um dos técnicos mais nojentos e problemáticos do futebol brasileiro.

Falcão é o Pelé do esporte mais praticado no país. Quando ele entra em quadro, pega na bola, a torcida vibra pela mera possibilidade de uma jogada. É ridículo que a torcida e o time sejam prejudicados para que o técnico afirme a tese mais manjada do futebol: que o resultado é mais importante. Sabemos disso muito bem, desde 94. Quando ninguém mais souber quem é PC de Oliveira, muitos ainda lembrarão saudosos dos lances de Falcão, vamos colocar as coisas em sua devida ordem. Alguns alegam que é opção tática a ausência constante de Falcão -- sim, é uma opção tática errada! Outros apontam para momentos de pouca criatividade ou a fragilidade a que se expõe um time ofensivo e dizem: vejam, é isso que dá. Mas ora, um jogo tem que admitir a possibilidade de derrota, uma formação defensiva não garante a vitória. Se marcadores estão credenciados para marcar melhor, os finalizadores são mais aptos para concluir jogadas. Escolher uma das duas formações é uma opção tática moldada a partir dos elementos que compõem a equipe. Vocês não acham que, sabendo o perfil de PC, os jogadores quando entram em quadra numa formação ofensiva não se sentem intimidados? Claro que se sentem! Eles sabem que a má atuação ou uma atuação medíocre é necessária para justificar um arranjo defensivo. Tudo que quer um técnico retranqueiro é ter ocasião para justificar suas escolhas táticas. Como se a escolha tática não fosse uma forma de atuar, mas sim uma consequência de uma certa configurações do jogo, causalmente determinada.

Eu me sinto roubado toda vez que assisto uma partida do Brasil e não posso ver Falcão jogar. E imagino que grande parte da torcida brasileira também. Aqui um bom argumento em favor da minha posição.

Atualização: Brasil vai pegar Venezuela com três volantes. Olha lá, não disse! Patético.

10 Outubro, 2008

Entre o gênio e bom trabalhador

Durante toda a minha vida acreditei no trabalho. Por isso, quando quis escrever -- e escrever bem, como os bons escritores -- cuidei de observar atentamente o modo como os mestres organizaram seus trabalhos. A maneira como encadeavam os períodos, a medida exata de cada recurso, o tom, se podemos falar assim, do discurso -- tudo isso a fim de criar uma regra geral que pudesse me instruir no processo de criação. Rabisquei contos, poemas, esbocei ensaios. Nada me agradava. Era notório que minha autocrítica havia avançado mais do que meus dotes para a escrita.

Acima de tudo isso rejeitei a idéia do gênio. Ela sempre me pareceu um recurso dos preguiçosos, interessados em justificar a indolência. A condição do gênio impõe aos demais o dever injusto de superar pelo trabalho o que o berço lhe consagrou. Não há ocasião mais propícia para o exercício da preguiça e do conformismo, estes caros amigos da humanidade. Rejeitei violentamente o gênio e me empenhei ainda mais na inglória tarefa que me fora reservada pelas minhas limitações.

E eis que surge Cortázar e escreve um conto sobre a batalha de um homem para vestir seu pulôver (e então meus sonhos se despedaçam e eu fico como um velho cientista subitamente abduzido por alienígenas depois de dedicar a vida a compilar informações a fim de desacreditar a possibilidade de vida em outros planetas). Duas coisas parecem subitamente atingidas: minha pretensão de construir qualquer fórmula geral e minha negativa veemente da possibilidade do gênio. Sempre que eu estava as voltas com a elaboração de um conto, por exemplo, nunca me ocorreu senão pensar em temas grandiosos ou em aspectos sútis que, mesmo que de pretenso menor valor, envolvia a sutileza do olhar que devolvia ao tema a grandiosidade aparentemente perdida. Daí vem Cortázar e escreve como se escrever fosse possuir uma função literária insaturada de domínio ilimitado, que poderia ser preenchida com o que quer que fosse -- aventuras envolvidas no simples gesto de vestir uma roupa, epopéias de uma caminhada até a padaria --, e o resultado era sempre uma narrativa fantástica e singular. O ofício de criar minha humilde fórmula corresponde ao caminho inverso: o trabalho penoso e errante de amealhar temas esparsos, diluídos num planeta enorme. Difícil não pensar, diante de No se culpe a nadie, que não há um gênio dominando uma arte para a qual nasceu. Não é que eu tenha desistido de trabalhar, nem que eu justifique minha incompetência na natureza do gênio, -- ou talvez seja isso, não sei! -- mas também pode ser tributo prestado a essas pessoas geniais imaginar que nenhum olhar humano, que nada que não esteja contaminado com alguma essência divina, pode mirar as coisas com tamanha sensibilidade -- de modo a poder transformar em fantástico, o trivial. A simplicidade na organização das idéias, a espontaneidade no desenvolvimento de pensamentos originais, tais aspectos não se assemelham ao resultado da operação de um artífice experiente, mas ao trabalho de um... gênio. Não há mediação, não envolve esforço! Não é possível!

Adoro essas possibilidades mágicas que a literatura nos garante. Cortázar propícia muitos momentos semelhantes. Em todo caso, o dilema permanece ainda mais vivo. Enfim, meu texto quer menos resolver a questão do que sugerir a leitura do conto, e pedir que prestem atenção no modo como é construído. Tem-se a impressão de que ele poderia narrar com o mesmo brilho qualquer outra ocasião trivial do cotidiano. Como se o conteúdo, em si, fosse meramente fortuito, algo dispensável, e estivéssemos diante do exercício de literatura pura, que apenas por acaso assume a forma de um instante qualquer.

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Nos últimos dias, além dos estudos que me sobrecarregam, meu computador permaneceu quebrado. As coisas andam tão pesadas que há 3 semanas não abro meu leitor de feeds. Tenho mais de 3 mil itens não lidos. Queria ter comentado sobre as eleições de Salvador no primeiro turno. Não pude. Espero ter tempo para fazê-lo no segundo. Enquanto isso, não desistam de mim. Aliás, curioso que, nesse período de inatividade, o número de leitores tenha aumentado.