14 dezembro, 2008

Abelardo e Heloísa - Parte III

Nada seria capaz de apagar o amor desperto por Abelardo no coração de Heloísa. Não lhe custa muito, portanto, dizer, contra toda a moral, que preferiria mil vezes ser a prostituta de Abelardo a ser sua esposa ou ser a esposa de Augusto e ter o seu nome doravante associado ao imperador do mundo. Contra toda a moral cristã e evocando o próprio Deus como testemunha (“Deus o sabe”). Que perdesse a sua alma, o que importava a Heloísa era evitar que Abelardo fosse privado de sua glória ou, quando menos, que ela seja a causa da privação. Já que Abelardo não era capaz de se sujeitar à castidade como os santos que, pelo menos, pudesse ser livre das amarras do casamento como os filósfos pagãos. Se em nome de sua glória, Abelardo aceitava basear a sua vida em uma mentira, mantendo secreto o seu casamento com Heloísa, ela, em nome de seu amor, recusava o casamento para salvar a pouca reputação que ainda lhe restava. Heloísa oferecia em troca a fornicação que tanto aprazia a Abelardo, mas ele esperava do casamento secreto justamente a garantia de satisfação de sua paixão. Por essa perspectiva, o projeto de casamento de Abelardo que, aparentemente, seria uma prova de seu amor passa a ser visto como contra-prova disso. Talvez, essa perspectiva se justifique pelo fato de, depois de emasculado, Abelardo declarar ter sido penalizado na causa de seu pecado, para o qual não há penitência mais justa do que perder a sua glória.

Mais do isso, mesmo a vida espiritual que almejava parecia vincular-se menos à grandeza de Deus do que à sua própria. Assim, todo o seu lamento por ter sido desclassificado espiritualmente se deve mais ao fato de ter perdido a sua glória do que por ter ferido a glória de Deus. Também Heloísa se mostra pouco dedicada em atingir a verdadeira grandeza espiritual, pois tudo o que importa é que a mentira substista ao tempo. Para que continuem a acreditar que Abelardo ainda é comparável a um Sêneca ou a um São Jerônimo, ele deve dissimular o casamento; para que ele possa voltar a sê-lo, Heloísa lhe oferece a satisfação de suas paixões fora do casamento. Sob esse aspecto, a expressão de E. Gilson beira ao gênio: “o trágico da cena está na perfeita sinceridade com a qual ambos representam a comédia da santidade” (Heloísa e Abelardo, p. 84). E Heloísa o confirma: “eles dizem que eu sou casta, porque não descobriram como sou hipócrita”.
Dona de si e serva de quem ama, Heloísa passa a referir-se a Abelardo, depois da mutilação, como pai, senhor, irmão, chegando à expressão “a Deus, como religiosa, a ti, como mulher”. Todavia, vale ressaltar que a maneira de ela referir-se a Abelardo se modifica radicalmente depois de ele ter pagado o alto preço por tê-la seduzido debaixo do teto de Fulberto por conta de seu ingresso na vida monástica. Heloísa bem o sabe que a dor da separação será proporcional à intensidade de seu amor: “Só nos resta, portanto, perder-nos um e outro e sofrer tanto quando amamos”. Abelardo, por seu lado, não parece saber menos do que ela: “A separação dos corpos tornava ainda mais estreita a união das almas”. Era assim a ausência do corpo que reascendia o amor. Não é de nos espantar o desepespero de Abelardo diante da possibilidade de perdê-la. Por isso, talvez, ela inocentemente cede à condição paradoxal que o seu enlace amoroso criou. Ele nem suportava a distância de Heloísa nem poderia asumi-la por ser então chefe das escolas de Paris. É desse paradoxo vivido a duras penas que brota a argumentação de Heloísa contra o seu projeto de tomá-la em casamento, muito embora o seu amor não admita separação alguma dele. Se for mesmo assim, por que então ela aceitou casar-se quando sabia que isto era tudo o que ela, em nome de seu amor, deveria ter evitado? É o próprio Abelardo que responde a essa questão. E a resposta é simples. Aceitou casar-se por obediência a Abelardo. Diz ele, Heloísa tinha pavor à idéia de me contrariar. É assim que ela veste o hábito sagrado de esposa de Cristo, quando o seu destino a marcara como mulher de Abelardo, e vive por quarenta anos submetida à rotina massacrante do monastérgio. Porém, jamais deixou de bradar que assim o fizera não por amor a Deus, mas por amor a Abelardo. E ele não medirá esforços para fazê-la aceitar a sua condição de esposa de Cristo, inclusive apresentando as vantagens. Se antes tivera sido esposa de um pobre homem, agora se tornara a esposa do Senhor do Mundo. No entanto, essa idéia deve repugnar a Heloísa tal como ela despreza o reino inteiro de Augusto.

Heloísa, sem se despir do hábito sagrado, veste o traje de concubina de Abelardo. Porém, ele não narra a história com as mesmas cores que ela. Aos olhos da futura abadessa do Paracleto, ela continuaria a ser a prostituta de Abelardo. Aos olhos de seu amante e agora seu pai espiritual, ela era a esposa de Cristo. Obediente a Abelardo, Heloísa não recusa a glória de tal título, mas ressalta: esposa de Cristo em espécie, como indivíduo, sua mulher. Prova disso é que em Historia Calamitatum Abelardo formula a sua relação com Heloísa de um outro modo: seria para mim mais honroso, diz Abelardo, e para ela mais agradável, que ela fosse minha amiga, antes do que minha esposa. Nos manteríamos unidos apenas pelo amor e não por qualquer vínculo nupcial. Abelardo não falta com a sinceridade ao formular as coisas assim, mesmo porque não diz em momento algum que deixará de amar Heloísa. A natureza de seu amor é que era preciso mudar. Por isso trata de corrigir os sentimentos de Heloísa. Ela se diz ainda perdidamente apaixonada por ele, ela lhe diz que reze apaixonadamente por Cristo; ela reclama seus direitos de esposa junto a ela, ele lhe roga que use os seus direitos de esposa junto a Deus. Com isso o que pretende Abelardo é a completa transfiguração de seu amor. Nesse sentido, passa a chamá-la de minha Senhora, minha dileta irmã em Cristo. Tanto Abelardo não nega o seu amor que não a renega como sua mulher, apenas diz não ver honra alguma em uma esposa de Cristo ser referida como sua mulher.

Resoluta, Heloísa não se cansa de repetir que não renunciara o mundo por Deus nem para expiar os seu crimes contra a moral, mas por Abelardo, para expiar o único pecado da qual se via maculada. A sua confisão religiosa, tal como ela própria a compreende, não passa de um modo de expiar o pecado que ela cometeu ao desposar Abelardo, fazendo ruir a sua glória. Afinal de contas, quanto mais dominados estavam os amantes pela paixão, dirá Abelardo, menos ele poderia se dedicar à filosofia e às suas aulas. Já se tornara um tormento ministrar aulas depois de noites insones, como se afigurava doloroso passar a noite à espera do prazer, desejando o estudo para o dia. Nesse ponto, novamente, tanto Abelardo e Heloísa estão de acordo quanto não faltam com a verdade. Nesse tempo em que os prazeres do belo sexo suplantaram a filosofia, tornando suas aulas uma rotina dolorosa e insipiente, tudo o que Abelardo produziu foi poesia. Não abandona as letras que, por primeiro, os aproximou, mas já não dispõe de forças para se dedicar a questões mais fundas, de tal sorte que havia se tornado um “mero repetidor de seu próprio pensamento”.

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