11 dezembro, 2008

Abelardo e Heloísa - Parte I

Muitos são contados dentre os que duvidam da autenticidade do registro epistolar de Heloísa e Abelardo, mas talvez ninguém suspeite da beleza do romance que nele se materializa. Por isso E. Gilson, o nosso melhor exemplo dessa convicção, pode tomar por princípio o que diz ter ouvido de um monge beneditino na Bibliothèque Nationale: é impossível que algo tão belo assim não seja verdadeiro. Com isso, Gilson pretende fazer ver a irrelevância da discussão em torno da autenticidade da correspondência não meramente, como querem alguns, mostrando que a questão seria, em vez disso, relativa à disputa de duas perspectivas exegéticas opostas. Uma laica, burguesa, estética e erótica; outra eclesiástica, monástica, moral e ascética. Mais do que isso, Gilson prefere sondar o pano de fundo ideológico que perfaria a relação entre Abelardo e Heloísa, a partir do qual é possível compreender o século XII. Ou melhor, a ele interessa antes de tudo a relação entre Heloísa e Abelardo.

Inteiramente narrada nas poucas páginas de Historia Calamitatum, a biografia de Abelardo seria imprescindível a essa empreitada, mesmo porque a narrativa de sua vida se confunde com a história de seu amor por Heloísa. Vida e amor se confundem, ao menos nesse caso, no sentido de que a condição existencial não pode se desapegar do enlace amoroso que parece reinventá-la a cada novo episódio. Tudo se passa como se fosse possível reconhecer em cada evento em separado o destino que deveria antes ser a soma dos eventos todos. E não é apenas por terem sido arrastados por uma violenta paixão ou por terem se entregado completamente ao amor, mas sim por Heloísa resignar-se a ser – a fazer de si – a personagem grandiosa de uma bela história, cuja beleza tem como causa muito mais ela do que o próprio Abelardo. Mais do que isso, ela se compreende dessa maneira. E se tão belo assim, é que, nesse caso a relação amorosa reúne desde os artifícios do mais frio cálculo a serviço de uma volúpia sedenta por satisfazer-se até a rendição completa de quem não hesita em se entregar. De um lado, ele, obstinado a alcançar o destino que a sua inteligência lhe conferiu. Porém, quanto mais entregue às volúpias mais distante se via em relação aos filósofos e teólogos que havia combatido com sua dialética ou tomado como ideal; se deles se aproximava pela glória conquistada, se apartava pela imundice da vida à qual a paixão o tinha arrastado. De outro, ela, que jamais hesitara em se oferecer a Abelardo, mas não que visse nisso qualquer vantagem além do próprio amor. Por isso disposta a fazer-se amante dele, mais que isso, concubina e prostituta (meretrix). Enquanto ele não mede esforços para não ser destronado de sua glória pela imoralidade que cerca a sua paixão, ela aceita descer a condição de prostituta, depois de ter sido esposa, para lhe devolver a glória, o destino dele.

Livre para amá-lo, não são por certo os crimes cometidos contra a moral que Heloísa deve expiar, mas sim o único crime do qual ela é inocente segundo a lógica de seu próprio amor. O crime de ter arruinado a vida de Abelardo com um casamento que ele próprio fizera questão que acontecesse contra a clara recusa dela. Talvez seja a consciência em relação às eventuais conseqüências de seu amor ou ao modo de deixá-lo encarnar-se em sua vida que singulariza Heloísa. E ela não poupará esforços para dissuadir Abelardo da idéia de um enlace matrimonial, chegando mesmo ao ponto de desenhar uma cena na qual ele se veria rodeado por crianças, daquelas que recorrem ao barulho para que lhes sejam concedidos os mimos do pai, enquanto pensa questões filosóficas as mais fundas. Quem que dedicado às meditações sagradas ou filosóficas poderia suportar a litania das crianças? Que relação poderia haver entre escrivaninhas e berços, o silêncio dos estudos e o barulho das criadas, a mesma que a existente entre os livros e as pedras? Não se trata apenas de recusar o casamento em nome do quanto este afundaria a glória de Abelardo. Todas essas indagações formuladas por Heloísa são alimentadas pela convicção de que Abelardo a desposaria por mera sensualidade e apresentam razões que o fariam concluir que todas as vantagens se encontravam do lado da fornicação, não do casamento. E mais, todas elas afirmam, a um só golpe, as suas intenções. Por ele, ela estaria disposta a fazer tudo de si: “se nos separarmos por um tempo, as alegrias que experimentaremos ao nos reencontrarmos serão ainda mais agradáveis quando mais raras forem.” (Historia Calamitatum, cap. VII). Mas então por que Heloísa, tendo apelado a tais argumentos, a fim de salvá-lo da infâmia de uma tal união, por fim cede? Devemos, antes de tudo, nos perguntar pela razão principal que a faz, por um lado, declinar do matrimônio e confessar-se perdida de amores por outro lado.

