05 agosto, 2008

O desafio de libertar homens livres

Marcuse opera uma distinção valiosa entre repressão e mais-repressão. Ele admite que uma cota de repressão seja necessária para coordenar as finalidades algo dispersas do instinto (Trieb) aos propósitos da cultura (Kultur). O desvio promovido pela mais-repressão introduz-se exatamente nesse espaço e se contamina com a legitimidade destinada à repressão. A mais-repressão, a repressão orientada pelo interesse exclusivo de manter um sistema produtivo que não responde aos interesses elementares dos homens -- mas apenas à cega necessidade sistêmica de manter-se funcionando --, resiste e cultiva os obstáculos que impedem a realização das potencialidades humanas como única estratégia para manter, ou mesmo acelerar, o ritmo de produção de uma sociedade cujo patrimônio já atingiu com sobras o grau de suficiência para promover mudanças significativas na ordem social.

A abstrusa fronteira entre a repressão e a mais-repressão garante a legitimidade da segunda, endossa a satisfação das suas necessidades, fazendo parecer que elas realizam, não necessidades escrupulosamente fabricadas para manter o próprio sistema, mas necessidades propriamente humanas. E assim surge essa liberdade aparente que não contempla a autonomia. Por essa estratégia cai por terra também toda recusa e toda rebelião que se erguem em busca da liberdade. Libertar-se de uma sociedade livre é buscar a barbárie e a dispersão pré-civilizatórios.
Mais uma vez, devemos aqui recordar a distinção entre repressão e mais-repressão. Se uma criança sente a “necessidade” de atravessar a rua em qualquer momento que lhe apeteça, a repressão dessa “necessidade” não é repressiva das potencialidades humanas. Pode ser o oposto. A necessidade de “relaxamento” nos entretenimentos fornecidos pela indústria da cultura é em si mesma repressiva, e a sua repressão significa um passo para a liberdade. Sempre que a repressão se tornou tão efetiva que, para o reprimido, assume a forma (ilusória) de liberdade, a abolição de tal liberdade prontamente se manifesta como um ato totalitário.
Os embaraços são evidentes e documentam o porquê as propostas de Marcuse ganham uma conotação pejorativa ao serem designadas como utópicas:
Contudo, a questão permanece: como pode a civilização gerar livremente a liberdade, quando a não-liberdade se tornou parte integrante da engrenagem mental? E, se assim não fôr, quem está autorizado a estabelecer e impor os padrões objetivos?
É preciso lembrar que Marcuse mobiliza, para fundamentar suas propostas, um projeto de extração psicanalítica -- e é bastante feliz nessa realização.

Fragmentos de Eros e civilização.

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