08 agosto, 2008

O riso totalitário


A Melancolia de Durër

Encontrei o blog de Antônio Cícero, o que não pode deixar de ser algo interessante. Ele compila por lá escritos seus e de outros autores. Já no começo achei o texto de Inês Pedrosa, O império do anticonvencional -- muito interessante! Ele me recordou uma nota mental: não é de hoje eu que sou da opinião de que o riso, a alegria, a felicidade, enfim, todos os sentimentos positivos ganharam o estatuto de títulos. Documentam quase sempre o desejo de externar uma incapacidade para o sofrimento, a tristeza, o mau humor. Há alguma coisa intrigante nesse desejo: ele parece ignorar que o sentido desses sentimentos se constitui pela diferença -- como Goethe nos lembra: Alles in der Welt lässt sich ertragen, Nur nicht eine Reihe von schönen Tagen [Tudo no mundo admite-se, menos uma sucessão de dias bonitos]. Freud também já havia destacado o papel econômico dos obstáculos na vida mental (e eu jurava ter publicado por aqui a frase de Goethe e a nota de Freud):
É fácil mostrar que o valor que a mente atribui às necessidades eróticas se afunda instantaneamente logo que a satisfação se torna facilmente obtenível. Algum obstáculo é necessário para impelir a maré da libido ao seu máximo.
É uma nota brilhante de alguém cuja sensibilidade para operação da psique não se iguala. Esse império do riso, ou de uma modalidade de humor, é algo que desafia o próprio funcionamento da mente. Essa incapacidade para a tristeza, para o sofrimento, é uma espécie de atestado de indiferença -- que jamais pode abranger a totalidade simbólica da vida. Além de ser uma contraposição estética de uma corrente que, desde os gregos, entende os pontos sombrios da alma como indicadores de gênio e capacidade artística (como lembra Kristeva, a bílis negra -- melaina kole --, que determina os grandes homens, conforme texto atribuído a Aristóteles). Não é preciso ir longe, Vinicius fazia notar, em Samba da benção, o papel que cumpre a tristeza da verve artística. E quantos grandes homens não tiveram a alma pertubada pela aflição? Isso não é um panfleto em favor da obscuridade, mas o reconhecimento de que a vida se articula nesse ciclo incessante entre a alegria e o sofrimento. Diante disso, a estagnação que marca os impérios de humor só pode ser um inegável sintoma neurótico. Traduzido em experiências de grupo, deu origem a esses ritos sociais que exigem o estado de pleno contentamento -- inacessível a dor. Para mim, em suma, esse é mais um símbolo do esforço fracassado do homem para conjurar da sua vida a contingência e para exaltar a segurança. Não há nada mais seguro do que o ritmo monocórdico, regular. Ou talvez exista outra explicação:
Subentende-se que o riso é, por si só, uma forma sofisticada de inteligência - e toda a gente se ri de tudo, o tempo inteiro.
Mas isso aqui é só uma anotação vaga e incindental, inspirada pelo texto.

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