A paixão de Abelardo se situa nas antípodas do amor de Heloísa por não se submeter tão vigorosamente a um ideal de amor no qual ele mesmo tratou de iniciá-la. Porém, a consciência a respeito das intenções de Abelardo não nos podem ajudar a entender o porquê, afinal, ela considera o seu matrimônio secreto como a sua queda mais grave. Tanto que pouco importa o quanto a sua relação com Abelardo se traduza em completa subversão moral. Tudo então deve ser lido do ponto de vista do ideal de amor que, ao afastar qualquer incerteza sobre a natureza verdadeira de suas intenções, Heloísa arroga para si. Tal ideal de amor é aquele mesmo festejado por Abelardo em Historia Calamitatum. Aos olhos de Heloísa, a dignidade de Abelardo depende do quanto a natureza da relação dos dois se subordina ao ideal de amor que ela assumiu para si. Os dois amantes, assim, partilham, mais do que uma queda comum, um ideal de filósofo. A queda que os faz “rolar nessa lama” de volúpias e consagrar seus corpos a torpezas as mais vis tira de Abelardo a sua dignidade, pois o que constitui a maestria de um filósofo é menos a sua sabedoria do que a pureza de sua vida. E Abelardo não deixa de mobilizar o exemplo de pagãos de vida exemplar, fazendo convergir a ética de um Sêneca com os arroubos morais de São Paulo. A pudícicia com que viviam certos pagãos deveria envergonhar muitos dos cristãos. Por demais teórico, o ideal de amor elaborado por Abelardo sob a inspiração de São Jerônimo estabelece uma tensão bem resolvida somente pelo modo como Heloísa é capaz de lhe conferir carnes e sangue. A dificuldade então é a de articular o que deve ser com o que é.

E Heloísa não poupará os recursos de uma lógica inflexível que aprendeu com o próprio Abelardo para convencê-lo do quão desastroso seria um casamento inclusive para o amor dos amantes. O ponto axial de seu discurso consiste em mobilizar contra Abelardo argumentos dele próprio contra o matrimônio. Em Historia Calamitatum, Abelardo não economiza a força de sua retórica para mostrar o quanto a idéia de um casamento deveria repugnar o verdadeiro filósofo. O sábio deve se proibir toda espécie de prazeres, para se deleitar com os prazeres da filosofia; o clérigo deve abjurar os prazeres mundanos em nome de Deus. Não é possível a Abelardo dissociar a grandeza filosófica da continência dos costumes, por isso lhe é tão fácil associar Sêneca ou Teofrasto aos Pais da Igreja. Aliás, a associação não é ele quem o faz, mas São Jerônimo, embora ele não se poupe do trabalho de fazer por si próprio suas ilações. E, nesse sentido, o que lhe interessa na argumentação de São Jerônimo – claramente de base paulina – é o quanto por meio dela se pode sublinhar como a continência moral de pagãos poderia figurar exemplar para cristãos. Mas não se trata de repugnar unicamente o matrimônio como oposto à dedicação filosófica, mas sim tudo o que caia na categoria de ninharias mundanas. É assim que a busca por riquezas é posta ao lado do vinculo com uma mulher. Quer dizer, se queres filosofar, então permanece livre de tudo o que não seja filosofia, dirá o Sêneca lido por Abelardo e por São Jerônimo; se queres votar tua vida a Cristo, dirá o São Paulo lido tanto por Abelardo e por São Jerônimo quanto por qualquer um, então permanece livre de tudo que possa interromper a tua oração. Heloísa, mulher incomum, tomou para si os argumentos de São Jerônimo, o que nos faz crer na fidelidade da narrativa de Abelardo a respeito da oposição dela ao seu projeto de casamento. Porém, a razão principal dela não nos parece ser nem um tanto teórica.

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